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Vistas largas

Crescemos quando abrimos horizontes

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Crescemos quando abrimos horizontes

O comportamento que se espera do líder

Quem ocupa um lugar de liderança, está de serviço de dia e de noite. A fronteira entre a vida pública e a privada é muito ténue. Liderar é dar o exemplo. E para que se continue a liderar, é fundamental manter um comportamento coerente. Sem isso, lá se vai a credibilidade. E fica apenas o apoio dos incondicionais do chefe e do partido. Ou seja, perde-se uma fatia que é importante para tornar a base do poder mais ampla, mais abrangente. Um exemplo que tenho presente, agora que escrevo estas linhas, foi o dado por Kofi Annan. Comportava-se sempre, mesmo nos momentos mais amistosos e fora das obrigações oficiais, com a dignidade e a presença que se espera de um Secretário-Geral. Se tivesse sido primeiro-ministro, ter-se-ia comportado sempre como um primeiro-ministro. Não iria em futebóis, como dizemos nós, que não somos primeiro-ministros.

A leitura das imagens políticas

Os analistas políticos passam muito tempo a estudar as imagens que as reuniões de líderes produzem. Sobretudo quando se trata de um tête-à-tête, como hoje aconteceu em Sochi entre Vladimir Putin e Alexander Lukashenko. A análise dessas fotos diz muito, a quem sabe destas coisas, sobre o estado de espírito dos protagonistas. As da reunião de hoje mostraram que o dirigente russo teve pouca paciência para as longas conversas de Lukashenko. A agitação das pernas e as expressões do rosto revelaram essa impaciência. Dir-se-ia que considera o bielorrusso como um perdedor, que mais tarde ou mais cedo terá que ser substituído.

A minha experiência de contactos com ditadores ensinou-me que não gostam de líderes que deixam escapar o poder. As ruas de Minsk mostram isso mesmo. Lukashenko perdeu o controlo da rua. Como também perdeu o controlo da propaganda, algo que um político arguto como Putin considera um erro muito sério.  

Um Costa com medo dos comunistas

Quando todos sabemos que há um novo surto de contágios por vários países da Europa, incluindo nesta nossa parte do Continente, e que a situação de pandemia irá ficar mais grave depois do regresso de férias, do começo das aulas e com a chegada do Outono, eu não compreendo os riscos que o Primeiro-Ministro está pronto para assumir perante a teimosia do Partido Comunista. São riscos de saúde pública. Óbvios, indiscutíveis. E são riscos políticos, pois a falta de coragem de António Costa terá certamente custos em matéria de apoio eleitoral. Que os comunistas insistam na realização da festa, eu entendo. Por essa Europa fora, esses tipos de eventos foram simplesmente adiados. No caso português, os dirigentes do PCP querem mostrar que são capazes de intimidar o governo. E estão a consegui-lo. O PM tem medo deles.

A maneira de falar é muito importante

Utilizar as expressões “forretas” e “poupados” não ajuda o nosso país. O Zé do Cacete ou o comentador televisivo com um ar de vinho tinto mal apurado são certamente fãs desse tipo de linguagem. Mas, a política tem que ser feita com outro espírito. O relacionamento entre os Estados membros da União Europeia deve assentar em discussões construtivas entre os líderes e numa narrativa pública positiva.

Uma relação séria e com peso e medida. Crítica, não haja dúvidas, capaz de defender os nossos interesses, certamente, directa, para que se entenda, mas dentro dos limites que promovem o bom entendimento entre parceiros de um mesmo projecto.

O novo normal

A mensagem fundamental, que é preciso repetir várias vezes ao dia, é muito simples: o vírus continua presente nas nossas vidas e pronto para infectar quem não se precaver. É simples, na verdade, mas parece que alguns não a estão a entender. Pensam que, com a retomada das actividades económicas, a situação voltou ao normal. Longe disso. Estamos, para já, no que alguns chamam “o novo normal”, que exige comportamentos diferentes dos praticados até Março. Não se trata de viver com medo, mas sim com prudência e respeitando as regras sanitárias que os especialistas consideram essenciais.

Um 1º de Maio muito estranho

Este é um 1º de Maio de grande precariedade. Aqui e por toda a parte. Um 1º de Maio que só nos pode deixar preocupados. Temos agora um mundo mais pobre e mais frágil. E não sabemos por quanto tempo. Ao princípio, os optimistas diziam-nos que a recuperação se faria em V. Batíamos no fundo, depois voltava tudo ao lugar. Era como se a economia fosse um interruptor. Desligado, ficávamos todos às escuras. Uma vez ligado, teríamos novamente a luz habitual e seria só voltar a ligar as máquinas e os sistemas. Nunca acreditei nesse optimismo. Quando o sistema económico entra em curto-circuito, a engrenagem sai dos gonzos e rompem-se os circuitos. Pôr novamente as coisas em andamento não é tarefa de um dia. Perante estas reservas, disseram-me que talvez seja em W, a anunciada recuperação. Ou em U. Continuo a não acreditar. As rupturas são demasiado grandes e o recuo para detrás das fronteiras nacionais excessivamente preocupante, para que se possa prever uma retomada rápida do que entretanto foi perdido.

O melhor é deixar as letras do alfabeto em paz. Porque o alfabeto também tem as letras I e L.

O fundamental é, neste 1º de Maio de um ano estranho, continuar a ter esperança. Mas um esperança realista, sem ilusões e sem radicalismos malucos. Prometer mundos e fundos, que não estão disponíveis, é um engodo.

Navegação à vista

Num momento muito grave, que combina uma pandemia com o colapso de grandes sectores das economias da maior parte das nações, que andam os meus amigos a discutir? Estamos no meio de um tsunami, que tem consequências humanas e económicas de uma profundidade e extensão que ainda não sabemos medir, mas que nos parecem gigantescas, e os meus amigos focalizam-se em quê? Qual é o assunto que os preocupa tanto e que agita as águas em que gostam de navegar?

 

Intelectuais

Intolerância e confusão mental, acudam-me, os nossos intelectuais estão infectados. Basta ver o que escrevem no Facebook. Não sabem o que é debater. Só conhecem o verbo bater.No meio da confusão, esquecem-se que a política é feita de mensagens e símbolos. Exige coerência entre o que se faz e a maneira como isso é entendido pelos cidadãos.

Peixe fresco numa cidade parada

Hoje foi dia de comprar peixe. É uma tarefa que normalmente ocorre às quartas, pela manhã. É o momento da semana em que chega mais peixe fresco. O comerciante de peixe, a dez minutos a pé aqui de casa, é um grossista que fornece os restaurantes e os hotéis, mas que também aceita compradores avulso, como nós. É tudo pago em dinheiro vivo, que o homem não gosta de plástico e ainda menos, do pessoal das finanças. Para os particulares não há recibos, nem facturas. Em compensação, vende um peixe fresco e de excelente qualidade. Agora, com os restaurantes fechados, o negócio está fraco. Mas as portas mantém-se abertas e a oferta não mudou.

É tudo vendido em filetes, para pessoal como eu, sem espinhas nem pele. Comprei eglefim (hadoque, também conhecido como arinca), um peixe excelente, vindo dos mares frios do Atlântico Norte, ao preço de 15,00 euros o quilo do filete. Também fui ao lombo de atum, que custa 30.50 euros por quilo, tudo limpo e pronto a cozinhar. E  levei o inevitável lombo de bacalhau fresco, que vale 22.50 euros por cada quilo.

O hábito da casa é almoçar peixe dia sim, dia não. No dia não, come-se carne. E tal como a carne, a ração de peixe é sempre a mesma: mais ou menos 150 gramas por pessoa. O resto, são legumes, na frigideira, salteados num fundo de azeite. Nunca se come batata, e é raro fazer-se arroz. Não há sobras. Pão, só à noite, numa refeição ligeira, à hora do jantar, por volta das 19:00 horas.  Quando se come fora, é, por regra, ao almoço.

Estas são as rotinas que procuramos manter, como se tudo fosse normal, fora das paredes da casa. Mas é estranho ir buscar peixe e sentir que a cidade está parada. Não há ninguém nas ruas. Esperar que o sinal passe ao verde, para atravessar, é uma forma de fingir que está tudo como dantes. A verdade é que verde ou vermelho, não há trânsito.

Ao domingo, canta outra música

Seria um erro não tratar do dia de hoje como domingo. Um dia para tratar da família e das nossas coisas pessoais. Nestes tempos de grande espanto, é fundamental não perder as referências habituais. Embora os dias possam parecer todos iguais, para quem está confinado, convém fazer a destrinça. Por exemplo, ao domingo, de um modo geral, não se trabalha. Com a prática do teletrabalho, há quem acabe por pegar nos assuntos todos os dias, sábados e domingos incluídos. Uma amiga minha, que há muitos anos que trabalha em casa, sempre me disse que o segredo, quando assim é, passa por se respeitar uma horário de trabalho normal e metódico. Ela tem dois números de telefone. O do trabalho vai para voice mail às 18:00 horas. Qualquer mensagem que caia depois dessa hora é ouvida e tratada na manhã seguinte. E ao fim de semana, está desligado. Se assim não fosse, acrescenta, já teria dado em doida há muito tempo. Ora, é exactamente isso que se procura evitar, para além da fuga ao vírus. Manter a cabeça normal. Não é assim tão fácil como parece. Mas é essencial. Precisamos de todos, para recuperar o país e o resto.

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