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Brexit ou não...

Londres e Bruxelas: uma relação complicada

            Victor Ângelo

 

 

 

            Indo direito ao assunto, a proposta que Donald Tusk, o Presidente do Conselho Europeu, acaba de pôr em cima da mesa, sobre a permanência ou não do Reino Unido na UE, é habilidosa mas não resolve a questão. Na realidade, deu mais vapor aos que se opõem a David Cameron e à continuação do país no projeto europeu. A ambiguidade do texto foi por eles apresentada como sendo poeira para os olhos dos incautos. A imprensa britânica, a começar pelos tabloides, que têm a escola toda em termos de saber influenciar a opinião pública, choveu no molhado e acolheu com sarcasmo as concessões de Tusk. Diz que não correspondem às ambições que Cameron havia suscitado, e que fazem pensar nos pretensos coletes salva-vidas que os traficantes turcos vendem aos migrantes antes da travessia do Mediterrâneo. A troça, quando utilizada como arma política, tem um efeito demolidor.

            Creio que entrámos numa trajetória que vai levar a um resultado contra a Europa e ao chamado Brexit, à saída do Reino Unido da UE. Uma boa parte da intelectualidade, bem como dos representantes dos sectores mais prósperos da sociedade e mais modernos da economia britânica, fará campanha contra o Brexit. Mas ali, como em muitos outros sítios, a tendência é para um divórcio cada vez mais acentuado entre a opinião das elites e a das massas populares. As pessoas acreditam cada vez menos nas elites. E serão numerosas as que irão votar com base nas ideias feitas, nos exemplos anedóticos e nos receios, que no caso britânico têm que ver com um certo preconceito de superioridade nacional, a insularidade e o espectro de imigrações em massa.

            A verdade é que Tusk não podia ir mais longe. Para alguns chefes de estado e de governo, até pode parecer que foi longe demais. Essa é igualmente a minha opinião. O momento não é propício, no entanto, a uma rutura. A agenda europeia atual contém demasiadas crises e entre todas, a criada por David Cameron é a mais fácil de arrumar. Pelo menos, temporariamente. Assim se deve compreender o compromisso agora proposto. Sem esquecer que a Alemanha, com todo o seu peso e a mãos com outros problemas políticos de maior peso, não deseja criar ondas que possam dar argumentos aos que fazem campanha pelo não, pelo abandono.

           Não devemos, porém, ter ilusões quanto ao futuro, caso Londres continue na Europa. Haverá, mais tarde ou mais cedo, uma hora da verdade, em que a questão do aprofundamento da união política, incluindo as respostas comuns aos grandes desafios das migrações, da segurança internacional, da qualidade de vida, da solidariedade e das relações económicas globais, estará na ordem do dia. Será mais evidente, com o tempo, que nós e os nossos concidadãos europeus não conseguiremos enfrentar os riscos que temos pela frente em ordem dispersa. Precisaremos de estratégias comuns de abordagem e resposta. Em termos de segurança, poderemos certamente contar com os britânicos, que continuarão a ser um pilar fundamental da Aliança Atlântica. Aí, não tenho dúvidas. Quanto às outras questões, será a nossa vez de os colocar entre a espada e a parede, salvo seja. Assim o espero, se houver lideranças à altura.

           

           (Texto que publiquei hoje na Visão on line)

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