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Vistas largas

Crescemos quando abrimos horizontes

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Crescemos quando abrimos horizontes

O turista de cabelos brancos

Durante a caminhada desta manhã, que faz parte da minha rotina, vi pela primeira vez este verão dois ou três pequenos grupos de turistas do tipo “reformados”. Até agora, o pouco que se via era gente jovem ou relativamente nova. Os da chamada terceira idade não apareciam. Medo do vírus? Provavelmente. Mas hoje apareceram. Veremos se isso volta a acontecer nos próximos dias. Como me disse o meu amigo proprietário de um restaurante que se situa perto dos “pastéis”, essa categoria de turistas tem mais massa do que os jovens. Talvez. Mas a verdade é que as indicações que tenho, de outras partes da Europa, é que todos estão muito agarrados à carteira. O consumo não é o que era. E os mais velhos têm, muitas vezes, que ajudar financeiramente os mais novos. E vem aí o inverno, os invernos, diria, que as nuvens parecem ser muitas, grossas e de vários tipos.  

 

Silêncios em tempos de crise

https://www.dn.pt/edicao-do-dia/01-ago-2020/este-tempo-nao-e-para-estatuas-12483419.html

O link que aqui deixo leva ao meu texto desta semana no Diário de Notícias, edição impressa em papel de 1 de agosto. 

Aconselho uma leitura de todas as palavras do meu escrito. Cada palavra tem o seu peso relativo. 

Obrigado. 

Olhares e reflexões

Passei a parte final da tarde a falar do passado. Três horas. Junto da Torre de Belém, que também nos lembra o que já fomos. É cansativo recordar quase cinco décadas de vida adulta. E de repente, alguém nos diz que esta conversa sobre factos e pessoas de ontem está muito entremeada com análises do presente e olhares sobre o futuro. Tinha que ser. Com a realidade tão complexa que temos pela frente, é impossível não ligar o que se aprendeu e viveu ao que poderá acontecer na era pós-covid. Com realismo, tanto quanto possível. Pensando no pior e na sua prevenção. É assim que se deve encarar o futuro, numa situação como a actual. Não se trata de pessimismo. Trata-se de procurar evitar o pior.

Depois, já em casa, soube que o Primeiro-Ministro da Austrália, Scott Morrison, prepara o seu país para que possa enfrentar um mundo, o de amanhã, que será “mais pobre, mais perigoso e mais desordenado”. Anunciou isso hoje. Poderemos não estar de acordo com as medidas que está a planear. Mas temos que reconhecer que as suas palavras nos fazem reflectir.  

Esta crise é a sério

O Primeiro-Ministro britânico anunciou hoje que o governo irá investir muito dinheiro em obras públicas, com uma especial referência a hospitais, escolas e estradas. Não sei donde virá esse dinheiro, tendo presente o grau de endividamento das contas públicas do país.

 Reflectindo sobre esse anúncio, é claro que Boris Johnson quer mostrar que Reino Unido não ficará atrás dos investimentos que irão ser feitos no quadro da União Europeia, também em resposta ao impacto da pandemia. Por outro lado, obras públicas são uma velha receita quando há uma crise económica muito profunda. É isso que ele está igualmente a revelar, que isto é a sério E que se trata de uma crise que está para durar. Como também será o caso na União Europeia.

Estamos, na verdade, perante um desafio enorme. O caminho proposto pela Comissão Europeia parece-me mais adequado do que a ideia de obras públicas. É uma aposta na modernização da economia, na transformação da pegada ecológica, na biotecnologia, no reforço dos sistemas de saúde. Terá menos cimento do que o plano de Johnson, mas mais ciência e inovação. E assenta na dinâmica empresarial. Mas tem que avançar rapidamente. A aprovação do plano europeu tem que ser feita na cimeira de julho, sem falta. Foi isso que, indirectamente, Johnson nos veio lembrar.

Peixe fresco numa cidade parada

Hoje foi dia de comprar peixe. É uma tarefa que normalmente ocorre às quartas, pela manhã. É o momento da semana em que chega mais peixe fresco. O comerciante de peixe, a dez minutos a pé aqui de casa, é um grossista que fornece os restaurantes e os hotéis, mas que também aceita compradores avulso, como nós. É tudo pago em dinheiro vivo, que o homem não gosta de plástico e ainda menos, do pessoal das finanças. Para os particulares não há recibos, nem facturas. Em compensação, vende um peixe fresco e de excelente qualidade. Agora, com os restaurantes fechados, o negócio está fraco. Mas as portas mantém-se abertas e a oferta não mudou.

É tudo vendido em filetes, para pessoal como eu, sem espinhas nem pele. Comprei eglefim (hadoque, também conhecido como arinca), um peixe excelente, vindo dos mares frios do Atlântico Norte, ao preço de 15,00 euros o quilo do filete. Também fui ao lombo de atum, que custa 30.50 euros por quilo, tudo limpo e pronto a cozinhar. E  levei o inevitável lombo de bacalhau fresco, que vale 22.50 euros por cada quilo.

O hábito da casa é almoçar peixe dia sim, dia não. No dia não, come-se carne. E tal como a carne, a ração de peixe é sempre a mesma: mais ou menos 150 gramas por pessoa. O resto, são legumes, na frigideira, salteados num fundo de azeite. Nunca se come batata, e é raro fazer-se arroz. Não há sobras. Pão, só à noite, numa refeição ligeira, à hora do jantar, por volta das 19:00 horas.  Quando se come fora, é, por regra, ao almoço.

Estas são as rotinas que procuramos manter, como se tudo fosse normal, fora das paredes da casa. Mas é estranho ir buscar peixe e sentir que a cidade está parada. Não há ninguém nas ruas. Esperar que o sinal passe ao verde, para atravessar, é uma forma de fingir que está tudo como dantes. A verdade é que verde ou vermelho, não há trânsito.

Olhar um pouco mais longe

Não tenho uma bola de cristal nem pratico a arte da adivinhação, uma disciplina muito popular em certos meios intelectuais. Por outro lado, falta-nos ainda conhecer uma variável fundamental, que é a da duração da fase aguda da crise, a fase em curso. Se se prolongar por vários meses, o impacto será profundo, sobretudo nas áreas da economia e dos rendimentos das famílias. Por isso, as duas grandes preocupações actuais, que devem ser tratadas em simultâneo, são o combate à pandemia e o evitar a falência das empresas e das famílias. Os governos serão avaliados pela maneira como venham a responder a esse tandem de questões. É aí, por exemplo, que se joga a eleição presidencial americana.

Em termos geopolíticos, deve-se ter presente que a crise fez renascer o sentimento nacional, a convicção que as fronteiras dos Estados protegem os cidadãos. Nacionalistas ferrenhos e políticos demagogos procurarão investir nesse sentimento e sacar dividendos da coisa. Esse poderá ser um dos maiores perigos que teremos de enfrentar no período pós-coronavírus. A demagogia ultranacionalista, o aproveitamento do medo pelos populistas. A partir daí, estará em perigo toda a arquitectura multilateral e intergovernamental, sobretudo o sistema das Nações Unidas e a União Europeia. Como também ficará ameaçada a cooperação internacional, quer no domínio humanitário, de ajuda aos refugiados, por exemplo, quer no campo do desenvolvimento e da luta contra a pobreza.

Um outro aspecto particularmente importante terá que ver com a competição pela hegemonia entre a China e os Estados Unidos. Essa disputa acentuar-se-á e marcará de modo determinante a agenda das relações internacionais. A China já entrou num período de recuperação económica e política, enquanto os Estados Unidos se afundam na crise e se emaranham numa resposta caótica. Os chineses ficam, assim, em vantagem e vão tentar tirar o maior proveito político possível desse desfasamento. Nomeadamente, na ajuda sanitária a outros países, como está a acontecer com a Itália e a Sérvia, para mencionar apenas dois países que pertencem a esferas geopolíticas próximas, mas distintas. Mas não só. A ofensiva diplomática e económica da China ganhará uma nova dinâmica e um outro nível de subtileza, de modo a ganhar terreno sem criar anticorpos. 

Navegando à volta de Ormuz

Com uma só pedra, os falcões de Washington pensam poder matar várias raposas. Refiro-me à confrontação com o Irão.

John Bolton, Mike Pompeo e outros próximos do Presidente sabem que o bloqueio económico financeiro e económico acarretará um efeito catastrófico para a economia iraniana. Não fará cair o regime, antes pelo contrário, que a história de casos semelhantes revela que este tipo de sanções acaba por reforçar o controlo político das cliques que estão no poder. Mas diminuirá, e muito, a sua capacidade para promover acções externas e apoiar grupos que têm beneficiado de financiamentos vindos de Teerão. Atenção, todavia, que isto não fará desaparecer esses grupos nem atenuará muitos dos conflitos que definem aquela região do globo. Pode, antes pelo contrário, levar à ocorrência de actos isolados, revanchistas e trágicos.

Os falcões também acreditam que o aumento da tensão e da insegurança no Estreito de Ormuz levará a uma maior dependência por parte dos Estados da região em relação aos Estados Unidos. É verdade que a região já conta com uma enorme presença americana, quer em termos de tropas estacionadas quer ainda em meios aéreos e marítimos. Tem, no entanto, recursos financeiros enormes, que poderão ser gastos na aquisição de mais armamento proveniente dos Estados Unidos. A tensão encoraja novas encomendas. Mais ainda, uma presença mais profunda nesta zona de grande valor estratégico serve de contrabalanço a forças rivais, sejam elas turcas, indianas ou chinesas. Estes países têm procurado aumentar a sua cooperação militar na região e isso não agrada a todos, sobretudo quando se pensa como um falcão ultranacionalista.

Uma boa parte do petróleo consumido na Ásia provém do Golfo Pérsico. Isso é verdade no que diz respeito ao Japão, à China, à Coreia do Sul bem como à Índia e Singapura. Se os navios petroleiros não puderem circular com segurança nas águas que estão na vizinhança do Estreito de Ormuz acabarão por reduzir frequência das passagens e do transporte. As consequências para a economia da região, da Ásia e, ao fim e ao cabo, para a economia global, serão enormes. Talvez os falcões julguem que isso não afectará os Estados Unidos, que têm as suas próprias fontes de energia. Pensar assim seria um erro, excepto na cabeça de um radical.

A política internacional não deve seguir a maneira de ver dos radicais. Aqui, refiro-me a todos os radicais, incluindo os mandam no Irão, não apenas aos outros. Deve, isso sim, basear-se em regras claras e na estabilidade, no equilíbrio de forças, diria mesmo. Caso contrário, abre-se uma nova caixa de Pandora. Cabe aos europeus e aos asiáticos dizê-lo, alto e bom som.

 

Zika: um mal nunca vem só

Para complicar ainda mais uma situação internacional que já estava bastante complicada temos agora a ameaça de saúde pública que é o vírus de Zika. Esta doença, que resulta de uma picada de um determinado tipo de mosquito, provoca entre outras coisas, microcefalia nos bebés de mulheres infectadas durante a gravidez bem como o síndrome de Guillain- Barré, uma doença que provoca fraqueza muscular.

As populações estão muito preocupadas.

Vários países da América Central e do Sul, incluindo o Brasil, estão ameaçados. Nalguns deles as autoridades sanitárias já fizeram declarações públicas, aconselhando as mulheres a adiarem planos de gravidez por dois anos. O governo do Brasil acaba, por seu turno, de dar ordem a 220 mil militares para colaborarem com os agentes de saúde nas campanhas de destruição dos mosquitos.

Este desafio vai ter um impacto económico e social de monta em toda a região. No caso do Brasil, com os jogos olímpicos à porta, Zika poderá afastar muitos visitantes estrangeiros.

A Grécia e os outros

Eis-me de volta, depois de uma longa viagem. E volto a tempo de escrever, como o fiz esta tarde, sobre a actualidade grega. Uma actualidade sem grandes esperanças para os gregos.

As coisas estão complicadas na Europa e esta não é certamente a altura ideal para pedir aos outros empréstimos sem contrapartidas muito sérias. Ainda hoje lembrava, no meu comentário semanal para a Rádio TDM de Macau, que uma mulher de limpeza na função pública grega ganha 600 euros mensais e um professor de universidade aufere, no serviço público da Lituânia, cerca de metade dessa verba. É verdade que a Lituânia só entrou para a zona euro este ano, mas se houver uma nova ajuda terá que contribuir para o programa grego. Compreender-se-á, então, que as autoridades de Vilnius queiram ver nesse programa medidas de recuperação económica bem concretas.

E a Lituânia é apenas um exemplo.  

Divagações pascais

As caminhadas quase diárias no parque perto de casa põem-me frequentemente em contacto com uma categoria especial de funcionários da comuna onde vivo. Trata-se de um corpo de vigilantes (“gardiens de la paix”) que percorre, em grupos de três ou quatro, os caminhos do parque e as ruas da localidade. Fazem-no a pé, fardados com umas vestimentas roxas, mas sem armas nem outro meio de comunicação que não seja o telemóvel.

A sua utilidade levanta muitas dúvidas. Servem para assinalar aos serviços de recolha competentes casos de lixo abandonado em lugares públicos e colocar uns folhetos nos carros dos moradores, com uns conselhos básicos sobre a segurança pública, as precauções a tomar para evitar roubos e arrombamentos, e pouco mais.

O factor dissuasor, que é um argumento utilizado pelas autoridades municipais, é insignificante. Quando muito, leva os donos dos cães que passeiam no parque, quando se apercebem ao longe que esses guardas andam pelas paragens, a prender os animais com a trela, uma regra obrigatória mas pouco cumprida.

No total, são 75 postos de trabalho, para uma população residente de cerca de 130 mil pessoas.

De início, costumava criticar o esquema, que mais não seria que uma forma hábil de dar emprego a pessoas que o não tinham. Agora, com o tempo, habituei-me a aceitar esse grupo de funcionários. Parte da minha tolerância vem do reconhecimento que muito daquilo que fazemos tem pouca utilidade social e é apenas uma maneira mais de ganhar a vida. Com alguma dignidade, que é isso que importa.

A idade também me ajuda a aceitar melhor o faz-de-conta, desde que ele se aplique apenas aos que não têm poder nem meios de sobrevivência.

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