Portugal é grande quando abre horizontes

07
Out 19

Todo o gato sapato comentou os resultados das eleições. E quase todos disseram a mesma coisa, sobre quem ganhou, quem perdeu e sobre quem entrou no Parlamento pela primeira vez. Pouco haverá a acrescentar, excepto para dizer que, na verdade, quem venceu este acto eleitoral foram os cidadãos que se deslocaram às Assembleias de Voto e participaram. Ganharam e mostraram um bom nível de maturidade democrática. Penso ser bom sublinhar essa dimensão.

publicado por victorangelo às 21:41

06
Out 19

É uma parvoíce intelectual, para além de ser um chavão frequentemente repetido, falar na “desintegração do Ocidente”. Qual desintegração, qual carapuça! E o Ocidente, fica aonde? Começa após o quintal de Vladimir Putin e termina à porta de Donald Trump? E passa ao lado das ruas sem flores onde moram Marine Le Pen ou Matteo Salvini?

“Ocidente” é um conceito impreciso e ultrapassado.

O que se passa, isso sim, é a afirmação da pluralidade das culturas humanas. Passámos a reconhecer que estamos agora num mundo em que a diversidade é reconhecida, se afirma e ganha força. E somos convidados a aceitar que o percurso para o futuro não deverá ser feito com base numa perspectiva imperial, que tentaria impor uma certa maneira de estar e de ver a vida. Também não poderá assentar num confronto entre civilizações.

A afirmação de outras culturas é o resultado de um desenvolvimento mais equilibrado do mundo. A sua pujança traduz, na melhor das hipóteses, optimismo e vitalidade económica, noutras, um certo tipo de revanchismo ou, simplesmente, desagravo, depois de uma longa história de humilhações e de escárnio. De uma maneira ou outra, trata-se de uma realidade que deve ser vista como positiva e enriquecedora.

Olhemos em frente, é o que também gosto de sugerir. O futuro só terá paz e progresso se for construído a partir do entendimento, da compreensão entre as várias culturas e da cooperação entre sistemas de valores que poderão ser divergentes em vários aspectos mas que deverão coincidir quando se tratar de questões fundamentais. Destas, sublinho duas, que considero prioritárias e deverão ser os pilares da nossa casa comum: o respeito pela dignidade de cada indivíduo e o esforço comum pela conservação da natureza e do meio ambiente.

 

publicado por victorangelo às 16:41

03
Out 19

Nunca estive com Diogo Freitas do Amaral. Nem mesmo no ano em que ele presidiu à Assembleia Geral das Nações Unidas. Eu era, na altura, Representante Residente da ONU na Tanzânia e os meus contactos profissionais faziam-se com o Secretariado-geral e com a Administração do PNUD e das Agências, tudo muito distante do que eram as funções de Freitas do Amaral. Segui, no entanto, de longe, a sua presidência, que decorreu com dignidade, equilíbrio e de maneira a honrar o nome de Portugal.

Também não tive qualquer tipo de afinidade social, ideológica ou política com ele.

Porém, hoje, no dia do seu falecimento, quero deixar aqui uma palavra de respeito pela contribuição excepcional que Freitas do Amaral deu à construção da diversidade democrática no nosso país. Sem esquecer, claro, o seu papel enquanto professor catedrático de direito, incluindo em matérias de doutrina e jurisprudência.

Obrigado é a palavra que se impõe, neste dia final.

publicado por victorangelo às 21:27

01
Out 19

Mesmo quando se trata da vida de um país, sobretudo de um tão antigo como a China, 70 anos são muitos anos. Sobretudo se o tempo for visto na perspectiva dos cidadãos, das suas liberdades, aspirações e bem-estar. Pode haver, nesse período, muito sofrimento como também poderá ter existido muita mudança positiva.

No caso da China, que hoje comemora os 70 anos da tomada do poder por Mao Zedong e pelo Partido Comunista, tem havido de tudo. Agora, no essencial, há progresso e oportunidades. A vasta maioria dos cidadãos aprecia a situação actual. Mas também existe opressão e uma prática esmagadoramente autoritária do poder do Estado.

A grande questão é a de saber se o regime vai conseguir manter a população debaixo de uma disciplina de ferro. Pelo que conheço, creio que assim acontecerá, por vários anos. A aposta continuará a incidir no controlo político autocrático acompanhado por um aumento sustentado do poder de compra das famílias. Nos próximos anos, esta parece ser uma aposta ganhadora. Exige, porém, uma expansão da presença internacional da China, com mais investimentos e interesses em várias partes do mundo. Essa expansão não vai ser tão fácil no futuro como o tem sido nos últimos dez anos.

Entretanto, as cerimónias de hoje, em Beijing, procuraram combinar poderio militar com orgulho nacional. Força e patriotismo, foi a receita da festa do aniversário. É uma fórmula que impressiona o povo mas que faz soar sinais de preocupação além-fronteiras. Assim é a China de hoje, após 70 anos de vida no percurso actual da sua História.

 

 

 

 

 

 

publicado por victorangelo às 22:28

25
Set 19

O meu escrito sobre Greta Thunberg bateu o recorde de visualizações. E provocou vários tipos de reacções. Não estranhei, por ter visto nos jornais de hoje, um pouco por vários países, o tipo de comentários que Greta suscita. A verdade é que a jovem activista não deixa ninguém indiferente. Nem todos os comentários serão positivos. Alguns são mesmo cínicos e ofensivos, mal-criados num ou noutro caso. As redes sociais são assim e cada um oferece o que pode e expõe-se como melhor entende.

Mas que estamos num período de grandes movimentos de cidadania, nomeadamente sobre a crise do clima, não haverá maneira de o negar. Esses movimentos estão a mudar a maneira como se faz política. A democracia representativa, que tem sido o nosso modelo de democracia, tem que se adaptar às novas formas de expressão da vontade popular, ter em conta os líderes informais que vão surgindo – Greta é um exemplo desse novo tipo de liderança que brota para além das instituições tradicionais – bem como o poder das redes sociais.

A democracia representativa está no meio de uma grande transformação. Não tenhamos dúvidas.

publicado por victorangelo às 21:10

10
Set 19

Hoje, a futura Presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, tornou público a composição do seu colégio de Comissários e as respectivas pastas. O anúncio trouxe algumas inovações e uma surpresa: o Comissário grego, bem conhecido nos corredores de Bruxelas, por várias razões, incluindo pela boa razão de ter sido o porta-voz do Presidente cessante, terá como pelouro a “protecção do modo de vida europeu”. Esta designação levantou várias sobrancelhas. E deixou mais gente boquiaberta quando Von der Leyen a associou à questão das migrações.

Temos aqui matéria para debate. Não faltará quem veja nisto uma pontinha de xenofobia, para falar de modo diplomático.

A verdade é que todas as sociedades procuram defender a sua cultura, os seus hábitos, os valores em que acreditam. Os europeus não querem ser como os americanos, e vice-versa. Também não queremos ter a mesma maneira de encarar a vida que existe no Paquistão, na Índia ou na Arábia Saudita.

Os valores formam-se ao longo de séculos e dão homogeneidade a cada sociedade. Sem um mínimo de homogeneidade e de partilha dos mesmos princípios, mitos, histórias e hábitos acabamos por ter sociedades fragmentadas, instáveis e conflituosas. A aceitação de modos de pensar comuns a uma comunidade dá força a essa comunidade.

Para mais, o espaço europeu tem sabido aceitar e integrar pessoas vindas de outras maneiras de encarar a vida. Nota-se, no entanto, que nos últimos anos algumas dessas pessoas têm recusado a integração na cultura que as acolheu. Quando tal acontece, há razões para que fiquemos preocupados.

Não sei se o novo Comissário irá tratar dessa questão. Mas a preocupação existe.

 

publicado por victorangelo às 21:31

06
Set 19

Faleceu hoje Robert Mugabe. Trabalhei durante quatro anos, entre 2000 e 2004, com ele e o seu governo. Foi um período de transformação acelerada, um resvalar a toda a velocidade para a fossa da tragédia. Enquanto representante da ONU no Zimbabwe, a minha tarefa era tentar evitar o aprofundamento da crise nacional, que Robert Mugabe pusera em marcha em 2000. Por isso, encontrava-me regularmente com ele. As reuniões tinham sempre três características centrais: não havia acordo entre nós, o Presidente fazia uma tiradas inflamadas contra Tony Blair e o seu governo, e terminávamos com uma promessa cordial de voltar ao assunto em causa. Esse assunto era a chamada “reforma agrária”.

Muitas dessas discussões tiveram lugar à hora do almoço. Uma refeição simples. Mugabe comia duas pequenas sandes de pão branco, com faca e garfo, bebia duas ou três chávenas de chá, e ficava aviado. Fazia-o lentamente, mais atento ao que poderia estar, como mensagem, para além das frases que eu lhe ia dizendo. A verdade é que falava muito mas também sabia escutar, sempre a tentar perceber se havia alguma intenção escondida por detrás das palavras do seu interlocutor.

E assim foi até ao dia da minha partida, no final da missão. Na véspera, fez questão em voltar rapidamente a Harare, para uma última reunião e para me desejar boa sorte, na África Ocidental, uma região sobre a qual Mugabe tinha uma posição ambígua.

Entretanto, o tempo e a idade foram avançando. A tragédia que ele desencadeara em 2000 continuou, para a grande infelicidade do povo do Zimbabwe.

Ele, passou agora à história. Muitos lembrar-se-ão de Robert Mugabe como um dos pilares da libertação de África. Outros, trarão para a frente a crise nacional profunda, o colapso de uma economia próspera, as violações dos direitos humanos, os massacres dos anos 80.

Eu trago apenas um breve testemunho. Para dizer que gostei de o ter conhecido, apesar de tudo.

 

publicado por victorangelo às 21:09

04
Set 19

Em política, o sucesso consegue-se quando se sabe misturar o compromisso com a demolição sistemática da oposição. Boris Johnson sabe demolir. Tem a oratória e a virulência. Mas falta-lhe a parte do compromisso. Não tem essa arte e não entende que não se pode hostilizar tudo e todos. Há que estabelecer acordos com alguns. Não o fez e está hoje numa situação impossível. Não perdeu ainda o poder, é verdade. Mas acentuou ainda mais as divisões e as fracturas. Contribuiu de modo único para a polarização da sociedade britânica. Nada disso é positivo.

publicado por victorangelo às 23:26

28
Ago 19

Escrevi um pequeno comentário sobre a decisão que Boris Johnson tomou ao suspender o Parlamento britânico durante cinco semanas. Está disponível em inglês, no meu blog diário nessa língua.

https://victorangeloviews.blogspot.com/2019/08/boris-and-his-master-play-hard-ball.html

publicado por victorangelo às 22:49

23
Ago 19

Estamos nas vésperas da cimeira de 2019 do G7. A burguesa cidade litoral que é Biarritz deve estar em pé de guerra, com seguranças por toda a parte. Vai ser um fim de semana infernal, para as gentes locais, que os banhistas já devem ter deixado as praias, e as ondas do surf, bem conhecidas que são, e voltado para as suas terras de origem.

Uma das perguntas que mais surge, nos meios que analisam estas reuniões de alto nível, é se o G7 ainda serve para alguma coisa.

O encontro do ano passado, que teve lugar no Canadá, foi um desastre. Tudo se resumiu a uma questão: o comunicado final fora ou não aprovado pelo Presidente Trump? Este é aliás um dos problemas destas reuniões. Depois de meses de preparação, o resumo que fica é uma linha ou duas, um cabeçalho na comunicação social e pouco mais.

Agora, com o Presidente dos EUA a jogar num campo com balizas que mudam de um momento para o outro, o valor destas cimeiras é ainda mais contestado.

O anfitrião deste ano diz que sim, que vale a pena, como seria de esperar. Acrescenta, todavia, que não haverá um comunicado final, para que se não perca tempo a discutir vírgulas e a rasurar certas palavras. Não me parece mal, como ideia, embora fosse importante ouvir uma declaração conjunta sobre dois ou três temas quentes, como por exemplo, o que se passa na Amazónia.

Também sou dos que pensam que, sem esperar muito destas cimeiras, elas são importantes. Os líderes que estarão à mesa, com excepção dos que estão em fim de percurso, como é o caso de Giuseppe Conte ou talvez de Justin Trudeau, são gente com muito poder. Nos seus países e nas relações internacionais. Parece-me melhor que se encontrem e confrontem à volta de uns acepipes, que partilhem tempo e momentos, que isto das relações entre as pessoas tem muito que ver com o estar-se junto, do que deixar cada um no seu canto, sem um mínimo de diálogo com os seus pares.

A Rússia não estará representada, mas o tema ocupará um lugar importante nas conversas. Há quem pense que é altura de voltar a trazer Vladimir Putin para a mesa do G7, de fazer renascer das cinzas o G8. Creio que uma decisão dessas enviaria uma mensagem negativa. O G7 pode não ter grande impacto, mas é, apesar de tudo, uma reunião das democracias mais ricas. Vladimir Putin não é um democrata, não respeita as regras da liberdade de expressão e de oposição. Por isso, ressuscitar o G8 seria uma afronta que se faria aos que lutam pela liberdade na Rússia.

Há, no entanto, o risco que no próximo ano, o Presidente Putin possa ser convidado. O anfitrião da cimeira de 2020 é um admirador do autocrata de Moscovo. Ou não fosse o anfitrião o sempre em pé Donald Trump.

publicado por victorangelo às 16:33

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