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Vistas largas

Crescemos quando abrimos horizontes

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Crescemos quando abrimos horizontes

Esta crise é a sério

O Primeiro-Ministro britânico anunciou hoje que o governo irá investir muito dinheiro em obras públicas, com uma especial referência a hospitais, escolas e estradas. Não sei donde virá esse dinheiro, tendo presente o grau de endividamento das contas públicas do país.

 Reflectindo sobre esse anúncio, é claro que Boris Johnson quer mostrar que Reino Unido não ficará atrás dos investimentos que irão ser feitos no quadro da União Europeia, também em resposta ao impacto da pandemia. Por outro lado, obras públicas são uma velha receita quando há uma crise económica muito profunda. É isso que ele está igualmente a revelar, que isto é a sério E que se trata de uma crise que está para durar. Como também será o caso na União Europeia.

Estamos, na verdade, perante um desafio enorme. O caminho proposto pela Comissão Europeia parece-me mais adequado do que a ideia de obras públicas. É uma aposta na modernização da economia, na transformação da pegada ecológica, na biotecnologia, no reforço dos sistemas de saúde. Terá menos cimento do que o plano de Johnson, mas mais ciência e inovação. E assenta na dinâmica empresarial. Mas tem que avançar rapidamente. A aprovação do plano europeu tem que ser feita na cimeira de julho, sem falta. Foi isso que, indirectamente, Johnson nos veio lembrar.

Mudar de rumo após a crise

Com a saída progressiva do confinamento, estão a aparecer vários grupos de discussão sobre as mudanças que deveriam ocorrer, na nova era que se segue à crise do coronavírus. A intenção é clara e generosa: reconstruir o que foi desestruturado mas fazê-lo com grande respeito pelas pessoas e pela natureza. Ou seja, reorganizar a sociedade e as economias de um modo mais inteligente, saudável e sustentável. As ideias não serão novas. Há algum tempo que se fala da necessidade de mudar o mundo. O que é novo é o ímpeto que esse movimento de ideias está a ganhar. Esse ímpeto existe porque estamos perante uma oportunidade de mudança.

A grande questão continua a ser a do poder. Como influenciar quem tem poder, seja ele político ou económico. Essa questão não é fácil de responder. Greta Thunberg e Malala Yousafzai mostraram que é possível chegar aos ouvidos do poder. E obter promessas. Há que continuar nessa via, mas com mais vozes e grandes alianças de gente influente. Este é o momento, por exemplo, que deveria captar as atenções dos multimilionários altruístas e dispostos a financiar grandes causas. Têm agora uma oportunidade única de influenciar o rumo de certas visões do mundo de amanhã. A filantropia é uma prática que pesa muito nalguns países, sobretudo nas economias mais avançadas.  

No entanto, o poder está acima de tudo nas mãos de quem controla os Estados. Quando o Ministro das Finanças francês, Bruno Le Maire, anuncia, como o fez hoje, que o seu governo já mobilizou 450 mil milhões de euros para voltar a pôr a economia nacional de pé, ficamos a perceber onde está a capacidade de influenciar as coisas. Também percebemos que a preocupação de quem está no topo da pirâmide política é claramente a de voltar à situação que existia em Fevereiro. Não parece haver a preocupação de desviar o percurso. Creio, no entanto, que muito do que aí vem será diferente do que se conhecia no início do ano. Por isso, há que continuar a discussão sobre um mundo diferente.

Os tempos do futuro

Agora, é preciso ser-se realista e optimista, ao mesmo tempo. O realismo permite-nos compreender que a recuperação das economias vai ser dura, exigir muito trabalho e um quadro político favorável. O optimismo dir-nos-á que o futuro não pode ser uma mera cópia do passado. Terá que ser melhor, mais atento à segurança das pessoas, incluindo a sanitária, mais responsável perante as grandes questões do ambiente, assim como mais aberto à cooperação entre os povos e os seus governos.

Não vai ser fácil. Os traumatismos da crise que vivemos levam-nos a uma situação de dependência em relação aos governantes, à crença que o Estado tem que resolver tudo e que nós só temos que pedir e esperar. Levam-nos, nalguns casos, a aceitar sem pestanejar a autoridade abusiva de quem ocupa os lugares de mando. Não creio, no entanto, que a democracia esteja em perigo, com a excepção dos casos conhecidos. Mas é bom recordar, a quem precisa de ser recordado, que as autocracias não são aceitáveis. Esta é uma tecla em que será preciso bater muitas vezes.

Aos populistas e demagogos, convém dizer que não, que os nacionalismos extremistas não serão a moeda do futuro. O mundo está e estará confrontado com grandes problemas partilhados por todos. Apenas as respostas coordenadas poderão ser a solução. Para além disso, o equilíbrio em relação às superpotências pede que nos unamos, a nível regional. Só assim poderemos fazer frente aos gigantes geopolíticos e económicos. E, por muito simpático que possa parecer, um gigante é sempre ameaçador.

O optimismo vai ser o tema do mês de maio. Todavia, para vingar, precisa de exemplos positivos e de um reabrir das relações internacionais. Aqui, nesta área, seria fundamental propor uma iniciativa que mostrasse que a comunidade internacional compreende a necessidade de acções conjuntas. Precisamos de uma cimeira da reconstrução e de desenho do futuro.

Reorientar a nova economia

A reconstrução das economias europeias deve ser feita com dois tipos de recursos, caso não existam meios próprios da empresa. Empréstimos de longo prazo e financiamentos a fundo perdido. Em ambos os casos, deveriam ser definidas linhas prioritárias, sectores estratégicos, empresas de interesse nacional ou regional, actividades de ponta, que seriam os principais beneficiários dos novos recursos. Sobretudo no que respeita aos financiamentos não-reembolsáveis. Uma política económica deste tipo permitiria uma reestruturação do tecido económico, que tivesse em conta as dimensões estratégicas, o respeito pelo meio ambiente e a sustentabilidade, o encorajamento dos avanços tecnológicos e a geração de empregos.

A liderança política deveria estar já a trabalhar na definição dessas orientações de política económica.

 

O mundo que aí vem

Hoje fechou a Rússia, por um mês. Cerca de um terço da população mundial está agora confinada. Uma situação destas deverá acarretar profundas alterações, em todos os domínios, uma vez terminada a crise. A reflexão sobre o mundo novo já está em curso, aqui e lá, cada um no seu canto e de modo muito incipiente. Os políticos prefeririam que tudo voltasse a ser como dantes, como em Janeiro de 2020. Seria como um simples despertar de um pesadelo horrível. Creio que não será assim. A maneira de trabalhar, a organização da economia, as viagens e o relacionamento com o longínquo, o pensar estratégico, as relações entre as pessoas, a atitude perante a natureza e o ambiente, as escalas de valores e o discurso social, tudo isso poderá conhecer transformações profundas. Penso que seria importante pôr um grupo de reflexão em marcha, com o objectivo de reflectir sobre essas possíveis alterações. Talvez isso pudesse ser uma iniciativa do Secretário-geral da ONU. Ou de uma fundação com The Elders.

O clima que nos desafia

O dia esteve de tempestade. Chamaram-lhe Dennis. Há dias tinha sido a Ciara. São nomes bonitos, mas dias feios e perigosos. Com a Ciara, uma árvore do meu vizinho caiu no meu jardim. No dia seguinte, já estava tudo tratado, a árvore cortada e o jardim pronto para a tempestade de agora.

Por outro lado, tivemos um mês de Janeiro seco e com temperaturas acima do que é normal. O mesmo está a acontecer com Fevereiro. Os arbustos aqui de casa já estão a desabrochar, coisa que normalmente só acontece na segunda quinzena de Março.

Tudo isto nos lembra que o clima está a mudar e que é preciso responder a esse desafio sem demoras. António Guterres lembrou hoje, a partir de Islamabad,  que esse é o desafio mais importante que temos pela frente. Ao dizer isso, referia-se às consequências que resultarão do aquecimento global, da subida das águas dos oceanos, das intempéries de grande dimensão e frequentes, bem como à perda da diversidade natural.

É certamente um desafio maior. O problema é que os discursos dos dirigentes políticos não são seguidos por factos, por mudanças profundas e estruturantes. É verdade que não é fácil alterar todo um modo de produção e de vida. Mas tratando-se de uma questão global, é essencial que as medidas sejam tomadas em concerto, que haja uma resposta global e harmonizada.

E já agora, como Guterres se encontra no Paquistão, quero lembrar que outro problema maior é do poder político ser usurpado, em várias partes do mundo, por elites entranhadamente corruptas.

 

 

 

Um frio de rachar

Morre-se de frio em Portugal. Quando telefono aos amigos, está tudo a tremer com frio, nas suas casas, nas repartições públicas, nas escolas, nos hospitais, em toda a parte. Esse é um dos sinais das imensas dificuldades que a maioria das famílias sofrem. O dinheiro não chega para tudo, em particular para o aquecimento. Temos aqui mais uma prova que os salários médios estão abaixo das necessidades básicas. Tudo isso causa um grande desconforto quotidiano e acarreta problemas de saúde.

Não consigo falar aos meus amigos belgas sobre o frio que a as famílias portuguesas têm que enfrentar. Não entendem. Com as casas e os lugares públicos a uma temperatura confortável, não conseguem visualizar que isso não aconteça num país europeu como Portugal. Um ou outro que vai agora a Lisboa de férias acaba por sentir na pele o que eu quero dizer. Uma amiga minha esteve recentemente num estúdio B &B na zona de Santos e ia morrendo de frio. Não havia radiador algum no alojamento. Como é uma pessoa desenrascada, resolveu o problema com os meios disponíveis – ligou o forno eléctrico que estava na kitchenette, abriu-lhe a porta e aumentou a temperatura da sala única de um ou dois graus. Deu para sobreviver. Nem quero imaginar qual será a factura de electricidade que o proprietário verá aparecer no final do mês.

 

 

17 a 17 de Dezembro

Quando saí de casa, às três da tarde, a temperatura exterior era de 17 graus centígrados. Tive que olhar duas vezes para o termómetro, para poder acreditar. 17 graus, no dia 17 de Dezembro, em Bruxelas, só dava para ficar com os olhos esbugalhados. Uma temperatura absolutamente inacreditável, nesta altura do ano, nesta cidade.

Já ontem se tinha falado, na comunicação social, dos 15 graus registados em várias partes da cidade.

O clima anda maluco. Só não o vê quem não quer. Ou, então, é político e acha que que o melhor é deixar andar. Essa é, aliás, a maneira de pensar de muitos políticos. Deixar andar, fingir que não há problema, tratar do imediato e não fazer ondas.

 

COP 25 e as centrais a carvão

Na altura em que se tenta concluir a conferência da ONU sobre o clima, que está a decorrer em Madrid há duas semanas, convém lembrar que os três bancos gigantes japoneses – Mizuho, Mitsubishi UFJ Financial Group e o Sumitomo Mitsui Banking Corporation – ocupam os primeiros lugares no que respeita ao financiamento de novas centrais a carvão. Sim, a carvão. Em quarto lugar, está o banco americano Citigroup. O muito europeu e certinho BNP Paribas ocupa a quinta posição.

Greta Thunberg

Neste dia em que Greta Thunberg desembarcou em Lisboa, quero uma vez mais sublinhar o papel fundamental que esta jovem muito jovem tem desempenhado em termos de activismo sobre a crise climática. A sua mensagem é clara: senhores políticos, homens e mulheres, oiçam o que dizem os cientistas, assumam a urgência da questão e tomem medidas concretas, que estão ao alcance do vosso poder, enquanto governantes.

Saloios de vários tipos, e outros brincalhões com falta de senso, têm atacado a pessoa e a mensagem. Isso voltou a acontecer hoje, na ocasião da sua passagem por Lisboa. É gente que não está a perceber a dinâmica do mundo de hoje.

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