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Vistas largas

Crescemos quando abrimos horizontes

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Crescemos quando abrimos horizontes

A voz de António Guterres

António Guterres lançou hoje um apelo para que parem as guerras e deixem espaço aos que lutam, nos países em crise, contra o Covid-19. O apelo foi acompanhado por instruções dadas aos Representantes Especiais do Secretário-Geral, em funções em países em conflito, para que procurem convencer as partes a suspender as hostilidades. Não será ouvido, infelizmente. Mas era um chamamento que tinha que ser feito. Mostra a gravidade da situação, que se tornará ainda mais dramática quando alastrar para países fracturados por guerras civis, conflitos armados, insegurança, e deslocamentos em massa das populações mais frágeis.

O coronavírus e a ordem internacional

A reflexão sobre as questões geoestratégicas anda muitas vezes atrás dos acontecimentos. O inesperado passa a dominar a agenda internacional e com grande impacto. Quem trabalha na área da previsão dos problemas futuros fica a fazer figura de parvo. E quem está de fora ganha a impressão que os especialistas da geopolítica são uns meros contadores de cenários irreais. Uns académicos desligados da realidade.

Temos agora o caso do coronavírus. Um problema local, numa cidade da China, transformou-se, em pouco tempo, num desafio global e num factor de desestabilização de partes importantes do tecido internacional. Mostrou, igualmente, que um vírus sanitário tem o poder de alterar aspectos significativos da ordem internacional. Ora, vírus podem ser produzidos em laboratórios – sejamos claros que não será o caso do coronavírus – e depois ser utilizados como uma arma biológica.

Temos aqui algo de hipotético – a produção de um vírus para fins ofensivos. Mas poderá vir a acontecer. Depois, com o mundo interconectado que agora temos, com viajantes em todos os sentidos e a toda a hora, assistiríamos à sua propagação mundial, bem para além do alvo inicialmente visado.

Este seria um tipo de conflito fora dos manuais clássicos. A verdade é que os conflitos tenderão, a partir do que já acontece, a ser cada vez menos ao nível do míssil contra míssil. Isso é uma concepção do passado, que ainda faz sonhar alguns ditadores e justificar um determinado tipo de despesas militares. As disputas entre países ganharão outras formas. Algumas poderão ter a sua fonte de inspiração no que começou em Wuhan.

 

Os Estados Unidos e o Irão

A decisão de autorizar o ataque mortífero contra o General Qassem Soleimani levanta muitas questões e abre a porta a um bom número de incertezas. Na minha opinião, foi tomada no seguimento de dois acontecimentos que a Administração americana considerou como especialmente marcantes.

Um, foi o ataque, por manifestantes próximos das milícias que o Irão apoia no Iraque, contra a embaixada dos Estados Unidos em Bagdade. Nos círculos dirigentes, em Washington, esse incidente é visto como muito sério, para além de lembrar o que aconteceu em Teerão há quarenta anos. Para a liderança americana, a investida contra a embaixada é algo que não pode ficar sem resposta.

O outro acontecimento foi o exercício militar naval que o Irão levou a cabo, há uma semana, em conjunto com a China e a Rússia. A actual Administração americana não queria que qualquer desses três países pensasse que essas manobras marítimas teriam qualquer possibilidade de a intimidar ou diminuir o seu espírito de resolução. E essa determinação e firmeza tinham que ser demonstradas sem margem para equívocos.

Ao decidir, o Presidente Trump também deve ter pensado no impacto que essa acção de força teria no seu eleitorado. Estamos num ano político decisivo para ele. Precisa de mostrar que não hesita, nem tem estados de alma, quando se trata daqueles que são apresentados como os inimigos dos Estados Unidos.

Mas temos aqui vários problemas.

Um deles, é que actuar para mostrar força, na base do princípio do olho por olho, dente por dente, é inaceitável. Abre as portas à violência e deita para o lixo certas normas básicas das relações entre os Estados. É um retrocesso histórico. Não se pode construir a paz com base na retaliação. A comunidade internacional tem outros mecanismos para tratar dos conflitos e para fazer reflectir os governos que não obedecem às regras estabelecidas.

Outro, é que este tipo de decisões não pode ser tomado sem se medirem todas as consequências que poderão ocorrer em seguida. A análise que faço das declarações de Mike Pompeo é que essas consequências não foram tidas em conta. O Secretário de Estado (Ministro) fala agora de baixar a tensão na região, após um acto que leva inevitavelmente a uma escalada. Parece aquele vizinho que passa a noite com a música aos berros e na manhã seguinte me diz nas escadas que estamos todos a precisar de repouso e tranquilidade.  

Um terceiro aspecto, tem que ver com a legalidade e a moralidade deste tipo de acções. Este é um assunto que não pode ser ignorado. A própria guerra tem as suas regras. Vários académicos se têm debruçado sobre a questão. E a opinião maioritária vai no sentido contrário ao que agora aconteceu.

Como também não se pode ignorar a discussão sobre a doutrina militar que está por detrás da chamada “decapitação” dos movimentos hostis. Não me vou alongar sobre esse tema, mas a verdade é que a validade da teoria que advoga a eliminação dos líderes como maneira de solucionar um conflito tem muito que se lhe diga. Muitas vezes, o líder morto é substituído ou por outro ainda mais radical ou então pela fragmentação do movimento e um novo nível de perigosidade, amorfa e mais difícil de combater.

Ao fim e ao cabo, tudo isto é bem mais complexo do que muitos nos querem fazer crer. E essa complexidade aumenta exponencialmente quando um personagem como Qassem Soleimani é assassinado por um grande Estado ocidental.

 

 

Um Portugal mais interveniente

Não se trata de saber qual é o armamento de que se dispõe. Também não tem que ver com um noção convencional da diplomacia, a que procura agradar a gregos e a troianos e não fazer qualquer tipo de ondas. “Soft power” significa que o país tem capacidade para influenciar os outros, sem qualquer tipo de recurso à força ou à ameaça do seu uso. Tem muito que ver com a imagem exterior que o país projecta, com o seu prestígio internacional, e com o seu apetite para desempenhar um papel activo na procura de soluções para as grandes questões que afectam a paz e a segurança aqui e acolá, ou numa qualquer região do globo.

É verdade que temos estado a assistir ao regresso da política da força. A força num sentido amplo, abrangente, com várias facetas, não apenas a militar. Mesmo assim, as soluções baseadas nos valores da paz, do respeito entre as nações, da conjugação de interesses, continuam a merecer um lugar de destaque na diplomacia internacional. E a serem reconhecidas como a via para respostas duráveis a crises profundas.

A Noruega tem sido um excelente exemplo da utilização inteligente do “soft power”. Pesa muito mais na cena mundial do que o seu tamanho e isolamento geográfico deixariam pensar. É um actor credível e ousado, na resolução de conflitos e na procura de respostas às grandes questões dos nossos tempos.

Nós também o poderíamos ser. Precisaríamos de ultrapassar o paroquialismo que nos fecha na nossa aldeia mental, cultivar a imagem exterior de Portugal e ousar. Teríamos muito a ganhar com uma aposta desse género.

 

O diálogo é a chave do sucesso

O diálogo continua a ser, na política e no quotidiano das pessoas, a melhor receita para resolver problemas e criar as condições necessárias para a paz social. Dito isto, reconheço que o busílis da questão é a falta de vontade para dialogar. Essa ausência tem muito que ver com o facto de que o sistema educativo e a prática social não nos prepararam para o debate de ideias, de modo construtivo. A nossa tendência é para que acreditemos mais na força e na intimidação do que nas soluções negociadas. Sendo assim, quem detém o poder deverá sentir que tem a obrigação de promover o diálogo. A verdadeira liderança manifesta-se e afirma-se quando, apesar de ter o controlo da força, consegue estabelecer plataformas de negociação. Liderar, no mundo de agora, significa saber criar mecanismos de consulta, de debate e de consenso.

António Guterres falou bem e claramente

O discurso de António Guterres marcou a abertura da Assembleia Geral. Foi, de longe, o discurso mais estratégico do dia. E o mais generoso, lembrando que para além dos Estados existem as pessoas. Falou dos progressos obtidos nos últimos doze meses e dos desafios que ficaram por resolver, dos direitos humanos, em todas as suas dimensões, da prevenção e da mediação de conflitos. Foi acima de tudo directo no que respeita aos perigos que poderão surgir de um mundo dividido entre dois rivais extremamente poderosos, os Estados Unidos, de um lado, e a China, do outro.

Dir-me-ão que poucos o ouvem. Que os principais líderes mundiais não estavam na sala. Responderei que, apesar de tudo, é fundamental que haja uma voz que nos lembre as nossas responsabilidades, que reafirme o valor das regras internacionais, que fale de cooperação e da resolução pacífica dos conflitos. É para isso que a ONU existe.

Donald Trump e Kim Jong-Un

No meu entender, seria errado ver o encontro entre o Presidente dos Estados Unidos e o Líder da Coreia do Norte através do prisma do cinismo. Haverá quem o faça, é óbvio. Eu, não.

Numa altura de grandes tensões internacionais, olhar para o que se passou hoje na Zona Desmilitarizada e não ver nada de promissor no acontecimento, não me parece adequado. Não é uma questão de se ser, ou não, ingénuo. Temos na Península da Coreia uma das situações mais explosivas, de entre as que se observam em vários pontos do mapa-múndi. A resolução desse conflito não se fará por vias tradicionais, tendo em conta as personalidades dos actores principais e a complexidade da questão.

Encontros como o de hoje podem ajudar imenso. Sobretudo tendo presente a maneira de fazer política de Donald Trump e de Kim Jong-Un. Neste tipo de crises, tudo depende deles, da seu orgulho e empenho pessoal. A imagem conta enormemente.

Não será todos os dias que o direi, mas hoje o Presidente dos Estados Unidos surpreendeu pela positiva.

 

A fragilidade em que vivemos

Este ano, o governo francês vai contrair empréstimos junto dos mercados de capitais da ordem dos 200 mil milhões de euros, ou seja, quase tanto como o total da dívida pública portuguesa, que se situa agora nos 245 mil milhões de euros. É verdade que a dívida pública francesa está na casa dos 2 300 mil milhões de euros – cerca de 100% do PIB do país – e a portuguesa representa 121% do nosso PIB. Proporcionalmente, a França encontra-se num patamar mais razoável, embora a sua dívida seja enorme em valores absolutos.

A taxa de juro que o governo francês pensa pagar é da ordem dos 0,35%.

Para além do endividamento do Estado, as grandes empresas que integram o índice da bolsa de Paris – o chamado CAC 40 – estão igualmente endividadas até aos cabelos.

O que se passa em França – e em Portugal ou na Itália, que é um caso especialmente preocupante – acontece também em muitos outros países da Europa e fora da Europa, com os Estados Unidos e o Japão à cabeça. Tudo isto provoca uma grande fragilidade ao nível global. E um grau de instabilidade que pode levar a uma crise económica e social de grandes proporções, bem como a conflitos geopolíticos de elevado risco.

O que vai salvando a coisa é o baixo valor das taxas de juro, no caso das economias mais desenvolvidas. Qualquer subida das taxas poderá acarretar a falência de partes do sistema. Ou mesmo, mais.

A arte da confusão está na essência da política

Por hábito e, tantas vezes, para salvar a pele, o político acaba sempre por criar uma grande confusão. Assim, na mesma lógica, quando se trata de um partido político, a confusão pode ainda ser bem maior. E confusão é confusão, não se trata da nobre prática da ambiguidade.

Segurança trata-se em Munique

A edição de 2019 da Conferência de Munique sobre a Segurança começou hoje e decorre até domingo. Este encontro é um dos momentos altos do calendário anual das grandes conferências internacionais.

Assistimos, nesta década, a uma proliferação de conferências de todo o tipo e sobre os mais variados temas, nas diversas regiões do globo. A maioria dessas iniciativas passa despercebida e não tem qualquer tipo de impacto na tomada de decisões estratégicas ou no diálogo internacional. Tal não é o caso de Munique. Munique tornou-se no Davos das questões de segurança, conflito e paz. Pesa e conta.

Este ano, como já é hábito, terão lugar uma série de encontros bilaterais entre os Estados Unidos, a Rússia e a China, bem como outros.

A situação na Síria, no Sahel, a questão do armamento nuclear e as dimensões de segurança que possam resultar das alterações climáticas estão na agenda. Como continua na agenda a crise na Ucrânia. Fora da agenda, como sempre, estará o conflito israelo-palestiniano. É de demasiado melindroso, para uns, insolúvel, na opinião de outros. Acho bem.

 

 

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