Portugal é grande quando abre horizontes

08
Abr 19

Falávamos dos cursos, conferências e outras iniciativas académicas que por aí existem em matéria de segurança.

E eu lembrava ao meu amigo que uma boa parte da formação em matéria de segurança deve estar focalizada no desenvolvimento das capacidades de análise das informações. Na preparação de analistas de alto gabarito. Trata-se de aprender as técnicas e compreender o que significa pensar de um modo sistémico. Uma boa compreensão das múltiplas informações recolhidas, por todo o tipo de fontes, uma grande habilidade em saber ligar os factos entre si e, a partir daí, saber avaliar os cenários possíveis, os planos hostis mais plausíveis, os impactos prováveis, tudo isso é fundamental para um bom trabalho na área da segurança. Análise, análise, análise.

A outra dimensão prende-se com o conhecimento das regras de observação e vigilância de determinados indivíduos alvo, dos grupos a que pertencem, das teias que tecem, das redes de relações que desenvolvem. Essas técnicas resultam da codificação de muitas experiências acumuladas pelos serviços mais eficazes, bem como do estudo das leis que protegem a vida privada e os direitos das pessoas. Devem, por igual, fazer parte da formação académica na área da segurança.

Um terceiro aspecto da aprendizagem e de estudo está relacionado com os métodos de dissimulação e de fazer crer. É a área do artifício, da encenação. Não vale a pena entrar em pormenores, que não cabem num texto deste tipo, mas a segurança nacional e dos indivíduos passa igualmente por aí.

Nesta altura da conversa, o meu amigo ficou com uma dúvida. Assim do género, então o que por aí se ensina é ao nível do amadorismo? Ou será apenas uma espécie de linha comercial, que está na moda explorar?

Claro que não tive resposta para lhe dar. Nestas matérias, não fica mal dizer-se que não se sabe.

 

publicado por victorangelo às 11:35

30
Dez 18

O presidente-eleito do Brasil, Jair Bolsonaro, foi escolhido por um número de peritos das relações internacionais como a personagem do ano de 2018. Para além da surpresa – e da indignação que muitos manifestaram – fica uma pergunta de fundo. Que razão levou esses especialistas portugueses a uma escolha tão controversa, que parece glorificar um político primário e brutalmente extremista?

Faço a pergunta no singular – que razão – porque procuro entender o que poderá estar por detrás das diversas justificações que cada um mencionou, quando a comunicação social os convidou a pronunciar-se.

Não pode ser o fascínio por políticos tendencialmente ditatoriais e com ideias extraordinariamente abstrusas. Também não deverá significar qualquer tipo de aceitação ou de credibilidade da sua filosofia política, que mais não é do que um conjunto desconexo de barbaridades e de vulgaridades. Nem será o facto de Bolsonaro ter conseguido atrair votos dos mais diversos horizontes culturais e, igualmente, de camadas sociais muito díspares, que constituem o complexo xadrez nacional do Brasil.

Não tenho uma explicação inteiramente plausível. Penso, no entanto, que uma parte da justificação estará relacionada com o facto de vários universitários portugueses terem estabelecido laços intelectuais e dependências académicas com o Brasil. Por razões de língua, por motivos familiares ou de proximidade afectiva, ou a pretexto da história. Assim, o que se passa no outro lado do Atlântico Sul tem impacto nalguns dos nossos círculos académicos. O que aconteceu com a eleição de Bolsonaro deixou muitos de nós em estado de choque. E parece que ainda não conseguimos lidar com esse embate.

Deixo a pergunta em aberto.

Para rematar, reconheço que o Brasil conta, para nós, enquanto gigante da CPLP. Mas Jair Bolsonaro, no quadro grande das relações internacionais, terá um peso marginal, no complexo jogo geopolítico que temos pela frente, nos próximos três ou quatro anos. E imagino que a sua presidência irá empurrar ainda mais o Brasil para a margem da nova geopolítica.

 

publicado por victorangelo às 15:33

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