Portugal é grande quando abre horizontes

05
Mai 18

http://portugues.tdm.com.mo/radio/play_audio.php?ref=10359

O link para o meu programa desta semana na Rádio de Macau, um trabalho semanal de equipa com Hélder Beja, um homem de letras, e a jornalista Catarina Domingues. Ambos vivem em Macau há vários anos.

publicado por victorangelo às 17:16

10
Jul 15

Almoço e início da tarde em Serpa e a constatação que essa parte do Alentejo está a mexer e acredita que é possível trabalhar para um futuro melhor.

Deu também para notar a influência dos sítios da internet de conselho aos turistas. Os locais que aparecem mencionados no Trip Advisor, por exemplo, atraem clientes. Mesmo numa terra como esta, que está longe dos circuitos nacionais e internacionais de turismo.

 

publicado por victorangelo às 22:38

06
Nov 14

Texto que hoje publico na revista Visão:

 

Por uma África verde

Victor Ângelo

 

A edição “verde” é como um olhar sobre o futuro. Por isso, escrevo hoje sobre África. Começo por lembrar que sete das dez economias com maior taxa de crescimento económico são africanas. Após duas décadas, as de 80 e 90, de declínio acentuado do rendimento médio por habitante, África, no seu todo, tem conhecido um desenvolvimento sustentado na última dezena de anos. Este é o lado positivo da medalha. Do outro lado, a pobreza continua a ser a caraterística que marca o continente: perto de 70% dos africanos vivem abaixo da linha da pobreza. Esta situação é agravada por uma demografia acelerada. Quando se compara as regiões do globo, a taxa africana de crescimento populacional é de longe a mais elevada. África atingirá os 2 mil milhões de habitantes em 2050, o dobro do valor de agora. Convém ter presente que este crescimento tem uma dinâmica própria, imparável a curto prazo. Os 2 mil milhões serão uma realidade. Tornam, assim, o desenvolvimento de África uma exigência premente e absoluta, um dos maiores desafios para as próximas décadas. Não existe, porém, a compreensão que seria de esperar face à dimensão do problema. Ora, a questão diz respeito a todos, embora de maneira mais aguda aos africanos e aos povos que têm uma relação de proximidade com África. A Europa está manifestamente na linha da frente.

A verdade é que nós, os europeus, não parecemos estar conscientes do tsunami que se aproxima. Aceitamos que vistas estreitas definam o nosso horizonte. Vemos conflitos étnicos, naufrágios no Mediterrâneo, Sida e Ébola, Boko Haram e outros extremismos. Contamos uma dezena de Estados em crise. Ignoramos, no entanto, que existe uma quarentena de países que funcionam mas que são diariamente fragilizados pela explosão populacional e pelo caos das migrações internas para as megacidades.

A boa governação e a transformação económica são as respostas que a pressão demográfica exige. Deixemos de parte, por hoje, as questões da governação. Os decisores em matéria de ajuda, em Bruxelas, Londres, Washington ou Nova Iorque têm aliás, nos últimos vinte e cinco anos, prestado uma atenção desmesurada às dimensões da governação. A transformação económica, que passa por dar a prioridade ao sector energético e à agricultura – o tandem do desenvolvimento económico –, tem sido marginalizada. Mas falemos apenas de agricultura. Em África, o sector agrícola precisa de uma revolução. É preciso ir além das culturas de subsistência, que mantêm no limiar da fome cerca de 2/3 das famílias – estamos perante o único continente em que a produção de alimentos por pessoa diminuiu de modo significativo nos últimos cinquenta anos. E aproveitar os recursos: apenas 20% das terras aráveis são atualmente utilizadas.

Os programas de desenvolvimento e os orçamentos dos Estados africanos têm que voltar a colocar o enfoque na agricultura, investir na formação e nos meios de produção. O agricultor africano utiliza em média 10 quilogramas de fertilizantes por hectare e por ano. Na Índia, o valor ronda os 176 kg. Aos adubos há que juntar sementes de qualidade, irrigação, meios de controlo das pestes e de preservação das colheitas – conheci terras onde cerca de 40% do que era colhido acabava por se perder, por falta de condições de armazenagem, de frio e de acesso aos mercados. Tudo isto é possível. Basta haver vontade política, dar à agricultura a prioridade que nunca deveria ter perdido e pensar, acima de tudo, nas pessoas, na sua segurança alimentar e também na segurança, pura e simples, de todos nós.

 

publicado por victorangelo às 17:43

10
Jul 14

O meu texto de hoje, na Visão que acaba de chegar às bancas, é um condensado das minhas impressões da viagem de carro de Bruxelas a Lisboa, que teve lugar na semana passada.

 

Pode ser lido aqui, a partir do manuscrito que preparei.

 

Da Europa a Lisboa

Victor Ângelo

 

 

Como milhares de compatriotas, emigrantes na Europa, esta é altura do ano em que pego no carro, o encho de tralha e faço o trajecto de Bruxelas para Lisboa. São longos os quilómetros que separam a Europa que funciona de um país que não entende bem os desafios que enfrenta. Por isso, ao longo do percurso, venho matutando sobre os demagogos que continuam a negar a parte de responsabilidade dos políticos lusos no que respeita à situação de desespero económico em que muitos dos residentes em Portugal vivem. Como é possível, cismo enquanto vou atacando a infindável estrada que se desenha à minha frente, que gente com assento na Assembleia da República, que é ou foi ministro ou teve altas responsabilidades nacionais, possa afirmar que a crise não é, acima de tudo, nossa? Querem fazer-nos passar por parvos, além de pobres?

 

Estes pensamentos surgem logo à partida, ao ver as autoestradas da Bélgica a abarrotar de movimento, pessoas, carros e carga, tudo num frenesim de quem não pára, de quem sabe que é preciso ganhar a vida. Continuam depois em França, ao extasiar a vista pelos milhares e milhares de hectares de uma agricultura altamente desenvolvida, virada para os mercados de ponta, alimentares ou da bioenergia. Nas zonas de repouso, ou no hotel, há turistas de muitas origens. Desta vez, partilho a mesa do pequeno-almoço, nos arredores de Bordéus, com um casal australiano, cinco semanas a percorrer a França, com um poder de compra que não precisa de contar os cêntimos.

 

Depois, a Espanha. A transição para a Península Ibérica é visível, a começar pela urbanização, que é mais do tipo dormitório sem alma, na parte espanhola. Da Bélgica entra-se em França, sem que se note. Não é assim, de um lado e do outro dos Pirenéus. Vale-nos San Sebastian, uma cidade linda, bem organizada, rica, cheia de genica e de cultura, uma facada simbólica no nosso orgulho nacional, que não temos cidades de província comparáveis. E o resto do percurso espanhol é feito em autoestradas gratuitas, com gente a conduzir no geral com civismo. Quando uma viatura de matrícula estrangeira ultrapassa de longe os limites, vem logo à ideia que talvez se trate de um português, rebelde como todos nós e ansioso por chegar à pasmaceira da aldeia natal. Entretanto, vamos observando os campos, menos explorados que em França, mas apesar de tudo aproveitados.

 

Chega-se a Vilar Formoso e entra-se na confusão nacional, a começar pelas SCUTS. Os pórticos sucedem-se a uma cadência que deixa alarmado qualquer um que venha de fora. Fica-se com a impressão que a esse ritmo a portagem final vai atingir uma fortuna. Só que este ano, a A23, a caminho de Lisboa, estava deserta. Turistas, não havia. Um ou outro que por ali circulava, não deveria ter entendido como funciona o pagamento da coisa e ia avançando para Sul, cada vez mais perplexo pela profusão de pórticos. Olha-se para os campos, das Beiras e por aí abaixo, e não há produção que se vislumbre. Quem tiver olhos de ver perguntará para que serve o ministério da agricultura.

 

Depois, já na autoestrada do Norte, entramos no Portugal da alta velocidade. Ou seja, num país onde demasiada gente não respeita o código da estrada. Desta vez, vi três ou quatro grandes cilindradas a circular perto dos duzentos. Donde venho, isso seria de imediato severamente sancionado. Aqui é apenas uma maneira rápida de nos lembrar que as forças de segurança não têm meios e que o país está entregue aos atrevidos. Enfim, férias num país diferente, exótico. No nosso canto da Europa.

 

publicado por victorangelo às 12:07

29
Ago 13

O drama dos fogos é, ao fim e ao cabo, o drama de populações rurais, de pequenos camponeses pobres. São eles que sofrem e perdem os seus parcos haveres. São as grandes vítimas. O fogo perpetua a miséria e o abandono.

 

Os senhores da política e do poder são agora gente urbana, que pouca ou nenhuma sensibilidade e afinidade têm, no que respeita a essas populações do campo minifundiário. Por isso não se lembraram dos incêndios quando era preciso tomar medidas de precaução. Preferem remediar, que prevenir não lhes vem à cabeça de meninos da cidade.

 

E remedeiam mal. Com o flagelo dos incêndios a ser uma constante de todos os Verões, não há corpos de bombeiros profissionalizados e treinados especificamente para este tipo de catástrofes. Continua a construir-se a luta contra os fogos na base dos voluntários, que são os grandes heróis, gente da classe pobre urbana a ajudar os pobres do campo. E não há meios suficientes, por muita que se diga o contrário.

 

Há também aqui um problema de gestão das florestas e dos matos, de ordenamento do território. Mas ninguém ouve falar da responsabilidade política dos ministros da agricultura e do ordenamento do território e do ambiente. Eles andam escondidos ou entretidos com outras coisas, enquanto a pequena economia rural arde. Só se pensa na administração interna. É, uma vez mais, a resposta a tomar a primazia em relação à prevenção. Ou seja, mais um exemplo de opções políticas ao avesso.

 

Isto é um inferno de governação e de políticos. 

publicado por victorangelo às 18:06

01
Ago 13

Estive esta semana em Vila Cã, aldeia que é sede de freguesia do concelho de Pombal. Aí se encontram as raízes familiares paternas.

 

Com vista para a Serra do Sicó, a 10 quilómetros de Pombal, Vila Cã é hoje um espelho do que tem sido a modernização de certas zonas rurais portuguesas. Tem estradas por todos os lados, vivendas feitas a preceito, centro social, escola primária, luz e água canalizada.

 

Uma boa parte do progresso resulta da proximidade e da facilidade de acesso a Pombal, cidade que é fonte de emprego e de negócios. O resto é fruto da emigração, que nesta terra foi sempre uma componente inevitável na vida das famílias. Já o meu Avô fora emigrante em França, na segunda década do século passado. Voltou à aldeia por causa da guerra, a Primeira, com uma mão atrás e a outra à frente, mas com os olhos abertos e a cabeça arejada.

 

Partilhas ao longo de gerações levaram ao fraccionamento das terras. Há uns anos atrás, esses minifúndios estavam entregues às silvas. Agora, com a crise, as coisas mudaram. Há mais cultivos, terras melhor aproveitadas. O que falta do lado do emprego e dos salários é, neste momento, compensado com as batatas, as hortaliças e as outras culturas ligadas à economia doméstica. E pelos animais de capoeira.

 

E assim se vai vivendo. Que ficar parado à espera de dias melhores dá para morrer de fome. 

publicado por victorangelo às 22:15

02
Fev 13

Dizem-me que, num país em crise profunda, os deputados se entretiveram a votar uma recomendação sobre a grelha de programas da TV pública. Parece que aconselharam o governo a incluir no canal televisivo oficial uma série semanal sobre batatas e cebolas, couves-galegas e animais de capoeira, e por aí fora, tudo numa perspectiva indefinida e abstracta de uma TV Rural. 

 

A razão deve ser, imagina-se, porque muitos dos habitantes desse país distante estão a voltar a viver ao nível de uma economia de subsistência. Sem contar, claro, que este tipo de resoluções mantém os deputados entretidos, sem que ninguém se lembre de os mandar às favas. 

publicado por victorangelo às 16:44

23
Nov 12

Numa longa discussão, ao fim do dia, com dois filantropos americanos, homens visionários que estão empenhados na promoção de fontes alternativas de energia que façam mover os nossos carros, saindo por isso da total dependência que hoje existe em relação aos produtos petrolíferos, um deles definiu o automóvel moderno como um computador com rodas.

 

Achei que era uma descrição interessante. Mais. Com o avanço diário dos sistemas de software, amanhã teremos carros ainda mais “inteligentes”, talvez mesmo capazes de corrigir muitos dos erros humanos de condução. Só que isso talvez não interesse à indústria automóvel, que sem acidentes não se vendem novos carros...

 

Mas a questão fundamental tem que ver com a produção industrial de carros que funcionem com combustíveis alternativos, incluindo com gás liquefeito, que é uma fonte de energia mais económica, mais amiga do ambiente e abundante em várias partes do mundo.  Uma fonte de energia que não é apenas controlada por meia dúzia de estados instáveis...E que não implica a utilização generalizada de terras agrícolas, como acontece no caso dos biocarburantes, que roubam terras aráveis à cultura de alimentos...

 

Na verdade, as tecnologias necessárias para a utilização de outras fontes de energia já são conhecidas. Não entram, no entanto, nos mercados de modo definitivo, por causa do poder dos lóbis do petróleo. 

 

 

publicado por victorangelo às 21:34

30
Out 12

O texto que escrevi para a Visão Verde que está nas bancas pode ser lido através deste link:

 

http://tinyurl.com/9d44of8

publicado por victorangelo às 20:33

27
Out 12

Este é o meu texto desta semana na revista Visão:

 

Geneticamente falando

Victor Ângelo

 

 

Uma das vezes em que estive em risco de ser "comido vivo" foi em 2001. Aconteceu no seguimento do lançamento da versão em língua portuguesa do relatório anual do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD). O relatório desse ano sobre o desenvolvimento humano, que apresentei numa sessão oficial em Lisboa, tinha como tema o impacto das novas tecnologias na luta contra a pobreza. Uma parte importante do estudo discutia, a partir de uma óptica favorável, a importância das culturas geneticamente modificadas. Foi isto que causou burburinho. Alimentos com manipulações genéticas, nem pensar! Uma amiga de infância, inteligente e viajada, burguesa de esquerda, do tipo rebelde de boas famílias, ter-me-ia então tragado por inteiro, se não fosse felizmente uma vegana militante.

  

Passada uma década, o debate sobre a agricultura biogenética permanece nebuloso. O preconceito define o quadro de referência de muitas das posições sobre o assunto. Sobretudo na Europa, onde a opinião pública tem o hábito confortável de se esquecer do problema da fome que persiste noutras paragens. Ora, as necessidades alimentares actuais, mais as que resultarão do crescimento acelerado da população nas próximas décadas e do aumento do consumo per capita, resultante da melhoria do nível de vida nos países emergentes, exigem que a questão seja mantida na ordem do dia.

 

Segundo a FAO, a organização da ONU para a alimentação e a agricultura, a produção agrícola mundial terá que crescer mais de 70% nos próximos 40 anos. Quem acredite, como acontece com os activistas terceiro-mundistas que vêem a pobreza a partir de Paris ou de Genebra, que será possível alimentar o globo com base no labor dos camponeses tradicionais e nas sementes de origem familiar, vive numa ilusão romântica. Apenas a prática da agricultura comercial em grande escala permitirá responder à procura global. Igualmente, quem pense que o acréscimo da produção será possível por virtude de uma expansão significativa das terras cultiváveis ou da irrigação, não tem em conta a realidade dos factos. Está demonstrado que não será possível abrir um número significativo de novas terras aráveis. A previsão é de um simples incremento de 4 a 5% da área total actual. Por outro lado, a margem de aumento da utilização de água para fins agrícolas é reduzida. A agricultura já consome mais de 70% da água doce que é anualmente utilizada. Muitos dos lençóis aquíferos estão em vias de exaustão. E a competição pela água, um bem escasso e estratégico, será ganha pelas populações urbanas, devido ao seu maior peso político.

 

A segurança alimentar é um desafio fundamental. Não pode haver dúvidas. Como também não deve haver tabus no que respeita à produção transgénica. As culturas alimentares e de consumo corrente de hoje e de amanhã têm que ser mais produtivas, em termos de custos, tonelagem por hectare e de valor nutricional; resistentes às pestes; menos exigentes em termos de irrigação, de fertilizantes e de pesticidas; e capazes de suportar períodos prolongados de seca. As sementes e as variedades que respondem a estes critérios já existem. Por exemplo, o algodão agora produzido na China, e que foi geneticamente modificado, requer dez vezes menos pesticidas que a espécie tradicional. Mas também será necessário continuar a investir na investigação agronómica. A agronomia tem de voltar a ganhar proeminência nas políticas nacionais e comunitárias de investigação científica.

 

Seria um erro pensar que a segurança alimentar é um problema dos outros, que pouco ou nada tem que ver com as preocupações europeias. Num mundo interdependente, uma visão desse tipo leva ao desastre. Por um lado, é de prever que a expansão das culturas destinadas ao fabrico de biocarburantes roube espaço, de modo acelerado, às alimentares. Assim está já a acontecer em França. Por outro, se não houver uma revolução verde em África, a enorme pressão demográfica que esse continente vai viver traduzir-se-á em miséria geral e acabará por gerar ciclones de emigração através do Mediterrâneo. Sem esquecer que na arena global, um pouco por toda a parte, a concorrência com a China e outros países, em matéria de produtos agrícolas de base, será uma luta sem tréguas.

 

Neste contexto, diria à minha amiga que vale a pena voltar a ler o dito relatório do PNUD. E ter presente que o essencial, quando se trata da agricultura, se define em meia dúzia de pontos: apostar na inovação tecnológica; combater a fome; proteger os direitos dos agricultores mais frágeis; preservar a fertilidade dos solos; conservar os recursos aquíferos; e salvaguardar a biodiversidade. 

publicado por victorangelo às 20:34

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