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O Atlântico relativo

Transcrevo de seguida o texto que publiquei recentemente - a 5 de Março - na Visão. Trata-se de uma visão geopolítica de uma vasta área de interesses que tem muito que ver com Portugal.

 

Nas águas políticas do Atlântico

                Victor Ângelo

 

 

                Em Bruxelas e certamente em Lisboa e nos Açores, há quem se interrogue sobre a relevância do Atlântico Norte. Olham para o mapa atual dos jogos geopolíticos e ficam na dúvida. E têm razão para ficar. Nos círculos onde se discute grande estratégia, o que conta em termos dos espaços marítimos, e para além das águas à volta dos polos, é o Mediterrâneo oriental e central, o Mar Vermelho e o Estreito de Mab-el Mandeb, que afunila a passagem entre o Iémen e o Corno de África, o norte do Índico, o Estreito de Malaca e as tensões militares nas costas asiáticas do Pacífico. O Atlântico Norte desapareceu dos radares principais. Isto não quer dizer que os países ribeirinhos, sobretudo o nosso, não devam continuar a investir na proteção dos seus interesses económicos e na defesa da região. Devem mesmo, na minha opinião, aumentar esses investimentos, num espaço que lhes é vital. Não podem é continuar a contar com um apoio baseado em considerações geopolíticas do passado.

                E, mais abaixo, o Golfo da Guiné, perguntarão alguns? A pirataria nessa parte do oceano deveria ser tida em conta, acrescentarão. Sim, em certa medida. Porém, não se pode estabelecer um paralelo entre a pirataria que tem lugar do outro lado de África, ao largo da Somália e no corredor que liga o Golfo de Aden à Índia, e o que está a acontecer junto às costas da Nigéria, do Benim e nas zonas vizinhas. No Golfo da Guiné existem estados que funcionam, mesmo se com deficiências evidentes. Esses estados têm que tratar da segurança nas suas águas territoriais, que é onde os incidentes ocorrem. E devem reconhecer que os ataques contra navios estão diretamente ligados à corrupção que existe em terra, nas esferas do poder, nos portos, nos serviços marítimos e nas estruturas de segurança. É nessas instituições que se encontram muitos dos padrinhos das ações que ocorrem ao longo da costa. Por outro lado, se esses incidentes nos mares costeiros têm um impacto de algum peso nas economias locais, deve igualmente reconhecer-se que que a sua repercussão internacional é insignificante. Quando os desafios globais são numerosos, estas coisas de valor local não entram no ecrã das preocupações internacionais.

                Há ainda quem insista na importância do Atlântico Sul, na imensidão das ondas entre Angola e o Brasil. Mas também aqui estamos bem longe de uma zona estratégica de relevo global. O Brasil tem todas as condições para proteger os seus interesses marítimos. Quanto a Angola e aos seus vizinhos, o que se pode dizer é que ainda estão muito longe de ver a relevância do mar em matéria de defesa. Apenas a Africa do Sul o faz para já. Só que esse país pertence a outro campeonato.

Assim, quem pensa, em Bruxelas ou Lisboa, na possibilidade de um fórum pan-atlântico inspirado no modelo da APEC – a organização para a Cooperação Económica da Ásia e do Pacífico – deveria mudar de ideias. Não existe justificação política nem substrato económico para tal. Na minha opinião, é na Conferência Ibero-Americana que convém apostar. Baseada em Madrid, junta os países da Península Ibérica e os estados da América Latina. Pode fazer bem mais do que organizar cimeiras anuais de circunstância. Portugal deveria olhar para as possibilidades abertas por essa associação e apostar muito mais na presença de comunidades portuguesas em várias terras latino-americanas. Terá, é óbvio, que contar com a competição espanhola. A melhor maneira de o fazer passa por isso pelo reforço do eixo de cooperação luso-brasileiro.

 

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