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Vistas largas

Crescemos quando abrimos horizontes

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Crescemos quando abrimos horizontes

O Alentejo sabe o valor das pessoas

Tinha uma velha carteira em couro que precisava de ser cosida, pois tinha rebentado pelas costuras. Há anos. Na Bélgica primeiro, depois em Lisboa, sempre sem conseguir encontrar alguém que pudesse fazer o trabalho. Já não se encontram artesãos do couro, por muito que se procure.

Com excepção da província, do Alentejo profundo. Aqui em Ferreira do Alentejo, pedi a alguém, que sabe quem sou, se haveria um sapateiro ou artesão similar que me pudesse ajudar. Havia, sim senhor. O homem já não vive do conserto dos sapatos – agora todos calçam chinês e deitam fora, quando se estraga –, tem outras ocupações, mas estava disposto a fazer o trabalho, ao fim de um dia de labuta na plantação de vinha que o faz viver.

E assim foi. A carteira ficou reparada a preceito. E o homem não quis ser remunerado. Achou que era uma honra fazer esse trabalho para um antigo alto quadro da ONU.

Fiquei a pensar que por aqui vive-se num mundo diferente, em que a honra conta e vale muito. Certamente mais do que a minha velha carteira e do que muitos políticos pensam valer.

Um velhote que não o deveria ser

A subida não era muito pronunciada. Mesmo assim, o ciclista que veio ter comigo, na parte mais alta da rua, vinha esbaforido. Mal se aguentava nos pedais. Olhei para ele e vi que era uma pessoa de idade avançada. E isso explicaria tudo.

Erro. Na verdade, não explicava nada. O homem, um alentejano de gema, mais ainda do que eu, disse-me que havia nascido, aqui nesta mesma terra, em 1958. Ou seja, eu, que lhe dava perto de oitenta, tive de reduzir a estimativa da sua idade para a realidade dos 63 anos.

Explicou-me que trabalhava no duro desde a idade dos 10 anos. O pai dissera-lhe que na casa deles, só podia comer quem, já sendo capaz, trabalhasse. E ele assim o fez. A escola primária – a 4ª classe – foi feita ao fim do dia, depois de uma jornada de trabalho.

Assim era o Alentejo daqueles tempos, do Estado Novo, que nada tinha de novo nem de moderno, nem mesmo de humano, antes pelo contrário. Assim era a miséria de quem nada tinha, para além da infelicidade de ter nascido numa família pobre.

E o que vi hoje foi um fim de linha de um passado que ainda tem um impacto nas terras mais recuadas. No Alentejo, por exemplo.

Agosto no Alentejo

Hoje o fim do dia foi sobre pizza. A questão era simples, mas essencial: onde encomendar pizzas para sete, quando se está numa vila do interior alentejano? Mas os meus batedores são de primeira e depois de muitas voltas, conseguiram encontrar um sítio que estava pronto para as cozinhar. E assim foi, embora com uma outra dificuldade acrescida. Uma encomenda tão grande estava para além das capacidades habituais. Por isso, os trinta minutos de espera que haviam sido enunciados transformaram-se numa hora e quarenta. Tudo feito a preceito, mas era na verdade um grande desafio, bem fora do habitual. Agosto é, na verdade, um mês que muda as rotinas da tranquilidade alentejana.

Uma vila alentejana

Estive hoje numa loja de roupa, um pronto-a-vestir para ambos os sexos, na rua de Ferreira do Alentejo que mais comércios tem. A proprietária disse-me que está há 49 anos atrás do balcão, uma vida a vender modas e a elegância possível. E continua, passadas tantas décadas, com o mesmo entusiasmo e a mesma simpatia, embora as pernas já não aguentem o que costumavam aguentar em anos e anos passados.

Estas terras do interior são feitas de gentes assim. Pessoas que não desistem e apenas pedem à vida saúde e forças para continuar. E que as burocracias as deixem em paz.

Mas a idade avança e as novas gerações já não se contentam com um futuro assim. Por isso, com o tempo, as vilas têm cada vez menos estabelecimentos comerciais. E um ou outro que se safa do envelhecimento acaba por ser aberto por uma nova categoria de pessoas, os imigrantes recentes. Assim acontece umas portas mais à frente, com um comércio agora gerido por gente mais jovem vinda do Brasil, ou do outro lado da rua, onde o barbeiro abriu uma loja que fala as línguas da Índia distante.

Assim se transforma uma parte da paisagem humana no interior do Alentejo.

  

Tudo se sabe, nestas terras

Passei hoje por uma pequena localidade de Alentejo, onde tenho duas pessoas conhecidas. De manhã, dei uma volta a pé pela vila. A determinada altura, numa das praças, estava um homem a grelhar uma série de frangos, em resposta a encomendas que havia recebido. Parei para ver as suas artes. Olhou para mim e disse-me que sabia quem eu era e porque estava por ali. E sabia mesmo. Nestas pequenas terras não há segredos. Basta conhecer alguém e depois, o resto espalha-se. Com simplicidade, sem más intenções.

Respondi que sim e que era de Évora. Ser de Évora continua a ser uma mais-valia. E esta, não paga imposto

O tempo das cerejas

O tempo das cerejas está a chegar ao Alentejo. E as caixas das ditas são todas de origem espanhola. Vendidas à beira das estradas, por particulares que enchem carrinhas com a mercadoria, não deu para perguntar qual é o circuito de comercialização que é seguido. Tudo parece seguir rotas informais. Só sei que 10 euros permitem levar dois quilos para casa. 

Um descontrolo migratório e as suas diferentes dimensões

A presença de jovens imigrantes a trabalhar nas grandes herdades do Baixo Alentejo e a viver nas localidades da região, em condições péssimas, é algo que só não vê quem não quer. Muitos vieram da Índia, outros do Nepal ou do Bangladesh, não se sabe bem como nem se entende como conseguiram entrar nesta parte do espaço Schengen que é Portugal.

Há dois anos, estive um par de semanas em Ferreira do Alentejo. A primeira surpresa que me entrou pelos olhos dentro foi a de ver dezenas de Sikhs e outros indianos nas ruas da localidade, ao fim do dia. Trabalhavam todos num gigantesco empório de produção de uva de mesa, que tem a sua sede a pouco quilómetros de Ferreira e que é muito conhecido nas prateleiras dos grandes supermercados. Percorrer as ruas da terra permitia notar que ocupavam, aos magotes, alojamentos antigos e minúsculos, casas onde outrora viveram pequenas famílias pobres de Ferreira.

De toda a região, era sabido que Odemira era a campeã na exploração do trabalho imigrante.

De um dos lados da medalha estão quem traz para Portugal, organiza e explora essa mão-de-obra. Do outro, estão as autoridades e os políticos que vivem do fingir que não vêem o que se está a passar nem entendem que por detrás de tudo isto existem várias ilegalidades e muita exploração dura e pura da miséria.

Quem mora perto da representação consular da Índia no Restelo tem notado que as filas diárias de jovens indianos à porta da embaixada têm crescido imenso no último ano. Há cada vez mais imigrantes à procura de papéis e certificados que lhes permitam iniciar um processo de legalização no SEF.

Uma loja de indianos perto do Ministério da Defesa, que tem como actividade comercial a venda de produtos ligados às telecomunicações, serve como ponto de apoio administrativo a esses jovens. É um apoio legítimo e muito apreciado. O empregado disse-me, recentemente, que há cada vez mais indianos em Portugal, e que não estão apenas no Alentejo. Graças a esses novos residentes, o empregado já sabe o nome de vários concelhos do nosso país, incluindo da Guarda e de outros distritos.

Perante isto, talvez fosse altura de se perceber melhor o que se passa com a imigração em Portugal. Estamos, certamente, perante problemas humanitários, legais e políticos.

 

 

 

A minha nota adicional sobre a eleição de ontem

Muito se tem dito e escrito sobre a eleição presidencial de ontem, incluindo sobre a minha região natal, o Alentejo. Compreendo. Os resultados contêm mensagens políticas importantes, que não podem ser ignoradas. Certos partidos vão ter de ajustar a maneira como fazem política. A sociedade portuguesa está a mudar. O discurso político tem de se adaptar a essa mudança, ao facto de que as pessoas têm mais informação e opiniões mais vincadas. A maturidade e a coragem são dois elementos que definem o eleitor português dos nossos dias.

Mas, para mim, a mensagem mais importante é sobre liderança. A maneira de liderar uma corrente de opinião, o comportamento em público, a clareza do que se comunica e a imagem de mãos limpas são agora questões de muito peso. No caso de agora, ganhou quem conseguiu projectar uma imagem de sensatez, de abrangência e de competência.

Ainda sobre a liderança, quem transmite uma imagem de exaltação não vai além de uma certa percentagem. A maioria dos portugueses não compra esse tipo de comportamento. Como também já não compra agendas políticas que se baseiam apenas num par de questões, por muito nobres que possam parecer. Os cidadãos têm agora uma visão mais ampla da vida e do destino que querem para o país. Sabem que os excitados e os curtinhos de ideias não servem para o futuro que queremos ter.

Hoje é sobre o azeite

A expansão do olival, sobretudo no Baixo-Alentejo, levanta várias questões de fundo, nomeadamente no que respeita à pressão que exerce sobre os recursos em água do Alqueva e à rentabilidade futura das explorações agrícolas, sem esquecer que a monocultura extensiva tem um impacto ambiental que não pode ser ignorado .

Entretanto, soube-se agora que o preço do azeite extra-virgem nos mercados mundiais está em baixa, este ano. Uma descida significativa. No caso de Espanha, que produz à volta de 53% do azeite mundial, a quebra no preço (medida no valor por unidades de 100 kg) é de cerca de 25%. Quanto à Itália, outro grande nome nos mercados internacionais, o decréscimo no preço ronda os 33%.

Dois factores explicam a perda de valor. Existe, em 2019, excesso de produção. Por outro lado, o mercado americano – que poderá ficar mais difícil de aceder se o Presidente avançar com a aplicação de tarifas aduaneiras ao azeite europeu, como já o ameaçou fazer – não cresce. O consumo de azeite per capita nos Estados Unidos é baixo – cerca de 10 vezes inferior ao de Portugal – e não está a crescer. Na verdade, há aqui um problema de hábitos alimentares, que pediriam uma campanha de marketing muito bem pensada.

Ou seja, este é um sector que precisa de orientação.

No Alentejo

Estou, por uns dias, numa pequena localidade do Baixo Alentejo. Sede de concelho, numa zona agrícola que se modernizou muito nos últimos anos, deixa-me uma primeiro impressão: não há sinais de crescimento populacional, de aumento do tecido urbano. Não vejo bairros novos, mas sim, casas à venda e outras que devem estar fechadas há muito. A Câmara tenta cativar os residentes mas, à primeira vista, os mais novos saíram e a pirâmide de idades inclina-se para os de maior idade. Dizem-me que não há falta de trabalho nos campos, nas novas culturas comerciais, mas quem, nos grupos etários jovens, quer trabalhar na agricultura? Aparentemente, uma parte desses trabalhadores serão imigrantes.

Este é um Alentejo que se transforma, mas que, ao mesmo tempo, fica igual para muitos dos habitantes mais avançados na idade. Tem-se escrito e falado pouco ou quase nada sobre as mudanças que estão a ocorrer. Os sociólogos passam pelo Alentejo sem o ver.

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