Portugal é grande quando abre horizontes

18
Set 14

Transcrevo abixo o texto que hoje publico na Visão. 

 

 

Juncker: um osso duro de roer

Victor Ângelo

 

 

 

 

Jean-Claude Juncker está a começar bem como Presidente-eleito da Comissão Europeia. Conseguiu, pelo menos nesta fase inicial, inverter a tendência dos últimos anos de enfraquecimento do executivo da união. Depois de um Barroso cansado, sem gás, que deixara os governos nacionais marginalizar a Comissão, Juncker aparece como um líder politicamente astuto e determinado. Com uma longa experiência no tabuleiro dos jogos europeus, percebeu que era importante ter à sua volta um grupo de vice-presidentes que lhe sirvam de filtro e de para-choques. Fica, assim, com espaço para as questões estratégicas e para se manter conectado com os dirigentes dos estados membros e os principais tenores no Parlamento Europeu. É aí, na qualidade dessa ligação, que a coisa vai ou racha. O Presidente da Comissão tem que ter tempo para manter um contacto contínuo e bem pensado com os que contam. Não se pode falar com os leões que são os chefes de estado e de governo, nem com as raposas do Parlamento, com base em improvisações ou apontamentos mal digeridos.

 

Uma outra nota sobre a mudança de caras em Bruxelas: o poder deslocou-se para o nordeste da Europa. É verdade que Juncker é, por cultura política, um homem do centro, uma ponte entre os preconceitos do norte e do sul da Europa. Mas a maneira como distribuiu as pastas favorizou claramente a Holanda, a Finlândia e os países bálticos. O nordeste. Deu responsabilidades acrescidas a uma nova geração de políticos desses países, todos eles inspirados numa interpretação estrita de disciplina na área financeira e de liberalismo, em matéria económica. Sem contar que do outro lado da rua vamos ter outro homem forte vindo também do Leste, Donald Tusk, o primeiro-ministro polaco cessante. Um político que se integra bem no quadro que acabo de descrever. Passa agora a existir um núcleo decisivo em Bruxelas que, em matéria de governo, é conservador e, na área das relações internacionais, é marcadamente pró-americano e muito desconfiado no que respeita ao relacionamento com a Rússia. Isto numa altura em que existem perigos evidentes de derrapagens e de confrontação a Leste. Há, por isso, que estar atento e exigir à nova equipa que ponha o pragmatismo e os interesses da paz e da prosperidade na Europa acima dos velhos fantasmas vindos de outros tempos.

 

A voz de Portugal, no seio desta equipa, pertence a alguém que é visto por Juncker e pelos pesos-pesados como um júnior. Um jovem de boas maneiras e ar limpo, é verdade, mas um peso-pluma. Num conjunto em que a senioridade política é a marca definidora – seis antigos primeiros-ministros passarão a estar à frente das instituições europeias – a escolha do governo português parece estar fora de contexto. Enviámos um suplente para jogar numa equipa de campeões. Um secretário de Estado ainda um pouco verde. Carlos Moedas tem desafios enormes pela frente. Terá que convencer o resto da companhia que tem maturidade e coragem políticas, para além de ideias e capacidade para obter resultados. Deverá, igualmente, prestar uma atenção especial à maneira de comunicar e de saber estar. Vai precisar de uma assessoria de imagem experiente, para além do apoio científico que lhe faz falta. Se mostrar, no início, que anda perdido pelos corredores do Berlaymont, a dizer umas coisas ocas, o prestígio necessário ao bom desempenho da função que lhe foi atribuída ficará seriamente afetado. Numa equipa de lobos, poderá rapidamente esgotar-se a paciência para capuchinhos cor-de-laranja. Fora isso, e em nome dos interesses da inovação científica, só lhe posso desejar os maiores êxitos.

publicado por victorangelo às 09:38

01
Ago 14

A escolha, pelo Primeiro-ministro de Portugal, de Carlos Moedas para integrar o colégio de Comissários da Comissão Europeia, veio chamar-nos a atenção para vários factos.

 

Primeiro, as nomeações feitas pelos estados membros têm sido em geral de políticos de segunda linha. Nota-se, uma vez mais, como aconteceu nos colégios que Durão Barroso presidiu, a tendência para enviar para Bruxelas políticos em perda de velocidade, ou então, num ou noutro caso, jovens num processo de ascensão, mas sem grande experiência, que vão continuar a sua aprendizagem na Europa, antes de voltarem, já com mais calo, às lides políticas dos seus países de origem.

 

Segundo, Juncker está a revelar-se um osso duro de roer. Não tem aberto o jogo de quem vai ser nomeado para que pasta, nem parece ceder às pressões vindas dos líderes nacionais. Hollande e Cameron, por exemplo, tentaram negociar a atribuição de funções importantes para os seus, mas aparentemente sem grande resultado. O mesmo terá acontecido com Passos Coelho, embora neste caso o peso de Portugal fosse à partida um handicap. Para mais, depois de dez anos de presidência, há uma espécie de acordo tácito em Bruxelas que a pessoa enviada por Portugal acabará por ter uma pasta de valor marginal.

 

Terceiro, não tem havido um número suficiente de mulheres propostas para Comissários. Assim, é muito provável que a Presidência do Conselho Europeu e o lugar de Alto Representante para a política Externa venham a ser atribuídos, respectivamente, à Primeira-ministra da Dinamarca e à ministra dos Negócios Estrangeiros da Itália. A dinamarquesa tem alguma experiência, embora os seus cinco minutos de fama se devam à “selfie” que tirou, na galhofa, no funeral de Nelson Mandela, ao lado de Obama e de Cameron. A italiana é uma jovem diplomata, muito verde. A sua nomeação para substituir a Baronesa Ashton, se acontecer, seria mais um salto no desconhecido e numa política externa europeia às apalpadelas.

publicado por victorangelo às 21:42

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