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Vistas largas

Crescemos quando abrimos horizontes

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Duas abstenções no Conselho de Segurança

A resolução sobre o Afeganistão, que foi tema do meu blog de ontem, foi aprovada por 13 dos 15 estados que compõem o Conselho de Segurança da ONU. A China e a Rússia abstiveram-se, apesar do texto ter sido trabalhado de modo a torná-lo menos imperativo e mais respeitador da nova autoridade que controla o Afeganistão.

No caso da China, ficou pouco claro qual foi a razão da abstenção. Quanto à Rússia, tratou-se, para já, de um favor feito à China, pois o representante russo disse que a abstenção se justificava por não haver no projecto de resolução uma qualquer referência ao Movimento Islâmico do Turquestão Oriental, um grupo moribundo que a China acusa de levar a cabo acções terroristas na província uigur de Xinjiang. A verdade é que esse grupo está inactivo há já algum tempo.

A Rússia precisa da China. E a China olha para o Afeganistão com grande interesse. Ambos querem estabelecer boas relações com o poder talibã. Nessa competição, ganhará a China.

 

O Afeganistão e o Conselho de Segurança da ONU

Neste dia em que o Conselho de Segurança das Nações Unidas aprovou uma resolução frouxa, para pedir aos talibãs que respeitem a promessa que fizeram de deixar sair do país quem tiver os documentos de viagem necessários, é preciso lembrar as realidades que a população está a viver.

Assassinatos sumários de membros das forças militares e de segurança, especialmente de mulheres com postos de responsabilidade no aparelho securitário que foi derrubado. Esses assassinatos estão a acontecer um pouco por toda a parte, sobretudo nos centros urbanos.

Repressão das mulheres e raparigas. Impedidas de ir trabalhar, de voltar às salas de aula. E os dirigentes confirmaram hoje à UNICEF que as raparigas só poderão frequentar o ensino primário.

Uma crise económica muito profunda. Não há dinheiro disponível, uma parte da economia não funciona e o país atravessa um período de seca muito grave, que provoca uma quebra significativa da produção alimentar. À crise económica seguir-se-á uma crise humanitária massiva.

Medo generalizado. As pessoas sabem o que significa uma governação talibã.

Ansiedade na região, que teme ver chegar um número impressionante de refugiados e um acréscimo do terrorismo, com grupos a operar a partir do Afeganistão.

Essas são as realidades. A resolução do Conselho de Segurança pouco mais é do que um tiro de pólvora seca. A França havia proposto uma resolução um pouco mais enérgica, embora fundamentalmente ligada às questões da evacuação e da ajuda humanitária, mas não conseguiu construir um consenso, que permitisse a sua aprovação. A atitude no Conselho é de esperar para ver. Ou seja, não agir quando o deveria fazer.

 

Cooperar com África

Hoje falo para uma audiência lusófona sobre África, a cooperação e o futuro. É um tema delicado, quando o orador não é um africano. Mesmo no meu caso, que passei 29 anos da minha carreira nesse continente ou a tratar de assuntos com ele directamente relacionados. É ainda mais delicado por causa da guerra de ideias que existe entre os chamados afro-pessimistas e os optimistas. Mesmo falando de dados concretos, é fácil cair-se nos enredos que essa discussão encerra.

É, no entanto, uma polémica que deve considerar que cada país tem os seus problemas e as suas potencialidades. Comparar o Gana com o vizinho Burkina Faso, ou o Ruanda com o país irmão que é o Burundi, seria comparar o dia e a noite.

Procurarei abordar seis temas. O que deve ser a cooperação nesta década. A diversidade do continente africano e os desafios que cada região enfrenta. As mudanças estruturais necessárias, o impacto da pandemia da Covid-19 e a questão das lideranças. A União Europeia e a China: dois grande actores externos. A integração regional. África no sistema multilateral, incluindo numa futura reforma do Conselho de Segurança da ONU.

Na realidade, os temas são sobretudo interrogações. Nos dias de hoje, há muitas. O debate mostrará se temos ideias claras. E, certamente, irá continuar.

 

Manter a paz

Neste dia internacional das operações de paz, é justo fazer referência à contribuição dos militares, polícias e civis para a resolução de conflitos, sob a égide do Conselho de Segurança das Nações Unidas. Certos países têm contribuído e continuam a contribuir com numerosos contingentes. E alguns deles, prestam um serviço excepcional à causa da paz, aceitando missões extremamente arriscadas e sem imporem à ONU condições de operacionalidade que outros exigem e que, na realidade, dificultam a execução das operações.

As operações de paz clamam há anos por um novo quadro de princípios. Ban Ki-moon tentou, ainda em 2015, fazer a reforma do sector. Mas, por várias razões, a reforma não avançou. Desde então, países como a França impuseram uma certa maneira de encarar as operações de paz, que está em contradição com várias lições aprendidas e com a visão dos países que mais tropas e polícias põem à disposição da ONU.

A timidez reinante agora em Nova Iorque decidiu não levantar a questão da reforma desta dimensão fundamental das Nações Unidas. Os Estados mais fortes definem a política e maneira de agir. E as missões prolongam-se no terreno, muitas vezes sem uma análise correcta do que seria necessário fazer.

Claro que nada disto retira, a cada homem e mulher que está no terreno, o seu valor. E é esse valor que hoje deve ser lembrado.

Como fui o único português que comandou operações de paz – na Serra Leoa, no Chade e na República Centro-africana – vejo o dia como uma jornada de homenagem e de luta pela paz. Mas amanhã é preciso voltar a falar da reforma das operações de paz da ONU.

 

 

Dez anos de guerra na Síria

A repressão armada, maciça e cruel do regime sírio de Bachar al-Assad contra a sua população começou há dez anos, dia por dia. Depois de tantos anos, o ditador continua no poder, graças à ajuda militar de Vladimir Putin e dos seus aliados iranianos e do Hezbollah libanês. Não houve uma solução política, mas sim uma realidade que se impôs pela força das armas. O país continua em crise profunda, milhões de sírios tiveram que procurar refúgio noutras terras, o sofrimento é imenso. E a comunidade internacional mostrou, uma vez mais, que não consegue resolver as grandes crises nacionais ou regionais, sobretudo se um dos grandes, daqueles que têm direito de veto no Conselho de Segurança, está directamente implicado no conflito.

Entretanto, a ONU já vai no seu quarto representante especial para a Síria, sem ter conseguido um mínimo de progresso na frente política. Na área humanitária tem desempenhado um papel fundamental. Mas, na resolução do conflito, a sua acção tem sido permanentemente impedida pelos membros do Conselho de Segurança com direito a veto e por forças da região. O papel político das Nações Unidas foi reduzido a nada, neste caso. Ou seja, o pilar central do sistema foi completamente marginalizado. As Nações Unidas não podem ficar reduzidas à ajuda humanitária – muitas ONGs fazem esse trabalho –, ao apoio a refugiados ou à ajuda alimentar. Tudo isso é importante, sem dúvida. Porém, o mais importante é a resolução dos conflitos que geram a miséria humanitária, a promoção de transições democráticas e a defesa dos direitos humanos. É nessas áreas que a ONU é insubstituível, se a deixarem trabalhar.

Longe e perto, confusões

https://www.dn.pt/opiniao/suu-kyi-e-a-nossa-ursula-13316077.html

Este é o link para o meu texto desta semana (de hoje) no Diário de Notícias.

Faço uma digressão por Myanmar para chegar à União Europeia e mostrar a minha preocupação com a confusão que instalou, um pouco por toda a parte, pelo facto das campanhas de vacinação estarem a progredir a passo de caracol. Ou de camaleão, já que se trata de política. 

Temas, preocupações e alegrias

Se me meter em conversas em que se discutem temas que nos entristecem ou nos pintam uma sociedade à deriva, fico perdido. Estou a pensar nos temas da ineficiência, da manipulação da opinião pública, da corrupção, da ausência de punição para os criminosos com dinheiro e apoios políticos, dos compadrios, e agora – parece que está na moda – da formação de um governo de unidade nacional – não entendo bem o que isso quer dizer nem onde os seus proponentes querem chegar. Não sei o suficiente sobre o nosso quotidiano, depois de quarenta e dois anos de ausência, para me intrometer nesses debates. Mas reconheço a validade dessas questões. E a necessidade de as discutir de uma forma calibrada e sem manchas de clubite partidária.

Entretanto, ao fim do dia, tive duas boas notícias.

Uma, respeitante ao Conselho de Segurança da ONU, que aprovou uma declaração muito clara contra os militares golpistas em Myanmar. No essencial, é-lhes dito que isso de golpes é algo que não é aceitável no mundo de hoje. Foi uma declaração que me surpreendeu pela positiva. E digo isso no artigo que acabo de escrever para o Diário de Notícias de amanhã.

A outra foi o discurso de Joe Biden sobre política externa. Enunciou uma política clara, baseada na diplomacia com princípios e no respeito por todos os membros da comunidade internacional que se conduzam de modo democrático e que promovam os direitos humanos das suas populações. Ouvir o que ele disse fez-me perguntar a mim próprio se ele e Trump vivem no mesmo país. De um lado, temos uma atitude coerente e positiva. Do outro, era a política do imprevisto e do egoísmo nacionalista. A diferença entre um tipo de América e o outro é simplesmente colossal.

 

Myanmar e os seus imensos problemas

Fevereiro começa, na cena internacional, com um golpe de estado em Myanmar. O partido de Aung San Suu Kyi havia ganho de modo esmagador as eleições legislativas de novembro passado. É verdade que as eleições não foram realizadas da melhor maneira, por causa da pandemia e das rebeliões armadas que persistem em várias regiões do país. Mas onde tiveram lugar de modo aceitável mostraram claramente que a senhora Suu Kyi goza de uma popularidade enorme junto das populações. Sobretudo quando se trata da etnia birmane, que é, de longe a mais numerosa.

Também é um facto que Aung San Suu Kyi pode ser criticada por várias razões, por acontecimentos e tomadas de posição que adoptou ao longo dos últimos cinco anos em que esteve no poder. Mas é fácil criticar a líder e esquecer as imensas e profundas contradições que existem no país. A sua liderança era, em grande parte, um exercício de equilíbrio. No fundo da cena, estavam sempre os generais e a máquina militar, que é poderosa. São estes que massacraram os Rohingyas e levaram à sua expulsão de Myanmar.

São também os militares quem controla algumas das principais fontes de riqueza em que se baseia a economia nacional. As forças armadas são uma estrutura que mistura organização militar, com interesses económicos e políticos. Em certas zonas do país, estão directamente ligadas à exploração ilegal de pedras preciosas e à facilitação da produção e do comércio de drogas. Têm, além disso, uma ligação estreita com as forças armadas da China, nas zonas fronteiriças com esse país, e com a Índia, igualmente nas fronteiras comuns. E é conhecida a cooperação militar entre Myanmar e Israel, quer em termos de formação quer na aquisição de armamentos.  

Tenho seguido, há vários anos, por obrigação profissional, o que se passa em Myanmar. E acho fundamental que se condene de modo inequívoco o golpe de estado de hoje. O Conselho de Segurança da ONU discutirá a situação amanhã. Não creio, no entanto, que a China possa tomar uma posição muito clara. Um dos corredores económicos fundamentais da Nova Rota da Seda passa por Myanmar. O seu funcionamento dependerá da boa vontade dos militares golpistas.

 

Donald Trump e a diplomacia do cacete

A minha coluna de opinião desta semana, hoje publicada no Diário de Notícias, tem como tema o discurso que Donald Trump dirigiu à Assembleia Geral das Nações Unidas. Esse discurso tinha as seguintes mensagens: a China como estado hostil; Trump como um líder de paz; o auto-elogio como uma arma de campanha eleitoral; e uma referência às áreas de trabalho das Nações Unidas, segundo a visão de Washington. Foi mau em relação à China e razoável, no que respeita à ONU. O resto, foi conversa eleitoral e a ambição de ganhar o Prémio Nobel da Paz. Trump sonha com esse prémio. Não compreende como foi possível que Obama o obtivesse e ele ainda não.

Entretanto, o embaixador que colocou em Lisboa disse-nos hoje que Portugal tem que escolher entre a China e os Estados Unidos. O embaixador deve ter aprendido diplomacia na mesma escola que o seu chefe frequentou.  

 

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