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Vistas largas

Crescemos quando abrimos horizontes

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Crescemos quando abrimos horizontes

Vidas em crise

O jovem motorista de táxi, que me levou de Belém até cerca da Praça de Espanha, disse-me que faz 14 horas por dia, para um ganho insignificante. Quando entrei no seu carro, estava estacionado há mais de duas horas, sem que tivesse aparecido qualquer tipo de serviço. Num longo dia de trabalho faz, em média, entre seis e oito viagens. Acrescentou que vários colegas já estão há bastante tempo a recorrer aos bancos alimentares. E rematou, com um ar resignado, que as perspectivas que vê, para os próximos meses, não são animadoras.

Os dias moles e parados

Em frente à minha varanda, do outro lado da avenida, existe uma praça de táxis. No passado, as viaturas permaneciam pouco no estacionamento. Chegavam, juntavam-se mais uma ou duas, e rapidamente seguiam viagem. O tempo de paragem era curto. Agora, forma-se uma fila que nunca mais acaba e passam horas à espera do serviço que não aparece. É difícil, ao ver tantas viaturas sem movimento, não concluir que a cidade está mais ou menos parada. É igualmente impossível não pensar nas consequências económicas e sociais de tudo isto.

Para cúmulo, os meus amigos de Évora publicam fotos do centro da cidade, sem que se veja vivalma. E quem fala comigo ao telefone, diz-me que na sua zona pouco ou nada mexe. E acrescentam que muitos andam deprimidos, à espera da vacina e dos dias de sol. Infelizmente, não posso prometer nem uma nem a outra.

Myanmar e os seus imensos problemas

Fevereiro começa, na cena internacional, com um golpe de estado em Myanmar. O partido de Aung San Suu Kyi havia ganho de modo esmagador as eleições legislativas de novembro passado. É verdade que as eleições não foram realizadas da melhor maneira, por causa da pandemia e das rebeliões armadas que persistem em várias regiões do país. Mas onde tiveram lugar de modo aceitável mostraram claramente que a senhora Suu Kyi goza de uma popularidade enorme junto das populações. Sobretudo quando se trata da etnia birmane, que é, de longe a mais numerosa.

Também é um facto que Aung San Suu Kyi pode ser criticada por várias razões, por acontecimentos e tomadas de posição que adoptou ao longo dos últimos cinco anos em que esteve no poder. Mas é fácil criticar a líder e esquecer as imensas e profundas contradições que existem no país. A sua liderança era, em grande parte, um exercício de equilíbrio. No fundo da cena, estavam sempre os generais e a máquina militar, que é poderosa. São estes que massacraram os Rohingyas e levaram à sua expulsão de Myanmar.

São também os militares quem controla algumas das principais fontes de riqueza em que se baseia a economia nacional. As forças armadas são uma estrutura que mistura organização militar, com interesses económicos e políticos. Em certas zonas do país, estão directamente ligadas à exploração ilegal de pedras preciosas e à facilitação da produção e do comércio de drogas. Têm, além disso, uma ligação estreita com as forças armadas da China, nas zonas fronteiriças com esse país, e com a Índia, igualmente nas fronteiras comuns. E é conhecida a cooperação militar entre Myanmar e Israel, quer em termos de formação quer na aquisição de armamentos.  

Tenho seguido, há vários anos, por obrigação profissional, o que se passa em Myanmar. E acho fundamental que se condene de modo inequívoco o golpe de estado de hoje. O Conselho de Segurança da ONU discutirá a situação amanhã. Não creio, no entanto, que a China possa tomar uma posição muito clara. Um dos corredores económicos fundamentais da Nova Rota da Seda passa por Myanmar. O seu funcionamento dependerá da boa vontade dos militares golpistas.

 

Os voos que estão ao nosso alcance

Não conheço o plano de ajuda à TAP. Vejo, no entanto, que o sector da aviação é dos que conhecem um nível de competição mais elevado. Está, por outro lado, profundamente afetado pela crise da pandemia. Competição e pandemia são duas variáveis que são difíceis de projetar em direcção ao futuro, difíceis de prever. Qualquer investimento que venha a ser feito na TAP estará sempre cheio de incertezas. Eu não investiria dinheiro meu numa empresa de aviação, e muito menos numa empresa que tem uma cultura de funcionamento que não lhe tem permitido dar lucros desde há muito anos.

Também não me parece que no nosso caso, e com os poucos recursos que temos, se possa considerar a TAP uma empresa de interesse nacional estratégico. O tempo das empresas de bandeira já passou, para países como o nosso. Isso é válido no caso do Qatar ou dos Emirados, que têm dinheiro que sobra e uma grande necessidade de afirmação na cena internacional. Nós não estamos nessa situação. Não temos recursos para questões não-estratégicas e a nossa afirmação na cena internacional não passa pelas asas de uns aviões.

Depois da pandemia

Com o progresso acelerado em matéria de vacinas contra a covid-19, seria útil reflectir sobre o mundo que aí vem, no período pós-pandemia. Será, certamente, um mundo diferente, nas áreas económicas e humanas, bem como no relacionamento entre os diferentes estados. No caso destes últimos, a grande lição que deverá ser retirada das campanhas de vacinação é a da cooperação entre todos. Mas é possível que essa conclusão se limite apenas às matérias de saúde pública. Isto significaria que os verdadeiros líderes, com uma visão global, deveriam procurar levar a questão mais longe e promover a cooperação noutros domínios de interesse universal. Um deles seria certamente o do aquecimento global. Outro teria de ser no campo da cooperação económica, com o objectivo de combater a pobreza extrema. Os tempos recentes mostraram-nos que quando há vontade política é possível fazer milagres. Tem de haver vontade política na luta contra a pobreza. Esta é um dos factores mais importantes de instabilidade no interior dos estados e a nível internacional. As receitas necessárias, do ponto de vista económico, são conhecidas. Passam pelo comércio sem barreiras, pelo tratamento preferencial dos mais pobres, pela formação profissional dos jovens, por investimentos limpos e pela eliminação da corrupção.

Este debate sobre o futuro pós-pandémico é, na verdade, o debate que se impõe.

Um período muito difícil

As medidas de confinamento decretadas pelo governo para os próximos quinze dias são bastante restritivas. Esperam que tenham um impacto positivo na redução da taxa de propagação do vírus, já que o impacto negativo na economia é mais que evidente. Seria simplesmente desastroso se o enorme custo económico das medidas não fosse compensado por uma melhoria da situação sanitária, que é, de facto, muito má.

Lamento, por outro lado, que não se insista no uso obrigatório de máscara em todos os lugares públicos. Esta manhã, por exemplo, havia muita gente a passear ao longo do Tejo, na zona lisboeta de Belém, entre a Ponte 25 de Abril e o Monumento aos Combatentes do Ultramar, junto ao Forte do Bom Sucesso. Uma grande parte das pessoas não andava com máscara. Embora se tratasse de um passeio ao ar livre, a verdade é que havia zonas em que a proximidade entre as pessoas era um facto.

Lamento, também, que o discurso do Presidente da República da passada sexta-feira, que sublinhava bem a seriedade da ameaça, não tenha sido comentado na comunicação social de modo a amplificar a mensagem. É preciso insistir na gravidade da situação e no apelo ao civismo de todos.  

A declaração presidencial

A comunicação do Presidente da República foi suficientemente clara. Lembrou-nos que a situação é grave, no que respeita à pandemia da covid, e que continuará a sê-lo durante os próximos meses. Os sistemas de saúde estão à beira da ruptura e, por outro lado, a economia está a ser profundamente abalada. Assim, o estado de emergência irá continuar – foi esse um dos avisos que fez – durante o mês de dezembro e para além desse período.

Pessoalmente, não vi nenhuma contradição maior entre o que disse e a maneira como o governo tem estado a encarar a pandemia. Penso, no entanto, que deveria ter insistido mais no que se espera de todos nós em matéria de comportamentos que evitem o risco. É aí que está uma das respostas mais importantes à crise sanitária. Na China, na Coreia do Sul, em Singapura, e noutros países, a disciplina cívica – nomeadamente o uso generalizado de máscaras – tem desempenhado um papel fundamental.

É, no meu entender, altura de começara falar disso com mais insistência e de um modo que possa ser entendido por todos. A política tem muito que ver com o comportamento dos cidadãos. Se o comportamento for o adequado, não haverá necessidade de fechar trinta por uma linha.

 

As palavras frouxas do Presidente

A comunicação ao país, feita este serão pelo Presidente da República, não foi incisiva. Foi uma intervenção vaga, impessoal, cansada. Não frisou suficientemente a gravidade da situação, não apelou ao civismo e ao comportamento responsável que se espera dos cidadãos, não mencionou os custos económicos e psicológicos que as famílias têm de suportar, como também não referiu se haverá ou não um conjunto de medidas compensatórias e de apoio. Achei que perdeu a oportunidade de contribuir, dentro dos limites que são os do seu cargo, para uma melhor compreensão da crise e para um acender da esperança, se todos derem uma achega, a começar pelo governo mas não só.

A crise

Vi e ouvi o discurso que Emmanuel Macron pronunciou este serão, através das televisões nacionais, sobre o agravamento da pandemia da Covid-19. A mensagem foi clara: a ameaça é enorme e continua a crescer. Há, por isso, que encontrar maneira de proceder à sua desaceleração. Foi isso que o levou a tomar toda uma série de medidas, que estarão em vigor até 1 de dezembro. Os custos directos para o estado francês das medidas anunciadas serão de cerca de 20 mil milhões de euros, num mês. A isso haverá que acrescentar os custos que a economia privada irá sofrer. Estamos, assim, a falar de uma crise sanitária que tem um impacto gigantesco sobre a economia. Mas, não há outra solução.

 

O momento e os dias que se seguem

A pandemia está, de novo, a paralisar a Europa. E estamos apenas no início do Outono. O que temos pela frente, nas próximas semanas e nos meses que se seguirão, é a continuação do abrandamento das actividades económicas, com vários sectores fechados ou a funcionar a lume muito ténue, com a saúde pública a ser incapaz de responder aos múltiplos desafios, bem como a um agravamento das crises psicológicas e mentais. Sem esquecer os riscos de crise política. A pandemia acabará por minar a credibilidade de muitos governos. Se eu estivesse no poder, daria uma atenção muito especial a esse risco. Numa situação de grande complexidade, é preciso manter uma liderança clara e saber falar aos cidadãos. Estamos num daqueles momentos em que a comunicação bem feita é essencial.

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