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Vistas largas

Crescemos quando abrimos horizontes

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O nosso inverno

A pandemia do coronavírus voltou a tornar-se uma preocupação central de vários países da União Europeia. O aumento do número de infecções anuncia um inverno de restrições, algo que terá um impacto económico, social e político muito preocupante. 

Ao aumento dos preços do gás, das matérias-primas, da habitação e as dificuldades ligadas ao funcionamento das cadeias logísticas, junta-se agora a perspectiva de uma travagem económica considerada necessária para conter um novo pico de propagação do vírus.

Ontem, a Chanceler alemã Angela Merkel caracterizou a situação como sendo dramática. Essa expressão define bem as perspectivas que se podem antever para os próximos meses. 

Alguns mencionaram, entretanto, a possibilidade de novos fechos das fronteiras entre os países da União Europeia. É provável que isso não aconteça, mas a referência a esse tipo de medidas mostra o grau de preocupação dos dirigentes europeus. 

Sobre a 76ª Assembleia-Geral da ONU

Começa amanhã a 76ª Assembleia Geral das Nações Unidas. Uma boa parte das comunicações serão por via digital. Mesmo assim, teremos alguns líderes em Nova Iorque, para além de Joe Biden. A União Europeia estará representada em excesso, dirão alguns – Ursula von der Leyen, Charles Michel e Josep Borrell. De qualquer modo, a mensagem vinda de Bruxelas é clara: a UE quer aprofundar o seu relacionamento com o sistema das Nações Unidas e apoia a agenda do Secretário-Geral. Sobretudo no que diz respeito à expansão das campanhas de vacinação aos países mais pobres e na área do clima. Em ambos os casos, a equipa que lidera as instituições europeias tem tido um comportamento bastante construtivo.

Emmanuel Macron não estará em Nova Iorque. Trata-se de uma decisão anterior à crise actual à volta dos submarinos. Mas calha bem. Seria difícil ter um encontro pessoal com Joe Biden, neste momento. A França sente-se profundamente ofendida com o que aconteceu e a maneira como aconteceu. Está prevista, para um dia desta semana que ainda não parece definido, uma conversa telefónica entre os dois presidentes. É melhor começar o tratamento da questão desse modo. Veremos, no entanto, o que será dito durante esse telefonema.

Uma jornalista do Diário de Notícias, Susete Francisco, uma profissional por quem tenho muito apreço, perguntava-me hoje que mais-valia tem o discurso do Presidente Rebelo de Sousa na Assembleia-Geral. Sublinhei que sim, que existe uma mais-valia. É importante ver o Chefe do Estado donde provém o Secretário-Geral apoiar a agenda que este propõe. Nestas coisas, o simbolismo conta, mesmo quando não passa de um eco. O eco amplia a mensagem.

A situação internacional está bastante complicada. A tendência é para que se complique ainda mais. Nestas circunstâncias, é preciso lembrar a todos o papel que as Nações Unidas podem desempenhar. E não apenas no domínio humanitário. A organização existe para resolver questões políticas e para salvaguardar os direitos de cada pessoa. É a partir daí que se deve construir a agenda internacional.

O Estado da Europa

Que palavras associar ao discurso de Ursula von der Leyen sobre o “Estado da União Europeia”?

Serenidade. Voltar a acreditar no projecto europeu. Generosidade no apoio aos países mais pobres em vacinas contra a COVID-19. Ambição. Frustração. Firmeza em matéria de respeito pelo Estado de direito. Clareza quando à importância da liberdade dos media. Indefinição no que respeita à defesa europeia. Competição com a China. Alinhamento com os americanos no que respeita ao Indo-Pacífico, mas sem que se perceba o que isso significa. Migrações, um problema sem resposta comum. Política digital.

Os selvagens negacionistas

Os insultos e as ameaças proferidos contra o Presidente da Assembleia da República devem ser inequivocamente condenados e objecto de procedimento criminal. Não sei se os diferentes partidos políticos se pronunciaram sobre o que aconteceu. Espero que o tenham feito e sem qualquer tipo de ambiguidades. Isto não é uma questão partidária. Trata-se de salvaguardar o respeito por quem exerce funções públicas. Ferro Rodrigues não será o político mais arguto ou mais simpático ou tolerante na colecção que temos. Mas é o segundo magistrado da nação e como tal deve ser tratado.

Por outro lado, os tresloucados que cometeram os crimes contra Ferro Rodrigues são gente que não dá para entender. Mas a sua falta de inteligência é uma coisa. A violência que revelaram é outra. Essa é pura e simplesmente inaceitável.

Entretanto, ainda não percebi se Fernando Nobre tinha ou não discursado perante estes energúmenos. Esta é uma questão menor. No entanto, precisa de resposta. O próprio deverá esclarecer se sim ou não e, caso tenha botado palavra, explicar publicamente aquilo que lhes disse.

Numa nota mais geral, sempre achei um erro misturar acção humanitária com combate político. São duas coisas completamente diferentes. Quem anda numa não se deve meter na outra.  

Urgências políticas

https://www.dn.pt/opiniao/clima-e-pandemia-visoes-curtas-na-hora-das-urgencias-13988080.html

Este é o link para o meu texto desta semana (hoje) no Diário de Notícias. O artigo sublinha duas questões que devem estar no topo da agenda internacional: a equidade no acesso às vacinas contra o Covid-19, de modo a que as populações dos países mais pobres possam ser também elas imunizadas; e a luta contra as alterações climáticas, para que a próxima COP26, que terá lugar em Glasgow na primeira metade de novembro, possa ter resultados concretos. 

Cito, como de costume, um extracto desta minha crónica. 

"Agosto é má altura para falar destes temas. Mas a rentrée em setembro terá que colocar a preparação da COP26 no topo da agenda, a par da questão gravíssima da desigualdade no acesso às vacinas contra a Covid-19, por parte dos países pobres. O desafio será o de transformar o slogan vazio, embora continuamente repetido, sobre a reconstrução de uma economia mais verde pós-pandemia, numa série de planos concretos. E tornar as vacinas acessíveis a ricos e pobres. Tratar-se-á de lembrar aos grandes e aos pequeninos chefes enleados em hesitações e oportunismos que nestas duas matérias o futuro já começou, e toca a todos."

Cidadania e responsabilidade

O Presidente dos EUA está visivelmente preocupado com o facto de uma parte importante dos americanos ainda não estar vacinada contra a Covid-19, apesar de todos os esforços que têm sido feitos nos últimos seis meses. Mais ou menos 50% dos cidadãos, por razões várias, está por vacinar. Uns porque associam a campanha à presidência democrata e são visceralmente do partido oposto, outros por não acreditarem na eficácia da vacina e um certo número porque não querem perder o salário de umas horas de trabalho, por estarem na fila à espera da sua vez.

O discurso de Joe Biden foi muito bem articulado. Mas nestas coisas, só aceitam a argumentação os que já estão convencidos. Por isso, Biden teve de propor incentivos financeiros e adoptar medidas, ao nível federal, que tornam a vacina uma necessidade. É lamentável que assim seja. A eficácia da vacina está mais do que provada. Cada cidadão deveria considerar a sua imunização como um acto cívico indispensável para o seu bem e o de todos.

Sou dos que defendem a obrigatoriedade da vacina. O vírus é algo de muito sério. Tem um impacto humano, social e económico muito profundo. Quanto mais rapidamente for combatida a sua propagação, melhor será.

Um optimismo resignado

Neste momento, há algum movimento turístico na minha zona de Belém. Nada que se compare a anos passados, mas nota-se a presença de turistas, algo que não acontecia há um ano. A grande maioria são pessoas jovens. Casais com crianças e adolescentes são raros. Pessoas do tipo reformado, praticamente zero.

Os comerciantes locais, sobretudo os restaurantes, olham para tudo isto com um optimismo resignado. Pouco é melhor do que nada. Será disto que se fala, quando se usa a palavra moderna, que anda na boca dos políticos mais modernos, resiliência?

Entretanto, um amigo meu esteve hoje em Silves. Disse-me que a cidade está deserta. Vários restaurantes estão fechados. Não aparecem clientes que justifiquem a abertura.

Tudo isto pesa muito na economia nacional. Ainda não se percebe qual será o verdadeiro impacto, mas que haverá um impacto negativo é certo. Pensar que os dinheiros que virão de Bruxelas irão tapar estes buracos parece-me um bocado ilusório. Muitos desses dinheiros vão para grandes projectos do sector público ou para-público e nada têm de ver com a sobrevivência das pequenas empresas e dos comércios que são uma parte significativa do tecido económico privado.

Mas há que acreditar em dias melhores, diria o meu amigo Martins, da rua de Belém.

Na Baixa em baixa

Hoje fiz algo que não fazia há quase um ano: ir à Baixa de Lisboa. E encontrei uma Lisboa a meio gás, ou mesmo menos. Os estabelecimentos comerciais que continuam abertos pouco mais fazem do que tentar sobreviver. E vários fecharam de vez, incluindo lojas que faziam parte da identidade da Baixa.

A única animação era a de um cidadão tresloucado, que percorria o Rossio de peito descoberto, a gritar palavrões e a assustar os poucos turistas que por ali andavam. Era óbvio que ninguém sabe o que fazer numa circunstância destas e que não há um tratamento oficial deste tipo de desgraças. Como em muitas outras coisas, deixa-se andar e finge-se que não se vê.

Havia também muita confusão sobre as novas medidas do governo sobre a covid, em particular sobre a necessidade de fazer valer um certificado de vacinação ou coisa equivalente, para ganhar acesso a um alojamento num hotel ou casa de Alojamento Local. Muitos dos poucos turistas que aparecem são jovens e, por isso, ainda não estão vacinados. Com as novas exigências, ficam numa situação embaraçosa.

Os engraxadores continuam a fazer parte da paisagem do Rossio. Mas não serão mais do que seis. E hoje já ninguém anda com sapatos que peçam graxa. Era o meu caso. Mas mesmo assim, sentei-me em frente de um deles. Limpou-me os mocassins por três euros e disse-me estar convencido que piores dias virão.

Um verão abaixo das expectativas

Nota-se algum movimento de turistas na zona de Belém, em Lisboa. Uma boa parte é espanhola ou francesa e terá vindo por via terrestre. Os comerciantes estão mais animados, embora saibam que este vai ser mais um verão bem abaixo do que é normal. Mas, num período de seca, qualquer gota de água é celebrada com optimismo.

Ao mesmo tempo, manifestam receio que a situação da pandemia piore. E traga consigo novas restrições. Os números não são bons e a curva vai no mau sentido.

De qualquer modo, será um período de férias diferente. Em muitos países, a inclinação é para fazer férias dentro das fronteiras nacionais.

Entretanto, há futebol, por mais uns dias. E a OMS olha para os ajuntamentos que a competição está a causar com enorme preocupação. Assim o disse, hoje, uma vez mais, o director para a Europa dessa organização.  

Boris, um político leve e manhoso

Contra todos os pareceres científicos, Boris Johnson anunciou esta tarde que as medidas restritivas, destinadas a controlar a propagação da covid-19, iriam ser levantadas dentro de duas semanas, no que diz respeito à Inglaterra. Em matéria de saúde pública, cada nação do Reino Unido tem autonomia própria. Por isso, o seu anúncio limita-se à parte inglesa do país.

Esta decisão política é um sinal de fraqueza. O PM sabe que as normas impostas são cada vez mais ignoradas pela população. Basta ver as fotografias do fim-de-semana para se perceber isso: gente por toda a parte, nos bares e noutros locais públicos, sem distância nem máscara, na maioria dos casos. Os especialistas queriam que as normas em vigor fossem aplicadas com seriedade e disciplina. Boris não teve coragem para isso. Decidiu permitir o que já estava a ser praticado.

Entretanto, o número de casos diários, na Inglaterra como por cá, continuam a aumentar. É verdade que há menos óbitos. Mas é igualmente um facto que a expansão da pandemia não é algo que possa ser levado de modo ligeiro. Tem múltiplos impactos: humanos, económicos, sociais e nas relações entre os Estados.

 

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