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Vistas largas

Crescemos quando abrimos horizontes

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Crescemos quando abrimos horizontes

O bota-abaixo por parte das elites

Nos últimos dias tem-se escrito muito sobre as plataformas sociais. Em geral, para demonstrar todos os malefícios que elas estão ligados. Quem assim escreve são pessoas da elite, que têm acesso aos meios de comunicação social, onde publicam colunas de opinião ou aparecem nos ecrãs. Os seus comentários não traduzem o modo de ver do cidadão simples, que não tem acesso aos órgãos tradicionais nem maneira de fazer ouvir a sua voz. Também não têm em conta que vivemos num mundo digital, em que há uma democratização da informação, novos padrões de comunicação e muito mais gente a produzir opinião.

É verdade que existem problemas e fenómenos negativos ligados às plataformas sociais. Mas também é um facto que assistimos a um fosso crescente entre as elites e o comum dos mortais. Ao pensar nisso, é de perguntar qual é o papel das elites quando se trata de promover a boa utilização das redes sociais?

 

Liberdade e democracia

Não se pode confundir a democracia com a liberdade. Podemos ser livres de dizer seja o que for, mas se a democracia não funcionar a sério, a nossa voz nunca será ouvida pelas elites que detêm o poder. Seremos, como muitos o são nos dias de hoje – e as manifestações de rua contra tudo e mais alguma coisa são uma demonstração do que quero dizer – uns frustrados livres. A falar para o vento que passa. 

A democracia é sobre o exercício do poder, a prestação de contas, o serviço do bem comum, a representatividade dos diversos interesses que existem numa sociedade. 

A liberdade é sobre a expressão de pontos de vista, a manifestação de opiniões, a aprovação ou a crítica do poder, sem que tudo isso traga consequências negativas. 

Ambas são fundamentais. 

Desanimações

Um dos meus amigos, que toda a sua vida foi um académico conceituado, enviou-me este serão uma mensagem sobre a vida política portuguesa que terminava com “um abraço desanimado”. Compreendo. Há de facto uma atmosfera de desilusão entre as elites mais genuínas. E, num outro caso, que também me deixou surpreso, vejo um outro académico escrever hoje no Diário de Notícias uma crónica em que procura olhar para a justiça portuguesa pela positiva, quando se trata de julgar casos como os ligados a Sócrates e ao abuso do poder político. Num exercício de bondade excessiva, compara a administração da justiça nos dias de hoje com o que aconteceu durante a ditadura e a Primeira República. Estranhei. Eu teria comparado com aquilo que se faz nos países europeus mais avançados. E ficaria “desanimado”, sem dúvida alguma.

Será que entendemos bem o que somos?

Cada um vê a qualidade da sociedade portuguesa à sua maneira. Assim seja. Mas parece-me um erro ter uma visão irrealista de certas questões. Por exemplo, sobre a corrupção que existe no seio de muitos dos que têm poder. E não se trata apenas de quem tem o poder político. Há uma boa dose de ganância e corrupção em várias esferas da sociedade.

Ou, ainda, sobre a pretensa natureza pacífica do nosso viver em sociedade. Quer dizer que não se dá a devida atenção à segurança dos mais fracos, às consequências do incivismo que define a maneira de viver de muitos de entre nós, que se esconde a violência que se está a propagar com palavras que pretendem servir de biombos.

Também não se fala da pequenez de ideias de muitos de nós. Do gostar de mal-dizer e de puxar para baixo. Quando o horizonte é limitado, as pessoas concentram-se nos problemas que são descortinados do adro da igreja. A praça pública é um quadrado pequenino.

Ou da pobreza que é o quotidiano de muitas famílias, sobretudo nesta altura do frio e do mau tempo. Por muito disfarçadas que as coisas andem, continuamos a ser um país com muitos pobres e más condições de habitação.

A opinião que prevalece é a de elites que nada ou muito pouco têm que ver com origens modestas. Veja-se, caso a caso, de que classe social vêm. Se algum deles ou delas nasceu e cresceu numa família pobre, de província e de perto da pequena ruralidade, é a excepção que confirma a regra. São essas elites que constroem os mitos que alimentam a nossa maneira de ver a sociedade portuguesa.

Os burros e as saias

Quando uma parte da elite intelectual se entretém com reflexões sobre um homem de saias, podemos ter a certeza que algo está muito mal, neste nosso pequeno canto do mundo. Rimos e espraiamo-nos na parvoíce, como se procurássemos fazer chorar as pedras da calçada. Uma boa fatia da nossa classe intelectual é, pura e simplesmente, bacoca.

As várias manifestações em curso

Nos últimos 17 dias, o meu mundo tem estado muito focalizado no joelho direito. Primeiro foi a operação, depois as alterações temporárias ao estilo de vida ou ainda o cérebro a tentar entender, a todo o gás, sobretudo durante a noite, como se deve relacionar com o corpo estranho que substituí o joelho. Ou seja, uma condição absorvente, que pouco espaço deixou para outras actividades.

Apesar de tudo, fui acompanhando o muito que está a acontecer na cena internacional. Temos, na verdade, uma actualidade rica em acontecimentos, uma espécie de convite ininterrupto para uma reflexão sobre o mundo de agora. Um mundo que nos surpreende a uma velocidade superior à que estávamos habituados. Este é um momento de grande interesse para quem analisa as relações internacionais e os alinhamentos em curso, as novas manifestações de poder e as questões do relacionamento do povo com as suas elites. É também um período de profunda preocupação para muitos.

Entre essas preocupações, vários analistas, em diversas partes do nosso horizonte “ocidental”, têm dedicado uma atenção muito especial às manifestações de rua que estão a ocorrer na América Latina, na Europa, em Hong Kong, nas cidades do Iraque ou na capital do Líbano, para mencionar apenas as mais evidentes. Procuram, nas suas reflexões, encontrar pontos comuns, que expliquem o mal-estar e que lhes permitam tirar conclusões genéricas. O ponto de partida, dito ou não, seria que existem fogos populares em várias partes do globo e que na sua origem estariam problemas idênticos: crises económicas, altas taxas de desemprego, custo de vida inabordável, desigualdades sociais que se acentuam, pessimismo em relação ao futuro e elites desconectadas dos cidadãos.

É evidente que cada situação tem o seu próprio contexto político e social. Comparar o que se passa em Hong Kong com as manifestações populares em Beirute não será tarefa fácil. Como também não será coisa simples traçar um paralelo entre os protestos que se vivem em Santiago do Chile e a revolta dos Gilets Jaunes em França. Acho, no entanto, que é meritório tentar comparar as coisas. Cada revolta, cada manifestação de massas contém ensinamentos que podem ser de grande utilidade para a compreensão de situações semelhantes. Além disso, é óbvio, em cada caso, que a comunicação entre os manifestantes se faz através de plataformas sociais. Esse é, aliás, o ponto comum mais evidente. Mas mesmo assim, haverá que estudar as mensagens e a utilização que é feita de cada plataforma.

A crise da democracia

Fala-se muito na crise da democracia. Inventa-se toda uma série de explicações. Escreve-se peças académicas sobre o assunto. E, sobretudo, esquece-se que a raiz dessa crise está na maneira como os partidos políticos funcionam. Em muitos deles, tudo é decidido de cima para baixo. Manda o chefe e os outros não têm outro papel que o de obedecer. Não há democracia interna, não há debate para além do dizer que sim ao chefe e aos seus.

A crise da democracia resulta de partidos que deixaram de a praticar nas suas fileiras, que perderam a representatividade política que deveriam ter e que não permitem às novas elites e às ideias frescas que vinguem.

As elites e o povo

Muitos dos nossos concidadãos sentem-se frustrados. É um facto que a frustração não é um sentimento novo. O que pode ser considerado novo é a expressão pública dessa sensibilidade, que através das plataformas sociais quer ainda na praça pública, nas manifestações de rua.

São sonhos que não se realizam, opiniões que ninguém parece querer ouvir, críticas e sugestões a que não se dá peso, mesmo, nalguns casos, invejas que não se sublimam. Sem esquecer o drama que muitos enfrentam, quando o mês parece ter chegado ao fim quando ainda faltam tantos dias para o completar.

Estes sentimentos explicam em boa medida os populismos, os radicalismos, os movimentos do tipo Coletes Amarelos.

A classe política não tem sabido responder a estas desilusões e às angústias que lhe estão associadas. Os políticos vivem em mundos à parte, nos círculos que as elites formam. Movem-se na órbita de outros políticos, de jornalistas e de gente das empresas. Todos têm vários interesses em comum, que se satisfazem em circuito fechado. E todos eles partilham a mesma falta de sintonia e de conexão com os cidadãos anónimos, bem como a convicção de que são mais inteligentes e mais vivos que o resto da população.

É isso que deve mudar.

Crónica do ano longínquo de 2019

Andávamos como que hipnotizados nesse tempo, no ano da graça, dos abraços do senhor e das anedotas políticas de 2019.

A nossa paróquia tinha à cabeça o Mestre D. António, Prior de São Bento e do Mato. Ficou conhecido na história da terra como, o Sonso. Além de finório, D. António revelara-se como um líder cauteloso, capaz de se firmar quer na perna esquerda quer na direita, embora vagaroso e curto de vistas. Canhoto, não era. O horizonte, visto da capela-mor do Mestre, não o fazia sonhar com amanhãs que cantam. Sol, sim, na eira, mas também chuva no nabal. O ideal era manter o barco a flutuar, que é como quem diz, não perder a cabeça da paróquia.

Com o passar dos anos, o Sonso foi-se rodeando de um grupo de fidalgos, com o fim aparente de o ajudar na governação. Mas, era sobretudo uma questão equilíbrios entre famílias. E a escolha caía sempre nos mesmos. Ou era gente que ele conhecera, quando anteriormente à sua elevação a Mestre, havia servido como feitor dos serviços de higiene e limpeza do principal bairro da paróquia. Ou, então e sobretudo, gente das principais famílias, tudo bem aparentado entre si, um pequeno círculo de notáveis, em que o poder se transmitia de pais para filhos e entre cônjuges. Era uma espécie de corte à moda antiga. A corte do D. António.

Os paroquianos olhavam para essas movimentações com o sarcasmo suave de quem tem se preocupar, acima de tudo, com o tratar da vida. E também com o abandono de quem pensa que os Mestres são todos iguais. Todavia, nas entranhas do cidadão comum alojava-se a suspeita que a paróquia era um carrossel a duas velocidades, em que uns montavam nos cavalinhos e outros giravam agarrados às varas do destino.

Isso poderia dar cabo do ambiente, aquando das grandes missas habituais. Mas os idiotas da aldeia não sabiam como tirar partido do carrossel de altos e baixos.

Os jornalistas e outros croniqueiros das palavras e dos factos escreviam regularmente sobre isso, sobre as relações entre o parentesco e os cargos na sacristia. De longe, de muito fora da paróquia, esses desabafos intelectuais soavam a estranhos e de uma outra época, do século XIX, talvez. Pareciam meter dó, que pena que nessa terra, os grandes cérebros da escrita pública e da imagem televisiva passem dias e dias a tratar de coisas tão bizarras. Que intelectualidade tão banal! De perto, no seio da paróquia, essas jeremiadas da comunicação social eram vistas pelo povo com um sorriso de cinismo, crónico e manso, – uma das características definidoras da personalidade colectiva do lugarejo – e esquecidas no dia seguinte.

E o Mestre de São Bento e do Mato assim foi reinando. A história, que acaba sempre por reconhecer o valor de cada um dos seus protagonistas, não se esqueceu de lhe confirmar o cognome. O Sonso.

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