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Vistas largas

Crescemos quando abrimos horizontes

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Crescemos quando abrimos horizontes

Aqui não há dúvidas

Quem diz que vê na agressão russa contra a Ucrânia uma guerra indirecta, por procuração, entre a Rússia e os Estados Unidos está enganado ou quer enganar os outros. O que na realidade está a acontecer é uma manifestação selvagem da fúria destruidora de Vladimir Putin e dos seus contra uma cultura vizinha, mas a quem ele e os seus não reconhecem o direito de ser diferente e independente. 

Manter a pressão política

De Bruxelas a Beijing e Nova Deli, em tempo de atrocidades

Victor Ângelo

 

 

Na nossa parte do mundo, esta foi uma semana de viragem para pior. Estamos hoje numa situação bem mais delicada e perigosa. As atrocidades cometidas em Bucha, nos arredores de Kyiv, e noutras localidades, chocaram quem delas tomou conhecimento e prejudicaram gravemente a possibilidade de um diálogo entre os países ocidentais e o regime de Vladimir Putin. Agora, e sem se pronunciar a palavra que todos temem, poderemos estar numa confrontação decisiva entre os dois lados.

Um dos dois terá de ceder. Seria um engano não pensar assim. E, claro, o recuo não pode ser do nosso lado. Mas seria um erro ainda maior não agir de modo consequente. Isto quer dizer que as sanções precisam de entrar num novo patamar, que vise minar de modo determinante a capacidade económica e financeira do Kremlin. É fundamental ir mais além do carvão e deixar de importar todo o tipo de produtos petrolíferos. As estatísticas são claras: em 2021, a UE importou da Rússia 74 mil milhões de euros de petróleo e de produtos derivados do petróleo, enquanto as importações de gás natural somaram 16,3 mil milhões. Há quem na UE se oponha a esse tipo de sanções, dizendo que provocaria uma onda inflacionista e dificuldades insuportáveis para muitas das nossas empresas. Estudos credíveis mostram que tudo isso é gerível, tendo em conta o grau de sofisticação das nossas economias e os recursos que podem ser mobilizados. Mas, mais ainda, deve-se compreender que a obtenção da paz e a salvaguarda do futuro da Europa não podem ser obtidos sem alguns sacrifícios no curto prazo.

É igualmente essencial isolar ainda mais a Rússia. Foi essa a questão central das preocupações europeias, aquando da cimeira com a China, na passada sexta-feira. Durante a reunião, a mensagem pareceu cair em ouvidos moucos. Os dirigentes chineses insistiram na excelente cooperação que existe entre eles e Putin. Mas, nos dias seguintes, o discurso público em Beijing evoluiu. Passou a ser mais positivo em relação à Europa. Quem tem dinheiro, tem amigos, e os chineses sabem que a UE se transformou no seu maior parceiro comercial. Não podem perder o mercado europeu. O comércio entre ambos cresceu 27,5% em 2021, apesar das dificuldades ligadas à pandemia, ao aumento dos custos dos transportes marítimos, às interrupções nas cadeias de circulação de componentes e a um clima geopolítico desfavorável. Também não podem perder os investimentos vindos da Europa. Ursula von der Leyen e Charles Michel souberam fazer valer a carta dos investimentos. O acordo nessa matéria, aprovado em Bruxelas, em finais de 2020, tem estado congelado desde então, o que irrita a parte chinesa. Um maior afastamento da China em relação à Rússia poderá fazer avançar o descongelamento.

Para além da vertente mercantil, a China quer uma UE forte, na esperança de assim conseguir desamarrar, política e militarmente, a Europa dos EUA. Isso explica que seja construtiva na maneira como se refere à UE e, ao mesmo tempo, siga e amplie a retórica da Rússia, no que respeita à NATO. Independentemente dessa narrativa, o importante é fazer ver a Beijing que uma proximidade excessiva em relação a Putin joga contra os interesses a prazo da China. E não se trata dos interesses económicos apenas, por muito importantes que sejam as matérias-primas extraídas do vasto território russo. A deterioração da imagem internacional do ditador russo não pode ser ignorada por um país que ambiciona ser olhado como um dos polos da nova ordem global e um farol de paz.

No meio de tudo isto, seria um descuido grave esquecermo-nos da Índia. Narendra Modi investe num relacionamento próximo com a Rússia, para evitar que esta caia apenas para o lado chinês. A rivalidade com a China e a inimizade contra o Paquistão são os dois eixos principais da política externa indiana. Não quer, por isso, dar uma qualquer oportunidade à China de beneficiar de uma relação comparativamente mais privilegiada com a Rússia. A UE não pode descurar, nesta matéria, o diálogo com a Índia, franco e em paralelo com o que deverá continuar a manter com a China.

De Bucha ao colapso do multilateralismo

As atrocidades cometidas em Bucha, a noroeste de Kyiv, chocaram meio mundo. Digo assim, pois esses crimes não apareceram ainda na imprensa chinesa. Mas o mundo que ficou chocado não esquecerá Bucha e muitas outras localidades até agora ainda ocupadas pelas tropas russas. Os factos deverão ser estabelecidos com o rigor possível e as consequências penais desses crimes de guerra terão que ocorrer.

Na UE, e também nos EUA, estas atrocidades provocaram uma nova onda de reacções contra Vladimir Putin e os seus. O fosso entre as partes é cada vez mais profundo. Entramos, em grande medida, numa confrontação que começa a ser vital para ambos os lados. Um conflito desse tipo é bastante perigoso. Quando se entra numa fase dessas, cada lado quer levar o outro à derrota. E essa rota está, neste momento, a ser percorrida de uma forma acelerada. A mediação entre a Rússia e o Ocidente parece estar a tornar-se impossível. Temos aí um risco grande e prolongado.

Um risco que se alastra. O primeiro-ministro do Paquistão, que ia ser derrubado por uma moção de censura do seu parlamento, dissolveu o mesmo, com o pretexto de que se tratava de uma conspiração americana. O vizinho do lado, a Índia, joga a carta da neutralidade, mas mantém uma relação sólida com a Rússia. E mais acima, a China, continua a apostar em tudo o que possa conduzir a uma fractura entre a UE e os EUA. Em África, a África do Sul e outros estão a voltar aos tempos do não-alinhamento, que neste caso, significa não criticar a Rússia.

Entretanto, a Indonésia prepara a cimeira deste ano do G20, que deverá ter lugar em outubro, ou pouco depois. Mas, haverá cimeira? Se a Rússia estiver presente, vários outros Estados não irão comparecer. A confrontação a que assistimos irá provocar o colapso de certas instituições multilaterais.

CNN Portugal, Bucha, ISCSP, SIED e Putin

Por razões técnicas de ligação, o meu comentário deste fim de tarde na CNN Portugal ficou por fazer. Teria falado das imagens chocantes que foram filmadas em Bucha, localidade cerca de Kyiv. Tudo parece indicar que centenas de civis foram vítimas de crimes de guerra, perpetrados por militares russos, antes da sua retirada. Trata-se de matéria muito grave.

Infelizmente, o comentador que apareceu no programa – um docente do ISCSP da Universidade de Lisboa e antigo funcionário superior do SIED – foi no mínimo ambíguo e superficial em relação à evidência dos crimes cometidos. Tentou ligar o odioso a acções de propaganda. Estas ambiguidades só servem para disfarçar a admiração que estes tipos de pessoas têm por Putin. Como não houve discussão, perdeu-se a oportunidade de pôr os pontos nos is.

Mas ficaram-me duas questões: primeiro, qual a qualidade das aulas que esta gente dá nas universidades onde leccionam?  Segundo, será o SIED – o chamado serviço de informações relacionadas com o estrangeiro – um viveiro de pró-putinistas? É que este professor é mais um caso ligado ao SIED. Provavelmente a resposta é negativa, que não se trata de um viveiro. Mas os serviços secretos de países aliados também poderão ter este tipo de interrogações.

Voltando à minha intervenção falhada, teria igualmente falado do que se tem seguido à cimeira de sexta-feira entre a União Europeia e a China. Um pós-cimeira muito interessante, sobre o qual vale a pena reflectir. Há muito em jogo, de um lado e do outro.

Os "progressistas" que vivem no passado

O desassossego dos intelectuais confusos

Victor Ângelo

 

Alguns dos nossos intelectuais andam algo confusos, nomeadamente quando se trata da guerra na Ucrânia. Queixam-se, por exemplo, da comunicação social e dos meios políticos, que estariam empenhados na perseguição dos que não seguem o que designam por “uma cartilha do pensamento único”. Pretendem, mesmo, que existe por aí um ataque contra “a faculdade de pensar”. Deve ser um ataque muito sub-reptício, pois as televisões e os jornais estão cheios de opiniões de todo o tipo e das teorias mais tolas e enviesadas, incluindo algumas das suas.

Essa manifesta confusão leva-os a tentar explicar o inaceitável, a todo o custo e com pretensas abordagens geopolíticas e históricas, que foram desenvolvidas durante a Guerra Fria e estão hoje em boa parte obsoletas. E o inaceitável é a violação das normas internacionais pelo regime antidemocrático e agressor que Vladimir Putin personifica. E esquecem também os crimes de guerra e contra a humanidade que as tropas de Putin levam diariamente a cabo, conforme a Amnistia Internacional nos lembrou esta semana. Crimes que já estão a ser objeto de investigação por parte do Tribunal Penal Internacional de Haia, bem como documentados pelo Alto-Comissariado da ONU para os Direitos Humanos, com base numa resolução dos Estados-membros, aprovada a 4 de março.

Esses intelectuais acrescentam ao seu desalinho ideológico várias investidas contra instituições intergovernamentais a que Portugal pertence e que são fundamentais para garantir a nossa defesa, segurança e prosperidade. Ao procederem assim parecem não entender a gravidade da crise em que a nossa parte da Europa se encontra, face ao revanchismo de Putin e à sua agressão contra o povo da Ucrânia, incluindo contra os ucranianos russófonos.

Quero acreditar que o alinhamento político com o adversário faz parte de uma atitude visceral de oposição à ordem vigente e ao senso comum, uma filosofia da contrariedade de bom tom, própria de quem se julga mais esperto do que os demais. Num momento como o de agora, poderá haver quem veja nesse posicionamento algo próximo da traição aos interesses nacionais. Penso ser exagerado caracterizar essa gente desse modo, porque não estamos numa guerra aberta contra nenhum Estado e, por isso, não é apropriado falar de traição.

Para entender a Europa de defesa de agora, seria bom lembrar que os países do antigo espaço de influência soviética, que aderiram à NATO no final dos anos 90 e já neste século, poderiam ter soberanamente optado por uma aliança com a Rússia. Moscovo havia criado uma estrutura militar paralela à NATO, em 1992, atualmente conhecida pelas iniciais CSTO – Organização do Tratado de Segurança Coletiva. Ora, na parte europeia, apenas a Bielorrússia e a Arménia fizeram essa opção. A esses Estados e à Rússia, juntaram-se apenas três países da Ásia Central, antigas repúblicas soviéticas: o Cazaquistão, o Quirguistão e o Tajiquistão. Os outros países, e são vários, ou ficaram de fora ou preferiram a Aliança Atlântica. O chamado alargamento da NATO foi, na realidade, o resultado de uma série de decisões nacionais soberanas. Por muito mediático que seja, que autoridade tem um pensador português para dizer aos povos polaco, letão, romeno ou qualquer outro, que não deveriam ter feito a escolha que fizeram? A mesma pergunta pode ser dirigida a Vladimir Putin.

À teoria das zonas estratégicas de influência, uma construção analítica que data do início dos anos 60 do século passado, mas que teve a sua origem nas movimentações coloniais e imperialistas do século XIX e que foi consolidada na Conferência de Yalta, em 1945, as Nações Unidas propõem uma nova visão. Uma alternativa que tem como fundamento o respeito dos direitos humanos e das normas universais, a resolução pacífica dos conflitos e a cooperação internacional. Isto poderá soar a idealismo e irrealismo geopolítico, sobretudo quando se tem presente a maneira de agir de Putin ou a competição estratégica entre os EUA e a China. Mas esse sim, deverá ser o estandarte dos intelectuais progressistas e de todas as pessoas razoáveis.

 

As palavras de Joe Biden

Sinceramente, não compreendo as críticas feitas ao Presidente Joe Biden, quando este disse o que disse sobre a política criminosa de Vladimir Putin. No meu texto de sexta-feira no Diário de Notícias, afirmei claramente que a paz na Europa e a cooperação com a Rússia passa pela democratização desse país. Não penso que Putin possa conduzir um processo de democratização. Como também não me parece correto passar uma esponja sobre a agressão, a violência, a destruição e o sofrimento que ele impôs ao povo ucraniano.   

 

Condenar a guerra com palavras claras

O Papa Francisco não tem tido papas na língua, quando fala do terror que a população ucraniana vive. A clareza das suas declarações e a sua autoridade moral não deixam lugar para equívocos. Trata-se de uma "guerra repugnante". E a responsabilidade cabe inteiramente a Vladimir Putin. Um homem que vai ficar na história com o seu nome associado a crimes de guerra. 

Quem tem autoridade moral não se deve calar. Antes pelo contrário, deve condenar os crimes de guerra a todo o momento. A situação é extremamente grave. Quem tem visibilidade pública tem de se expressar claramente. Não há espaço para silêncios nem para posições ambíguas, à moda chinesa. 

A guerra na ONU

Na véspera de uma nova votação sobre a escolha do Secretário-geral que se segue, noto que o Conselho de Segurança está a viver um período de grande tensão entre os países ocidentais – EUA, Reino Unido e França – e a Rússia. Hoje chegou-se a um ponto único, que foi o de acusar a Rússia de estar a praticar crimes de guerra na Síria.

Estas acusações são muito graves. Saem inteiramente do que tem sido a prática no Conselho de Segurança. Irão certamente tornar mais difícil um acordo entre os cinco permanentes sobre quem deverá ser o próximo Secretário-geral.

 

 

Massacres e crise nacional

Há vinte anos que começou o genocídio no Ruanda. E, umas semanas depois, fui enviado para a Tanzânia, como representante da ONU. No rol das minhas atribuições estava a coordenação da recepção das centenas de milhares de refugiados Hútus que iam chegando à Tanzânia e o acompanhamento político da crise, do meu lado da fronteira. As imagens de multidões de refugiados que fugiam a pé do Ruanda, dos massacres e da chegada ao poder dos rebeldes Tutsis ficaram para sempre gravadas na minha memória.

 

Uma vez levei a minha filha mais nova, que na altura tinha catorze anos acabados de fazer, para a zona, a muitas horas de voo de Dar-es-Salaam. Aconteceu que nesse dia o rio Kagera, que corre do Ruanda para a Tanzânia, estava a trazer um número elevado de corpos de vítimas dos massacres. Gente que havia sido assassinada e lançada às águas do rio. A dada altura, fui dar com a miúda a observar a pesca macabra que era o retirar da corrente esses cadáveres mutilados.

 

Aprendeu-se muito na altura. Mas quero apenas lembrar uma das lições, que sempre me vem à memória: o medo e ódio pelo outro podem, numa situação de crise nacional profunda, transformar vizinhos pacíficos em criminosos selvagens e cegos, capazes de tudo. Ali, como noutras partes do mundo.

 

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