Portugal é grande quando abre horizontes

07
Abr 14

Há vinte anos que começou o genocídio no Ruanda. E, umas semanas depois, fui enviado para a Tanzânia, como representante da ONU. No rol das minhas atribuições estava a coordenação da recepção das centenas de milhares de refugiados Hútus que iam chegando à Tanzânia e o acompanhamento político da crise, do meu lado da fronteira. As imagens de multidões de refugiados que fugiam a pé do Ruanda, dos massacres e da chegada ao poder dos rebeldes Tutsis ficaram para sempre gravadas na minha memória.

 

Uma vez levei a minha filha mais nova, que na altura tinha catorze anos acabados de fazer, para a zona, a muitas horas de voo de Dar-es-Salaam. Aconteceu que nesse dia o rio Kagera, que corre do Ruanda para a Tanzânia, estava a trazer um número elevado de corpos de vítimas dos massacres. Gente que havia sido assassinada e lançada às águas do rio. A dada altura, fui dar com a miúda a observar a pesca macabra que era o retirar da corrente esses cadáveres mutilados.

 

Aprendeu-se muito na altura. Mas quero apenas lembrar uma das lições, que sempre me vem à memória: o medo e ódio pelo outro podem, numa situação de crise nacional profunda, transformar vizinhos pacíficos em criminosos selvagens e cegos, capazes de tudo. Ali, como noutras partes do mundo.

 

publicado por victorangelo às 21:01

O maior genocídio dos tempos modernos.

Na recente crónica em que VA falava da suposta crescente indiferença em relação às causas humanitárias, argumentando com a imagem que Bono ou Sir Bob Geldof outrora auferiam, veio-me à ideia este genocídio. Apenas porque, na realidade, pouca gente que conheço ouviu falar dele. Passou na TV, em horário nobre, quase em directo, à mesa, à hora de jantar. Foi realizado um filme (Hotel Ruanda) com grande elenco, oscarizado. Ainda assim, se fosse efectuada uma sondagem de rua pouca gente se lembraria do que se passou. Porquê, não sei. É quase tão inexplicável como o próprio genocídio e a sua magnitude. Mas é assustador pensar que quem desconhece a história está condenado a repeti-la. Mesmo que a história se tenha passado ontem.
VascoB. a 7 de Abril de 2014 às 22:18

Excelente comentário. Obrigado, mais uma vez, pela sua leitura atenta e continuada do meu blog.

Cumprimentos,

VA
victorangelo a 10 de Abril de 2014 às 21:47

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