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Vistas largas

Crescemos quando abrimos horizontes

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Donald Trump e os Talibãs

Hoje escrevi a minha crónica semanal para o Diário de Notícias, depois de uma pausa de duas semanas. A crónica será publicada na edição de amanhã. E tinha forçosamente de ter como tema o Afeganistão. Esse é o assunto por excelência, neste momento. Mas muito se tem escrito sobre o Afeganistão. Incluindo prosas emocionais e pouco realistas. E muita repetição de ideias feitas.

O desafio era enorme. Que escrever, a partir de que ângulo, de modo a acrescentar algo ao debate, sem maçar o leitor com mais do mesmo? O leitor verá como tentei dar a volta a esta questão. E como procurei não esquecer as pessoas, mesmo quando a escrita é sobre questões geopolíticas.

O papel nefasto de Donald Trump esteve sempre presente na minha mente, à medida que o texto avançava. Tinha a intenção de mostrar o que aconteceu à volta do acordo que Mike Pompeo assinou, a mando de Trump, a 29 de Fevereiro de 2020, e de como esse processo abriu o caminho para a tomada do poder pelos Talibãs.

Acabei por não o fazer. Mas é algo que terá que voltar à baila. Joe Biden assumiu as suas responsabilidades. Trump também deve ser confrontado com as suas.  

  

 

Cuba e as suas circunstâncias

É verdade que o bloqueio americano contra Cuba, que foi seriamente agravado durante o mandato de Donald Trump, tem um impacto enorme na economia do país. A pandemia veio agravar ainda mais a situação, ao reduzir a zero, ou quase, o turismo vindo de fora, que fazia viver alguns sectores da população. A tudo isso acrescentam-se mais duas dimensões negativas: uma burocracia muito pesada, com um número excessivo, injustificado e dispendioso de funcionários; e o erro ideológico de não querer abrir o campo de acção da iniciativa privada, que, por causa das limitações impostas, não consegue crescer.

O resultado não poderia ser outro: agravamento da pobreza, privações de toda a espécie, lojas estatais vazias, sem os alimentos básicos em número suficiente, e crescimento exponencial dos mercados clandestinos, a preços inabordáveis. Sem esquecer as repercussões sobre o sistema de saúde, numa altura em que a pandemia está em força.

Por tudo isto, muitos cidadãos, nos mais variados pontos do país, vieram para as ruas este fim-de-semana, para manifestar o mal-estar existente e a oposição aos líderes actuais. Também clamaram pela liberdade política, que é um bem ainda mais raro do que a carne de frango, que só está disponível duas vezes por mês, um frango por família, nos armazéns oficiais.

O chefe do Estado reagiu como sempre viu fazer e foi aprendendo ao longo dos anos de militância no partido dos Castros – opondo aos cidadãos as milícias do partido e as polícias, e insultando as pessoas. Mostrou não estar à altura. O pouco prestígio que ainda tinha levou um grande abanão.

Felizmente para ele, os americanos continuam a implementar o embargo e a dar-lhe uma desculpa e um inimigo a quem atribuir as culpas.

Um dia completo

O Presidente turco mandou bombardear um campo de refugiados curdos localizado bem no interior do Iraque. Estes curdos fugiram de perseguições na Turquia, tendo encontrado protecção no país vizinho, com o apoio de várias agências humanitárias e da ONU. Ao ordenar o ataque de hoje, Erdogan violou aspectos importantes da lei internacional e cometeu vários crimes, incluindo o crime gravíssimo de matar e ferir refugiados instalados num campo reconhecido pela comunidade internacional. A NATO não pode ter um membro assim.

Do outro lado do mundo, nos EUA, o ex-presidente Donald Trump falará daqui a pouco aos militantes do Partido Republicano. Espera-se todo um chorrilho de mentiras e de falsas acusações. Entretanto, o partido está mais louco do que nunca. Completamente dominado pelas fantasias de Trump, fez circular uma nova teoria conspirativa: durante a eleição de Novembro, os italianos enviaram drones que iam transformando cada voto por Trump num voto para Biden. É mais uma invenção extravagante, mas a verdade é que muitos eleitores republicanos acreditam nestas idiotices. O partido está num estado absolutamente lamentável. E Trump aproveita-se disso.

Mais ao sul, no martirizado Burkina Faso, aconteceu um novo extermínio de civis indefesos. A sua aldeia foi atacada por terroristas durante a noite passada. Ainda não se sabe exactamente quantas pessoas foram mortas, mas o número é superior a 135. Este ataque lembra-nos o drama que certas populações do Sahel estão a viver. Também nos diz que a insegurança continua a crescer. Com ela, vem mais miséria, deslocamentos de população, mais sofrimento.

Entretanto, decorreu a reunião dos ministros das finanças do G7. Houve acordo quanto à urgência de fazer pagar impostos às grandes corporações mundiais. É um passo em frente. Mas há que tornar a decisão efectiva. E isso irá demorar.

Uma página na história norte-americana

Como era de esperar, o Senado norte-americano não reuniu um número suficiente de votos para condenar o antigo presidente, que era obviamente culpado de instigação à violência e à subversão da ordem democrática. Os acontecimentos de 6 de janeiro e todo o cenário de falsidades e i insurreição que fora criado antes tiveram um responsável.

Independentemente do julgamento partidário de hoje, ficará o julgamento da história. Esse não será suave. E fica ainda aberta a possibilidade de procedimentos criminais contra o ex-presidente. Esta última possibilidade é muito real. Creio que acontecerá.

O voto de hoje fecha um capítulo. Mas não encerra um processo de responsabilização. Antes pelo contrário. Creio que deixou a porta claramente aberta para que tal venha a acontecer.

O julgamento do número 45

Começou o julgamento da acusação contra o antigo presidente Donald Trump. É improvável que venha a ser condenado pelo Senado. Não parece haver nenhuma hipótese de se conseguir uma maioria de dois terços, que é o número mínimo de senadores necessário para confirmar a acusação.

Mesmo assim, é importante que este processo tenha lugar. O que Trump disse e fez antes e durante o dia do assalto ao Capitólio é de uma gravidade extrema. Quem decidir ignorar esse comportamento criminoso terá de responder perante a sua própria consciência – por muito diminuta que esta seja – bem como perante a história. Esta não será ligeira no que respeita à apreciação do que se passou nos últimos meses e dias do mandato do número 45.

Temas, preocupações e alegrias

Se me meter em conversas em que se discutem temas que nos entristecem ou nos pintam uma sociedade à deriva, fico perdido. Estou a pensar nos temas da ineficiência, da manipulação da opinião pública, da corrupção, da ausência de punição para os criminosos com dinheiro e apoios políticos, dos compadrios, e agora – parece que está na moda – da formação de um governo de unidade nacional – não entendo bem o que isso quer dizer nem onde os seus proponentes querem chegar. Não sei o suficiente sobre o nosso quotidiano, depois de quarenta e dois anos de ausência, para me intrometer nesses debates. Mas reconheço a validade dessas questões. E a necessidade de as discutir de uma forma calibrada e sem manchas de clubite partidária.

Entretanto, ao fim do dia, tive duas boas notícias.

Uma, respeitante ao Conselho de Segurança da ONU, que aprovou uma declaração muito clara contra os militares golpistas em Myanmar. No essencial, é-lhes dito que isso de golpes é algo que não é aceitável no mundo de hoje. Foi uma declaração que me surpreendeu pela positiva. E digo isso no artigo que acabo de escrever para o Diário de Notícias de amanhã.

A outra foi o discurso de Joe Biden sobre política externa. Enunciou uma política clara, baseada na diplomacia com princípios e no respeito por todos os membros da comunidade internacional que se conduzam de modo democrático e que promovam os direitos humanos das suas populações. Ouvir o que ele disse fez-me perguntar a mim próprio se ele e Trump vivem no mesmo país. De um lado, temos uma atitude coerente e positiva. Do outro, era a política do imprevisto e do egoísmo nacionalista. A diferença entre um tipo de América e o outro é simplesmente colossal.

 

O infame Trump

Ontem fiz o que milhões fizeram: passei horas a ver o desenrolar dos acontecimentos em Washington. E a perguntar a mim próprio como foi possível deixar acontecer o que aconteceu. Os serviços de polícia dos EUA têm uma enorme capacidade em matéria de análise de informações. Não me conseguirão convencer que o ataque ao Capitólio foi uma surpresa. Qualquer medíocre analista, sabendo o que o infame Donald Trump preparava há dias, poderia prever que haveria confusão à volta do Congresso, durante a cerimónia de confirmação de Joe Biden. E, com base nessa análise, centenas, mesmo milhares de polícias e guardas nacionais, seriam de imediato mobilizados, antecipadamente, para proteger a cerimónia.

Nada disso aconteceu. Os rufias e os primários, radicais de todo o género, puderam invadir o edifício e atacar um processo democrático. Com a bênção e o incitamento do fulano que ainda está na Casa Branca.

Um crime, uma vergonha, um prenúncio do que poderá acontecer no futuro.

Trump precisa de ser destituido de imediato e investigado. Essa será a única maneira de lavar a mancha que ontem ficou no tecido democrático norte-americano.

Rússia e o amigo Donald

https://www.dn.pt/edicao-do-dia/19-dez-2020/a-russia-a-letras-gordas-13150968.html

Este é o link para o meu texto desta semana no Diário de Notícias. 

Entretanto, o ainda presidente Donald Trump veio contradizer tudo e todos, incluindo o seu querido Mike Pompeo. Veio dizer que talvez não tenham sido os russos que têm andado a espionar os diferentes departamentos estratégicos federais e as grandes empresas americanas. Não há dúvida, como já se sabia, que Trump está no bolso de Vladimir Putin. Também não tenho dúvidas sobre o seguinte: a sua saída do poder, por haver perdido as eleições, é um grande alívio. Trump é um líder muito perigoso. 

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