Portugal é grande quando abre horizontes

02
Ago 19

Kristalina Georgieva é uma pessoa com muita experiência no que diz respeito às questões da economia internacional. É actualmente a directora executiva do Banco Mundial em Washington, ou seja, a número dois da instituição. Muitas vezes, nestas organizações, o “segundo comandante” tem pouco peso, servindo sobretudo para tratar de questões protocolares, assistir a casamentos e enterros, como se costuma dizer de muitos vice-presidentes. Não é o caso de KG. Ela tem poder efectivo.

Acaba agora de ser seleccionada como a candidata europeia para o lugar de cabeça do Fundo Monetário Internacional. A sua selecção revelou várias coisas.

Quem manda efectivamente na União Europeia é a França. Foi o ministro francês da Finanças quem coordenou e guiou todo o processo.

A Europa do Norte alinha-se cada vez mais por detrás das posições holandesas.

A UE apenas respeita as regras quando lhe convém. Neste caso, KG está fora do critério da idade – tem mais de 65 anos, o limite que até agora tem sido a regra. Esse critério serviu, no passado, para eliminar candidatos de valor. Neste momento, a UE quer mudar as regras de um jogo que já está a meio, porque a sua candidata não cabe nele.

A atribuição mais ou menos automática do cargo maior do Fundo a um Europeu é um anacronismo. A UE deveria mostrar modernidade e realismo, permitir que outros candidatos, de outras partes do mundo, pudessem igualmente entrar na corrida.

KG não se conformou com o insucesso da sua candidatura ao posto de Secretário-Geral da ONU. Na sua opinião, via-se com mais trunfos do que António Guterres. Vai, agora, receio bem, se for confirmada como Managing Director do FMI, mostrar alguma rivalidade em relação a Guterres. É verdade que essa rivalidade seria mais acentuada se ela tivesse sido nomeada para a cabeça do Banco Mundial, uma organização que tem na sua carga genética a competição com a ONU. Mas, mesmo assim…

No que respeita à nossa aldeia, o governo e os media andaram um par de semanas a tentar enganar-nos com as hipóteses que Centeno teria. Foi um misto de promoção política do governo de António Costa com a parvoíce habitual e patrioteira de certos jornalistas. Temos, na verdade, uma aldeia muito curiosa, de engana parolos e de fantasistas.

 

publicado por victorangelo às 22:33

01
Fev 16

  • Países foram tratados de modo diferente, segundo uma auditoria do tribunal de Contas Europeu, que analisou os os programas de resgaste da Hungria, Letónia, Roménia, Irlanda e Portugal

  • O programa de Portugal foi o mais exigente em termos de reformas e condições: 7 áreas; no caso irlandês, 2 áreas

  • Caso português: reformas do de Mercado de trabalho; Liberalização da economia; Sector da saúde; Clima de negócios e competição; Justiça; Habitação

  • Mais o sector bancário: Regulação, Supervisão, Consolidação

  • Portugal com €78 mil milhões teve o maior programa de ajuda financeira

  • Equivalente a 46% do nosso PIB

  • O da Irlanda, com €67.5 mil milhões ou seja, o equivalente a 29% do PIB

  • Temos uma dívida quase insustentável no médio prazo; vai ser necessário muita prudência orçamental

  • A segunda grande preocupação da CE e dos mercados e agências de rating tem que ver com o investimento produtivo que continua a ser baixo em Portugal e sem prespectivas a prazo de vir a crescer

  • OGE 2016: Gov Portugal quer cortar o défice em 0,2%; Bruxelas quer 0,6% e já há meses obrigou a Espanha a fazer o mesmo

  • A CE não estava preparada para este tipo de programas; não tinha experiência

  • O mesmo com o BCE, mas o seu papel era muito mais especializado, virado para o sector bancário

  • Só o FMI estava tecnicamente preparado

  • FMI era além disso o mais objectivo e em certa medida o menos flexível

publicado por victorangelo às 14:01

21
Jun 15

A questão grega parece ter chegado à hora da verdade. O dia foi de frenesim, o governo de Atenas apresentou novas propostas, que estão a ser analisadas. Muito depende da conclusão a que chegarem quem as está a analisar, gente da Comissão Europeia, do BCE e do FMI.

Vai ser difícil, no meu entender, que as novas proposições passem no crivo técnico. Porém, o momento é altamente político. E é possível que a política diga que sim, que abra uma janela temporária. Não sei se assim será, pois o governo da Grécia queimou muitas pontes. Diplomaticamente, a coisa tem sido um desastre. Ora, os políticos precisam de gestos diplomáticos para poder justificar, perante os seus eleitorados, qualquer decisão mais favorável. É que uma boa parte da opinião pública europeia está pouco inclinada para o lado grego.

Veremos amanhã à noite qual será o novo capítulo de todo este drama bem confuso em que a Europa e sobretudo a Grécia, se encontram.

 

 

 

publicado por victorangelo às 21:28

17
Jun 15

Hoje, pela primeira vez, o debate público foi mais longe. Já não se trataria apenas de saber se a Grécia irá ou não sair da zona euro. Agora, começou a reflexão sobre a possível saída desse país da União Europeia. Assim mesmo: a Grécia estaria em vias de ter que abandonar a UE.

Não sei quem lançou esta ideia. Mas estas coisas não acontecem por acaso. Muitas vezes são uma maneira disfarçada de preparar as pessoas para o pior cenário. Serão, noutros casos, uma maneira de fazer pressão. E neste exemplo concreto da Grécia, o levantar desta hipótese até pode ser uma maneira de agitar uma parte da população grega contra um governo que não está na lista dos favoritos, por essa Europa fora.

 

 

publicado por victorangelo às 19:30

18
Abr 15

Estes encontros anuais dos ministros das Finanças, que têm sempre lugar nesta altura do calendário em Washington, no FMI, são conhecidos com as Reuniões da Primavera. A de 2015 terminou hoje. E pelo que sei, com três grandes preocupações globais, a esconderem-se por detrás das palavras dos comunicados oficiais: a fragilidade da recuperação económica, após a crise que vem de 2007-8; os grandes desequilíbrios de crescimento, ou seja, a desigualdade em termos de performance económica, quando se compara as diferentes regiões do globo; e as altas taxas de desemprego, em muitas e variadas partes do mundo.

A estas três inquietações junta-se, na nossa velha Europa, a questão da Grécia. As negociações com o governo grego estão praticamente num ponto morto. A UE, o Banco Central Europeu, o FMI e os principais credores repetiram, ainda hoje, que a bola está no campo grego. Que cabe ao governo de Atenas propor um programa que possa ser considerado credível. E acrescentam que uma declaração de insolvência teria consequências imprevisíveis.

Não será bem assim. Nestas coisas, é sempre possível desenhar um modelo que extrapole e clarifique as consequências mais prováveis. E esse modelo já existe. Tem-se uma ideia clara do que poderá acontecer se a insolvência vier a acontecer. Não se tem é coragem de olhar a sério para o futuro que o modelo nos deixa antever. Ora, governar passa por se ter a coragem de preparar os riscos futuros.

 

publicado por victorangelo às 20:09

31
Jan 15

Acabo de ver a entrevista que o ministro das finanças grego deu à BBC ontem ao fim do dia, depois dos mal-entendidos durante a conferência de imprensa com o presidente do Eurogrupo. O ministro diz que, afinal, está disposto para discutir com a troika, mas não quer a continuação do programa actual. Declara, igualmente, que é a favor das privatizações, incluindo a do porto de Pireus. Mas terão que ser feitas de outro modo. E assim sucessivamente. A entrevista é como pôr água na fervura, uma tentativa de acalmar os ânimos.

Acho bem. Tem havido muito ruído à volta da Grécia. É altura de serenar e de pensar a sério nos problemas – imensos – que o novo governo terá que enfrentar. Sem tempo para grandes folgas, que a situação é urgente.

E do outro lado, no resto da Europa, convirá igualmente deixar correr a enxurrada. Nunca é bom intervir quando a torrente está no seu máximo. Só complica. Até porque este lado tem o tempo a seu favor. O que é, nestes dias que correm, um luxo.

publicado por victorangelo às 09:20

08
Jan 14

Nestes últimos dias tem-se falado muito do FMI, o Fundo Monetário Internacional. Parece que certos políticos europeus, portugueses e outros, têm uma inimizade de estimação, no que respeita ao Fundo. Dizem, agora, que não o querem ver como parte de futuras Troikas. Que a presença do Banco Central Europeu e de outras instituições europeias é mais do que suficiente para garantir a execução de um programa de ajustamento financeiro.

Há aqui alguma ingenuidade.

 

Esses políticos fazem-me pensar nos dirigentes africanos que afirmam alto e bom som que “os problemas africanos devem ser resolvidos pelos africanos”. A verdade é que quando a porca torce o rabo, é preciso ir mais longe e envolver as instituições internacionais com vocação e experiência na resolução destes problemas.

 

O mesmo se passa com os ajustamentos financeiros. A Europa não tem experiência na matéria. Nem tem credibilidade internacional suficiente, quando se trata dos assuntos dos seus, para dar um sinal de confiança aos investidores internacionais.

 

Mais. Não vejo o BCE pronto para aceitar o financiamento de um programa sem o aval conjunto do FMI.

 

Para além de ingenuidade, há aqui também uma certa forma de racismo europeu. A muitos políticos custa-lhes ver alguém do chamado Terceiro Mundo à frente de uma missão em visita a um Estado europeu.

publicado por victorangelo às 20:47

06
Jun 13

Há um ano, dia por dia, escrevi na Visão sobre a crise grega. A certa altura do texto, depois de concluir que a Grécia estava a ter um tratamento de favor, por parte da Comissão Europeia, que fechava os olhos e não queria ver que o programa grego não estava a ser cumprido, realcei que essa maneira de agir, por parte de Bruxelas, punha em causa a credibilidade do FMI.

 

Cito a frase que então publiquei: “Coloca, por outro lado, o FMI contra a parede: terá que escolher entre continuar a reboque da UE, fingindo que há progresso na execução do programa, ou reafirmar a sua independência, reconhecendo que a Grécia não está a cumprir os compromissos assumidos.”

 

Agora, doze meses depois, o FMI divulga um relatório que, no fundamental, confirma o que eu dissera. Aponta o dedo à Comissão, diz que esta não tinha experiência nem qualificações para tratar de uma crise financeira como a grega. Nem independência suficiente para poder ser objectiva na sua tomada de decisões. 

 

Na verdade, saem ambos – o FMI e a Europa – mal na fotografia grega.  

 

 

publicado por victorangelo às 20:31

15
Abr 13

O meu texto desta semana na Visão está agora disponível no site oficial da revista:

 

http://visao.sapo.pt/o-setimo-ceu-dos-poderosos=f723241

 

Reproduzo aqui umas linhas do meu texto:

 

"Por tudo isto, procurou-se uma definição que apenas incluísse terras longínquas e sem peso na política mundial. Assim ficaram na lista negra umas ilhas minúsculas das Caraíbas, outras perdidas no meio do Pacífico e pouco mais. Mas a lista levanta uma questão de fundo. Se existe uma intenção real de acabar com os paraísos fiscais, quem impede que isso aconteça? Não é de crer que a oposição provenha apenas desses estados microscópicos, nalguns casos meros territórios, com uma soberania relativa. Vários estão mesmo, em circunstâncias extremas, dependentes de Westminster. A resistência a qualquer mudança significativa tem outras origens."

publicado por victorangelo às 16:20

09
Jan 13

Fiz uma primeira leitura do relatório do FMI sobre as Opções de Reforma da Política de Despesas Públicas. O relatório dá uma clara indicação do tipo de pressão política que se pode antecipar, vinda não só do Fundo como também da Comissão Europeia. Deve, por isso, ser estudado com muita atenção por todos os partidos políticos, para que a posição de cada um seja tão fundamentada quanto possível.

 

Na parte final do relatório há uma referência inequívoca ao modelo de forças de segurança que os nossos interlocutores estrangeiros irão recomendar. A escolha dos exemplos apresentados – Áustria, Bélgica, Grécia e Luxemburgo – é elucidativa do caminho que querem que optemos: a integração dos diversos serviços de polícia num serviço único nacional. Trata-se de uma posição que contraria frontalmente o que o chamado “grupo de sábios” que elaborou o Conceito Nacional de Defesa e Segurança Nacional sugeriu. Ou seja, também nesta área, vai ser interessante observar como os acontecimentos futuros se irão desenrolar.

 

 

publicado por victorangelo às 21:10

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