Portugal é grande quando abre horizontes

10
Mar 11

Numa altura em que a NATO e a UE se reúnem, cada uma para seu lado, sobre os passos seguintes, no que respeita ao drama líbio, em que a França decide reconhecer, sem consultar os seus parceiros, o conselho rebelde, e em que ministros dizem, Kaddafi c'est fini, publico um novo texto na Visão. 

 

É uma reflexao sobre a maneira como a Europa tem estado a responder aos acontecimentos no Norte de África.

 

Procura também ser uma contribuição serena, numa altura em que a Europa parece estar mais agitada que nunca, sem saber bem para que lado se voltar.

 

O artigo pode ser lido no sítio:

 

http://aeiou.visao.pt/fraquezas-e-franquezas=f593543

publicado por victorangelo às 19:37

06
Jun 10

 

Copyright V.Ângelo

 

A última missão que fiz no Chade levou-me ao deserto de Ouara, nas terras do Sultão de Ouaddai. Encontrei alguns dos habitantes. Sim, aqui vivem pessoas.

 

É uma zona de rara beleza, onde nos sentimos bem, mas com uma noção mais clara da nossa pequena dimensão. O deserto ensina-nos a o valor da modéstia.

publicado por victorangelo às 20:19

22
Mar 10

 

A poeira entrou no nosso quotidiano. Vive-se com a obsessão do pó. A vida sabe a areia. O cheiro, é como um perfume seco que nos fecha as narinas e nos impede de respirar. Está tudo seco e meio parado, que este clima não dá para grandes saídas.

 

Entretanto, perto da minha residência, pelas 19:00, uma das nossas funcionárias foi bloqueada por um veículo de salteadores armados. Para roubar o carro, propriedade da ONU. Um todo-o-terreno, muito procurado, fácil de vender. Mais um veículo que se foi. Os bandidos começaram agora a perceber que é fácil atacar em N'Djaména e não se ser apanhado. É uma cidade com milhares de cantos, impossível de controlar. Um labirinto de areias deslizantes. Um pesadelo, em matéria de segurança.

 

As forças de reacção rápida da minha Missão chegaram ao local uns minutos depois. Mas o que a colega queria era apoio psicológico. Foi uma experiência de meter medo.

publicado por victorangelo às 20:45

20
Mar 10

 

N'Djaména está sem ligações aéreas com o resto mundo desde Quinta-feira. Completamente isolada. Sucessivas tempestades de areia e de pó fino fecham o horizonte e paralisam a vida quotidiana. As casas, as máquinas, as pessoas, está tudo com uma camada de pó, como se fosse uma nova pele, bem espessa, que se viesse sobrepor ao coiro duro que a natureza nos deu. O pó não pede licença para entrar no íntimo das nossas vidas. Penetra por todos os orifícios, enche-nos a boca e a os miolos, fica tudo emperrado, com o sabor da terra seca a dominar-nos o pensamento.

 

Só quem tenha experimentado este tipo de fenómenos climáticos pode compreender o que é viver no meio de nuvens de poeira.

 

A minha viagem de regresso, prevista para amanhã, está agora suspensa no ar pesado que sopra dos desertos. Será que vou poder voar? Hoje à noite, o prognóstico é muito negativo.

 

 

publicado por victorangelo às 18:50

01
Mar 10

 

As aves de rapina planam a grande altitude. Uma vez o meu jet quase que chocou com uma águia de grande porte, a cerca de 3 500 metros acima do solo. Uma cena que se mantém viva, na memória que muito esquece.

 

São passarões pacientes, silenciosos nos seus voos, muito focalizados, certeiros quando atacam.

 

Lembro-me de certas águias do Zimbabwe, que vivem à custa dos babuínos. Quando os macacos se sentam nos rochedos, ao fim da tarde, para aproveitar os últimos raios solares e descansar, os rapináceos mergulham a toda a velocidade, caiem dos céus com as garras fechadas, e dão um violento soco na cabeça da vítima. O voo seguinte é para levar o corpo assim atordoado, ou mesmo, já morto, por motivo de traumatismo craniano.

 

Quando se vive em terras destas, é melhor andar com os olhos sempre bem abertos. E não se deixar levar pela quietude dos dias que se esgotam. Caso contrário, teremos uma oportunidade única de ser o macaco de uma história triste.

publicado por victorangelo às 20:45

23
Fev 10

 

Estou de regresso aos meus desertos.

 

Havia, outrora, um cão perdido no deserto. Não era da variedade local, um tipo de galgos esbeltos, castanhos e dourados, de orelhas atentas e ponteagudas -- tive um desses exemplares quando estive na RCA, levei-o para a Gâmbia, quando fui enviado para essa terra, era um animal de uma inteligência rara, Rex de seu nome, e de facto tinha a postura. Mas o bicho desta historieta não era nem nunca havia sido um galgo das areias do Sahel. Era um animal como todos os outros, rafeiro vagabundo nos calores das miragens. Um pobre diabo a viver no meio de paisagens de muitas cores e de tons fortes.

 

Sentia-se tão perdido que cada vez que via passar uma caravana de homens tentava aproximar-se, passar a fazer parte da trupe. Mas os homens, quando o enxergavam ao longe, viam uma fera das dunas, não o miserável cachorro que o bicho era. Disparavam sua direcção, afugentando assim o infeliz solitário.

 

Acabou por perecer num dia em que a tempestade de areia foi ainda mais severa. Mas, na memória dos caravaneiros e dos que andam em fila indiana, ficou a imagem de uma besta feroz, caçador implacável e arguto, que só podia viver no meio das pedras secas.

 

publicado por victorangelo às 13:37

23
Jan 10

 

Ouvi bons discursos, durante a minha visita de hoje a Farchana e Hadjer Hadid, a dois passos da fronteira do Chade com o Sudão. Duas zonas de violência, de massas de refugiados e de deslocados, duas zonas em que o controlo das nossas forças começa a ganhar forma. No meio de tanta secura, foi bom escutar um par de discursos elegantes, bem estruturados, de improviso, mas cheios de significado. Palavras ditas bem e com equilíbrio ajudam a resolver os problemas. Afinal, o ser humano é um animal que precisa de comunicar.

 

E em política, a elegância da palavra justa é uma arte que aprecio.

publicado por victorangelo às 21:18

20
Jan 10

 

Copyright V.Ângelo

 

Fiz centenas de quilómetros na poeira do deserto, visitei vários campos de refugiados, encontrei-me com dezenas de trabalhadores humanitários, vi gente a sofrer nos hospitais de campanha, crianças sem escolas, sem alimentação, mulheres que são violadas quando vão à procura de lenha, polícias corajosos, como o Coronel Ahmat, só ossos, mas uma grande experiência de combate e uma inteligência fina e sensível. Um homem sem medo.

 

Viajei estes dias com um um enorme lenço à volta do pescoço e do nariz, à la palestiniana, tentei proteger-me do pó fino, mas acabei o dia a sangrar do nariz, a tossir e castanho como uma maçã reineta meia podre. A minha figura era tão pouco usual, com o pano aos quadradinhos cor de areia à volta da cara, o nariz a apontar na direcção da estrada, que acabei por dizer aos meus guarda-costas que, se houvesse uma emboscada, os bandidos fugiriam de horror, ao ver-me nessa figura estranha. Um horror, sentado no banco da frente.

 

Mas voltei a encontrar gente de muito valor. Que nos ensinam a ser modestos e atentos aos outros.

publicado por victorangelo às 21:09

19
Set 09

 

 

Esta mulher foi a a nossa primeira guia, ontem, nos tempos perdidos no deserto de Ennedi.

 

Uma imagem forte, de gente de coragem, que vive no meio do vento e da solidão.

 

 

Cores do deserto, na segunda aldeia visitada.

 

 

A aldeia, em pano de fundo. As terras são áridas, só as mulheres são férteis.

 

 

Fotos copyright V. Ângelo

 

 

 

publicado por victorangelo às 22:14

18
Set 09

 

Hoje andei perdido no deserto do Ennedi. As coordenadas que nos haviam dado estavam erradas. O ponto de encontro era mais a Norte, uma questão de 10 a 15 quilómetros. Mas a visibilidade era pouca, menos de um quilómetro. O vento era intenso. O helicóptero andava às voltas. Quando se começa a andar às voltas no deserto, estamos perdidos.

 

Acabámos por ver três palhotas no meio do nada. Para a velha mulher e as duas raparigas que vieram ao nosso encontro, deveríamos parecer gente vinda de outro sistema solar. Explicaram ao nosso interprete improvisado a direcção. Levantámos âncora.

 

Mais umas voltas. Só areia, pedras e uns leitos de rios que há milhares de anos que deixaram de correr. Por fim, descobrimos mais um outro grupo de palhotas, maior e com melhor aspecto. Mais mulheres, só mulheres. Disseram-nos que o ponto que buscávamos estava para Norte, a cerca de duas horas a passo de burro. Fiquei na dúvida sobre as duas horas, não sobre o burro, já que nenhuma destas mulheres jamais possuiu um relógio.

 

Mais buscas. O céu estava cada vez mais fechado e o o horizonte mais curto. Os pilotos queriam regressar à base. Achavam que não havia hipótese alguma. Na última curva, já decididos a abandonar, vimos as viaturas das autoridades locais. Bem alinhadas, à entrada de Bir Douan, subprefeitura de Bahai, há horas à nossa espera.

 

O carro que me foi destinado tinha uma espingarda automática no sítio onde me devia sentar. E uma espada. O chefe da minha equipa tomou conta da automática. Arrancámos de jipe, para o destino. Depois de uma viagem de jacto, muito cedo de manhã, seguida de um percurso de avioneta, depois o helicóptero, agora era a vez de viajar num todo-o-terreno. De luxo, devo dizer, novo, em excelente estado. O meu condutor era um tenente-coronel. Que falava um francês suficiente. Gente dura.

 

Como estamos em pleno Ramadão, não era educado estar a beber em frente dos anfitriões.

 

O vento era cada vez mais forte e seco.

Foi uma sova a sério.

 

Para que o leitor não se perca, aqui ficam as coordenadas do ponto de encontro: Latitude Norte 15 graus 50 minutos 47 segundos; Longitude 22 graus 43 minutos 51 segundos. Se for ao mapa, fica a perceber o que é andar perdido nestas paragens.

 

 

publicado por victorangelo às 22:11

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