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Crescemos quando abrimos horizontes

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Que esconde o burkini?

O burkini tapa muita coisa

Victor Ângelo 

 

            A interdição do uso do chamado burkini, em várias praias de França, é uma medida bastante controversa. A favor, encontramos uma boa parte da classe política francesa, incluindo ao mais alto nível, segundo se percebeu ao ler as declarações recentes de Manuel Valls, o primeiro-ministro. Argumentam, no essencial, que se trata de uma maneira de vestir que traz, de modo ostensivo e provocatório, a militância religiosa extremista para um espaço comum de lazer, criando assim situações que podem perturbar a ordem pública. Este argumento vale o que vale. Mas a verdade é que a legalidade da interdição acaba de ser aceite pelo Tribunal Administrativo de Nice. Contra, estão a Liga dos Direitos Humanos e certas organizações islâmicas, que veem na proibição um ato discriminatório e contrário à liberdade individual. E no meio da polémica surge a questão dos direitos das mulheres, sem que a sua voz seja particularmente ouvida.

            Em Portugal e noutros países da Europa com uma proporção pouco expressiva de muçulmanos residentes, não se entende o que está em causa em França. Como também o não compreendem os britânicos, apesar do peso das comunidades islâmicas no quotidiano do Reino Unido. Nesse país, o alheamento perante o que é diferente e a segregação informal criaram um equilíbrio social entre mundos paralelos, que vivem à parte e fingem ignorar-se.

            Voltando à França, a contenda esconde questões muito sérias. Na minha leitura, estamos perante mensagens políticas de um novo tipo e sinais de uma crise de sociedade que se anuncia. O que os políticos parecem querer dizer é que esperam dos muçulmanos de França um comportamento que mostre que estão dispostos a integrar-se mais e melhor na cultura do país, tal como esta é entendida pela maioria da população. O burkini poderá ser uma solução no Norte de África ou no Médio Oriente. Não cabe, no entanto, na maneira laica, moderna e sem preconceitos de estar na vida que se pratica no Ocidente e em particular nos areais do Mediterrâneo da Côte d´Azur. Mais ainda, a sua introdução é vista como mais uma bandeira de uma campanha que certos sectores radicais pretendem promover, com vista a ganhar importância política através de uma militância de cariz religioso extremo. 

            Tudo isto reflete as novas inquietudes que se vive em França – e noutros países da vizinhança. Uma parte da França ficou traumatizada com a ocorrência sucessiva de atentados. É igualmente revelador de um conflito latente entre comunidades nacionais, que só espera que surjam faíscas, como as dos burquinis, para que se acendam os ânimos e se extremem as posições.

            Terá sido atingido o limite de tolerância em relação à diversidade cultural e étnica, em sociedades como a francesa? Iremos entrar numa fase de conflitos abertos e de discriminação deliberada contra quem é diferente? Veremos certos grupos minoritários, mas convencidos da sua superioridade religiosa e da força da sua determinação, começar a pôr em causa os valores do secularismo, da igualdade entre os homens e as mulheres, da liberdade de escolhas, incluindo a possibilidade de não se acreditar no além? Grupos que procurarão impor um modo de estar na vida que nada tem que ver com as práticas europeias de hoje?

            Haverá certamente motivos para se estar ansioso em relação ao futuro. Há, no entanto, que debater estas questões com serenidade. Mas, para já, devemos ficar preocupados por ver que os autores dos atentados estão, em certa medida, a conseguir realizar dois objetivos importantes. Dividir a sociedade, por um lado. Por outro, levar os políticos e a opinião pública a concentrarem a sua atenção em questões que não deveriam ser mais do que assuntos marginais no grande espectro de problemas que a França e alguns dos seus vizinhos têm pela frente. Incluindo nós, enquanto parceiros no mesmo espaço geopolítico.

 

(Texto que hoje publico na Visão on line)

4 comentários

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    Andre Filipe 26.08.2016

    Infelizmente existem religiões que usurpam o poder das leis e chamam-lhes práticas religiosas. Agora depende de cada um opinar sobre o que é mais forte o poder de uma sociedade ou o poder de uma religião. Certamente para os muçulmanos o poder da religião permite-lhes fazer tudo e mais alguma coisa em nome do Deus deles.... e quando é assim, as restantes pessoas devem publicamente debater esta questão.
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    Anónimo 26.08.2016

    Em primeiro lugar, aqui não está em causa nenhuma religião, mas uma coisa muito diferente, chamada Cultura. Muitas destas mulheres que vivem na Europa, e não apenas em França (até acontece na nossa vizinha Espanha), já nem são grandes religiosas, algumas são praticamente ateias. Atrevo-me a acrescentar 99,9%, completamente livres, obedecem à sua de livre e espontânea vontade, por opção pessoal. No entanto, estão a negar-lhes esse direito. Curiosamente, vejo gente imbecil que acha isso muito correcto e atinado.
    O (falsamente) chamado "burkini" não é um determinação da religião islâmica e não é usado em todos os países islâmicos. Portanto. não é uma questão religiosa, mas cultural (se bem que a religião é um dos principais elementos da cultura de um povo).
    Só entendo como legitimo o direito de proibir se algo prejudica alguém ou alguma instituição - não é o caso.
    Se a questão é proibir o que se não gosta, então começo a fazer a rol das minhas exigências... e estou certo que terei tantos partidários como os "anti-burkini".
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    BLITZZZZ 26.08.2016

    Muito bom, grande resposta...gostei. Claro e objectivo.
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