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Vistas largas

Crescemos quando abrimos horizontes

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Dez anos de guerra na Síria

A repressão armada, maciça e cruel do regime sírio de Bachar al-Assad contra a sua população começou há dez anos, dia por dia. Depois de tantos anos, o ditador continua no poder, graças à ajuda militar de Vladimir Putin e dos seus aliados iranianos e do Hezbollah libanês. Não houve uma solução política, mas sim uma realidade que se impôs pela força das armas. O país continua em crise profunda, milhões de sírios tiveram que procurar refúgio noutras terras, o sofrimento é imenso. E a comunidade internacional mostrou, uma vez mais, que não consegue resolver as grandes crises nacionais ou regionais, sobretudo se um dos grandes, daqueles que têm direito de veto no Conselho de Segurança, está directamente implicado no conflito.

Entretanto, a ONU já vai no seu quarto representante especial para a Síria, sem ter conseguido um mínimo de progresso na frente política. Na área humanitária tem desempenhado um papel fundamental. Mas, na resolução do conflito, a sua acção tem sido permanentemente impedida pelos membros do Conselho de Segurança com direito a veto e por forças da região. O papel político das Nações Unidas foi reduzido a nada, neste caso. Ou seja, o pilar central do sistema foi completamente marginalizado. As Nações Unidas não podem ficar reduzidas à ajuda humanitária – muitas ONGs fazem esse trabalho –, ao apoio a refugiados ou à ajuda alimentar. Tudo isso é importante, sem dúvida. Porém, o mais importante é a resolução dos conflitos que geram a miséria humanitária, a promoção de transições democráticas e a defesa dos direitos humanos. É nessas áreas que a ONU é insubstituível, se a deixarem trabalhar.

Longe e perto, confusões

https://www.dn.pt/opiniao/suu-kyi-e-a-nossa-ursula-13316077.html

Este é o link para o meu texto desta semana (de hoje) no Diário de Notícias.

Faço uma digressão por Myanmar para chegar à União Europeia e mostrar a minha preocupação com a confusão que instalou, um pouco por toda a parte, pelo facto das campanhas de vacinação estarem a progredir a passo de caracol. Ou de camaleão, já que se trata de política. 

Temas, preocupações e alegrias

Se me meter em conversas em que se discutem temas que nos entristecem ou nos pintam uma sociedade à deriva, fico perdido. Estou a pensar nos temas da ineficiência, da manipulação da opinião pública, da corrupção, da ausência de punição para os criminosos com dinheiro e apoios políticos, dos compadrios, e agora – parece que está na moda – da formação de um governo de unidade nacional – não entendo bem o que isso quer dizer nem onde os seus proponentes querem chegar. Não sei o suficiente sobre o nosso quotidiano, depois de quarenta e dois anos de ausência, para me intrometer nesses debates. Mas reconheço a validade dessas questões. E a necessidade de as discutir de uma forma calibrada e sem manchas de clubite partidária.

Entretanto, ao fim do dia, tive duas boas notícias.

Uma, respeitante ao Conselho de Segurança da ONU, que aprovou uma declaração muito clara contra os militares golpistas em Myanmar. No essencial, é-lhes dito que isso de golpes é algo que não é aceitável no mundo de hoje. Foi uma declaração que me surpreendeu pela positiva. E digo isso no artigo que acabo de escrever para o Diário de Notícias de amanhã.

A outra foi o discurso de Joe Biden sobre política externa. Enunciou uma política clara, baseada na diplomacia com princípios e no respeito por todos os membros da comunidade internacional que se conduzam de modo democrático e que promovam os direitos humanos das suas populações. Ouvir o que ele disse fez-me perguntar a mim próprio se ele e Trump vivem no mesmo país. De um lado, temos uma atitude coerente e positiva. Do outro, era a política do imprevisto e do egoísmo nacionalista. A diferença entre um tipo de América e o outro é simplesmente colossal.

 

Myanmar e os seus imensos problemas

Fevereiro começa, na cena internacional, com um golpe de estado em Myanmar. O partido de Aung San Suu Kyi havia ganho de modo esmagador as eleições legislativas de novembro passado. É verdade que as eleições não foram realizadas da melhor maneira, por causa da pandemia e das rebeliões armadas que persistem em várias regiões do país. Mas onde tiveram lugar de modo aceitável mostraram claramente que a senhora Suu Kyi goza de uma popularidade enorme junto das populações. Sobretudo quando se trata da etnia birmane, que é, de longe a mais numerosa.

Também é um facto que Aung San Suu Kyi pode ser criticada por várias razões, por acontecimentos e tomadas de posição que adoptou ao longo dos últimos cinco anos em que esteve no poder. Mas é fácil criticar a líder e esquecer as imensas e profundas contradições que existem no país. A sua liderança era, em grande parte, um exercício de equilíbrio. No fundo da cena, estavam sempre os generais e a máquina militar, que é poderosa. São estes que massacraram os Rohingyas e levaram à sua expulsão de Myanmar.

São também os militares quem controla algumas das principais fontes de riqueza em que se baseia a economia nacional. As forças armadas são uma estrutura que mistura organização militar, com interesses económicos e políticos. Em certas zonas do país, estão directamente ligadas à exploração ilegal de pedras preciosas e à facilitação da produção e do comércio de drogas. Têm, além disso, uma ligação estreita com as forças armadas da China, nas zonas fronteiriças com esse país, e com a Índia, igualmente nas fronteiras comuns. E é conhecida a cooperação militar entre Myanmar e Israel, quer em termos de formação quer na aquisição de armamentos.  

Tenho seguido, há vários anos, por obrigação profissional, o que se passa em Myanmar. E acho fundamental que se condene de modo inequívoco o golpe de estado de hoje. O Conselho de Segurança da ONU discutirá a situação amanhã. Não creio, no entanto, que a China possa tomar uma posição muito clara. Um dos corredores económicos fundamentais da Nova Rota da Seda passa por Myanmar. O seu funcionamento dependerá da boa vontade dos militares golpistas.

 

Donald Trump e a diplomacia do cacete

A minha coluna de opinião desta semana, hoje publicada no Diário de Notícias, tem como tema o discurso que Donald Trump dirigiu à Assembleia Geral das Nações Unidas. Esse discurso tinha as seguintes mensagens: a China como estado hostil; Trump como um líder de paz; o auto-elogio como uma arma de campanha eleitoral; e uma referência às áreas de trabalho das Nações Unidas, segundo a visão de Washington. Foi mau em relação à China e razoável, no que respeita à ONU. O resto, foi conversa eleitoral e a ambição de ganhar o Prémio Nobel da Paz. Trump sonha com esse prémio. Não compreende como foi possível que Obama o obtivesse e ele ainda não.

Entretanto, o embaixador que colocou em Lisboa disse-nos hoje que Portugal tem que escolher entre a China e os Estados Unidos. O embaixador deve ter aprendido diplomacia na mesma escola que o seu chefe frequentou.  

 

António Costa e a ONU

O discurso do Primeiro-Ministro António Costa, proferido hoje perante a Assembleia Geral das Nações Unidas, foi positivo e abrangente. Disse tudo o que se espera de quem apoia o sistema onusiano e acredita na cooperação e nas parcerias internacionais. A ligação que fez entre desigualdades sociais, segurança internacional, crescimento demográfico e degradação do ambiente foi inteligente. Falou ainda do alargamento do Conselho de Segurança, como fazendo parte da reforma do mesmo, e aproveitou para marcar pontos junto do Brasil, da Índia e de África. As referências feitas à dignidade humana e aos direitos básicos das pessoas completaram bem o quadro. Falou durante mais ou menos 13 minutos, o que é um tempo apropriado. Seria importante que houvesse  versões escritas em inglês e francês do seu discurso.  

Sobre o Líbano e a resolução de conflitos

O meu escrito desta semana no Diário de Notícias já está aberto e disponível na edição digital. O link é o seguinte:

https://www.dn.pt/edicao-do-dia/15-ago-2020/do-libano-ao-congelador-de-conflitos-12521156.html

Boa leitura e muitos comentários, por favor. 

Escrever sobre o Líbano

A minha coluna desta semana no Diário de Notícias (edição em papel, mas disponível no site do jornal amanhã ou segunda-feira) trata da situação no Líbano, mas numa perspectiva diferente dos comentários que têm sido publicados. O meu texto parte do princípio que o leitor conhece os factos mais marcantes. E convida a reflectir sobre a resposta internacional. A ideia de base é que a situação política interna é muito complexa e resulta do jogo de várias forças políticas. Em geral, essas forças têm tirado proveito da situação e não querem que ela mude. Ou seja, estamos perante uma crise estrutural, que está para durar. Quando isso acontece, a reacção da comunidade internacional é a de pôr de lado o problema. Sem o solucionar, esperando apenas que as tensões baixem. E que os estragos possam ser controlados.

Os 75 anos da Carta da ONU

A Carta das Nações Unidas festeja hoje os seus 75 anos de existência. Assinada em São Francisco, na Califórnia, foi um documento visionário, aprovado por líderes de grande envergadura, que tinham acabado de viver a guerra mundial e queriam criar as condições políticas para que não voltasse a haver um conflito dessa magnitude.

No essencial, a Carta continua válida. Nas minhas actividades de agora, faço muitas vezes referência ao documento. E à autoridade que confere ao Conselho de Segurança e ao Secretário-geral. Na Carta não há equívocos nessa matéria. Só que a realidade política internacional está em transformação e nem sempre as novas circunstâncias são favoráveis ao desempenho de um papel mais activo, por parte da ONU.

Essa é a situação actual. O Conselho de Segurança está profundamente dividido. E as grandes potências procuram soluções bilaterais, fora do âmbito das Nações Unidas. O Secretariado e as agências estão inteiramente dependentes da boa vontade – que não é nenhuma – dos membros permanentes. Perderam a capacidade de definir a agenda, de tomar iniciativas estruturais e de poder lembrar os valores que devem reger as relações internacionais. Estão em modo de sobrevivência, que é um modo que, normalmente, não leva a parte alguma. Esperar que os tempos difíceis e os líderes actuais passem podem parecer uma boa estratégia, a de ganhar tempo. Veremos se vai dar resultado.

Prefiro uma intervenção mais visível e mais centrada no que é, de facto, essencial para o mundo de hoje.

De qualquer modo, é bom lembrar os 75 anos e a pertinência da Carta.

Javier Pérez de Cuéllar

A actualidade de hoje está cheia de acontecimentos e de notícias importantes. Temos a situação na fronteira turco-grega, a expansão da pandemia do Covid-19, o impacto económico que provoca, incluindo as enormes percas nas bolsas de valores e a quase falência das companhias de aviação, o encontro entre Vladimir Putin e Recep Tayyip Erdodan, Idlib na Síria, a Guiné-Bissau, a saída de Elizabeth Warren da corrida presidencial nos Estados Unidos, o PM António Costa a tentar ultrapassar a lei sobre a construção do novo aeroporto, etc, etc.

Para mim, a escolha é, no entanto clara: deixar aqui uma palavra de homenagem e uma expressão de grande pesar pelo falecimento de Javier Pérez de Cuéllar, que foi meu chefe supremo na década de 80 e por quem sempre tive muito apreço. Era um homem bom, excepcionalmente bem-educado, um mediador ímpar, um Secretário-Geral que não gostava de protagonismos pois achava que a preocupação com a visibilidade o impediria de fazer o muito que fez. Respeitado por todos, capaz de fazer a ligação entre os cinco membros permanentes do Conselho de Segurança, esteve à frente de alguns dos mais significativos processos de paz que muito prestígio trouxeram à ONU e que mudaram a vida de milhões de pessoas. Por isso, o destaque de hoje tem que ir para ele.

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