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Vistas largas

Crescemos quando abrimos horizontes

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Crescemos quando abrimos horizontes

Uma França fragilizada

https://www.dn.pt/opiniao/quando-os-generais-escrevem-cartas-abertas-13625957.html

O link acima abre o meu texto de hoje -- desta semana -- no Diário de Notícias. 

O texto é um alerta para a crise política e societal que se vive actualmente em França. O ponto de partido assenta numa tomada de posição sobre a situação do país, que foi tomada por um número significativo de oficiais generais na reserva bem com outras altas patentes, essas já reformadas. 

Cito de seguida umas linhas dessa reflexão.

"Foi neste contexto que apareceu há dias uma carta aberta, assinada por 24 oficias generais na reserva e por uma centena de oficiais superiores e mais de mil militares de outras patentes, com um ou outro ainda no ativo e o resto, reformado. A carta, publicada na revista ultranacionalista Valeurs Actuelles, parecia querer servir de alavanca para reforçar as posições da direita radical. Foi vista pelo governo e por muitos com estupefação e como um apelo a um hipotético golpe de Estado."

Um dia de tensões

O nível da tensão entre certos Estados membros da NATO e a Rússia continua a aumentar. Sobretudo com alguns países europeus. Agora estamos na fase das expulsões de um lado e do outro. E a Rússia decidiu acompanhar as expulsões com um novo tipo de restrições internas, que visam muito especialmente as organizações ligadas a Alexei Navalny. A partir de agora, ficam equiparadas a organizações terroristas, o que é um cúmulo em termos de repressão e de ataque às liberdades cívicas.

Ao mesmo tempo que isto acontece, os contactos diplomáticos com Vladimir Putin continuam. Hoje foi a vez de Emmanuel Macron. Falou ao telefone com Putin, nomeadamente sobre a situação de Navalny, mas não só. A questão iraniana está igualmente na agenda, bem como a possibilidade de um encontro sobre a Ucrânia. Mas a verdade é que estes assuntos estão todos num impasse. Não há nem prevejo qualquer tipo de progresso nessas áreas.

Ao mesmo tempo, a China continua as suas incursões no espaço de Taiwan. E é cada vez mais óbvio que há uma coordenação política entre Beijing e Moscovo. Essa coordenação provoca um outro tipo de relação de forças na cena internacional. E enquanto isso acontece, assistimos a um crise humana e política profunda num outro grande rival da China, a Índia. Estava prevista uma cimeira entre a União Europeia e a Índia, que deveria ter lugar dentro de poucos dias em Portugal. O primeiro-ministro indiano já disse que não poderá estar presente. E não vejo que existam condições para que a cimeira tenha lugar. António Costa havia apostado imenso nessa iniciativa, mas os factos baralharam-lhe as voltas.

Estamos com tudo isto, e com as incertezas em relação à pandemia, numa encruzilhada muito incerta.

Vladimir Putin, um vizinho incómodo

https://www.dn.pt/opiniao/o-infinito-vladimir-putin-13547084.html

O link acima leva o leitor para o texto que hoje publico no Diário de Notícias. Assim tem acontecido todas as sextas-feiras. 

Desta vez volto a escrever sobre Vladimir Putin. Escrevera um outro texto sobre ele em finais de janeiro. Na minha opinião, o presidente russo deve constituir um tema central nas preocupações de política externa da União Europeia. Somos vizinhos, ele é um vizinho hostil, mas ninguém escolhe os vizinhos que tem. O essencial é manter a paz na vizinhança, mesmo quando isso não é fácil. 

Como de costume, cito abaixo o último parágrafo do meu texto. E peço a quem achar que vale a pena que envie o link para outros possíveis leitores.

"Uma outra área de preocupação imediata diz respeito à coesão da União Europeia. Putin anda há muito empenhado em estilhaçar a unidade europeia. Vê na eleição presidencial francesa de 2022 uma oportunidade ímpar. Marine Le Pen tem, pela primeira vez, uma possibilidade elevada de vencer. É visceralmente ultranacionalista e contra o projeto europeu. A sua eleição representaria um risco muito sério para a continuação da UE. Putin sabe-o. Tudo fará para intervir no processo eleitoral francês e arruinar quem possa ser um obstáculo à vitória da candidata que melhor serve os seus interesses. É fundamental travar essa intromissão e, ao mesmo tempo, ter presente a lição que o líder russo nos recorda diariamente: as disputas vitais entre os grandes blocos já não se fazem apenas à espadeirada ou com tiros de roquetes."

Esta seria uma tarefa para o G20

https://www.dn.pt/opiniao/uma-vacina-contra-as-rivalidades-geopoliticas-13366109.html

O link acima abre o meu texto de hoje no Diário de Notícias. 

A mensagem fundamental é que o combate à pandemia deve ser global, incluir todos os que tenham meios para nele participar. Os países do G7, ao tentarem excluir a China e a Rússia de um processo coordenado de vacinação nos países mais pobres, estão a cometer um grande erro. Um erro que tem duas frentes: torna mais lenta e menos eficaz a imunização de todos; e não aproveita uma oportunidade de estabelecer uma plataforma de cooperação com essas duas potências. 

No final, perdem os povos que precisam e perderão os ocidentais,em termos de presença no mundo. A China, em particular, não vai esperar por nós. Irá fazer, sozinha, a sua diplomacia com base em campanhas de vacinação em África e noutras partes do globo. 

Uma cimeira para fingir que sim

O Primeiro-Ministro fez hoje uma intervenção, por videoconferência, na cimeira dos cinco países do Sahel que procuram, juntos, responder aos problemas do terrorismo e da violência na região. Falou porque Portugal ocupa a presidência rotativa da União Europeia. Foi uma comunicação breve, de pouco mais de sete minutos, diplomaticamente acertada. Foi uma oportunidade de pôr em evidência o interesse que Portugal tem pela região.

O problema é que estas cimeiras públicas não vão direitas aos problemas. Mesmo quando se faz referência às questões de contexto, que estão na base destas crises, a referência é feita de passagem, sem as interrogações que deveriam provocar um debate a sério. Cada discurso é apenas isso, um discurso, e depois cada um vai à sua vida e tudo continua na mesma. Ou seja, no caso do Sahel, muito mal, quer para os que sofrem os ataques quer ainda para os seis milhões de pessoas que foram empurradas para a pobreza e os dois milhões de deslocados, tudo por causa da insegurança, da falta de respeito pelos direitos humanos e pela indiferença que os líderes manifestam em relação aos cidadãos mais fracos.

Natal em Agosto

Nesta altura de coronavírus intenso, os serviços tomam todos os cuidados para evitar que o presidente seja contagiado. Mas foi. Emmanuel Macron apanhou o vírus, apesar de todas as precauções. A lição que se tira é simples: a pouco mais de uma semana do Natal, estamos num pico de contágios. É preciso muito cuidado. Este Natal não pode ser mais do que um dia como os outros, sem reuniões de família, sem celebrações de grupo. Espero que a mensagem seja bem compreendida por todos. Se assim for, pode-se marcar um natal alternativo para agosto do próximo ano.

A crise

Vi e ouvi o discurso que Emmanuel Macron pronunciou este serão, através das televisões nacionais, sobre o agravamento da pandemia da Covid-19. A mensagem foi clara: a ameaça é enorme e continua a crescer. Há, por isso, que encontrar maneira de proceder à sua desaceleração. Foi isso que o levou a tomar toda uma série de medidas, que estarão em vigor até 1 de dezembro. Os custos directos para o estado francês das medidas anunciadas serão de cerca de 20 mil milhões de euros, num mês. A isso haverá que acrescentar os custos que a economia privada irá sofrer. Estamos, assim, a falar de uma crise sanitária que tem um impacto gigantesco sobre a economia. Mas, não há outra solução.

 

Contra o radicalismo islâmico

Terror ou democracia

Victor Ângelo

Quase duzentos e cinquenta anos após a sua morte, Voltaire permanece como um dos pensadores mais influentes da história de França e da Europa. Escreveu abundantemente e foi conselheiro dos grandes de então. O seu pensamento político e filosófico abriu o caminho que levaria à Revolução Francesa e à divisa nacional, que ainda hoje se mantém: Liberdade, Igualdade, Fraternidade. Os seus escritos troçavam dos dogmas religiosos, numa altura em que era muito perigoso fazê-lo, batiam-se contra a intolerância, advogavam a liberdade de expressão e a separação da igreja do estado. Em 1736, escreveu uma peça de teatro contra a intransigência religiosa, que intitulou “O Fanatismo ou Maomé, o Profeta”. Nesta tragédia, Voltaire crítica diretamente e com todas as letras o fundador do Islão. Pessoalmente, leio a obra como sendo uma investida contra as religiões, num caso, de modo aberto, noutro, o do catolicismo, de maneira mais subtil, para não pôr em risco a sua pele.

Agora tornou-se impossível ensinar Voltaire nalgumas escolas de França, nomeadamente nos subúrbios de Paris. Certos alunos, vindos de famílias muçulmanas radicalizadas, impedem que tal aconteça. Para essas pessoas, Voltaire é o pior dos infiéis, aquele que se atreveu a conspurcar o nome do Profeta. No passado, a Santa Inquisição católica queimava os hereges em público. No presente dos maníacos islamistas, Voltaire seria degolado. Além de Voltaire, é um perigo falar do Holocausto ou condenar o antissemitismo, citar o escritor Gustave Flaubert e o seu romance Madame Bovary – uma mulher livre e apaixonada, um péssimo exemplo para um radical que considera que as mulheres devem ser submissas e andar tapadas da cabeça aos pés – ou procurar discutir Charlie Hebdo e as caricaturas de Maomé. Uma boa parte do sistema escolar público francês vive num clima de desassossego, em que a reação violenta de certos alunos substituiu o debate de ideias. E a intimidação começa cada vez mais cedo. Já se conhecem histórias de meninos que, nas escolas pré-primárias, recusam sentar-se ao lado das meninas.

Tudo isto nos leva à decapitação criminosa e absurda que ocorreu na semana passada. A vítima, o professor Samuel Paty, era um homem corajoso e consciente de que a missão das escolas também é a de formar os futuros cidadãos, livres, iguais em direitos, solidários, respeitadores e responsáveis. Mas, em França, a escola laica tem estado a ser ativamente minada pelos islamistas radicais desde 2005. Uma sondagem recente revelou que cerca de 40% dos professores de disciplinas literárias, cívicas e de humanidades se autocensuram e não mencionam, nas suas aulas, seja o que for que possa provocar a ira dos estudantes mais fanáticos. Por isso, a minha primeira reação à notícia do ato do tresloucado foi de admiração perante a coragem e o sentido de dever profissional de Samuel Paty. Lembrou-me ainda que a resposta à ameaça terrorista passa por um comportamento vertical, inequivocamente firme.

Mas a coragem e a firmeza não podem ser apenas questões individuais. O terrorismo não é o resultado, como alguns pretendem, das ações de “lobos solitários”. O velho visionário Friedrich Nietzsche dizia que “tudo o que é absoluto pertence à patologia”, mas no caso do terrorismo, é isso mais o contexto social. Estamos perante um fenómeno identitário extremo, um ecossistema social que faz viver num pântano ideológico salafista milhares de famílias. São uma franja minoritária dos cidadãos europeus de fé muçulmana, mas muito desestabilizadora.

Em situações como a francesa – e noutros países europeus, nomeadamente na Bélgica e nos Países Baixos, que vão no mesmo sentido do que se tem verificado em França – é fundamental acertar numa resposta política adequada. Numa outra ocasião, escreverei sobre o tratamento securitário da questão. Politicamente, convém começar por reconhecer que o fanatismo, ao colocar uma interpretação manipulada, primária e ignorante da religião acima dos valores da república, é uma ameaça para a democracia e para a paz social. Se os democratas não conseguissem tratar do radicalismo terrorista, a extrema-direita, chame-se ela Le Pen ou outra coisa, noutro país qualquer, utilizaria essa falência para conquistar o poder. E então esmagaria todos, não apenas os exaltados de faca em riste e as suas comunidades de apoio.

(Crónica que ontem publiquei no Diário de Notícias, edição semanal em papel)

 

 

 

Quem fala muito acaba por não ser ouvido

A intervenção do Presidente francês perante a Assembleia Geral da ONU foi exageradamente longa. Emmanuel Macron falou durante mais de cinquenta minutos, quando outros falaram cinco vezes menos. Teve a preocupação de definir uma agenda pormenorizada do que deveria ser, no seu entendimento, o trabalho das Nações Unidas e da comunidade internacional nos próximos tempos. Definiu cinco áreas prioritárias, cada uma delas com toda uma série de pontos e acções para levar a cabo. No final, ficou apenas uma ideia: falou demasiado, perdeu a atenção de quem o queria ouvir e a sua intervenção foi considerada como sendo uma manifestação de arrogância.

Já várias vezes disse que o Presidente Macron fala demasiado, faz intervenções demasiado extensas e com detalhes a mais. É um mau hábito e uma falta de cortesia. Acaba por irritar os seus pares, que acham que o francês pensa que é mais esperto do que eles.

Fazer longos discursos, na vida política de agora, é um erro.

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