Portugal é grande quando abre horizontes

26
Jun 19

Numa altura em que continua a não haver visibilidade sobre quem será o sucessor de Jean-Claude Juncker, noto que a questão está a abrir um fosso muito grande entre duas nações pilares da União Europeia, a França e a Alemanha. É uma situação inédita e muito séria. A opinião política alemã e certos meios de comunicação social vêem o desacordo como um ataque frontal do Presidente francês contra Angela Merkel e a sua possível herdeira na chefia do partido CDU/CSU, Annegret Kramp-Karrenbauer. Para além, claro de Manfred Weber, o candidato do centro-direita à chefia da Comissão Europeia.

A verdade é que Emmanuel Macron não tem sido prudente na maneira de comentar a candidatura de Manfred Weber. Nem mesmo na observação sardónica que fez sobre o Presidente do Bundesbank, o Banco Central alemão. Macron tem que ser menos arrogante em vários dos comentários que faz. A arrogância dá maus resultados políticos.

Neste caso, abriu uma crise com a Alemanha. Espero que entenda que vai ser necessário um gesto público da sua parte para a ultrapassar. A União Europeia precisa de consensos. Precisa, igualmente, de um Presidente francês que os saiba construir.

publicado por victorangelo às 20:40

24
Jun 19

Temos estado a assistir, em vários países da União Europeia, a uma fragmentação da cena partidária. Os eleitores dividem o seu apoio por toda uma série de facções políticas. Por exemplo, na Holanda o maior partido tem 14% dos votos. Em Espanha, o partido mais votado nas últimas eleições gerais, o PSOE, ficou-se nos 28,7%. Em França, o movimento que apoia Emmanuel Macron faz frente a uma série de pequenos partidos, à excepção da formação de Marine Le Pen, que consegue cerca de 22% dos votos. Na Alemanha, as sondagens mostram um reequilíbrio político, com os votos a serem distribuídos por várias famílias políticas. Idem, na Dinamarca e noutras terras da UE.

A fragmentação também chegou ao Parlamento Europeu.

De um modo geral, a fragmentação faz-se à custa dos partidos tradicionais, do centro-direita, de inspiração democrata-cristã, ou, então, da social-democracia e do socialismo moderado.

O corolário da fragmentação é a coligação. Vários governos assentam hoje em coligações de partidos, algumas delas bem complexas, como é o caso belga. Sem coligação não haveria um governo viável. E as coligações nem sempre unem movimentos políticos próximos, da mesma área ideológica. Exigem, em alguns casos, uma ginástica política inabitual.

Aqui surge uma outra dimensão da vida política europeia de agora, a indefinição ideológica. A análise das ideologias dos partidos está a complicar-se. O velho esquema esquerda-direita já não funciona com a simplicidade de outrora. Certos partidos têm, ao mesmo tempo, propostas de direita e de esquerda, numa amálgama que mistura populismo com nacionalismo, reivindicações progressistas com conservadorismo, liberalismo com o reforço do Estado social, ambiente com radicalismos.

Precisamos de novos prismas de análise. Também, de compreender que a política de hoje já pouco ou nada tem que ver com a que se praticava nos anos oitenta ou noventa do século passado. Estamos num cenário muito diferente, com outros enredos.

 

 

publicado por victorangelo às 13:02

11
Mar 19

Na Alemanha, 67% dos eleitores querem que Angela Merkel vá até ao fim da presente legislatura. É uma percentagem apreciável, sobretudo se se tiver em conta que a Chanceler está no poder desde 2005 e que deixou, no final do ano passado, de ocupar a liderança do seu partido, a CDU. Mas a situação da coligação que dirige é frágil, sobretudo com o outro lado, o partido Social-democrata, a perder apoio eleitoral. Se esse declínio se confirmar nas eleições regionais que terão lugar no próximo semestre, nos “landers” do leste, é muito possível que os sociais-democratas saiam da coligação e que o governo de Merkel seja forçado a fazer as malas.

Quando Merkel sair, deverá entrar a actual líder do seu partido, Annegret Kramp-Karrenbauer (AKK). Esta senhora tem uma boa base de apoio dentro da CDU. Além disso, poderá conquistar votos à direita, incluindo junto dos eleitores que agora se aproximam da extrema-direita, do partido Alternativa Para a Alemanha (AfD). São votos que Merkel perdeu, sobretudo depois da crise migratória de 2015, mas que Kramp-Karrenbauer deverá saber recuperar.

AKK é uma líder mais directa, mais pão, pão, queijo, queijo. Mostrou-o agora, ao responder à mensagem que o Presidente francês enviara aos europeus na semana passada. Sem demoras, e sem rodeios, AKK veio dizer-nos que não está de acordo com Emmanuel Macron. E, nalgumas matérias, entrou mesmo em choque. Assim aconteceu com a questão de um assento permanente para a Europa no Conselho de Segurança das Nações Unidas. AKK quer que o lugar que corresponde à França passe a ser utilizado colectivamente, em nome da UE. Sabe que esta proposta nunca será aceite em Paris, nem pouco mais ou menos, mas não hesitou em fazê-la. É uma maneira de marcar posição. E servirá como travão. Cada vez que a França propuser algo que desagrade à Alemanha, Berlim voltará a pôr esta ideia em cima da mesa. E outras semelhantes, como por exemplo, acabar com a sede do Parlamento Europeu em Estrasburgo, uma proposta com lógica, mas que deixa os franceses com uma dor aguda do lado do coração patriótico.

As declarações de um lado e do outro mostram que há uma divergência importante entre os dois principais países motores da construção europeia. E, sabendo o que sei, vai ser a posição de Berlim que vai pesar de facto em Bruxelas.

 

publicado por victorangelo às 21:04

22
Jan 19

Emmanuel Macron e Angela Merkel assinaram hoje um novo tratado de cooperação entre os seus dois países. A cerimónia teve lugar em Aix-la-Chapelle, na Alemanha, muito perto da fronteira com a Bélgica. Trata-se de uma cidade que significa imenso, na história das relações franco-alemãs. Uma cidade simbólica, que serve de última morada ao Imperador Carlos Magno (742-814), um líder que, no seu tempo, tinha uma visão unificadora da Europa.

Sugiro que se faça uma leitura positiva do que agora foi assinado. Ambos os dirigentes querem que os seus países contribuam mais efectivamente para a construção europeia, nas áreas da política, da economia e em matérias de defesa. Estão preocupados com os ataques contra a União Europeia que vários governantes e sectores populistas têm desencadeado. E que planeiam aprofundar, tendo em vista as eleições europeias de Maio de 2019.

Mas o acordo não se limita ao curto prazo. Nem se limita aos interesses da França e da Alemanha. Os outros países da UE também ganham se houver um maior entendimento entre dois dos grandes Estados da União. Que estão, aliás, no centro da geografia e da política comum. E são as duas maiores economias do espaço europeu.

É esse impacto mais geral que deve ser sublinhado.

publicado por victorangelo às 20:59

05
Mai 18

http://portugues.tdm.com.mo/radio/play_audio.php?ref=10359

O link para o meu programa desta semana na Rádio de Macau, um trabalho semanal de equipa com Hélder Beja, um homem de letras, e a jornalista Catarina Domingues. Ambos vivem em Macau há vários anos.

publicado por victorangelo às 17:16

14
Abr 18

http://portugues.tdm.com.mo/radio/play_audio.php?ref=10245

Acima vos deixo o link para o programa desta semana sobre a Europa, uma produção semanal da Rádio TDM de Macau. Desta vez, faço uma leitura das eleições gerais na Hungria, da onda de homicídios entre jovens em Londres, de Carles Puigdemont na Alemanha, e dos roubos de dados pessoais feitos por empresas parceiras do Facebook.

publicado por victorangelo às 20:41

18
Fev 18

Na semana que passou, no quadro da minha colaboração semanal com o Magazine Europa, expus as minhas vistas sobre a situação nos Balcãs e o futuro, perante uma possível adesão desses países à UE, bem como sobre a política interna alemã, no seguimento da aprovação de um acordo de governo entre os democratas-cristãos e os sociais-democratas, e ainda, uma vez mais, sobre as novas peripécias à volta do Brexit.

O programa está disponível no site da Rádio Macau:

http://portugues.tdm.com.mo/radio/play_audio.php?ref=9886

publicado por victorangelo às 21:19

19
Jul 17

http://portugues.tdm.com.mo/radio/play_audio.php?ref=8981

Acima fica o link para os meus comentários desta semana no Magazine Europa da Rádio TDM de Macau.

Falo do véu islâmico, das distintas dimensões da aliança entre a França e a Alemanha - sobretudo na área da defesa -, e finalmente, sobre a Turquia e o seu relacionamento com a UE.   

publicado por victorangelo às 21:31

17
Jun 17

É absolutamente necessário deixar aqui uma palavra de admiração por Helmut Kohl. Foi um gigante, em todos os sentidos. Um exemplo de liderança política: determinado, com ideias claras, nacionalista mas ao mesmo tempo profundamente europeísta. Fez avançar a construção europeia como poucos o haviam feito. E compreendeu que a Alemanha, por muito poderosa que possa ser, precisa da Europa. A maneira como os alemães vêem a UE inspira-se, em grande medida, nas mensagens que Kohl conseguiu fazer passar junto dos seus compatriotas.

Partiu numa altura em que UE está de novo a ganhar alguma força, quando o pior da crise europeia parece estar a passar. Fica-nos essa consolação. Mas Helmut Kohl não acharia isso suficiente. Temos, enquanto europeus, que voltar a ser ambiciosos.

publicado por victorangelo às 20:44

07
Jun 17

Os meus comentários esta semana. Magazine Europa é um programa da Rádio TDM de Macau sobre questões europeias. Sou o comentador residente do programa.

Os comentários centram-se nas relações entre a Europa e a China, o papel que podem desempenhar na liderança das questões climáticas, no futuro das relações europeias com os Estados Unidos, incluindo os aspectos de defesa, e ainda sobre os principais traços do orçamento europeu para 2018.

Pode ser ouvido através do seguinte link:

http://portugues.tdm.com.mo/radio/play_audio.php?ref=8797

publicado por victorangelo às 20:16

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