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Vistas largas

Crescemos quando abrimos horizontes

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Crescemos quando abrimos horizontes

António Costa e a ONU

O discurso do Primeiro-Ministro António Costa, proferido hoje perante a Assembleia Geral das Nações Unidas, foi positivo e abrangente. Disse tudo o que se espera de quem apoia o sistema onusiano e acredita na cooperação e nas parcerias internacionais. A ligação que fez entre desigualdades sociais, segurança internacional, crescimento demográfico e degradação do ambiente foi inteligente. Falou ainda do alargamento do Conselho de Segurança, como fazendo parte da reforma do mesmo, e aproveitou para marcar pontos junto do Brasil, da Índia e de África. As referências feitas à dignidade humana e aos direitos básicos das pessoas completaram bem o quadro. Falou durante mais ou menos 13 minutos, o que é um tempo apropriado. Seria importante que houvesse  versões escritas em inglês e francês do seu discurso.  

Um Costa com medo dos comunistas

Quando todos sabemos que há um novo surto de contágios por vários países da Europa, incluindo nesta nossa parte do Continente, e que a situação de pandemia irá ficar mais grave depois do regresso de férias, do começo das aulas e com a chegada do Outono, eu não compreendo os riscos que o Primeiro-Ministro está pronto para assumir perante a teimosia do Partido Comunista. São riscos de saúde pública. Óbvios, indiscutíveis. E são riscos políticos, pois a falta de coragem de António Costa terá certamente custos em matéria de apoio eleitoral. Que os comunistas insistam na realização da festa, eu entendo. Por essa Europa fora, esses tipos de eventos foram simplesmente adiados. No caso português, os dirigentes do PCP querem mostrar que são capazes de intimidar o governo. E estão a consegui-lo. O PM tem medo deles.

Contingências

Continuo sem entender a razão que levou o Conselho de Ministros a anunciar que será declarado um estado de contingência para todo o país a partir de 15 de setembro. A isso acrescentou que ainda não decidiu que medidas estarão incluídas na contingência. Essas medidas só serão decididas uma semana antes.

Temos aqui várias questões.

 Primeiro, os dados actuais mostram que há um aceleramento do número de contágios. Conviria que houvesse um apelo público do Primeiro Ministro para lembrar as medidas e os comportamentos que se esperam dos cidadãos. Seria uma chamada de atenção, apresentada como um acto de confiança no sentido cívico dos cidadãos.

Segundo, o anúncio de um futuro regime de contingência é um desencorajamento para potenciais turistas que estariam a planear uma visita a Portugal para a segunda metade de setembro. O impacto disto na economia do turismo é evidente.

Terceiro, estas decisões precisam de ser bem explicadas à população. A senhora ministra não o conseguiu fazer. Não sei qual é a explicação. Mas fica a impressão que a coisa não foi discutida a fundo na reunião do Conselho de Ministros. Ou então, que se trata de uma jogada política e que não se quis abrir o jogo.

O Presidente, entretanto, fez um comentário de alinhamento total com o governo. Não parece bem. Deveria dizer apenas que se o governo decretar a emergência haverá que a cumprir. O Presidente fala demais e sobre matérias que são da exclusiva responsabilidade do governo.

Quem fala pouco ou nada é o chefe do PSD. É um exemplo de uma oposição sem posições.

Visitar Orban é um erro político

Eu não teria visitado o Primeiro-Ministro da Hungria, Viktor Orban. Ele representa aquilo que a União Europeia não pode aceitar no seu seio, os ataques à democracia, à liberdade académica, às organizações de cidadãos, às personalidades com raízes judaicas, aos valores da modernidade e da inclusão. E também não afirmaria, com aquele ar de esperto que só engana os tolos e que é saudado pelos oportunistas da mesma família política, que não há qualquer ligação entre a falta de respeito pelos direitos humanos e o acesso aos fundos europeus.

Orban ataca a Europa quando lhe convém, comete transgressões diárias contra os princípios do Estado de direito, mas quer que a massa continue a correr de Bruxelas para Budapeste, aos milhões e sem condicionalismos. Eu dir-lhe-ia que não. Que, na nossa União, a política e a economia estão entrelaçadas. E dar-lhe-ia um conselho, mas de longe, sem o visitar: a democracia e o respeito pela diversidade devem ser vistos como essenciais, no processo de construção da solidariedade europeia.

Refletir sobre a imagem que temos

O Primeiro-Ministro encontrou-se hoje, em Haia, com o seu homólogo holandês, Mark Rutte. Foi uma boa iniciativa, tendo em conta as divergências que existem entre ambos, no que respeita à aprovação e às modalidades de execução do plano de emergência e de recuperação europeu.

Pelo que sei, a reunião apenas permitiu a cada uma das partes expressar a posição respectiva. Não houve acordo como também me parece que não o haverá, na cimeira que terá lugar em Bruxelas, no final desta semana. A imensidão da crise pôs a nu as fracturas que existem na União Europeia, no que respeita ao modelo de governação e às atitudes perante o modo de funcionamento de certos Estados. Para Mark Rutte e outros, nós funcionamos mal, temos uma administração ineficiente e cara, para o que faz.

Uma posição assim deveria fazer-nos pensar, em vez de se ter uma reacção à flor da pele. Por que será que somos vistos desse modo? Pensar nessa questão ajudar-nos-ia mais do que dar uns pulos de indignação.

Uma governação grosseira e populista

Em matéria de pandemia, passámos de cavalo para burro. Os países europeus mantêm as portas fechadas e não deixam entrar os residentes em Portugal. E não permitem que os seus nacionais venham de férias ao nosso país. Isto significa, pura e simplesmente, que a estação turística deste Verão terá que ser feita com a prata da casa. O impacto disso na economia nacional é significativo. Com o descontrolo que levou ao aumento dos contágios, ficamos todos a perder. A pandemia não se controla com retórica política. Andar a fingir que estamos na linha da frente, como tem sido o hábito de quem tem o poder, só engana quem é tolo. Neste caso da covid, a imagem de um país é feita com factos e dados, não depende da conversa cor de rosa. Também não resiste a um palrar superficial, que fala de nós como se fossemos os melhores do mundo, tudo para alegrar os bacocos que somos. 

Andamos a fugir do problema

O governo de António Costa está ausente, na fase actual da pandemia em Portugal. Os comportamentos de risco têm estado a aumentar e nada é feito para lhes pôr termo. É preciso lembrar aos cidadãos que o perigo ainda não passou. Como também é necessário punir quem organiza festas como a que aconteceu em Lagos. A inacção governamental é baseada numa premissa idiota, a de que, se não se levantar a lebre, o país irá receber milhares e milhares de turistas. Só que a lebre é espantada por outros, nas terras que nos poderiam enviar alguns turistas. Aí, Portugal aparece pintado a vermelho.

Também foi de um absurdo sem limites dizer que a final do campeonato da UEFA, ao ser jogada à porta fechada em Lisboa, em Agosto, é um sinal de reconhecimento e um prémio dado ao pessoal do sector da saúde. Ao dizer-se isso, ou se está a gozar com esses profissionais ou se vende tudo o que brilha como se fosse um diamante. Na esperança, claro, de ganhar pontos. É o superficialismo como forma de fazer governação.

Isso é do lado do governo. Do lado dos outros, até parece que deixou de haver política. Os partidos e os seus líderes andam a apanhar bonés. Ou então, a preparar as férias do Verão. A verdade é que desapareceram do mapa.

Estamos bem entregues, como diria o outro.  

Banco de Portugal

A função de Governador de um banco central, como é o caso do Banco de Portugal, tem três exigências fundamentais. Competência, experiência e independência política. Qualquer candidato ao posto terá que passar por esse crivo e obedecer aos três critérios. Sair de um ministério do governo em exercício e ser nomeado de imediato para o cargo não satisfaz um dos requisitos essenciais, que é o da independência política ou, dito de outro modo, da imparcialidade partidária. Quem o nomear está a praticar um acto de abuso de poder e a pôr em causa a credibilidade de uma instituição particularmente importante na arquitectura democrática do país.

Firmes mas comedidos

Creio ser politicamente errado continuar a atacar o governo holandês com a ferocidade a que estamos a assistir. Pode dar lucros e dividendos, na nossa cena política interna, mas não faz avançar o projecto europeu de um milímetro. Para mais, agora, que há um acordo que vale 540 mil milhões de euros, a que se juntam os 750 mil milhões que serão disponibilizados pelo Banco Central Europeu. É muito dinheiro e fácil de aceder. Cabe-nos saber aproveitar esses recursos com inteligência. É isso que a nossa população e a nossa economia esperam.  

Atacar directamente os Países-Baixos e manter o silêncio perante o que se passa na Hungria, em termos de falta de respeito pelos valores democráticos europeus, parece-me má política.

Assim vamos andando

O Banco Central Europeu vai desempenhar um papel fundamental no financiamento da recuperação económica dos Estados membros. Ao anunciar que comprará toda a dívida que venha a ser emitida por cada Estado, diz-nos que não há razão para preocupações com o investimento público, incluindo nos países mais seriamente afectados pela imensa crise que resulta da epidemia de Covid-19. E para quem se tenha esquecido, quero lembrar que o BCE é uma instituição da União Europeia e que este benefício se aplica aos países da zona euro. Vale a pena estar nessa zona.

Os Estados da União que ainda estão fora da zona euro vão precisar de um mecanismo de ajuda especificamente desenhado para eles. Será aí que a questão da solidariedade se porá de modo mais concreto.

Entretanto, quem quer ganhar pontos na cena interna vai dizendo umas coisas violentas e ameaçadoras sobre o futuro da União. É uma das linhas políticas que está a dar.

Criticar é mais fácil do que procurar entendimentos. O entendimento significa que se compreende os contrangimentos de cada parte. Tal como António Costa tem que ter em conta o que pensam os portugueses, outros líderes têm que responder perante as suas opiniões públicas. São assim o xadrez europeu e o jogo democrático. A isso, juntam-se preconceitos e ideias feitas, que devem ser combatidos, não à traulitada mas sim na base do diálogo e do respeito por cada um dos povos que estão neste mesmo projecto. Quem respeita os outros tem todo o poder para pedir respeito para com os seus. Quem perde as estribeiras arrisca-se a cair do cavalo.

E há por aí muita gente pronta para cair do cavalo. Os comentários que tenho lido sobre os “coronabonds” mostram-no. Mostram mesmo gente que passou toda a sua vida na diplomacia, nas altas esferas, e que agora, já jubilados, são tão etc, etc, etc, como os outros, que tiveram uma vida mais terra a terra. Não me meto com eles, seria um erro, mas não posso deixar de dizer que as grandes crises revelam o que vai na alma e na cabeça de muita gente. O bom e o menos bom, vem muita coisa à superfície.  

 

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