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Vistas largas

Crescemos quando abrimos horizontes

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O Líbano e a sua crise

A situação no Líbano continua a ocupar as primeiras páginas da imprensa internacional. Hoje foi o governo que se demitiu. O país está a viver um novo período dramático da sua história. As instituições políticas e a economia estão de rastos e a vida de sectores importantes da população, sobretudo na capital, é um oceano de dificuldades. As forças armadas e alguns serviços de segurança são as únicas estruturas que conseguem ainda manter uma certa normalidade de funcionamento. Isso é surpreendente, mas não é suficiente para permitir o regresso à estabilidade.

Conheço muitos libaneses. Sempre admirei as suas capacidades de adaptação a ambientes difíceis e as suas habilidades como empreendedores. O problema reside nas elites políticas e nas que vivem à custa dos seus contactos com o mundo da política. Nesses círculos existem níveis muito elevados de corrupção e de ineficiência, devido ao clientelismo político, étnico, religioso e identitário.

A solução da gravíssima crise libanesa não pode vir do estrangeiro. Tem que ser construída por novas elites e por movimentos de cidadania que ultrapassem as clivagens existentes. O estrangeiro pode mobilizar ajuda humanitária e recursos financeiros de urgência, mas não pode nem deve tentar substituir-se aos responsáveis nacionais. Estes terão que olhar para o seu país de um modo diferente.

A ideia de um mandato internacional, de uma nova forma de subordinação do Líbano ao exterior, não é defensável. Isso são soluções do passado distante. Nada têm que ver com o mundo de hoje. As Nações Unidas ou um outro actor internacional não podem tomar conta do país. Alimentar esse tipo de ilusões é um erro e uma maneira de defraudar o povo libanês.

A voz de António Guterres

António Guterres lançou hoje um apelo para que parem as guerras e deixem espaço aos que lutam, nos países em crise, contra o Covid-19. O apelo foi acompanhado por instruções dadas aos Representantes Especiais do Secretário-Geral, em funções em países em conflito, para que procurem convencer as partes a suspender as hostilidades. Não será ouvido, infelizmente. Mas era um chamamento que tinha que ser feito. Mostra a gravidade da situação, que se tornará ainda mais dramática quando alastrar para países fracturados por guerras civis, conflitos armados, insegurança, e deslocamentos em massa das populações mais frágeis.

A violência

As imagens que nos chegam, vindas da fronteira da Grécia com a Turquia, perturbam. Por muitas razões. São as pessoas e o seu desespero. A manipulação a que estão sujeitas, por causa do jogo político do Presidente Erdogan. As guerras e as violações dos direitos fundamentais, que estão na origem destes movimentos de massas. Os cidadãos gregos, que reagem abertamente contra as novas chegadas e que se sentem abandonados por Atenas e Bruxelas. A política europeia, que não quer novas ondas de imigração e que prefere pagar para que outros tomem conta dos deslocados e dos refugiados.

Numa palavra, a violência. Assim resumiria essas imagens. A violência com que a vida e certos políticos tratam as pessoas, os mais fracos e sem voz.

O jogo do Presidente Erdogan sai furado

A Turquia entendeu, nas últimas 24 horas, que se Vladimir Putin tiver que escolher, a decisão será a favor de Bachar al-Assad. Sem hesitações, quando o fundamental está em jogo, o Presidente russo apoia o lado sírio e deixa cair a aliança de conveniência que tem com Recep Tayyip Erdogan.

Como já o disse noutras ocasiões recentes, Assad e Putin acreditam numa solução militar. Por isso, prepararam planos e iniciaram, em Dezembro passado, uma ofensiva contra os vários grupos rebeldes que se refugiaram na única região possível, a província de Idlib. Essa campanha tem estado a ser executada progressivamente, sem dó nem piedade. Criou uma vasto movimento de deslocados – serão, nessa província, quase um milhão de pessoas em necessidade humanitária absoluta. Entretanto, Erdogan resolveu meter a colher na disputa. Esta é uma zona de fronteira com a Turquia. Não será a que tem maior interesse estratégico, mas é o refúgio de vários grupos armados próximos dos interesses de Ankara. Assim, Erdogan estabeleceu uma dúzia de posições militares turcas em Idlib, em território que não é dele. Foi uma dessas bases e a coluna de reabastecimento que foram alvo de ataques aéreos ontem. Atacaram os sírios e morreram mais de três dezenas de soldados turcos.

O Presidente turco aprendeu também, para lá da questão de saber para que lado penderia Putin, que o espaço aéreo nessa zona é controlado inteiramente pelos russos. Ora, tacticamente, isso acarreta uma fraqueza fatal. Os turcos não conseguem defender as suas tropas destacadas no terreno sem ter um mínimo de capacidade operacional aérea. Não a têm.

Erdogan pode contar com o apoio de um comunicado oficial e de uma conferência de imprensa da NATO. Conta, igualmente, com as “notícias” que a comunicação social turca favorável ao regime publica. Por exemplo, essa comunicação social “lançou” hoje dezenas de mísseis e “matou” mil e tal militares sírios, no que foi apresentado com um acto de retaliação do Presidente turco. “Notícias” assim são para consumo interno, mas não avançam a causa turca na Síria de um só milímetro.

Erdogan vai ter que retirar as suas tropas de Idlib. Não pode continuar a ter baixas e mais baixas. E prevejo que acabe por abrir as portas da sua fronteira aos deslocados sírios de Idlib. Com os novos refugiados irão também os combatentes rebeldes, alguns deles fundamentalistas. A multidão fará passar despercebidas essas fugas.

A questão aqui é a de saber se esses combatentes ficarão, depois, na Turquia ou se se dispersarão por outros países. A resposta mais provável é a da dispersão em direcção ao espaço europeu. Esta possibilidade aumenta o nível de risco de terrorismo na Europa.

Entretanto, hoje, a Rússia deslocou para a região duas fragatas com equipamento bélico capaz de dissuadir quem precisar de ser dissuadido. Ao controlo do ar junta-se a força marítima.

O Presidente Erdogan fica assim com uma ideia mais clara do tabuleiro de xadrez em que os russos se movem. Pode, igualmente, aproveitar esta oportunidade para perceber que a política que tem seguido leva ao isolamento do seu país, que é o contrário do resultado que ele ambicionava.

 

 

 

 

 

 

 

 

Mais umas notas sobre Schengen

 

Schengen

Numa sondagem tornada pública este fim-de-semana ficamos a saber que 71% dos franceses são favoráveis à suspensão temporária dos acordos de Schengen.

E 59% estão contra a repartição dos refugiados pelos diferentes países da UE.

Entretanto, a 4 de março, a Comissão Europeia preparou um Road Map, um plano para restabelecer Schengen.

Vai ser discutido na cimeira europeia de 18-19 de Março.

O objectivo é pôr fim aos controlos fronteiriços internos até finais de 2016.

Os Guardas-Fronteiras da UE deveriam estar operacionais este Verão. Será possível? A proposta de criação dessa força foi apresentada em Dezembro de 2015. Mas tem encontrado sérias reticências, por ter que ver com dimensões que dizem respeito à soberania de cada estado.

O restabelecimento das fronteiras internas teria um custo anual de pelo menos 5 mil milhões de euros, podendo certas estimativas chegar a €18 mil milhões anuais.

Entretanto, é fundamental apoiar a Grécia –700 milhões de euros nos próximos três anos – e proceder a um registo a 100% das entradas dos candidatos ao refúgio ou à imigração. Mas também é essencial que a Grécia aceite a criação de hotspots, dos centros de recepção. Vários dirigentes europeus têm-se queixado que o PM Tsipras não quis aceitar o estabelecimento desses centros de recepção, que tem dificultado a implementação desses centros, por ver a Grécia como um simples corredor de passagem.

E é igualmente essencial proceder à repartição dos refugiados já aceites. Aqui encontramos vários países que se opõem a essa repartição, que foi aprovada há cerca de seis meses.

A questão migratória não vai acabar com a UE. Encerra, todavia, vários riscos imediatos e de longo prazo para a Europa. Não pode ser vista de modo ligeiro nem é apenas uma questão humanitária.

Dentro de quatro meses, a Eslováquia toma a direcção rotativa da Europa, uma Eslováquia que sai de umas eleições inconclusivas e que além disso é contra a aceitação dos refugiados. Foi esse o tema principal da campanha eleitoral do PM Robert Fico.

Mais umas reflexões sobre a imigração

A imigração, realidades e ilusões
Victor Ângelo


O meu amigo Kanteh, que sobrevive das artes e ofícios mais diversos, tem uma obsessão: emigrar para a Europa. Vive na periferia da confusão que é hoje Dakar. Conheci-o há vinte e cinco anos, quando ainda havia emprego, esperança e um mínimo de disciplina institucional no Senegal, na Gâmbia e nos países vizinhos. O tempo passou. Trouxe a desertificação, o abandono das zonas rurais, a explosão demográfica, o caos e transferiu a miséria e o desespero para as grandes cidades. Para Kanteh e sobretudo para os mais jovens, a única ambição que conta é sair dali para fora. Por isso, telefona-me de tempos a tempos, desesperado, sempre a pedir que o ajude a emigrar para a Europa.


Voltei a falar com ele há dias. Está mais convencido do que nunca que desta é que vai ser. As notícias dizem que as portas se abriram. Expliquei-lhe, mais uma vez, que na nossa parte do mundo também há pobreza e muitas dificuldades. Não acredita. Para ele e para os que têm como horizonte a poeira do Sahel, a violência das megacidades africanas, a sistemática falta de respeito pelos direitos fundamentais das pessoas, a desumanidade dos campos de deslocados e de refugiados, a Europa é vista como o El Dorado. E, pela primeira vez, como um paraíso acessível, se a deslocação se fizer em grandes números.


Na verdade, as barreiras exteriores da UE têm agora várias brechas. E há outras que se abrem, como um dique que já não consegue conter a pressão das águas. A mais recente é a que passa pelo Ártico russo – obrigado, Vladimir! –, com entrada no espaço Schengen pelo extremo norte da Noruega. Temos, deste modo, um princípio essencial da soberania em derrocada, a proteção das fronteiras. Isto deixa muita gente importante com sérias dores de cabeça. Tenta-se, então, aplicar os remédios tradicionais. O problema é que um fenómeno novo, com muitos Kantehs a preparar as mochilas, requer um quadro de análise original e respostas viradas para a frente. É um erro tentar recriar o passado quando o futuro nos entra de rompante pela casa adentro.


Assim acontece ao nível do Conselho Europeu. Decidiu investir num pacote de medidas que deveriam permitir a repatriação à força de todos os que não forem reconhecidos como refugiados. A mensagem vinda de Bruxelas é clara: acelerem-se os procedimentos de expulsão. E também é óbvio o que está por detrás dessa diretriz. Primeiro, recuperar a unidade e a confiança entre os estados membros. Esta é, aliás, a preocupação central. Donald Tusk sabe que as divisões podem pôr em causa Schengen e comprometer muito seriamente a cooperação europeia. Para isso, é preciso mostrar determinação na defesa das fronteiras exteriores. Em segundo lugar, pensa-se que a deportação dos indivíduos considerados ilegais terá um efeito de desencorajamento, incluindo junto do meu amigo senegalês. Terceiro, o centrão europeu, ao mostrar determinação, procura tirar o tapete aos ultrarradicais da direita xenófoba, que estão a ganhar terreno à custa dos sentimentos anti-imigração.


Tudo isto é muito bem pensado mas pouco eficaz. A deportação em massa é um mito. Irrealizável, diz-nos a experiência. Existem já vários milhões de pessoas que vivem no espaço europeu sem autorização legal. Nem esses nem os que agora chegam irão ser expulsos, exceto num ou noutro caso, sem expressão significativa. A imigração veio para ficar. Há que enfrentar este desafio com clarividência, coragem e pela positiva.

 

(Texto que hoje publico na revista Visão)

À mesa, a dar uma pequena volta ao mundo

De novo na Suíça, para mais uma reunião sobre questões de paz e segurança humana. Desta vez, a agenda passa pela Ásia Central, onde o Quirguistão é um dos países que não consegue sair da beira do abismo, continua nos Balcãs, com a Bósnia-Herzegovina fracturada por questões étnico-políticas, vai ao Sahel, claro, e acaba bem longe, na Birmânia, onde temos uma processo político complexo, que fica mais complicado ainda se lhe acrescentarmos o peso das diferentes rebeliões internas.

Em concorrência com as galinhas

Um dos exercícios em que estou empenhado terminou hoje. Depois de passar uma semana num cenário imaginário de crise, numa região de um outro continente em que estas coisas acontecem, voltei hoje, ao fim do dia, a poder passear nas ruas de Riga como um turista.

 

Vai ser Sol de pouca dura, pois no Domingo será iniciado um outro exercício, também à volta de uma crise nacional profunda agravada pela interferência dos países vizinhos. Tudo num cenário fictício mas construído peça a peça, um investimento enorme, de modo a fazer com que a ficção fique o mais próximo possível da realidade que existe nalguns cantos do mundo.

 

Estes exercícios são muito exigentes, em termos da sua execução. E o da próxima semana vai ter como participantes algumas das melhores cabeças que por aí andam, neste tipo de matérias. O que torna o desafio ainda mais interessante.

 

Entretanto, amanhã e Domingo vão ser os únicos dias em que não vai ser preciso acordar muito antes das galinhas.

 

 

De novo sobre o Mali

Eis, na íntegra, o texto que publiquei na Visão (revista impressa) de 8 de Maio, sobre a situação no Mali e as respostas da Europa e de outros:

 

 

Mali exemplar

Victor Ângelo

 

 

 

É um país fascinante, graças à sua geografia e cultura. Na encruzilhada dos caminhos que entrelaçam a África Negra e a mestiçagem do Sahel, a história moldou o Mali como um território de tradições ancestrais, de encontro de civilizações e de tolerância. Tombuctu, a cidade símbolo de um Islão humanista e culto, faz parte do património e do imaginário mundial. Mas, nas últimas décadas, a má governação, o colapso do Estado, a pobreza crónica e a desertificação progressiva empurraram uma boa parte dos melhores para a emigração e outros para uma mistura explosiva de miséria, medos, extremismos e criminalidade organizada. A polarização étnica passou a ser, para os que ficaram, o único ponto de ancoragem seguro. O país fragmentou-se. E, como se sabe, uma nação profundamente dividida caminha a passos largos para a catástrofe social e política.


A queda de Kadhafi contribui para que a catástrofe anunciada se tornasse real. O ditador de Trípoli oferecera emprego a muitos vindos do Mali e arredores, numa chamada “Legião Africana” e, mais tarde, como parte da sua guarda pretoriana. O fim do regime levou à debandada desses legionários, que regressaram às suas terras de origem, com armas e bagagens. Vários de entre eles eram Tuaregues do Norte do Mali. Em Março de 2012 ocuparam o território que consideram ancestral, sob a bandeira do Movimento Nacional para a Libertação de Azawad, e declaram-se “independentes”. Pouco a pouco, as facções ligadas aos grupos religiosos fanáticos foram ganhando o controlo. Em Janeiro deste ano, uma aliança de islamitas radicais e de Tuaregues aventureiros tentou penetrar na parte sul do país, uma zona étnica e culturalmente negro-africana, distinta da metade norte arabizada e mestiça. Foi o pisar de um risco de alerta, que levou, em meados de Janeiro, à intervenção francesa. E ao destacamento de tropas africanas, entre as quais, as mais efectivas de todo o Sahel, as do Chade.


Seguiu-se, duas semanas depois, uma conferência de doadores. Do dinheiro prometido apenas cerca de um quarto foi, para já, disponibilizado. Uma proporção significativa desses fundos deveria financiar a ajuda humanitária, indispensável para a sobrevivência dos deslocados internos e dos 180 000 refugiados em países vizinhos. As ONGs informam-nos, agora, que mais de 4 milhões de malianos estão à beira da penúria alimentar. Em breve, a 15 de Maio, haverá uma nova reunião de doadores, desta vez sob a égide da Comissão Europeia. Receio que sejam feitas novas promessas e que se continue a alimentar a ilusão que eleições presidenciais e legislativas são possíveis em Julho. Ora, as prioridades são claras: responder à urgência humanitária, promover a reconciliação e a unidade nacional, pôr a funcionar a administração civil e avançar com a reforma do sector da segurança. Sobre este último ponto, diga-se que a missão da UE no terreno, que deve apoiar a refundação das forças armadas do Mali, não pode fingir que vale a pena treinar soldados que não serão pagos. E que não possuem equipamento e logística, nem chefes à altura.


Entretanto o Conselho de Segurança da ONU acaba de aprovar o envio de uma força de paz para o Mali. Trata-se de 11 400 militares, mais 1 440 polícias e um milhar ou mais de funcionários civis. Parece-me, à primeira vista, um exagero. Sobretudo se se tiver presente que haverá, para mais, uma presença de tropas especiais francesas. E que os terroristas que restam serão, no máximo, umas centenas. Sem contar que a vocação dos capacetes azuis não é a de combater o terrorismo. Mas, quem aprendeu a manejar um martelo tem dificuldade em pensar noutros instrumentos. O caso do Mali lembra-nos isso!

 

 

Sobre o Mali

Convido-vos a ler o texto que escrevi, em parceria com Marc de Bernis, antigo representante residente do Programa da ONU para o Desenvolvimento (PNUD) na Argélia. O objectivo é o de demonstrar que o Mali é diferente do Afeganistão.

 

Este é o link:
 

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