Portugal é grande quando abre horizontes

22
Jul 19

Com uma só pedra, os falcões de Washington pensam poder matar várias raposas. Refiro-me à confrontação com o Irão.

John Bolton, Mike Pompeo e outros próximos do Presidente sabem que o bloqueio económico financeiro e económico acarretará um efeito catastrófico para a economia iraniana. Não fará cair o regime, antes pelo contrário, que a história de casos semelhantes revela que este tipo de sanções acaba por reforçar o controlo político das cliques que estão no poder. Mas diminuirá, e muito, a sua capacidade para promover acções externas e apoiar grupos que têm beneficiado de financiamentos vindos de Teerão. Atenção, todavia, que isto não fará desaparecer esses grupos nem atenuará muitos dos conflitos que definem aquela região do globo. Pode, antes pelo contrário, levar à ocorrência de actos isolados, revanchistas e trágicos.

Os falcões também acreditam que o aumento da tensão e da insegurança no Estreito de Ormuz levará a uma maior dependência por parte dos Estados da região em relação aos Estados Unidos. É verdade que a região já conta com uma enorme presença americana, quer em termos de tropas estacionadas quer ainda em meios aéreos e marítimos. Tem, no entanto, recursos financeiros enormes, que poderão ser gastos na aquisição de mais armamento proveniente dos Estados Unidos. A tensão encoraja novas encomendas. Mais ainda, uma presença mais profunda nesta zona de grande valor estratégico serve de contrabalanço a forças rivais, sejam elas turcas, indianas ou chinesas. Estes países têm procurado aumentar a sua cooperação militar na região e isso não agrada a todos, sobretudo quando se pensa como um falcão ultranacionalista.

Uma boa parte do petróleo consumido na Ásia provém do Golfo Pérsico. Isso é verdade no que diz respeito ao Japão, à China, à Coreia do Sul bem como à Índia e Singapura. Se os navios petroleiros não puderem circular com segurança nas águas que estão na vizinhança do Estreito de Ormuz acabarão por reduzir frequência das passagens e do transporte. As consequências para a economia da região, da Ásia e, ao fim e ao cabo, para a economia global, serão enormes. Talvez os falcões julguem que isso não afectará os Estados Unidos, que têm as suas próprias fontes de energia. Pensar assim seria um erro, excepto na cabeça de um radical.

A política internacional não deve seguir a maneira de ver dos radicais. Aqui, refiro-me a todos os radicais, incluindo os mandam no Irão, não apenas aos outros. Deve, isso sim, basear-se em regras claras e na estabilidade, no equilíbrio de forças, diria mesmo. Caso contrário, abre-se uma nova caixa de Pandora. Cabe aos europeus e aos asiáticos dizê-lo, alto e bom som.

 

publicado por victorangelo às 17:51

13
Jan 17

Leio com alguma frequência dois dos principais diários publicados na Índia: The Times of India e The Hindu. Comecei a fazê-lo antes da minha última viagem ao país, que teve lugar em Abril de 2016, e continuo essa prática, porque a Índia está cada vez mais na pista acelerada do futuro. Também porque me permitem lembrar que o mundo é mais diverso do que aquilo que exergamos desenhado nas nossas quatro paredes.

A Índia será o país mais populoso da Terra. E uma das economias mais fortes. Tem um mercado que continua fundamentalmente por explorar, embora se note já um desenvolvimento extraordinário, sobretudo quando se compara o agora com o que existia no início deste Milénio. Mas é um mercado difícil de penetrar. A atitude predominante é profundamente nacionalista e virada para os investidores internos ou então para os Indianos da diáspora.

Por falar na diáspora, a visita do primeiro-Ministro português foi seguida por estes diários como uma curiosidade de quinta página. Foi sublinhado, acima de tudo, o facto de António Costa ser de origem indiana e ter conseguido chegar a chefe de governo de um país Ocidental. E mais uma ou outra particularidade, como a refeição com a família em Goa.

Tudo isto prova a sensibilidade indiana às questões rácicas. A opinião pública tem por hábito ver a sua diáspora como sendo discriminada nos países ocidentais. E neste caso, não será assim. Por isso, é notícia. Ou seja conta o homem e as suas raízes, não o país que ele representa oficialmente.

 

publicado por victorangelo às 20:39

26
Abr 16

 

O novo descobrimento da Índia

            Victor Ângelo

 

 

 

            Voltei à Índia, depois de uma ausência de mais de dezoito anos. E fiquei surpreendido pela positiva. Encontrei um país diferente, em pleno crescimento económico, com muita gente resoluta, cheia de otimismo, virada para o futuro. Para quem deixara para trás uma Europa de incertezas, que dá a impressão de não saber bem para onde vai nem como responder aos desafios que enfrenta, em que cada povo tende a fechar-se sobre si próprio, só nos pode fazer bem passar umas semanas num país que se moderniza, que acredita em si e que valoriza a diversidade das suas populações. Isso, assim como lembrar-nos que o mundo é maior e mais variado do que as fronteiras do nosso quotidiano nos fazem crer. No essencial, a Índia diz-nos, à sua maneira, o mesmo que a China e outros nos repetem: a Europa deixou de ser o centro do universo, tem um peso relativo cada vez menor e o seu relacionamento externo deve ter isso em linha de conta.

            É evidente que a Índia ainda tem muito por resolver.

            Na frente externa, o principal desafio continua a ser conflito mais ou menos latente com o vizinho Paquistão. As relações entre os dois países são como um vulcão pronto a entrar em erupção. Baseiam-se num alto grau de desconfiança mútua e numa torrente contínua de acusações de ingerência. Acabam por consumir uma proporção desmesurada dos recursos públicos, que são assim desviados para questões de defesa, de segurança e de proteção das fronteiras – a linha de fronteira do lado indiano é hoje uma das mais dispendiosas e sofisticadas que existem no mundo, em termos dos equipamentos eletrónicos e de outros meios tecnológicos de vigilância.

            Do ponto de vista interno, a pobreza de uma parte da população – cerca de 22% dos indianos vivem abaixo da linha da pobreza, segundo dados das Nações Unidas, – é ainda marcante. Mas também é verdade, como tive a oportunidade de o constatar, que a produção agrícola se transformou de modo radical, no que respeita à qualidade das sementes, aos meios disponíveis, à conservação das colheitas e à comercialização dos produtos. Quando comparada com as situações que prevalecem um pouco por toda a parte em África, é o dia e a noite. E fica ainda mais claro que o desenvolvimento africano tem que assentar numa revolução rural comparável, mas com as necessárias adaptações, à que aconteceu na Índia.      

             A luta contra a pobreza passa também pela igualdade de direitos e oportunidades entre os homens e as mulheres. Nos vários sítios que visitei ficou claro que as mulheres têm uma taxa muito baixa de participação no emprego disponível nas empresas privadas modernas. Por exemplo, fora de Deli não encontrei nenhuma mulher a trabalhar nos hotéis. E quando trouxe o assunto para discussão disseram-me que os empregos femininos estão na função pública, no ensino, na saúde. Ou então nos campos, na construção civil artesanal, nos trabalhos mais tradicionais e mal remunerados. É óbvio que há aqui uma lacuna por preencher.

            A água pareceu-me uma questão crucial, nomeadamente em vários estados da parte norte do país. As monções têm sido, nos últimos anos, irregulares e menos chuvosas. A seca faz agora parte do quotidiano de muitos, durante a maior parte do ano. O mesmo se passa com o acesso à água potável, para consumo doméstico. A gestão dos recursos aquíferos é já hoje uma preocupação maior. Percorrer certas regiões da Índia, nesta altura do ano, muitos meses depois das últimas chuvas, traz-nos à memória o que aprendemos noutros locais: a água vai ser um dos grandes problemas do futuro, em vastas áreas do nosso planeta. Pobreza e conflitos vão estar estreitamente associados à escassez e às dificuldades de acesso à água.

            Um país que se expressa em mais de 120 línguas importantes, sem esquecer umas centenas de idiomas adicionais mas com menor expressão em termos dos números de falantes, tem inevitavelmente problemas de integração e de unidade nacional. Existem assim rebeliões internas em vários estados. O governo central tem procurado responder a essas insurgências. Nos últimos anos, tem havido a sabedoria de combinar respostas de ordem securitária com um tratamento político novo dessas questões. Espero que se continue pela mesma via. E que se saiba valorizar, como muitos o fazem atualmente, a diversidade humana e cultural do país. A Índia, ainda mais do que a Europa, é um complexo xadrez de culturas. Mas também nos mostra que é possível conciliar uma identidade própria e ancestral com o orgulho de se pertencer a um grande espaço geopolítico.

            Entretanto, teve lugar mais uma cimeira da UE com a Índia. No final foi publicado um comunicado tão palavroso quanto vago. A Europa poderá ter descoberto a Índia como destino turístico mas ainda precisa de ver nesse vasto e multifacetado país um parceiro com o qual vale a pena cooperar. As oportunidades são imensas. Há que saber explorá-las. E procurar aproveitar esta fase de expansão e confiança que se vive na Índia, bem como uma mão-de-obra que tem segmentos extremamente qualificados. Para começar, tratar-se-ia de acelerar as negociações relativas a um futuro acordo comercial entre as duas partes. Ganharíamos todos nós, europeus e indianos.

 

(Artigo que hoje publiquei na Visão on line)

publicado por victorangelo às 10:53

23
Abr 16

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 Animal muito visível nas localidades de menor dimensão,na Índia, este tipo de porco é uma espécie de "empregado" municipal de limpeza, poder-se-ia dizer com alguma graça. Limpa tudo o que aparece nas ruas. E as varas são compostas por vários indivíduos.

São peritos em termos de trânsito, um feito enorme nas urbes indianas, que têm veículos por todos os lados e de todas as espécies. Nunca se deixam apanhar por um carro ou uma mota. E ninguém se mete com eles. Não são considerados como próprios para o consumo.

publicado por victorangelo às 21:52

22
Abr 16

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Um dos primeiros animais vistos no Parque de Ranthambhore, a cinco horas de comboio a sul de Nova Deli.

O parque é um centro de atração famoso, por causa dos tigres. Mas ver os ditos é quase um milagre. A maior parte dos visitantes vai e volta sem ver nenhum tigre. Vê, isso sim, muitos turistas, incluindo muitos turistas indianos, que as classes com posses e mais jovens viajam imenso, por todos os cantos do seu país.

Fiquei três dias inteiros no parque. Ao segundo dia já pensava que o tigre é como um deus: acredita-se que existe mas ninguém o vê. E nesse dia, ao acaso de muitas voltas e de muito sofrimento no mato, que as pistas de Ranthambhore são umas quebra-costas dos diabos, acabei por estar lado a lado com uma mãe tigre e as suas duas crias, já de um ano de idade. Com dois anos, separar-se-ão da mãe e cada uma irá constituir um novo território exclusivo e solitário.

 

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publicado por victorangelo às 20:20

16
Abr 16

Acabo de regressar de uma segunda viagem à Índia. A primeira aconteceu há cerca de 19 anos. Uma eternidade. A Índia mudou profundamente e é hoje um país virado para o futuro. O crescimento económico é evidente. Respira-se optimismo por todos os lados. As pessoas acreditam no seu país e nas suas próprias capacidades. Ver que assim é faz bem à cabeça de quem vem de uma parte da Europa que se sente desmoralizada e insegura.

publicado por victorangelo às 20:27

27
Mar 16

De vez em quando é preciso sair da Europa, do nosso cantinho, para que não nos esqueçamos que o mundo é bem maior do que as nossas preocupações. Ir à Índia, por exemplo, é como passar uns tempos noutro planeta. Mas um planeta que tem uns seres vivos parecidos connosco.

publicado por victorangelo às 20:04

04
Jan 16

Este novo ano foi anunciado com preocupação. E está a começar de modo preocupante.

O xadrez de crises no Médio Oriente está hoje mais complicado e imprevisível. A confrontação entre a Arábia Saudita e o Irão passou para um nível mais arriscado. E tem um impacto em toda a região, sobretudo na Síria, no Iraque e no Iémen. Mais a Oriente, as tensões entre a Índia e o Paquistão ganharam um novo impulso, com o ataque que acaba de ter lugar contra uma base da aviação indiana, na zona de fronteira com o país rival. Ainda mais a Leste, a rivalidade marítima entre a China e o Vietname agravou-se este fim-de-semana.

Na Europa, a questão das migrações levou a Suécia a adoptar medidas de controlo fronteiriço em relação a quem vem da Dinamarca por terra. Esta, por sua vez, apertou hoje as verificações na fronteira com a Alemanha. Fala-se de Schengen e dos riscos em que este acordo fundamental para a construção europeia se encontra. Talvez haja um certo exagero quanto ao futuro de Schengen, uma morte anunciada prematuramente, mas a verdade é que não surgiram ainda medidas comunitárias que nos tranquilizem.

E do lado russo, a retórica continua a não ser das melhores. As cabeças de quem manda em Moscovo continuam a ver as relações com a Europa e os Estados Unidos à moda da Guerra Fria. Ora, essa época já passou. Do lado Ocidental, já são poucos os que sabem o que isso queria dizer.

Quanto aos mercados, as bolsas entraram em 2016 com quedas acentuadas. Por causa da China, que está a crescer menos do que o previsto, e também por motivo das incertezas geopolíticas. Curiosamente, foi o mercado de acções alemão que mais perdeu, no conjunto da Europa. A razão é clara: as empresas alemãs estão em boa medida dependentes das suas exportações para a China.

Vai ser um ano com muito pano para mangas.

 

 

 

publicado por victorangelo às 20:46

18
Jun 15

Passo a transcrever o texto que hoje publico na Visão.

Boa leitura.

 

Olhando a América Latina

            Victor Ângelo

 

            Dizer que a UE acaba de redescobrir a América Latina seria um exagero. Mas é certo que em Bruxelas há agora mais interesse por essa parte do mundo, como ficou claro na cimeira da semana passada, que reuniu os líderes de ambos os lados. E ainda bem. No entanto e apesar da beleza das estatísticas, o entusiasmo político do lado europeu continua a parecer algo frouxo. Durante o encontro ninguém quis falar de reticências… Ora, quando se procura estabelecer um relacionamento político e económico mais aprofundado com a América Latina, incluindo as Caraíbas, é preciso ir ao fundo das questões, de modo construtivo, embora sem soberbia nem voos ideológicos próprios de outras épocas.

            Estas relações transatlânticas parecem-me condicionadas por três tipos de fatores. Primeiro, porque quem tem influência na Europa pensa que uma boa parte da América Latina sofre de instabilidade política crónica. Quem decide sobre investimentos e parcerias não gosta de regimes políticos instáveis, suscetíveis de gerar conflitos nacionais fraturantes e populismos desastrosos. Os exemplos da Venezuela e Bolívia causam arrepios. Segundo, os altos índices de criminalidade violenta, evidentes sobretudo na América Central, metem medo e desencorajam. Em terceiro lugar, temos a concorrência. A região é comparada com o potencial de negócios que existe noutros espaços económicos. Os mercados asiáticos afiguram-se hoje como mais atraentes, quando se trata de processos produtivos de ponta. Assim, a atenção dos que querem internacionalizar as suas empresas vira-se primeiro para o Oriente. Sem esquecer que é mais fácil encontrar na China e sobretudo na Índia as qualificações que contam na economia digital do futuro, ávida de engenheiros, programadores e outros profissionais do género.

            A esta encruzilhada de condicionantes convém acrescentar uma outra observação: não há, de momento, no conjunto dos governos dos países mais significativos da América Latina, um só que esteja em condições de assumir a liderança do movimento de aproximação com a Europa. O do Brasil era uma das grandes esperanças. Deste lado do oceano, existe contudo a impressão que Dilma Rousseff e os seus estão cada vez mais prisioneiros de uma situação política interna complexa, que não lhes dá margem para desempenhar um papel de peso na cena internacional. Além disso, a colagem aos BRICS, e em particular à Rússia, é vista como avessa às posições da UE. O silêncio da diplomacia brasileira face à ocupação da Crimeia contrasta com o hábito que até agora prevalecia em Brasília de comentar de modo oficial todo e qualquer incidente internacional.

            Há quem pense no México, que teve direito a uma cimeira à parte, após a regional. O país não será um modelo em termos de ordem pública, mas é visto como relevante para a segurança energética da Europa, sem esquecer a pujança da sua economia. Poderá ser, igualmente, um intermediário político de valor na transformação de Cuba e mesmo da Venezuela. O México, por seu turno, procura um efeito de alavanca na Europa, que lhe permita reforçar o seu diálogo de vizinhança com os EUA.

            Para completar o quadro, creio necessário mencionar a Colômbia, o Peru e o Chile. Diz-se, nos nossos corredores do poder, que estes estados estão no bom caminho.

            A verdade é que a parceria com a América Latina é boa mas ainda tem muito pano para mangas. Portugal pode ter aqui um papel bem mais ativo. E não apenas porque o futuro cabo transoceânico de fibra ótica entre os dois continentes vai partir de Lisboa.

 

 

 

 

publicado por victorangelo às 19:04

01
Abr 13

O texto que publico na Visão desta semana está agora disponível no site da revista:

 

http://visao.sapo.pt/brics-com-fraco-cimento=f720616

 

A minha tese fundamental é que os BRICS constituem, entre si, uma aliança pouco sólida. Os diferentes países têm interesses estratégicos muito distintos.

publicado por victorangelo às 16:42

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