Portugal é grande quando abre horizontes

05
Set 19

Ninguém sabe qual é a percentagem de políticos dispostos a colocar os interesses colectivos acima das suas ambições pessoais. Nem há maneira de estimar, mesmo grosseiramente, essa proporção. Não serão muitos, infelizmente.

Mas, existem.

O que se passou esta semana, no Partido Conservador britânico, revelou alguns. E hoje, o pedido de demissão de Jo Johnson, o irmão de Boris, acrescentou mais um nome à lista. Gente assim dá credibilidade à política. O problema é os líderes dos partidos não gostarem de pessoas com a coluna vertebral direita. Transformam, assim, a política num palco de corcovados ambiciosos e obsequiosos.

publicado por victorangelo às 21:31

04
Set 19

Em política, o sucesso consegue-se quando se sabe misturar o compromisso com a demolição sistemática da oposição. Boris Johnson sabe demolir. Tem a oratória e a virulência. Mas falta-lhe a parte do compromisso. Não tem essa arte e não entende que não se pode hostilizar tudo e todos. Há que estabelecer acordos com alguns. Não o fez e está hoje numa situação impossível. Não perdeu ainda o poder, é verdade. Mas acentuou ainda mais as divisões e as fracturas. Contribuiu de modo único para a polarização da sociedade britânica. Nada disso é positivo.

publicado por victorangelo às 23:26

03
Set 19

Boris Johnson não aceita que lhe digam que não. Exigiu aos deputados do seu partido que votassem como ele lhes mandavam. A exigência foi acompanhada de uma ameaça de expulsão do partido. Uma ameaça que põem em causa um princípio fundamental da democracia, que é o de separar o poder legislativo do executivo.

Vinte e um deputados Conservadores tiveram a coragem de ir contra o ditame do Primeiro-Ministro. Puseram o que consideram o interesse nacional acima das suas carreiras políticas.

A sua decisão foi histórica. Não é todos os dias que vemos políticos tomar decisões que lhes acabam com as carreiras. Para mim, este foi um dos factos mais salientes da votação de hoje, em Westminster.

 

publicado por victorangelo às 23:43

29
Ago 19

O Reino Unido está muito pouco unido. Para além dos comentários que se façam – e vi um ou dois nas televisões portuguesas que assentavam em premissas incompletas ou na compreensão insuficiente dos mecanismos parlamentares e constitucionais britânicos – , a verdade é que a situação actual constitui um rico campo de estudo para quem se interessa por questões de estratégia política e de jogos de poder. E assim vai continuar nos próximos dias e na semana que vem. Para já, que depois se verá.

Entretanto, penso que os dirigentes que mandam na política externa europeia e que pesam na questão do Brexit devem continuar calados e deixar os britânicos decidir para que lado vai a bola. Neste momento, comentários oficiais europeus sobre a situação de confusão que se vive no Reino Unido só poderão complicar ainda mais uma situação que já é bastante complexa e profundamente emocional. O silêncio é, tantas vezes, uma poderosa arma política, sobretudo quando anunciado como silêncio activo, deliberado.

publicado por victorangelo às 23:08

28
Ago 19

Escrevi um pequeno comentário sobre a decisão que Boris Johnson tomou ao suspender o Parlamento britânico durante cinco semanas. Está disponível em inglês, no meu blog diário nessa língua.

https://victorangeloviews.blogspot.com/2019/08/boris-and-his-master-play-hard-ball.html

publicado por victorangelo às 22:49

25
Jul 19

Não sou, de modo algum, um fã de Boris Johnson. Reconheço, no entanto, a habilidade que teve, em termos da conquista do poder. Criou uma imagem própria, inconfundível, meio séria meio divertida, definiu uma agenda simples e fácil de entender, repetiu sempre a mesma mensagem, falou do futuro de modo positivo e com grandes acentos históricos, foi implacável no ataque aos seus opositores e soube estabelecer um círculo de fieis discípulos e de seguidores atenciosos. Teve, além disso, a habilidade de conquistar uma parte da comunicação social, que lhe amplificou a voz e se bateu pela sua promoção.

Observar tudo isto faz parte do estudo das lideranças e do caminho que seguem até chegar ao poder.

Por outro lado, tomar Boris Johnson por parvo seria um erro. Tem certamente muitas fragilidades, como todos os líderes com um só ponto na agenda, e é por aí que deve ser atacado. Ele criou um personagem jocoso, a oposição deve transformar isso num comportamento de palhaço. Tem uma agenda superficial, que deve ser demolida, sublinhando que se trata de um engodo sem substância. E cada erro ou mentira que de si saia, deve ser exagerada e repetida à exaustão, mas dando-lhe a volta, de modo a que pareça inteiramente ridícula.

Não vai ser fácil, que ele sabe da música.

Mas assim se deve fazer oposição, num caso destes, numa época em que a imagem é tudo ou quase tudo.

E já agora, isto em Portugal também pode servir de fonte de inspiração.

 

publicado por victorangelo às 21:56

19
Jun 19

A televisão tem muita força. O que se passou ontem e hoje à volta do processo de candidatura a líder do Partido Conservador foi mais uma ilustração desse poder.

Os cinco candidatos participaram ontem num debate televisivo, organizado e transmitido em directo pela BBC One. Vi o debate. Rory Stewart, o candidato com mais cabeça e que era visto pela comunicação social e pelos analistas políticos como uma estrela montante, capaz de fazer frente a Boris Johnson, teve uma má prestação. Sentou-se mal, na ponta da cadeira, mostrou enfado e uma linguagem corporal que parecia dizer que os outros candidatos não sabiam o que estavam a dizer, tirou a gravata a meio do debate, e deixou os outros ocupar uma boa parte do tempo de antena. Em resumo, deu a impressão que não queria debater, que não estava ali a fazer nada e que tinha pouca consideração pelos outros candidatos.

No fim da emissão, a minha conclusão foi clara: Rory colocou-se fora da corrida. Não mostrou aquilo que se espera de um futuro líder e futuro Primeiro Ministro, atenção, argumentação e presença.

E assim aconteceu. Na votação de hoje, perdeu uma parte do apoio que havia conquistado entre os seus colegas parlamentares e foi eliminado. Brilhante, sim, mas incapaz de passar na televisão. E, nestas coisas, a imagem conta imenso.

 

publicado por victorangelo às 21:09

24
Mai 19

Theresa May anunciou hoje a sua demissão. A pressão vinda dos Brexiteiros mais duros, dentro do seu partido, acabou por derrubar a Primeira Ministra. Foram muito ajudados pelos jornais conservadores, que fizeram uma campanha diária contra May.

No fundo, como escrevi noutro lado, foi uma vitória da ala mais nacionalista, mais idealista e irrealista da classe política conservadora, que pensa que poderá restaurar a Grã-Bretanha do tempo da Rainha Victoria. Uma ilusão irracional que é muito difícil de combater com argumentos racionais, como a Primeira Ministra tentou fazer.

Boris Johnson será provavelmente o próximo líder do governo de Sua Majestade. Boris tem muitas facetas de alienado e pouca profundidade na compreensão dos problemas. É um confuso mental. A sua capacidade de mentir e exagerar é legendária. Mas fala bem, escreve à antiga mas de uma maneira que atrai algum público, é o menino querido da imprensa da direita tradicional. O principal trunfo que tem é ainda mais forte. Muitos membros do partido conservador pensam que Boris é o único líder que conseguirá derrotar Jeremy Corbyn, o dirigente trabalhista, em caso de eleições gerais. Boris irá cultivar essa crença e, por isso, deverá ser eleito chefe do partido. E, consequentemente, tornar-se o sucessor de Theresa May.

Vai também repetir, alto e bom som, que é o único capaz de fazer frente aos dirigentes europeus. Isso dar-lhe-á votos igualmente. Mesmo que se diga e repita que não há nada a que fazer frente, pois as negociações de saída estão terminadas.

Deve ficar claro que a escolha de quem manda na política britânica cabe aos cidadãos do Reino Unido. A Europa sentar-se-á à mesa com quem vier a ser escolhido. Não haja, todavia, ilusões. O lado britânico pode fazer o barulho que entender, mas isso não fará esquecer aos europeus que a saída da União tem regras e que os interesses da UE são a primeira preocupação de quem tem a responsabilidade de conduzir os destinos do projecto comum. Nós tratamos de nós, Boris ou qualquer outro que venha, que trate dos seus, se puder.

 

publicado por victorangelo às 20:54

twitter
Setembro 2019
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4
5
6
7

8
9
11
12
13

18
19
20
21

23
24
25
26
27
28

29
30


<meta name=
My title page contents
mais sobre mim
pesquisar
 
links
blogs SAPO