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Crescemos quando abrimos horizontes

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Preocupações e uma nova política

Neste final de agosto, uma sondagem realizada por encomenda do jornal Le Figaro revela que 8 franceses em cada 10 estão preocupados com a situação sanitária que existe no país e a maneira como está a evoluir. O mesmo número de inquiridos vê com inquietação o comportamento da economia, as dificuldades que as empresas têm pela frente e a crescente deterioração do poder de compra. Estas duas apreensões traduzem uma visão realista dos próximos tempos. Existem, igualmente, noutros países da UE. Na verdade, há que estar preocupado e pensar na política de uma forma diferente, uma política que una o maior número de cidadãos no combate às crises.

E em Portugal, que podemos dizer sobre isto?

 

Mudar de rumo após a crise

Com a saída progressiva do confinamento, estão a aparecer vários grupos de discussão sobre as mudanças que deveriam ocorrer, na nova era que se segue à crise do coronavírus. A intenção é clara e generosa: reconstruir o que foi desestruturado mas fazê-lo com grande respeito pelas pessoas e pela natureza. Ou seja, reorganizar a sociedade e as economias de um modo mais inteligente, saudável e sustentável. As ideias não serão novas. Há algum tempo que se fala da necessidade de mudar o mundo. O que é novo é o ímpeto que esse movimento de ideias está a ganhar. Esse ímpeto existe porque estamos perante uma oportunidade de mudança.

A grande questão continua a ser a do poder. Como influenciar quem tem poder, seja ele político ou económico. Essa questão não é fácil de responder. Greta Thunberg e Malala Yousafzai mostraram que é possível chegar aos ouvidos do poder. E obter promessas. Há que continuar nessa via, mas com mais vozes e grandes alianças de gente influente. Este é o momento, por exemplo, que deveria captar as atenções dos multimilionários altruístas e dispostos a financiar grandes causas. Têm agora uma oportunidade única de influenciar o rumo de certas visões do mundo de amanhã. A filantropia é uma prática que pesa muito nalguns países, sobretudo nas economias mais avançadas.  

No entanto, o poder está acima de tudo nas mãos de quem controla os Estados. Quando o Ministro das Finanças francês, Bruno Le Maire, anuncia, como o fez hoje, que o seu governo já mobilizou 450 mil milhões de euros para voltar a pôr a economia nacional de pé, ficamos a perceber onde está a capacidade de influenciar as coisas. Também percebemos que a preocupação de quem está no topo da pirâmide política é claramente a de voltar à situação que existia em Fevereiro. Não parece haver a preocupação de desviar o percurso. Creio, no entanto, que muito do que aí vem será diferente do que se conhecia no início do ano. Por isso, há que continuar a discussão sobre um mundo diferente.

A força da sociedade civil

Estamos a assistir a abusos sistemáticos do poder político. Mesmo em países com regimes democráticos. Essa é uma das dimensões da crise das democracias, um facto novo e verdadeiro..

O abuso do poder é claro. Uma vez eleitos, os líderes comportam-se de modo inaceitável. Como se estivessem acima das leis e de cada um de nós.

Uns, agem como se a sua eleição lhes permitisse um nível de autoridade absoluto, acima do normal funcionamento das instituições. Comportam-se como uma espécie de ditadores com cores democratas. A sua legitimidade é apresentada como sendo superior à usufruída pelas outras instituições da governação. Outros, aproveitam o poder para criar uma base populista. A posição que ocupam é permanentemente usada para alienar as massas populares, para mentir e criar ameaças e medos que não têm razão de existir mas que servem como base de consolidação do seu poder pessoal. É uma maneira moderna de dar um sentido divino ao seu papel de governantes.

Se os outros pilares da governação não conseguem responder a estas usurpações do poder – e a verdade é que o não conseguem, basta ver como os parlamentos se transformam em meras caixas de ressonância –, a resposta terá que vir da comunicação social e dos movimentos de cidadania. Mas esses líderes abusadores sabem que esse risco existe, que a contestação poderá provir dessas bandas. Por isso, tentam corromper uma parte da comunicação social. E há sempre quem, nos jornais e nas televisões, esteja pronto para desempenhar o papel de defensor intransigente de quem está no poder. Tentam, igualmente, criar barreiras que dificultem a acção das associações de cidadãos.

Nem sempre o conseguem. O que me faz dizer que, nesta altura de ataques directos ao bom funcionamento dos regimes democráticos, é indispensável dar força e asas aos cidadãos e às suas organizações. Uma cidadania activa, esclarecida e robusta torna uma nação mais livre e mais coesa. Deste modo, a resolução da crise da democracia passa pelo dinamização das associações da sociedade civil.

Sobre a crise

Certos intelectuais continuam a tentar explicar as mudanças políticas que se vivem nalguns países europeus com uma longa referência à “crise dos sistemas financeiros”. Mas, não se percebe bem que crise é essa.

Sim, assistimos, nalguns países, incluindo no nosso, a graves problemas relacionados com a dívida pública e o impacto que tiveram sobre a situação económica, a doméstica e a da vizinhança. Sim, vimos vários bancos em dificuldades, aqui, na Grécia, em Itália, Chipre, etc, mesmo no Reino Unido. Sabemos, todavia, que na base desses problemas estavam más decisões de gestão, créditos atribuídos por razões políticas e amizades corruptas, para além dos desafios resultantes de um crescimento económico negativo ou anémico. Sim, fomos testemunhas da expansão e da globalização dos mercados financeiros, de uma penetração muito significativa de capitais estrangeiros nas economias europeias, de uma concorrência de um novo tipo, de proporções nunca vistas.

Tudo isso provocou e continua a causar instabilidade e, nalguns casos, grandes rupturas nos sistemas financeiros. E temos mais tempestades à vista: o Brexit sem acordo, a confrontação comercial entre os Estados Unidos e outras grandes economias, a dívida pública italiana, ou ainda, o possível colapso de um par de grandes bancos bem como a revolução que a Inteligência Artificial irá ocasionar. Com a internacionalização dos mercados de capitais e a rapidez dos fluxos financeiros, uma gripe num sítio pode facilmente transformar-se numa pneumonia mais além, nas economias frágeis e dependentes do exterior.

É evidente que estes fenómenos criam insegurança e grandes receios. Muitos cidadãos têm medo e sentem-se impotentes . E quando olham para o poder político, para o funcionamento das instituições, não ficam tranquilos. Em muitos casos, os mais fracos não vêem na liderança política quem se interesse verdadeiramente pelas suas preocupações. Antes pelo contrário. Os políticos parecem andar num outro planeta. E quando se aproximam, soam a falso, dir-se-ia que lhes falta a sinceridade. O empenho.

É aí que encontramos as chamadas crises políticas. Os movimentos de radicalização. O baralhar das cartas e o aparecimento de outros ases, nem sempre da melhor cepa. E assim, o edifício político, que as nossas democracias europeias foram construindo, passa a enfrentar grandes tremores e parece estar prestes a desabar. Por isso se fala tanto de crise política.

Na verdade, é a questão da representatividade que está em jogo. O debate deve começar por essa questão. Quem nos representa e como?

 

Uma democracia em risco de paralisação

Não creio que Donald Trump saia vencedor da eleição presidencial. Mas preocupa-me profundamente que um personagem tão mau como ele é tenha sido o candidato do Partido Republicano. As razões dessa escolha e o que isso significa para o enfraquecimento do sistema democrático americano vão ser as grandes questões sobre as quais será necessário reflectir, após o dia eleitoral.

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