A democracia representativa está em crise. Os políticos aproveitam-se do poder para estabelecer regras que os favorecem. É altura de pensar a sério nas alternativas.
Veja-se, esta noite, quanto recebe de pensão a presidente da Assembleia da República, em resultado de dez anos que passou no Tribunal Constitucional, para onde fora nomeada não por méritos extraordinários, mas por conhecer as pessoas que contavam, na altura, no seio do seu partido.
Não vá o sapateiro além da sandália, como também não convém, a quem anda a coser as botas de cano alto do mundo, descer ao nível do chinelo...Mas, de vez em quando, tenho que fazer um pequeno comentário sobre a vida política portuguesa.
A "Face Oculta" é um mistério jurídico e uma desgraça política.
Do ponto de vista da justiça, temos aquele senhor pequenino, cheio de penugem nas orelhas e no nariz, uma prova viva que certos portugueses em situação de poder descendem directamente dos homens das cavernas, a opinar de uma maneira desastrosa sobre matérias em relação às quais deveria ser de uma competência exemplar. Um primitivo sem pêlo na venta. Do outro lado, muitos de entre nós, ao ver este tipo de desastres, de que o pinto da procuradoria é outro exemplo, de gente que mesmo sem chegar a galo consegue estar no poleiro, muitos que somos levados a pensar que esta justiça está toda minada.
Politicamente, que buraco! Um primeiro que deveria perceber que isto não é uma questão técnica de justiça. É uma matéria em que a credibilidade, a pouca que ainda existe, está a ficar pelas ruas da descrença. Numa altura em que milhares de portugueses andam aos farrapos, dá-se mais uma vez a impressão que quem está na mó de cima canta sempre vitória, enquanto os nascimentos forem dando pintos e outros augustos trapalhões.
Tal como o tempo, é altura de alerta amarelo nas costas bravas da política portuguesa.
Como escrevi no texto desta semana na Visão, Guéréda, no Leste do Chade, e os territórios vizinhos são das zonas mais perigosas nesta parte de África. Muito perto da fronteira com o Darfur, no centro de muitos conflitos étnicos e na origem de muitas rebeliões, os riscos são imensos.
Não autorizo o pessoal da ONU a viajar nessas terras sem escolta militar ou de polícia, fortemente armada.
Aconselho as ONGs a seguir o mesmo princípio. Certas organizações têm um maneira de trabalhar muito particular, com uma interpretação extrema do que é a sua independência, neutralidade e imparcialidade. Não aceitam as nossas escoltas, por medo de perder a neutralidade.
Ontem, foi a vez de uma delegação do Comité Internacional da Cruz Vermelha ser objecto de um ataque armado. O único estrangeiro do CICV, um francês de 37 anos, foi levado pelos bandidos. Como refém.
Mais uma crise. Com muita publicidade, que a CV é bem conhecida. Para os bandidos do deserto é, no entanto, mais uma ONG em circulação na zona, mais uma hipótese de ganharem umas coroas.
Cruz vermelha ou não, para esses homens das areias é uma oportunidade que não querem deixar passar em branco.
Passei a manhã a discutir segurança com a comunidade das ONGs humanitárias. Não desisto. Tomo as minhas responsabilidades. E eles terão que assumir as suas.