Portugal é grande quando abre horizontes

20
Mai 19

O que está a acontecer entre os Estados Unidos e a China marca um ponto de viragem no sistema das relações internacionais. É o início de uma outra época histórica.

Muitas lições estão a ser tiradas deste conflito. O impacto far-se-á sentir em vários domínios, não apenas no comercial ou bolsista. O paradigma estratégico está a mudar. Profundamente.

Do lado chinês, as decisões americanas não serão esquecidas, mesmo se mais tarde houver um entendimento bilateral na área do comércio.

Do lado americano, cabe aos cidadãos e ao Congresso decidir como responder às decisões tomadas pelo Presidente.

Espero que do lado europeu também se reflicta sobre o que tudo isto significa e se tenha em conta o princípio que hoje o fogo está na casa do vizinho, mas amanhã poderá chegar à nossa.

publicado por victorangelo às 22:18

17
Abr 19

O meu modelo de análise geopolítica inclui o seguimento apurado do comportamento dos investidores. Estudo as decisões de investimento que fazem, nos mercados globais ou nas economias cuja situação política estou a observar. As escolhas que os grandes fundos ou os intervenientes individuais adoptam, em termos de aplicação das suas poupanças e capitais disponíveis, dão-me uma indicação do sentimento colectivo, face às grandes incertezas políticas.

Neste momento, apesar da evolução positiva das principais bolsas, a prudência continua a ser o factor determinante na tomada de decisão de quem tem meios financeiros acima da média. Por isso, nos primeiros meses de 2019, os investimentos em obrigações e títulos semelhantes – instrumentos que oferecem a garantia que o capital inicial não será perdido – continuam a ter a preferência dos mercados. Mesmo sabendo-se que os juros e os rendimentos dessas obrigações são insignificantes. Desde Janeiro, foram aplicados assim, ao nível global, 112 mil milhões de dólares americanos. No mesmo período, os investidores retiraram do mercado de acções cerca de 90 mil milhões de dólares.

Estes números traduzem bem o clima de instabilidade geopolítica que caracteriza as relações internacionais nos dias de hoje. Quer se queira aceitar quer não, um dos factores de instabilidade deriva da imprevisibilidade da governação de Donald Trump. O outro tem que ver com as ameaças económicas que resultariam de um Brexit sem acordo. O Reino Unido é a quinta economia do globo. O grau do terramoto ligado ao Brexit terá um impacto significativo, nesse país e na União Europeia. Uma terceira dimensão tem que ver com a instabilidade existente em várias economias emergentes, produtoras de petróleo – como a Venezuela, a Líbia , a Argélia, ou os países do Golfo da Guiné – ou não. Neste último caso, o que se passa no Brasil, na África do Sul e na Turquia pesa. Como também pesa o modo como a economia chinesa irá evoluir no ano em curso.

Assim vai a geopolítica.

 

 

 

publicado por victorangelo às 16:51

13
Abr 19

A 22 de Fevereiro, um comando de dez indivíduos introduziu-se na embaixada da Coreia do Norte em Madrid. No termo dessa operação, conduzida de uma maneira altamente profissional, foram roubados vários tipos de ficheiros informáticos. O cabecilha do comando viajou de imediato para Lisboa e daí para Nova Iorque. Os outros desapareceram na imensidão das sombras das operações secretas.

Desde então, quase dois meses passados, nada mais se soube sobre a investigação que a justiça espanhola tem em mãos. Aparentemente, o inquérito não avança, para além da identificação de mais dois ou três membros do grupo, gente ligada aos Estados Unidos e à Coreia do Sul.

É verdade que uma intervenção deste género só pode ter sido orquestrada por um serviço de espionagem ou secreto bem rodado. E quando isso acontece, o silêncio é a resposta habitual.

publicado por victorangelo às 20:45

06
Abr 19

Esta semana, a OTAN/NATO chegou aos 70. Depois de uma certa deriva, no seguimento do fim da guerra-fria e das missões problemáticas nos Balcãs e no Afeganistão, e de uma intervenção controversa na Líbia, que dividiu a organização, tem conseguido, nos últimos anos, realizar algumas transformações estruturais importantes e adaptar-se a novas realidades.

Restam, todavia, vários desafios. Deixo aqui um resumo desses desafios, sem entrar em pormenores que dariam pano para muitas mangas.

Um deles tem que ver com as contradições que existem, aparentes ou latentes, entre a visão americana da Aliança Atlântica e das questões militares, proposta pelo Presidente Donald Trump, e a maneira europeia de encarar as Forças Armadas.

Outra, relaciona-se com a questão turca. A Turquia de Erdogan, e de quem o apoia, levanta muitas interrogações. Fala-se disso nos corredores da Organização e em em voz disfarçada, mas ninguém tem a coragem de formular a questão essencial: a Turquia ainda cabe na NATO?

A terceira zona nebulosa relaciona-se com a Rússia. Existem, nas salas onde essas coisas se discutem, duas ou três maneiras de ver esse relacionamento. Mas não há uma linha estratégica clara, para além de uma certa posição de força. Ora, este é um tema fundamental para uma boa parte dos aliados. Essa agenda não pode ser definida apenas pelos generais.

A quarta área de indefinição é sistematicamente varrida para debaixo do tapete. Trata-se de determinar que papel devem desempenhar as Forças Armadas em matéria de segurança, quando uma boa parte das ameaças que hoje surgem na Europa são da esfera das polícias, da inteligência, e não do domínio militar.

A quinta inquietude respeita à falta de direcção política da Aliança. A maioria dos ministros da Defesa são pesos-pluma. Não têm bagagem suficiente para dar uma direcção política à NATO e às questões de defesa. Também não conseguem influenciar as prioridades políticas ao nível das suas próprias nações. Fingem que decidem, quando se sentam à mesa em Bruxelas, mas na verdade navegam ao sabor dos interesses militares e das indústrias de defesa.

Tudo isto merece um outro tipo de atenção. E gente à altura, ao nível da governação e das grandes opções.

 

publicado por victorangelo às 20:33

25
Mar 19

Este ano, o governo francês vai contrair empréstimos junto dos mercados de capitais da ordem dos 200 mil milhões de euros, ou seja, quase tanto como o total da dívida pública portuguesa, que se situa agora nos 245 mil milhões de euros. É verdade que a dívida pública francesa está na casa dos 2 300 mil milhões de euros – cerca de 100% do PIB do país – e a portuguesa representa 121% do nosso PIB. Proporcionalmente, a França encontra-se num patamar mais razoável, embora a sua dívida seja enorme em valores absolutos.

A taxa de juro que o governo francês pensa pagar é da ordem dos 0,35%.

Para além do endividamento do Estado, as grandes empresas que integram o índice da bolsa de Paris – o chamado CAC 40 – estão igualmente endividadas até aos cabelos.

O que se passa em França – e em Portugal ou na Itália, que é um caso especialmente preocupante – acontece também em muitos outros países da Europa e fora da Europa, com os Estados Unidos e o Japão à cabeça. Tudo isto provoca uma grande fragilidade ao nível global. E um grau de instabilidade que pode levar a uma crise económica e social de grandes proporções, bem como a conflitos geopolíticos de elevado risco.

O que vai salvando a coisa é o baixo valor das taxas de juro, no caso das economias mais desenvolvidas. Qualquer subida das taxas poderá acarretar a falência de partes do sistema. Ou mesmo, mais.

publicado por victorangelo às 15:07

17
Fev 19

Patético. Esse é o adjectivo que me vem à mente, ao ver os nomes dos políticos que deverão encabeçar as listas ao Parlamento Europeu dos dois partidos do centro – o PS e o PSD. Ainda pensei em ridículo, como palavra-resumo. Ou, em medíocre. Mas, patético traduz melhor a minha apreciação. E a minha preocupação, não escondo, pois é grande o desassossego que me inquieta.

Cada uma dessas personalidades é uma escolha lamentável. Pior ainda, numa altura em que a União Europeia se defronta com desafios existenciais, quer na frente interna quer nas suas relações estratégicas com três dos seus grandes vizinhos – os Estados Unidos, a Rússia e o Norte de África/Sahel –, para mencionar apenas o que me parece particularmente importante, na área das relações exteriores. E também num momento em que Portugal precisaria de reflectir sobre os seu papel no futuro de uma UE mais forte e mais coesa.

Vazio de ideias.

Patético, sim. Confirmo.

 

publicado por victorangelo às 11:17

03
Fev 19

Quando se diz “golpe de Estado”, toma-se posição. Golpe de Estado é um acto de força, ilegítimo, conspirativo e contra o líder legalmente constituído. Dizer que é um golpe significa julgar, tomar partido. Convém ter isso presente, quando se escreve e fala sobre a Venezuela e o desafio de poder em curso.

Mais ainda. Analisar a situação actual nesse país a partir da teoria política dos golpes de Estado faz assentar o raciocínio e as suas conclusões numa base errada. É ainda mais incorrecto quando se recorre a esquemas de análise e da teoria política dos anos 30 do século passado, agora, quase 100 anos depois e em contextos geopolíticos e societais que não existiam na altura. Trostky e outros fazem parte da história, estão pura e simplesmente fora do mundo de hoje. Não servem como guias para as crises de hoje.

O que alguns nos querem apresentar como um “golpe de Estado falhado” é, na realidade, um levantamento popular, uma convergência de rebeliões cidadãs. Nomeadamente, das populações que compõem o tecido social urbano que se situa no patamar dos rendimentos baixos e médio-baixos, embora acima da linha da pobreza absoluta e da miséria. Na verdade, são os “novos pobres” da Venezuela caótica e corrupta, que as políticas rasteiras e marcadamente incompetentes de Nicolás Maduro arrastaram para um quotidiano de desespero, de escassez absoluta de bens essenciais. Uma política que também levou à falência dos serviços básicos e fundamentais, sobretudo na área da saúde pública. Quando não há futuro, o presente traz os povos para a rua.

Por outro lado, para além do quadro negativo e sem saída que é a realidade nacional, há que analisar a situação a partir do contexto regional e internacional em que a Venezuela se insere. Primeiro, na América Latina, e também no contexto da produção de petróleo e do futuro do sistema político vigente em Cuba. Cuba depende da Venezuela, como esta depende de Cuba. Fazer cair uma acarreta consequências catastróficas para a outra. Depois, haverá que ter presente o confronto cada vez mais aberto entre os Estados Unidos, a Rússia e a China. Os três têm cartas em jogo no poker que se trama na Venezuela.

No meio de tudo isto, e para além da posição bilateral de meia dúzia de Estados europeus, a resposta da União Europeia é o que pode ser. Fraca, sem qualquer tipo de peso estratégico, digo eu, e assim poderá ser vista por vários governos na região a que pertence a Venezuela. A criação de um chamado “Grupo de Contacto” pode ter quatro leituras principais. Primeiro, que assim se evita dar a impressão que não há resposta nem iniciativa. Segundo, que não há acordo para reconhecer a urgência da situação actual, ao dar-se ao “Grupo de Contacto” um prazo de três meses para produzir resultados. Terceiro, que se ignora a existência do “Grupo de Lima” e a influência dos Estados Unidos no seio desse grupo latino-americano. Quarto, que não existe uma política comum em relação à América Latina e, em particular, em relação ao Brasil, Colômbia, México e Cuba, que são os países que contam na região, quando se trata da crise venezuelana.

Qual é a estratégia para os próximos tempos? Quer por parte de Nicolás Maduro, de Juan Guidó, e dos de fora? Isso seria tema para mais um longo texto, tendo sobretudo em conta que se trata de um conflito que só pode cair para um lado ou para o outro. Uma pergunta complexa, cujas respostas estão neste momento a ser ensaiadas por quem se ocupa desse tipo de cenários. E que não escreve blogs nem artigos de jornal. Dar a entender uma coisa e preparar outra faz parte dos próximos passos.

 

publicado por victorangelo às 15:09

29
Dez 18

"As declarações políticas mais recentes e as subsequentes decisões do governo em matéria de equipamentos e gastos militares mostram claramente quais são as prioridades de defesa do Japão atual. Revelam, igualmente, a complexidade do xadrez geopolítico em que o Japão se insere. A curto termo, trata-se de reforçar o sistema antimísseis, tendo presente os riscos e a imprevisibilidade da liderança da Coreia do Norte. A médio prazo, a intenção é a de aprofundar a cooperação económica com a vizinha Rússia, especialmente à volta do Ártico. Uma cooperação que possa levar, finalmente, à assinatura de um acordo de paz entre ambos. A outra faceta, no mesmo horizonte temporal, tem que ver com a expansão hegemónica da China, nos mares e nos céus que rodeiam o Japão. Essa é a ameaça fundamental, estratégica, na ótica de Tóquio", afirma Victor Ângelo, antigo alto quadro da ONU, onde chegou a ser equiparado a secretário-geral adjunto."Entretanto, agora e no futuro previsível, os líderes japoneses sabem que continua a ser absolutamente indispensável privilegiar a relação de defesa com Washington", acrescenta Victor Ângelo, notando que demorará anos a completar-se o reforço militar japonês.

Extracto do artigo que Leonído Paulo Ferreira publicou no DN sobre as novas opções militares do Japão. Esta foi a minha contribuição.

publicado por victorangelo às 09:33

23
Mar 18

Donald Trump, ao nomear John Bolton como Conselheiro de Segurança Nacional, abre um novo capítulo na via da política de confrontação internacional que resolveu seguir como opção. John Bolton é um extremista de ideias simples, que vê as transacções dos EUA com o resto do mundo como uma relação de forças. O que conta, nessa óptica, é a imposição da vontade americana, e dos seus interesses, a todo o custo, por todos os meios, incluindo os militares. Ao assumir a nova função, que é de sobremaneira importante, Bolton vai poder dizer, com a brutalidade que define a sua maneira de ver o mundo, “esfola”, “esfola”, quando o Presidente disser “mata”.

Temos assim um par ideal para criar um catástrofe internacional de grandes proporções.

Existem, é evidente, razões de sobeja para que fiquemos preocupados.

Com todos os problemas legais e políticos, de política interna e da justiça americana, que Donald Trump tem pela frente, há que esperar por tudo. Por exemplo, por uma distracção guerreira, um bang aqui, acolá, no Irão ou na Coreia do Norte, possivelmente ainda noutro sítio, algo a sério, que desvie as atenções e que caiba dentro da estupidez internacional que prima cada vez mais na Casa Branca.

publicado por victorangelo às 12:52

02
Mar 18

Ontem o mundo teve oportunidade de ouvir duas declarações preocupantes.

Por um lado, tivemos Vladimir Putin a discursar sobre os novos tipos de armamentos que a Rússia diz ter desenvolvido. Falou, nomeadamente, de mísseis nucleares. E mostrou-se muito beligerante, sempre a pôr o acento na força militar, como meio de ganhar espaço geopolítico e credibilidade na cena internacional. A conversa não era bluff. É para levar a sério.

Do outro lado do mundo, mas tão perto dos nossos interesses como Putin, falou Donald Trump. Também ele usou um tom conflituoso, ofensivo e provocador. Abriu as portas a um outro tipo de crise, à espiral das disputas comerciais. Num mundo que está hoje mais globalizado que nunca, um discurso desse tipo é muito perigoso. Para todos, incluindo para os concidadãos de Trump.

O mês de março começou assim com muita violência. Marcadamente, pela negativa. Quem analisa as relações internacionais não pode deixar de sublinhar que este tipo de declarações não têm nada de positivo nem de encorajante. Antes pelo contrário. E lembram-nos que é a jogar com o fogo que muitos incêndios começam.

publicado por victorangelo às 20:29

twitter
Maio 2019
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4

5
6
7
8
9

12

22
23
24
25

26
27
28
29
30
31


<meta name=
My title page contents
mais sobre mim
pesquisar
 
links
blogs SAPO