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Vistas largas

Crescemos quando abrimos horizontes

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Crescemos quando abrimos horizontes

A passo de caracol, com resignação

Uma das minhas vizinhas contou-me hoje que a sua mãe faleceu na semana passada por causa da pandemia. Faria 79 anos por estes dias. Esteve internada um pouco mais de uma semana no hospital aqui do bairro, o S. Francisco de Xavier. Internada é uma maneira de falar, pois passou mais tempo num dos corredores do que na enfermaria, por razões de sobrelotação.

Vi na maneira de me contar o acontecimento um certo grau de fatalidade. Aconteceu. Foi a covid-19. E pronto, como se morrer tivesse passado a fazer parte dos dias de agora.

A verdade é que os números diários são assustadores. E que a campanha de vacinação não é campanha nenhuma. 82 mil vacinados até agora faz pensar num ritmo de caracol. Como se isso não fosse a tarefa mais urgente que o serviço público deveria ter pela frente.

Os próprios candidatos à presidência passam ao lado desta urgência. Parecem não ter entendido que o nosso mundo mudou.

A mentira da Justiça

O que aconteceu e continua a acontecer no nosso Ministério da Justiça, sobre as falsidades que oficialmente foram transmitidas a Bruxelas sobre o procurador europeu, não deve ser classificado como uma trapalhada. É bem mais do que isso. E muito grave. É um abuso do poder, por parte de um grupo de governantes que pensa estar de pé e cal na mó de cima. Olham à volta e não vêem oposição que lhes faça medo. Sentem-se seguros e, por isso, seguem o velho princípio do quero, posso e mando, ao qual juntam o igualmente velho hábito da política portuguesa, o compadrio.

Dito de outra maneira, é uma política sem ética. Corrupta até ao tutano. Sim, que a justiça faz parte do âmago do Estado. É uma função essencial de soberania que se mostra tão desvirtuada como muitas outras.

A Ministra não se demite e o Primeiro-Ministro não se manifesta. Estamos bem entregues.

Um Rio com pouca corrente

A maneira como Rui Rio reagiu à nova sondagem do Expresso, que dá o seu PSD em queda acentuada, revela um cinismo parvo e um sentido de humor a que falta o bom senso. Em resumo, não revela inteligência política.

Na realidade, a reacção que tornou pública ajuda a perceber a razão da baixa da popularidade do PSD: não tem um líder à altura.

Numa altura em que o governo de António Costa atravessa várias tempestades – o Ministro Cabrita, o SEF, a mortalidade excepcionalmente elevada por causa da Covid-19, a falta de preparação para a campanha de vacinação, a imprecisão da agenda económica de recuperação, a TAP, a candidatura de Ana Gomes e as divisões que provoca no interior do PS, etc, etc – o líder do principal partido da oposição anda no Twitter a fazer comentários tontos. Para além de não conseguir agarrar o momento para mostrar que tem ideias, planos e uma visão para o país. Uma visão que é, todavia, bem necessária, na sequência dos vários impactos da pandemia sobre a sociedade portuguesa e também porque a governação tem sido uma governação pela rama, às apalpadelas e sem rumo certo.

Os dias cinzentos

Em Portugal, os números diários de óbitos por causa da Covid-19 são muito altos, muito preocupantes. Se tivermos em consideração o número total de habitantes, estamos com valores absolutos mais elevados do que na Alemanha, por exemplo. Ora, a Alemanha acaba de tomar todo um conjunto de medidas de contenção, por um período de várias semanas. O período inclui o Natal e o Ano Novo. As reuniões de família e as festas estão proibidas. Entretanto, o país já preparou toda a infra-estrutura necessária para a gigantesca campanha de vacinação que tem pela frente.

Por aqui, parece haver uma certa despreocupação.

Os próprios candidatos às presidenciais andam longe do assunto. Discutem e discorrem sobre insignificâncias e deixam passar os temas da pandemia e da vacinação entre as malhas das suas redes miúdas. Ainda não soube de um candidato que valesse o tempo que lhe foi dado pelas televisões. Voar baixinho é a norma. Ninguém se lembra que as águias voam a uma certa altitude e só mergulham no assunto, num voo picado, quando a presa vale a pena.

Os incompetentes e os bonecos de palha

A Directora Nacional do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras desempenhou hoje o seu papel de fusível político. Pediu a demissão de funções e assim a alta voltagem não chegou ao Ministro. Não deveria ser assim, mas os fusíveis servem exactamente para isso. E a expressão “responsabilidade política” não faz parte da nossa prática.

Creio, no entanto, que o Chefe do Governo não se apercebeu bem dos custos políticos do que tem acontecido no SEF. Ou então, percebeu, mas também sabe que neste país não há oposição que lhe faça sombra e que consiga pôr estas questões no contexto que elas merecem. Receio que a verdade esteja mais do lado da fraqueza da oposição.

Temos um país em que uns não assumem as suas responsabilidades e outros andam na política com a agudez de boneco de palha.  

Dias de pandemia

Actualmente, aqui em Portugal, as estatísticas relativas à pandemia são dramáticas. Revelam um alto nível de incidência e, sobretudo, um número muito elevado de óbitos. Penso que se deve insistir mais nas medidas de prevenção, no comportamento que cada um de nós deve assumir no quotidiano das nossas vidas. Vamos entrar num novo período de restrições. Mas essas limitações servirão de pouco se os comportamentos de risco continuarem. É fundamental apelar ao bom senso de cada um de nós, para o nosso bem, para o bem dos que nos são próximos e também para o bem colectivo.

Chega de parvoíces

Numa altura em que o país está em crise profunda, por causa da pandemia da covid e do impacto económico da mesma, o debate público anda concentrado num partido ridículo e minúsculo, de gente com ideias néscias e marginais, um partido sem um programa de governação. Não entendo o porquê dessa obsessão com um partido que pouco mais é do que um caixote de refúgio para um certo tipo de primários que por aí andam.

O PSD a fazer de conta

A proposta hoje apresentada pelo Partido Social-Democrata (PSD) de colocar as Forças Armadas “no comando das operações no combate “à Covid não tem fundamento legal e confunde meios com competências. É mero barulho político para mostrar que não se fica calado. Não deve ser levada a sério. É mais um tiro de pólvora seca do PSD.

É verdade que as Forças Armadas têm múltiplas valências que podem e devem ser utilizadas, em complemento com outras, na luta contra a pandemia. Penso nos meios logísticos, nos serviços de medicina, nos centros de acolhimento, nas acções de sensibilização, entre outros.

Mas a pandemia, que é uma emergência nacional, exige sobretudo clarividência e direcção políticas, uma estratégia de mobilização da opinião pública face às suas responsabilidades de comportamento e meios excepcionais em matéria de serviços de saúde.

Todos os serviços públicos e muitos dos privados devem colaborar na resposta a esta crise. Mas não convém alimentar a ilusão que as Forças Armadas devem ir além do que lhes é permitido por lei e pela lógica das coisas.

O comportamento que se espera do líder

Quem ocupa um lugar de liderança, está de serviço de dia e de noite. A fronteira entre a vida pública e a privada é muito ténue. Liderar é dar o exemplo. E para que se continue a liderar, é fundamental manter um comportamento coerente. Sem isso, lá se vai a credibilidade. E fica apenas o apoio dos incondicionais do chefe e do partido. Ou seja, perde-se uma fatia que é importante para tornar a base do poder mais ampla, mais abrangente. Um exemplo que tenho presente, agora que escrevo estas linhas, foi o dado por Kofi Annan. Comportava-se sempre, mesmo nos momentos mais amistosos e fora das obrigações oficiais, com a dignidade e a presença que se espera de um Secretário-Geral. Se tivesse sido primeiro-ministro, ter-se-ia comportado sempre como um primeiro-ministro. Não iria em futebóis, como dizemos nós, que não somos primeiro-ministros.

A leitura das imagens políticas

Os analistas políticos passam muito tempo a estudar as imagens que as reuniões de líderes produzem. Sobretudo quando se trata de um tête-à-tête, como hoje aconteceu em Sochi entre Vladimir Putin e Alexander Lukashenko. A análise dessas fotos diz muito, a quem sabe destas coisas, sobre o estado de espírito dos protagonistas. As da reunião de hoje mostraram que o dirigente russo teve pouca paciência para as longas conversas de Lukashenko. A agitação das pernas e as expressões do rosto revelaram essa impaciência. Dir-se-ia que considera o bielorrusso como um perdedor, que mais tarde ou mais cedo terá que ser substituído.

A minha experiência de contactos com ditadores ensinou-me que não gostam de líderes que deixam escapar o poder. As ruas de Minsk mostram isso mesmo. Lukashenko perdeu o controlo da rua. Como também perdeu o controlo da propaganda, algo que um político arguto como Putin considera um erro muito sério.  

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