Portugal é grande quando abre horizontes

10
Abr 11

Vocês já experimentaram imprimir um cartão de embarque num café internet no Azerbaijão, com a maquineta a reagir em russo e a levantar todo o tipo de interrogações?

 

Finalmente, depois de ter mobilizado todos os empregados e clientes do café, lá consegui imprimir a coisa.

 

Depois mudo para o Sapo, que me pergunta em português se eu votaria Sócrates, no caso das eleições terem lugar hoje.

 

Há gritos na sala. Mas não têm nada que ver com esta questão. O pessoal jovem aqui, os moçoilos, são barulhentos. E' o que e'.

 

Por isso, não consigo concentrar-me na pergunta feita pelo sapinho.

 

Quanto ao resto, boa sorte e perseverança, diria o outro. Bem precisas são. Para todos.

publicado por victorangelo às 12:37

27
Jun 10

Hoje à tarde, fazia eu, como de costume, uma caminhada à beira-rio, entre o monumento das Descobertas e a Ponte 25 de Abril, quando tive uma vez mais a oportunidade de dizer mal da Câmara Municipal de Lisboa.

 

Não por causa do baldio em que se transformou a área junto ao rio, mesmo no alinhamento do Palácio de Belém -- uma vergonha de lixo, ervas daninhas e objectos abandonados, de festas que já terminaram há muito. Nem pelo facto das obras de saneamento, um pouco mais à frente, a caminho da Ponte, iniciadas pelas Águas de Portugal, um monopólio que pretende ser uma empresa, estarem paradas há tempos, depois de terem aberto uma cratera mal planeada. Nem tão pouco pelo facto do trânsito junto ao Museu da Electricidade, do lado do rio, ainda não ter sido fechado, apesar do investimento já feito, em termos de controlos, barreiras, etc. Menos ainda por a Câmara ter aceite colocar aqueles tijolos junto à água, e, a gozar com o povo, chamar àquilo uma obra de arte.

 

Não. A razão foi bem mais terra-à-terra. Meti um pé num dos muitos buracos da calçada esburacada que é o passeio, torci a perna, estatelei-me ao comprido, abri a mão esquerda, quase partia o braço direito, e pouco mais. E claro, a torneira de água, que a CML colocara no jardim, provavelmente para que lavemos as nossas mágoas, estava partida e não funcionava.

publicado por victorangelo às 23:22

22
Mar 10

 

A poeira entrou no nosso quotidiano. Vive-se com a obsessão do pó. A vida sabe a areia. O cheiro, é como um perfume seco que nos fecha as narinas e nos impede de respirar. Está tudo seco e meio parado, que este clima não dá para grandes saídas.

 

Entretanto, perto da minha residência, pelas 19:00, uma das nossas funcionárias foi bloqueada por um veículo de salteadores armados. Para roubar o carro, propriedade da ONU. Um todo-o-terreno, muito procurado, fácil de vender. Mais um veículo que se foi. Os bandidos começaram agora a perceber que é fácil atacar em N'Djaména e não se ser apanhado. É uma cidade com milhares de cantos, impossível de controlar. Um labirinto de areias deslizantes. Um pesadelo, em matéria de segurança.

 

As forças de reacção rápida da minha Missão chegaram ao local uns minutos depois. Mas o que a colega queria era apoio psicológico. Foi uma experiência de meter medo.

publicado por victorangelo às 20:45

13
Mar 10

 

O dia de ontem terminou com uma festa de despedida. Organizada pelo pessoal da MINURCAT, os da Sede, em N´Djaména, com a participação animada de um dos melhores grupos de dança tradicional do Sul do Chade. Uns dançarinos excepcionais, que nos revelaram várias facetas das cerimónias de iniciação, que continuam vivas nestas paragens. Foi também interessante ver alguns dos nossos jovens funcionários nacionais, que normalmente andam de fato e gravata, acompanhar os ritmos, como se a música fizesse parte dos seus génes.

 

Este é um país culturalmente muito diverso. Enquanto os tambores do Sul batem com a energia da África banto, fazendo vibrar todos os poros dos que sabem viver esssas músicas, e acentuando o erotismo das florestas por explorar, os naturais do Centro e Norte mexem o corpo, lentamente, com a graça oriental das cortes dos sultões.

 

Entre os pratos tradicionais, havia uma dobrada de cabra, certamente um animal duramente experiente da vida, preparada pela minha Assistente de muitos anos, uma mulher das terras mais amenas da África Austral. Claro que tive que me servir. O resto, não digo.

 

Foi um fim de tarde quente. Durante o dia a temperatura do ar andou a namorar os 48 graus. Em Março, é assim.

 

A manhã começara com uma reunião com todos os embaixadores residentes em N'djaména. A reunião mensal, que para mim foi a última, era a oportunidade para dizer "Thank you" e passar à frente. Tudo muito correcto, sem mais. Depois, tive um longo tête-à-tête com o Presidente Idriss Deby. O encontro começou em público, com a minha condecoração com o grau de Oficial da Ordem Nacional do Chade. Um gesto raro. Uma Ordem de elite. Depois, ficámos sós, para falar sobre o Sudão, esta parte do Continente Africano, projectos, água, um tema central para as gentes do Sahel, segurança, e o futuro das Nações Unidas nestas areias. Foi um diálogo com elevação, descontraído, que as ideias são para serem confrontadas, não as pessoas.

 

Já mais tarde, à hora das orações de Sexta-feira, o Representante Especial do Presidente ofereceu-me um camelo. Lindo. Com calabaças e tudo, aparelhado a rigor. O RE, que responde pelo nome de General Dagache, quatro estrelas e muitas dunas de combate,  batalhas muitas, a morder o pó dos ventos áridos, homem com ossos e pele, mas nada mais, que o deserto não é para grandes comidas, é natural do Sahara, não muito longe do fim do mundo que é a região de fronteira com a Líbia. O camelo é a fonte da vida, nesses cantos perdidos, onde a beleza das montanhas roídas por milhões de anos de vento nos faz imaginar catedrais do surrealismo mais ousado. O camelo e água, que brota aqui e ali, nos oásis que se escondem para além das miragens.

 

O meu camelo está agora em casa, grande e majestuoso, à espera de um caixote que o leve para as terras molhadas da beira-Tejo. É uma peça de madeira que vale a pena que atravesse o deserto. 

 

publicado por victorangelo às 14:44

19
Jan 10

 

Hoje estou na parte Sul do Sahara, o deserto. Em Bahay ou Bahai, depende da grafia que se adopte, vinda do árabe. É o mesmo com o nome do deserto. Prefiro Sahara. Como não? Como seria possível dar a uma vastidão de areias, pedras, silêncios e medos, outro nome?

 

Sara é, para muitos, nome reservado para outras miragens. Isto da língua tem que se lhe diga.

publicado por victorangelo às 05:40

10
Jan 10

 

Era suposto ser um Domingo tranquilo. O céu estava de um azul sem manchas. Faz sonhar. Mesmo nestas terras. O harmatão, este ano, tem-nos poupado. Não tem havido a poeira no ar, habitual nesta estação. Os dias começam frescos, com cerca de 16 graus, aqui na capital do Chade, depois aquecem, vão aos trinta e cinco ou isso por aí à volta. Hoje era dia de escrever a minha prosa para a Visão desta semana. Tinha combinado que continuaria a reflectir sobre o terrorismo.

 

O embaixador inglês, residente em Youndé, chegou a meio da manhã. Para umas reuniões comigo e com outros embaixadores. Pedi ao meu director de gabinete que o recebesse. Uma colega sénior das Nações Unidas havia chegado ontem à noite. Está de passagem, a caminho de Bangui. O meu protocolo teve a missão de se ocupar da colega. Tudo para me permitir alguma pausa.

 

Acabou por não ser bem assim. Depois do incidente no campo de refugiados de Gaga, ontem, havia que iniciar um inquérito, hoje. Mandei uma equipa de investigadores. O Leonardo, um Subintendente da PSP aqui em serviço, fazia parte da equipa. É um excelente profissional, que muito honra a presença portuguesa. Entretanto, mais a Norte, em Iriba, a base de CARE, uma ONG com quem trabalhamos, foi atacada por homens armados, para roubar o que fosse possível, incluindo as viaturas. A nossa Polícia (DIS) saiu em perseguição. Um dos agentes foi ferido num pé. Lá foi preciso organizar uma evacuação sanitária para Abéché, por helicóptero.

 

No sector Sul, em Birao, as tropas do governo, um pelotão, foram atacadas por cerca de cem homens armados. 45 quilómetros ao Norte da cidade, a caminho da fronteira com o Chade. Uma zona com mais rebeldes do que habitantes. Um recorde. Mais uma intervenção a prever, do nosso lado.

 

Entretanto, o texto para a Visão lá foi avançando. Ao princípio ficou muito técnico, quase parecia um míni relatório sobre a problemática da análise das informações de segurança. Tive que fazer várias passagens, cortar a torto e a direito, que 3500 caracteres não dão muito espaço. Continuei essa tarefa, até me lembrar que havia prometido telefonar à minha filha mais nova, que está a residir em Espanha. Segunda ou o mais tardar, Terça, prometera eu. Com todas as surpresas da semana, a coisa passou-me. A promessa tornou-se uma de mau pagador. Peguei no telefone e pedi que me desculpasse. É que eu tenho alturas em que nem sei a quantas ando.

 

 

publicado por victorangelo às 21:59

05
Jan 10

 

O dia começou devagar. Mas às 09:20 já estava acelerado. Havíamos perdido o contacto com um dos nossos helicópteros, com uma dúzia de tropas do Gana a bordo. Pânico. Desaparecera numa área perto da fronteira sudanesa, uma zona conhecida como particularmente violenta e hostil.

 

O contacto só foi restabelecido às 14:15. A máquina voava em direcção a Abéché, coisa estranha, pois não era nem a sua base operacional nem o seu destino. O comandante de bordo, um Russo com um inglês muito simples de não perceber, disse à torre de controlo que iam para Abéché porque um homem armado, a bordo, assim o exigia.

 

Preparámos tudo para receber o helicóptero. Um dispositivo especial, em virtude da crise. Homens em pé de guerra por toda  a parte. Saíram os passageiros, saiu o homem armado. Eu estava em contacto permanente com o general que comanda as nossas forças, bem como com o governo.

 

O desfecho foi patético. Mas, estavam todos vivos. E o homem armado era afinal um oficial do exército nacional. Estava em missão. Tinha sido incumbido pelos seus superiores de fazer vir, pela força, o helicóptero para Abéché, para que se procedesse a uma investigação dos seus ocupantes. É que a nossa equipa estava num lugar de guerra sem ter feito a ligação prévia com as autoridades militares nacionais. Fora detida ao pousar. Podia ter levado um tirito na fuselagem. 

 

Amanhã lá vou ter que ir para o local, mais os chefes nacionais de segurança, para tentar acalmar o jogo. Uma viagem que faz anular uma outra, que era bem mais importante e bem mais agradável. Pelo deserto.

Voltaremos ao assunto.

 

O resto da história será contado amanhã. Se a minha cabeça não tiver estoirado antes.

publicado por victorangelo às 22:19

03
Jan 10

 

A minha fotografia à porta da tenda onde me albergo, quando estou em Birao, causou algum interesse entre os meus leitores. Por isso, publico hoje a vista completa da habitação, bem como o canto de alguma das necessidades.

 

 

 O canto chichi não é muito friendly para o sexo feminino. Vejam bem a fotografia que se segue. É um canto precioso, no entanto.

 

 

Fotos copyright V. Ângelo

 

publicado por victorangelo às 21:34

23
Dez 09

 

Hoje, Sam Ouandja teve um novo tipo de visitas. Ontem, foi a minha vez. Ainda tenho que escrever sobre essa missão. Agora, foi um grupo rebelde rival, que resolveu, esta manhã, atacar os combatentes do UFDR. Cada grupo representa uma etnia vizinha, inimiga nas horas más, detestável, nos tempos mais serenos.

 

Foi uma confusão de morteiros, rajadas de kalash, gritos, a população civil a fugir para o mato, os meus soldados a tomar posição à volta do campo de refugiados.

 

No final dos combates, os assaltantes retiraram-se, levando consigo as duas únicas viaturas que existiam na cidade e que pertenciam às ONG Triangle e IMC ( International Medical Corps). Os ecologistas diriam que temos agora uma localidade sem carros. É verdade. Mas não sei se este facto entra nos planos da Conferência de Copenhaga.

 

Acabei por ter que proceder a uma evacuação do pessoal humanitário. Mandei dois helicópteros. Mas a lista de passageiros a evacuar e o grupo que nos esperava na pista não coincidia. Alguns humanitários tinham feito umas "amizades" locais e queriam levar as moçoilas amigas...Os pilotos, Russos que são, não tinham instruções para tanto. E, por isso, estavam prestes a levantar voo, de regresso à base, sem trazer ninguém...O meu conselheiro político principal, homem velho e sabido, que compreende bem a natureza humana e a força da vida, encontrou finalmente uma solução...

 

Só que com a demora, os helicópteros já não tiveram tempo de ir buscar um outro grupo de gente a evacuar, a cerca de cem quilómetros a Norte de Sam Ouandja.

 

É uma tarefa para amanhã. São quatro, sem contar com as companhias possíveis...A vida no mato não é só feita de espinhos...

publicado por victorangelo às 22:02

21
Dez 09

 

Ontem ao fim do dia, um dos nossos colegas morreu num acidente de viação. Um carro militar, do exército nacional, bateu na mota do colega. Os soldados circulavam, como de costume, a uma velocidade excessiva. O jovem colega, um nacional pai de muitos filhos, ficou com a cabeça esmagada. O camião militar seguiu caminho, que nestas terras manda quem pode.

 

Entre uma conferência telefónica com o Director-geral do Ministério da Defesa da Noruega e uma reunião sobre os avanços na construção das nossas bases, prestei homenagem ao falecido e apresentei os pêsames à família. Foi uma cerimónia digna, mas insólita. Os familiares estavam todos, com o corpo, à porta do meu escritório, à espera que tivesse um momento livre, gente árabe pobre e resignada, que a vida passa a fugir, nestas paragens.

 

Esta manhã, um outro colega, desesperado por uma boa parte da área do aeroporto estar com os acessos fechados, que havia dois chefes de Estado na zona, prestes a partir, o que faz encerrar tudo, até o espaço aéreo, resolveu entrar no aeroporto pelo sector militar francês. Ninguém sabe como conseguiu passar, mas passou. O leitor e eu, não teríamos passado.

 

Como a base francesa é do lado Norte e o aeroporto civil, onde se encontravam o avião que o deveria levar a Abéché, é na parte Sul, o nosso homem resolveu atravessar a pista com o seu carro. Um tipo decidido. A expressão diz que não pensou duas vezes, mas creio que, no seu caso, não pensou vez alguma. Nessa altura um dos nossos voos estava já na fase de aproximação da pista, a duas dezenas de metros do solo. Os pilotos só tiveram tempo para abortar a aterragem, nem sabem como foi possível. 

 

Prendemos o nosso homem. Ainda não percebeu bem porquê. Amanhã vai ser novamente interrogado. A verdade é que na aldeia donde provém, num ponto distante de um país fora de mão, as cabras andam alegremente pela pista do aeródromo local. Um aeródromo de aldeia não é exactamente a mesma coisa que um aeroporto internacional. Talvez o entenda um pouco melhor, depois da conversa a que vai ser submetido.

 

Com tanta gente à nossa volta, as surpresas são quotidianas.

 

Mas o dia ainda não havia acabado. O meu director político mandou-me uma mensagem desesperada, a perguntar qual o destino a dar a um casal de ovinos que me foi oferecido, há mais de um mês, pelo prefeito da cidade de Guéréda. Um casal lindo, puramente brancos de lã, reprodutores de alta qualidade. Uma grande honra. Mas Guéréda fica a quase mil quilómetros de areias. Que destino dar aos bichos? Não podem continuar nessa cidade, o prefeito vai pensar que eu não dei importância à dádiva. Também não podem passar ao espeto, seria uma ofensa, que são animais de puro sangue. Para a produção de mais bichinhos semelhantes.

 

Como as regras não permitem transportar animais nas naves da ONU, a única hipótese é fazer como os pastores nómadas de aqui: caminhar com os animais até ao destino final. Mas não tenho dias de férias suficientes.

 

Enfim, mais um problema para resolver.

publicado por victorangelo às 20:52

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