Portugal é grande quando abre horizontes

27
Ago 17

Ao longo da minha vida profissional, organizei várias eleições em países africanos. Fui, também, membro da primeira Comissão Nacional de Eleições, logo a seguir ao 25 de Abril. Ganhei, assim, consciência da enorme importância que um processo eleitoral credível tem para a estabilidade política de um país. Também sei como, em certos países menos democráticos, se pode falsear ou manobrar os resultados de uma eleição.

Dito isto, acrescento que as eleições que agora tiveram lugar em Angola me deixaram uma certa dose de optimismo. Não terão sido isentas de defeitos e de desequilíbrios. Mas, no conjunto, decorreram de um modo aceitável. Por isso, todos os que anseiam por uma Angola mais democrática e melhor governada têm agora a obrigação de contribuir, de viva voz, para que a situação pós-eleitoral se mantenha serena.

publicado por victorangelo às 21:37

01
Dez 14

Hoje é o Dia Mundial da Luta Contra a Sida. Não convém deixar passar a data em branco. A epidemia continua a infectar milhares de pessoas por dia. Nalguns países é uma causa de mortalidade de primeira importância.

Quando trabalhei na África Austral, vi muita gente sucumbir à doença. Incluindo gente com quem trabalhava no quotidiano. Uma dessas pessoas foi a minha empregada doméstica, uma mulher cheia de energia e de vontade de fazer coisas, uma gigante em todos os sentidos. Como muitas mulheres, foi infectada pelo marido.

Lembro-me igualmente de dois colegas do escritório da ONU em Harare. Dois zimbabueanos, um homem e uma mulher. Estavam ambos num estado avançado da infecção. Outros, na nossa delegação, já haviam falecido antes deles. Estes dois salvaram-se porque a ONU passou então a reembolsar as despesas que o pessoal nacional tivesse que desembolsar com a aquisição dos medicamentos, despesas que eram muito elevadas e não estavam à altura de quem recebia um salário local. Um anos depois do início do tratamento pareciam outras pessoas. Ninguém diria que estavam infectados. Mais tarde, fui encontrar um deles na Serra Leoa, na missão de manutenção de paz da ONU. Como era uma mulher ainda jovem e muito mexida, acabou por arranjar um companheiro entre o pessoal internacional da missão. Com quem vivia. Nunca disse ao seu novo companheiro que tinha um problema. E eu também não o informei. Hesitei várias vezes, falei com ela sobre o assunto, mas sabia que ela não lhe diria. E eu também não disse. Achei, bem ou mal, que a responsabilidade não era minha.

Estes são os dilemas de quem anda por onde há problemas humanos por todos os lados.

publicado por victorangelo às 20:28

08
Ago 13

O meu texto na Visão que saiu hoje trata das recentes eleições no Zimbabwe. Está disponível através do seguinte link:

 

http://tinyurl.com/n8w2qb2


Boa leitura.

publicado por victorangelo às 17:52

16
Ago 11

Passei o dia a escrever sobre conflitos e a resposta da comunidade internacional. Notei que apenas 87 países, dos 193 que compõem as Nações Unidas, estão classificados como países democráticos e livres. O que significa que ainda há muito que fazer em termos de luta pela dignidade da pessoa humana.

 

Lembrei-me, então, que hoje começou em Luanda a cimeira dos estados da África Austral, da SADC. É uma região do continente africano onde há bons e maus exemplos de democracia e liberdade.

 

É, para Portugal, uma área de grande interesse estratégico. Convém, por isso, lidar com a região com muito tacto político. E dar-lhe a prioridade que merece.

publicado por victorangelo às 23:58

09
Set 10

Não podia deixar de escrever, esta semana, na Visão, sobre a revolta nos bairros de caniço, que cercam Maputo e a Matola.

 

Não foi apenas a questão do aumento do custo de vida, insuportável para quem sobrevive ao nível da miséria. Foi a expressão de um profundo mal-estar, numa terra de grandes desigualdades sociais.

 

Há trinta anos, Maputo e arredores teriam cerca de 750 000 habitantes. Nessa mesma área urbana vivem agora cerca de 1 700 000 pessoas. As migrações trouxeram a pobreza dos campos e transformaram-na na miséria das cidades. O caniço é hoje um labirinto de frustrações e um viveiro sem fim de gangues criminosos.

 

O meu texto sublinha igualmente o que de positivo se conseguiu fazer, nestas duas últimas décadas. Mas sugere um novo paradigma de desenvolvimento para Moçambique. Um modelo que não beneficie apenas as elites.

 

O artigo está disponivel no sítio seguinte:

 

http://aeiou.visao.pt/mocambique-os-desafios-do-canico=f571716

publicado por victorangelo às 19:46

02
Set 10

Começou um segundo dia de distúrbios civis na zona metropolitana de Maputo. O governo aposta numa presença maciça das forcas de segurança nas principais artérias, como meio de resolução da crise mais imediata, a da ordem pública. 

 

Para além da intervenção de ontem ao fim da tarde do Presidente Guebuza, ninguém mais pareceu a falar em público e a tentar apaziguar os ânimos. As elites políticas, intelectuais e religiosas estão fechadas em casa, sem voz nem entendimento do seu papel numa situação social como a presente.

 

Como referi ontem, o país precisa de mudar de modelo de desenvolvimento. Precisa de equacionar, como muitos outros em África, a questão da urbanização rápida, que está a transferir a pobreza dos campos para as grandes cidades. Necessita, igualmente, de reflectir sobre a modernização do sector agrícola, sobretudo no que respeita à produção de bens alimentares de consumo corrente. Não se compreende que Moçambique importe o que come, do país vizinho, quando tem um potencial agrícola enorme. É altura de passar aos investimentos na agricultura comercial. Sem preconceitos ideológicos. Essa é também uma das maneiras de evitar o êxodo rural.

 

publicado por victorangelo às 10:05

31
Ago 10

Agora é Singapura que começa a interessar-se a sério por África.

 

Em Julho organizou o primeiro Fórum de Negócios África-Singapura. A partir de Outubro, haverá várias missões comerciais e de investimento. Com destino, numa primeira fase, a Angola, Botswana e África do Sul. Depois, será a vez do Quénia, Uganda e Ruanda. Numa terceira volta, os empresários deste país da Ásia do Sudeste irão ao Egipto e à Argélia.

 

A escolha dos países que interessam a Singapura merece reflexão.

publicado por victorangelo às 16:55

05
Jun 10

Estive em contacto com o meu amigo F. Havia muito que não falávamos.

 

É um homem cheio de força, apesar dos seus 50 e muitos, muitos, nascido em Lisboa, junto ao Tejo, educado desde criança no que era então a Rodésia do Sul, combateu na guerra civil, e continuou em Harare até surgir a crise recente. Vive há vários anos, seis ou sete, numa província do centro de Moçambique. Chegou lá sem nada. Começou por plantar milho, negociar em tabaco e alfaias agrícolas, hoje tem vários interesses, e é membro do Conselho Regional de Empresários, um órgão consultivo junto das autoridades da região.

 

Continua cheio de projectos. E de fé no futuro de Moçambique.

 

Fez-me pensar nos muitos de nós, portugueses, que fazemos um mundo no mundo. Que acreditamos que é preciso arriscar, empreender, tentar novos horizontes, ser estrangeiro de sucesso nas terras que nos acolhem. Também me fez pensar num país que estava no fundo do buraco e conseguiu dar a volta ao seu destino e ser um exemplo em África.

 

Foi um reencontro com a esperança. 

publicado por victorangelo às 21:57

04
Dez 09

 

Estive na reunião do Grupo de Trabalho sobre África do Conselho da União Europeia. Falei sobre o Chade, a República Centro-Africana e o Sudão, bem como sobre as questões de segurança à volta do Lago Chade.

 

As outras matérias em análise incluíam a situação na Guiné, no dia em em que Capitão Dadis Camara, o actual dirigente, golpista e ditador, foi alvo de um atentado por parte de um dos seus assistentes militares. Está agora internado num hospital marroquino, enquanto a comunidade internacional continua sem saber como lidar com este país africano, rico em recursos, mas totalmente dominado por uma classe militar mal instruída, envelhecida, tribalizada e corrompida.

 

A estratégia comum entre a UE e a África, a República Democrática do Congo e as perturbações na zona do Sahel também estavam na agenda. As relações com a África Austral faziam igualmente parte dos debates, com o período pós-eleitoral em Moçambique a dividir os Europeus em dois campos: os que acham que as eleições não respeitaram alguns dos princípios básicos de um processo credível, e os outros, que pensam que foram aceitáveis.

 

As reuniões do Grupo de Trabalho são importantes. No entanto, a participação nas sessões é cada vez mais deixada nas mãos de diplomatas muito jovens.  Como se a África fosse um assunto que tem que ser tratado, é verdade, mas sem merecer grande importância. Como se estivéssemos perante um ritual que exige ser cumprido, para não desagradar aos deuses da opinião pública --quem são? --, mas em relação ao qual não há um verdadeiro interesse.

 

Talvez seja por isso que a Europa continue a perder influência política e espaço económico nesse Continente.

 

 

publicado por victorangelo às 21:51

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