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Vistas largas

Crescemos quando abrimos horizontes

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A política vista pela cabeleireira

A senhora que me corta o cabelo respondeu-me que a semana fora fraca, em termos de clientes. A sua freguesia é feita de mulheres que vêm arranjar o cabelo, as unhas e outros serviços de beleza. Eu sou dos raros clientes masculinos. O salão é um sucesso comercial: está sempre atarefado, são marcações atrás de marcações. Excepto esta semana, que esteve cheia de buracos, de tempos mortos. Disse-me que a razão tinha que ver com o chumbo do orçamento e as incertezas daí decorrentes. As clientes andam preocupadas, têm medo das consequências económicas da crise política, acham que os pequenos benefícios que o orçamento anunciava não se materializarão. Cortam, então, nas despesas. Não cortar o cabelo é uma maneira de cortar nas despesas.

Fiquei a pensar nesta conversa. Isto da política tem reacções inesperadas, por parte dos eleitores. E aqui, a ideia que a cabeleireira queria transmitir foi clara: o chumbo na Assembleia da República não terá sido apreciado por muitas das suas clientes.

A caminho das eleições

A mais de dois meses e meio das lições legislativas é muito difícil fazer prognósticos. Estamos num período de grandes incertezas e mudanças. Os acontecimentos que poderão ocorrer neste período pré-eleitoral e as campanhas que vierem a ser feitas pesarão mais do que o que tem sido habitual.

Também será importante escolher bem os candidatos que desempenharão um papel de bandeira. É aí que os partidos estabelecidos há mais tempo poderão ter alguma vantagem. Os novos partidos não têm gente conhecida e com credibilidade suficiente. E não vão conseguir apresentar listas de candidatos convincentes.

Um exemplo concreto é o do partido Chega. Além do chefe, não têm mais ninguém que se veja. A própria direcção central está cheia de pessoas de passado duvidoso. E o resto é gente sem experiência. Isto, independentemente das ideias que defendem, que são poucas, pobres e primárias.

Vai ser interessante analisar todo o processo.

16 de janeiro?

O Presidente da República teve hoje uma série mini-encontros com os partidos políticos representados na Assembleia da República. O assunto era a data das eleições legislativas antecipadas. Ouvir os partidos foi claramente uma formalidade, exigida pela Constituição, mas sem qualquer outra substância. Tratou-se de uma etapa, e nada mais.

No essencial, ficou visível que a data preferida seria 16 de Janeiro. Essa preferência tem toda a lógica. Não estraga o Natal e o Ano Novo de muitas famílias e permite começar o novo ano com alguma clareza. A não ser que não haja um resultado suficientemente claro. O povo é quem mais ordena, mas são os líderes políticos que na realidade mandam no sistema. O povo vota e os chefes interpretam a vontade popular. Cada um puxando a brasa para o seu lado.

De qualquer modo, se é para ir a votos, que se vá tão depressa quanto possível. Cabe a cada partido arrumar a casa antes, se puder. Se o não fizer, irá para a campanha numa situação de confusão e debilidade. Isto é especialmente verdade no caso do PSD. Esse partido está fragmentado e vai ter muitas dificuldades para colar os cacos a tempo.

Quanto ao CDS, não há problema. O resultado eleitoral servirá para confirmar o seu apagamento do mapa político nacional.

O movimento dos votos

Depois de falar durante duas horas, numa aula que dei no Instituto da Defesa Nacional, para contar a minha experiência na área da resolução de conflitos, fiquei sem forças para tentar entender a situação política actual. Li alguns comentários especulativos, mas nada de muito convincente. Fico para já com a hipótese de um jogo de António Costa. No seguimento das autárquicas, vê que o BE e o PCP estão muito fracos e pensa poder conquistar os votos que estes irão perder nas próximas eleições gerais. É, no entanto, um jogo arriscado. Uma parte dos eleitores do PCP poderá votar no Chega e não PS. São pessoas de recursos modestos e que sentem a necessidade de votar numa oposição forte. O Chega não é essa oposição, mas é o que se pode arranjar, como diria o outro. Quanto ao eleitorado do BE, é possível que alguns segmentos votem no PS. Mas isso não chegará para compensar as perdas que o PS terá, por transferência de votos para o PSD, o PAN e a Iniciativa Liberal.

A minha nota adicional sobre a eleição de ontem

Muito se tem dito e escrito sobre a eleição presidencial de ontem, incluindo sobre a minha região natal, o Alentejo. Compreendo. Os resultados contêm mensagens políticas importantes, que não podem ser ignoradas. Certos partidos vão ter de ajustar a maneira como fazem política. A sociedade portuguesa está a mudar. O discurso político tem de se adaptar a essa mudança, ao facto de que as pessoas têm mais informação e opiniões mais vincadas. A maturidade e a coragem são dois elementos que definem o eleitor português dos nossos dias.

Mas, para mim, a mensagem mais importante é sobre liderança. A maneira de liderar uma corrente de opinião, o comportamento em público, a clareza do que se comunica e a imagem de mãos limpas são agora questões de muito peso. No caso de agora, ganhou quem conseguiu projectar uma imagem de sensatez, de abrangência e de competência.

Ainda sobre a liderança, quem transmite uma imagem de exaltação não vai além de uma certa percentagem. A maioria dos portugueses não compra esse tipo de comportamento. Como também já não compra agendas políticas que se baseiam apenas num par de questões, por muito nobres que possam parecer. Os cidadãos têm agora uma visão mais ampla da vida e do destino que querem para o país. Sabem que os excitados e os curtinhos de ideias não servem para o futuro que queremos ter.

Uma nota breve sobre a eleição presidencial

A eleição presidencial correu bem, apesar das circunstâncias excepcionais que o país vive. Foram organizadas de modo eficiente e os cidadãos puderam votar, segundo a sua vontade. Foi um dia de maturidade cívica.

Felicito o vencedor, Marcelo Rebelo de Sousa. E reconheço o esforço e empenhamento dos outros candidatos, independentemente das suas posições ideológicas.

Não sou dos que pensam que a democracia saiu mais fraca desta eleição. Antes pelo contrário. 

Votar é muito importante

Estamos a menos de três dias da eleições presidenciais. Por outro lado, estamos cercados por uma pandemia que não cessa de crescer. Ou seja, vivemos dias que nada têm de normal. Como ir votar, numa situação destas?

Essa é uma das questões do momento. A outra tem de ver com a validade de uma eleição realizada numa altura de circunstâncias excepcionais. Mas, válida ou menos válida, a eleição terá lugar neste domingo. E quem puder deverá ir votar. Com todas as precauções e mais algumas, mas será importante ir.

Os apoiantes extremistas irão certamente. Por essa razão, é fundamental que os outros, os cidadãos que não se identificam com extremismos, populismos e demagogias, o façam também.

Este blog não tem a pretensão de dar conselhos sobre as escolhas políticas de cada um. E assim será desta vez, seguindo a tradição. Os leitores que me seguem não precisam da minha recomendação sobre este ou aquele candidato. São gente madura, que conhece bem o que está em jogo, que na frente doméstica quer nas nossas relações com o resto da Europa e mais além.

Assim, a única referência que farei diz respeito ao acto de votar. A ausência será um risco que não convém correr. Um risco maior do que o outro, pois esse pode ser atenuado com uma máscara, uma esferográfica pessoal e álcool.

As televisões e a ideia que se fazem do povo

As redes sociais contêm vários comentários sobre as entrevistas televisivas dos candidatos presidenciais. Devo confessar que ainda não tive a oportunidade – esta é uma maneira diplomática de pôr a coisa – de ver nenhuma dessas entrevistas. Mas pelos comentários que vou vendo parece que os entrevistadores não têm estado à altura. A ser verdade, é uma pena. Uma campanha presidencial deveria ser o momento para levantar algumas das grandes questões sobre o futuro do país. E para perceber se os candidatos têm uma visão nacional. Perder tempo em questões da hora e navegar na espuma do tempo que passa não será a melhor maneira de tratar os candidatos. Mostra falta de inteligência, de respeito pelos candidatos e pelos eleitores.

A verdade é que temos jornalistas muito bons. Mas não são esses que têm acesso aos ecrãs. Quem manda nas televisões parece pensar que os jornalistas mais intempestivos, mais primários, mais arrogantes são os que atraem audiências. Isso significa que os patrões das televisões vêem os portugueses como uma série de brutos que apenas querem circo político e violência verbal.

Ultrapassar a violência política

No meu texto no Diário de Notícias de hoje, procuro reflectir sobre os grandes temas das campanhas dos dois candidatos bem como sobre o futuro do relacionamento da União Europeia com os Estados Unidos. Esta segunda parte de o meu texto será certamente uma tema de grande actualidade nos tempos mais próximos. É um debate que precisará de ser aprofundado. O que hoje publico é apenas uma abertura da discussão. É uma posição voluntarista, virada para aquilo que penso dever ser o caminho que a UE deverá procurar seguir. Mais do que uma análise, é uma proposta de agenda.

Entretanto, uma lição sobre a qual convirá igualmente reflectir diz respeito à enorme radicalização da vida política americana. As posições dos dois campos não são apenas diferentes. Para muitos, de um lado e do outro, são tomadas de posição marcadamente hostis. Esse parece ser um dos legados de Donald Trump, a radicalização da sociedade, da opinião pública americana.

O contrário, um certo desanuviamento, poderá ser a imagem de marca de Joe Biden. Será que o conseguirá? Espero que sim. Entretanto, o meu conselho seria o de tentar prosseguir essa via da reconciliação da sociedade americana. Uma sociedade desenvolvida precisa de ser um exemplo de respeito pelas divergências políticas.

Aceitar a derrota faz parte do processo

No que respeita às eleições presidenciais, o processo eleitoral norte-americano é muito diferente do que por aqui vigora. Não existe uma Comissão Nacional de Eleições que declare o vencedor. Depois dos apuramentos estado a estado, é essencial que o candidato perdedor reconheça que perdeu as eleições. Isso tem de ser feito através de uma declaração pública. Só depois se passará à etapa seguinte, que é a de reunir os grande eleitores, que são 538, e proceder à formalidade da votação final. Sem o discurso de aceitação dos resultados por parte do candidato derrotado, o sistema emperra.

Este ano, se o vencido for Donald Trump, tenho muitas dúvidas sobre a sua aceitação dos resultados. Daí resultará uma grande encrenca.

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