Portugal é grande quando abre horizontes

06
Abr 19

Esta semana, a OTAN/NATO chegou aos 70. Depois de uma certa deriva, no seguimento do fim da guerra-fria e das missões problemáticas nos Balcãs e no Afeganistão, e de uma intervenção controversa na Líbia, que dividiu a organização, tem conseguido, nos últimos anos, realizar algumas transformações estruturais importantes e adaptar-se a novas realidades.

Restam, todavia, vários desafios. Deixo aqui um resumo desses desafios, sem entrar em pormenores que dariam pano para muitas mangas.

Um deles tem que ver com as contradições que existem, aparentes ou latentes, entre a visão americana da Aliança Atlântica e das questões militares, proposta pelo Presidente Donald Trump, e a maneira europeia de encarar as Forças Armadas.

Outra, relaciona-se com a questão turca. A Turquia de Erdogan, e de quem o apoia, levanta muitas interrogações. Fala-se disso nos corredores da Organização e em em voz disfarçada, mas ninguém tem a coragem de formular a questão essencial: a Turquia ainda cabe na NATO?

A terceira zona nebulosa relaciona-se com a Rússia. Existem, nas salas onde essas coisas se discutem, duas ou três maneiras de ver esse relacionamento. Mas não há uma linha estratégica clara, para além de uma certa posição de força. Ora, este é um tema fundamental para uma boa parte dos aliados. Essa agenda não pode ser definida apenas pelos generais.

A quarta área de indefinição é sistematicamente varrida para debaixo do tapete. Trata-se de determinar que papel devem desempenhar as Forças Armadas em matéria de segurança, quando uma boa parte das ameaças que hoje surgem na Europa são da esfera das polícias, da inteligência, e não do domínio militar.

A quinta inquietude respeita à falta de direcção política da Aliança. A maioria dos ministros da Defesa são pesos-pluma. Não têm bagagem suficiente para dar uma direcção política à NATO e às questões de defesa. Também não conseguem influenciar as prioridades políticas ao nível das suas próprias nações. Fingem que decidem, quando se sentam à mesa em Bruxelas, mas na verdade navegam ao sabor dos interesses militares e das indústrias de defesa.

Tudo isto merece um outro tipo de atenção. E gente à altura, ao nível da governação e das grandes opções.

 

publicado por victorangelo às 20:33

09
Dez 16

Terminada que está a minha última viagem de um ano de muitas viagens, começa agora o período dos balanços. E, em certa medida, a preocupação é a de encontrar o ângulo positivo das coisas.

Não será fácil. Mas não é uma luta perdida.

Em termos da cena internacional, tem sido um ano de muitas decepções políticas e de grande instabilidade geoestratégica. Em termos mais terra a terra, foi um período de grande sofrimento para muitos, no Médio Oriente, no Norte de África e no Sahel, no Afeganistão e noutros sítios. Aqui, mais perto da nossa porta, foi mais um ano de crise na Ucrânia e no Mar Mediterrâneo, entre os imigrantes e os candidatos ao refúgio. Foi igualmente um tempo em que virou moda atacar o projecto europeu e botar as culpas em cima de Jean-Claude Juncker e de Donald Tusk.

Acabou, acima de tudo, por ser o ano de Donald Trump e o que isso significa em termos de agravamento das intolerâncias nos EUA e das tensões internacionais.

Para além de tudo isto, 2016 surgiu como um período que nos deixa uma enorme interrogação: qual deve ser o nosso desempenho público, que papel assumir, enquanto parte da Europa privilegiada e da elite que tem beneficiado da globalização das relações internacionais?

De imediato, a maneira positiva de ver essa interpelação deve passar pela coragem das opiniões expressas, pela continuação da luta pelo progresso social de todos os que o procuram e pela defesa dos direitos humanos e de liberdade de cada um de nós. Mais ainda, há que estar atento para não se cair nem no pessimismo que nos fecha os horizontes nem na crítica fácil, cínica e demolidora.

publicado por victorangelo às 20:22

26
Abr 12

Numa discussão sobre o futuro do Afeganistão, ficou claro que as duas principais preocupações da população desse país são, primeiro, como seria de esperar, a segurança, e depois, surpresa, o combate à corrupção. Os dirigentes do Afeganistão têm a reputação - e o proveito - de ser profundamente corruptos.

 

Com a União Europeia a dar uma ajuda anual de mil milhões de euros ao governo de Karzai, penso que esta preocupação também deveria ser partilhada pelos europeus. 

publicado por victorangelo às 21:32

20
Mar 12

Numa sondagem de hoje, a que responderam especialistas em questões de segurança, gente próxima da preocupações da Aliança Atlântica, 100% dos inquiridos respondeu que estão convencidos que o governo do Afeganistão não está suficientemente preparado para assegurar a segurança do país, após a partida das forças internacionais. 

 

Um resultado destes faz reflectir. Na melhor das hipóteses, põe em evidência a necessidade de se encontrar uma solução política para a instabilidade e a insegurança do país. Mas uma solução dessas significará que terão que ser feitas muitas concessões aos sectores mais extremistas e conservadores da sociedade afegã.

 

O resultado levanta também uma outra questão fundamental: qual é a sustentabilidade de uma intervenção internacional deste tipo? Que resta, com o tempo, de um investimento da comunidade internacional, que tem tido um custo enorme em termos de vidas e de recursos?

publicado por victorangelo às 20:49

25
Jan 12

Para que se tenha uma outra visão do mundo, para que se compreenda por que motivo os nossos horizontes são considerados, por muitos, como limitados, vou escrever sobre David Lockwood, que hoje faleceu em Londres. 

 

David tinha a minha idade. Fomos colegas na ONU, durante mais de três décadas. Nos últimos 12 ou 13 anos, antes da passagem à reforma, há menos de dois anos, David dirigiu o departamento Ásia, como director regional adjunto, do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento. Conhecia todos os países da Ásia, do Irão às ilhas do Pacífico, trabalhara com os dirigentes de cada um desses países na área do desenvolvimento e estava ao corrente de todas as questões políticas, em cada canto dessa vasta região. Fora representante da ONU no Afeganistão, no Paquistão e no Bangladesh, número dois na China, e assim sucessivamente. 

 

Era um homem com influência, com autoridade para decidir quem seria proposto para representar a ONU em cada um dos países da Ásia, que é o tipo de poder por excelência dentro do sistema onusiano, o de decidir quem vai para onde. Mas nunca o ouvi levantar a voz, cortar na casaca ou diminuir alguém. Antes pelo contrário. Até ao fim, esteve sempre disponível para aconselhar, para evitar que erros fossem cometidos ou que surgissem situações embaraçosas. 

 

Já era responsável pela Ásia quando Timor entrou, em 1999, num processo de independência. Lembro-me da delicadeza do assunto em Nova Iorque, pois ninguém, nenhum estado importante, queria entrar em colisão com a Indonésia. David foi um dos que teve que passar muitas horas no Salão dos Delegados, a desempenhar a tarefa complexa de fazer passar a pílula amarga que era a emergência de Timor como um país soberano. 

 

Pessoas como David têm uma outra visão do mundo. Neste dia de partida, pensemos nisso. 

publicado por victorangelo às 20:10

24
Mai 11

O Presidente dos EUA e o Primeiro-ministro do Reino Unido falaram, hoje, da relação privilegiada entre ambos os países. Classificaram-na de essencial. 

 

Mencionaram as operações em que ambas as forças armadas cooperam, no Afeganistão, na Líbia e nos mares da Somália, contra a pirataria. Curiosamente, o Iraque não foi mencionado. Já saiu, a bem ou a mal, da lista das prioridades militares.

 

Referiram-se à cooperação diplomática e na área da inteligência e das informações de segurança. No combate ao terrorismo. O Sudão e o conflito israelo-palestiniano mereceram um lugar de destaque. O mesmo aconteceu com as transições democráticas no mundo árabe.

 

Não podiam deixar de discutir a situação económica. Nos seus países e de um modo mais lato. Da necessidade de criar empregos. De promover o investimento recíproco. De fazer avançar a investigação científica e tecnológica. 

 

A Líbia foi o grande tema. A campanha militar da NATO arrasta-se. Tem custos elevados. E uma legitimidade tenue, que precisa de ser lembrada a cada passo. Sem contar no impasse político que é cada vez mais evidente.

 

A relação entre Washington e Londres pode ser, na verdade, essencial. Mas talvez se tenham esquecido que não é suficiente. Precisa de uma aliança mais ampla. Como também precisa de um ou dois casos de sucesso, para que se torne mais real e menos retórica.

publicado por victorangelo às 22:56

01
Abr 11

As primeiras informações vindas de Mazar-El-Sharif, no Norte do Afeganistão, dizem que oito membros do pessoal da ONU foram mortos pelos manifestantes que atacaram o condomínio da missão das Nações Unidas nessa cidade. 

 

Após as orações de Sexta-feira, uma multidão dirigiu-se para a sede local da Organização, para protestar contra algo que acontecera na Florida, nos EUA, há várias semanas: a ameaça feita pelo Rev. Jones, um fanático, de queimar um exemplar do Corão. 

 

A situação acabou por ficar fora de controlo. Soldados da ONU, de origem nepalesa, e funcionários civis acabaram por perder a vida.

 

O incidente revelou, uma vez mais, que os soldados das operações de manutenção de paz nem sempre têm o treino e a preparação suficientes para lidar com manifestações de massa, pacíficas ou violentas. Acabam por responder de modo inadequado, o que leva ao agravamento das tensões.

 

Esta é uma das matérias pelas quais me tenho batido. Mas a maneira de ver do secretariado da ONU ainda não evoluiu. Continua a pensar que os militares podem fazer o que deveria caber a unidades do tipo guarda republicana ou polícia do corpo de intervenção. 

 

Infelizmente, assim se perdem vidas humanas.

 

Convém acrescentar que os acontecimentos de hoje são inaceitáveis. As multidões têm que respeitar os obreiros da paz.

publicado por victorangelo às 21:28

02
Mar 11

Passei umas horas, esta semana, a discutir com um dos conselheiros mais próximos do Presidente Medvedev. O homem, professor de ciências políticas e senhor de muitas viagens e estadias no Ocidente, é fascinante. Tem todos os truques da velha União Soviética, que combina com uma linguagem moderna, muito a favor da pluralidade de opiniões. 

 

No fundo, o que o Kremlin parece querer é claro: que seja tratado em pé de igualdade com o Ocidente, que seja visto como um parceiro de confiança.

 

Penso que o Ocidente, pelas informações que tenho, também gostaria de ter uma relação de confiança e de maior cooperação com a Rússia de hoje.

 

Mas a Rússia é ainda um grande mistério. Como todos os mistérios, faz algum medo. Mais ainda. O Estado de direito e a legitimidade democrática do regime são matérias que ainda apresentam um grande potencial de aperfeiçoamento...


Foi isso que tentei explicar ao conselheiro.  

 

Como os velhos hábitos morrem devagarinho, o meu interlocutor fingiu que não percebeu. E eu pretendi que, de facto, ele não havia entendido. O que me permitirá repetir a dose. O diálogo vai continuar. A relação é muito importante.

publicado por victorangelo às 22:30

26
Out 10

O Presidente Hamid Karzai foi agora obrigado a dizer que sim, depois das revelações feitas durante o fim-de-semana pelo New York Times. Que, de facto, havia recebido um saco com vários milhões de dólares, pelo menos seis, oferta do vizinho e pouco recomendável presidente do Irão. Mais. Que isso já havia acontecido no passado recente e que esses dinheiros são utilizados para as despesas políticas da presidência afegã, sobretudo, para recompensar a lealdade de certos apoiantes de má reputação mas com grande força interna.

 

Curiosamente, estes factos tornaram-se públicos na mesma altura em que a Transparência Internacional divulga a sua lista anual de Estados corruptos. O Afeganistão pertence ao grupo dos cinco com pior conduta.

 

Outra curiosidade. Enquanto as relações entre os líderes do Afeganistão e do Irão se vão reforçando, e os sacos de plástico fazem a ponte entre Teerão e Cabul, nota-se que Hamid Karzai está cada vez mais agressivo em relação aos seus supostos aliados de guerra, a NATO e os EUA. Critica, repetidamente, as forcas ocidentais, que se batem no terreno e perdem homens. Está, objectivamente, a tornar a relação com o Ocidente mais tensa e mais difícil.

 

Que fazer, com um parceiro deste tipo? Que posição deve assumir a coligação de países ocidentais? Esta é, mais do que nunca, uma pergunta de grande actualidade. E de grande complexidade. 

publicado por victorangelo às 21:39

21
Ago 10

Um dos truques utilizados pelos serviços secretos é o de tentar manchar o bom nome de um inimigo. É uma maneira simples de tentar retirar credibilidade a quem nos ataca. De o enfraquecer, para que os ataques percam peso.

 

Aparentemente, tal aconteceu nas últimas vinte e quatro horas, em relação a Julian Assange.

 

Julian, o fundador do sítio Wikileaks, havia divulgado milhares de documentos confidenciais, classificados e top secretos, relativos a operações militares aliadas no Afeganistão. Já aqui escrevi sobre isso. Esses documentos revelam aspectos que põem em causa a maneira de operar dos ministérios de defesa dos Estados Unidos e de outros países, bem como as políticas seguidas pelos governos comprometidos no Afeganistão.

Tem mais documentos para revelar. O que ira' acontecer em breve. Por esse motivo, criar complicações de imagem e mesmo de polícia a Julian é uma táctica que seria de esperar. Esta' nos manuais. Ontem, um tablóide sueco, certamente inspirado por agentes especiais vindos sabe-se lá donde, dizia que Julian era procurado pela justiça, acusado que seria de violação e de outro crime sexual, na Suécia. Hoje, isso foi tudo por água abaixo. Já não é procurado. Ou seja, a tentativa de denegrir não deu resultado, que o sistema sueco funcionou. E limpou o nome.

 

Deveriam ter feito a acusação em Portugal. A nódoa teria ficado. Só que ninguém se lembra de Portugal, lá fora. Que alívio, não é?

publicado por victorangelo às 21:32

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