Portugal é grande quando abre horizontes

06
Nov 14

Texto que hoje publico na revista Visão:

 

Por uma África verde

Victor Ângelo

 

A edição “verde” é como um olhar sobre o futuro. Por isso, escrevo hoje sobre África. Começo por lembrar que sete das dez economias com maior taxa de crescimento económico são africanas. Após duas décadas, as de 80 e 90, de declínio acentuado do rendimento médio por habitante, África, no seu todo, tem conhecido um desenvolvimento sustentado na última dezena de anos. Este é o lado positivo da medalha. Do outro lado, a pobreza continua a ser a caraterística que marca o continente: perto de 70% dos africanos vivem abaixo da linha da pobreza. Esta situação é agravada por uma demografia acelerada. Quando se compara as regiões do globo, a taxa africana de crescimento populacional é de longe a mais elevada. África atingirá os 2 mil milhões de habitantes em 2050, o dobro do valor de agora. Convém ter presente que este crescimento tem uma dinâmica própria, imparável a curto prazo. Os 2 mil milhões serão uma realidade. Tornam, assim, o desenvolvimento de África uma exigência premente e absoluta, um dos maiores desafios para as próximas décadas. Não existe, porém, a compreensão que seria de esperar face à dimensão do problema. Ora, a questão diz respeito a todos, embora de maneira mais aguda aos africanos e aos povos que têm uma relação de proximidade com África. A Europa está manifestamente na linha da frente.

A verdade é que nós, os europeus, não parecemos estar conscientes do tsunami que se aproxima. Aceitamos que vistas estreitas definam o nosso horizonte. Vemos conflitos étnicos, naufrágios no Mediterrâneo, Sida e Ébola, Boko Haram e outros extremismos. Contamos uma dezena de Estados em crise. Ignoramos, no entanto, que existe uma quarentena de países que funcionam mas que são diariamente fragilizados pela explosão populacional e pelo caos das migrações internas para as megacidades.

A boa governação e a transformação económica são as respostas que a pressão demográfica exige. Deixemos de parte, por hoje, as questões da governação. Os decisores em matéria de ajuda, em Bruxelas, Londres, Washington ou Nova Iorque têm aliás, nos últimos vinte e cinco anos, prestado uma atenção desmesurada às dimensões da governação. A transformação económica, que passa por dar a prioridade ao sector energético e à agricultura – o tandem do desenvolvimento económico –, tem sido marginalizada. Mas falemos apenas de agricultura. Em África, o sector agrícola precisa de uma revolução. É preciso ir além das culturas de subsistência, que mantêm no limiar da fome cerca de 2/3 das famílias – estamos perante o único continente em que a produção de alimentos por pessoa diminuiu de modo significativo nos últimos cinquenta anos. E aproveitar os recursos: apenas 20% das terras aráveis são atualmente utilizadas.

Os programas de desenvolvimento e os orçamentos dos Estados africanos têm que voltar a colocar o enfoque na agricultura, investir na formação e nos meios de produção. O agricultor africano utiliza em média 10 quilogramas de fertilizantes por hectare e por ano. Na Índia, o valor ronda os 176 kg. Aos adubos há que juntar sementes de qualidade, irrigação, meios de controlo das pestes e de preservação das colheitas – conheci terras onde cerca de 40% do que era colhido acabava por se perder, por falta de condições de armazenagem, de frio e de acesso aos mercados. Tudo isto é possível. Basta haver vontade política, dar à agricultura a prioridade que nunca deveria ter perdido e pensar, acima de tudo, nas pessoas, na sua segurança alimentar e também na segurança, pura e simples, de todos nós.

 

publicado por victorangelo às 17:43

27
Out 12

Este é o meu texto desta semana na revista Visão:

 

Geneticamente falando

Victor Ângelo

 

 

Uma das vezes em que estive em risco de ser "comido vivo" foi em 2001. Aconteceu no seguimento do lançamento da versão em língua portuguesa do relatório anual do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD). O relatório desse ano sobre o desenvolvimento humano, que apresentei numa sessão oficial em Lisboa, tinha como tema o impacto das novas tecnologias na luta contra a pobreza. Uma parte importante do estudo discutia, a partir de uma óptica favorável, a importância das culturas geneticamente modificadas. Foi isto que causou burburinho. Alimentos com manipulações genéticas, nem pensar! Uma amiga de infância, inteligente e viajada, burguesa de esquerda, do tipo rebelde de boas famílias, ter-me-ia então tragado por inteiro, se não fosse felizmente uma vegana militante.

  

Passada uma década, o debate sobre a agricultura biogenética permanece nebuloso. O preconceito define o quadro de referência de muitas das posições sobre o assunto. Sobretudo na Europa, onde a opinião pública tem o hábito confortável de se esquecer do problema da fome que persiste noutras paragens. Ora, as necessidades alimentares actuais, mais as que resultarão do crescimento acelerado da população nas próximas décadas e do aumento do consumo per capita, resultante da melhoria do nível de vida nos países emergentes, exigem que a questão seja mantida na ordem do dia.

 

Segundo a FAO, a organização da ONU para a alimentação e a agricultura, a produção agrícola mundial terá que crescer mais de 70% nos próximos 40 anos. Quem acredite, como acontece com os activistas terceiro-mundistas que vêem a pobreza a partir de Paris ou de Genebra, que será possível alimentar o globo com base no labor dos camponeses tradicionais e nas sementes de origem familiar, vive numa ilusão romântica. Apenas a prática da agricultura comercial em grande escala permitirá responder à procura global. Igualmente, quem pense que o acréscimo da produção será possível por virtude de uma expansão significativa das terras cultiváveis ou da irrigação, não tem em conta a realidade dos factos. Está demonstrado que não será possível abrir um número significativo de novas terras aráveis. A previsão é de um simples incremento de 4 a 5% da área total actual. Por outro lado, a margem de aumento da utilização de água para fins agrícolas é reduzida. A agricultura já consome mais de 70% da água doce que é anualmente utilizada. Muitos dos lençóis aquíferos estão em vias de exaustão. E a competição pela água, um bem escasso e estratégico, será ganha pelas populações urbanas, devido ao seu maior peso político.

 

A segurança alimentar é um desafio fundamental. Não pode haver dúvidas. Como também não deve haver tabus no que respeita à produção transgénica. As culturas alimentares e de consumo corrente de hoje e de amanhã têm que ser mais produtivas, em termos de custos, tonelagem por hectare e de valor nutricional; resistentes às pestes; menos exigentes em termos de irrigação, de fertilizantes e de pesticidas; e capazes de suportar períodos prolongados de seca. As sementes e as variedades que respondem a estes critérios já existem. Por exemplo, o algodão agora produzido na China, e que foi geneticamente modificado, requer dez vezes menos pesticidas que a espécie tradicional. Mas também será necessário continuar a investir na investigação agronómica. A agronomia tem de voltar a ganhar proeminência nas políticas nacionais e comunitárias de investigação científica.

 

Seria um erro pensar que a segurança alimentar é um problema dos outros, que pouco ou nada tem que ver com as preocupações europeias. Num mundo interdependente, uma visão desse tipo leva ao desastre. Por um lado, é de prever que a expansão das culturas destinadas ao fabrico de biocarburantes roube espaço, de modo acelerado, às alimentares. Assim está já a acontecer em França. Por outro, se não houver uma revolução verde em África, a enorme pressão demográfica que esse continente vai viver traduzir-se-á em miséria geral e acabará por gerar ciclones de emigração através do Mediterrâneo. Sem esquecer que na arena global, um pouco por toda a parte, a concorrência com a China e outros países, em matéria de produtos agrícolas de base, será uma luta sem tréguas.

 

Neste contexto, diria à minha amiga que vale a pena voltar a ler o dito relatório do PNUD. E ter presente que o essencial, quando se trata da agricultura, se define em meia dúzia de pontos: apostar na inovação tecnológica; combater a fome; proteger os direitos dos agricultores mais frágeis; preservar a fertilidade dos solos; conservar os recursos aquíferos; e salvaguardar a biodiversidade. 

publicado por victorangelo às 20:34

31
Jul 10

 

Copyright V. Ângelo

 

Para não esquecer que o mundo é maior do que nós.

publicado por victorangelo às 21:15

19
Mar 10

 

Hoje a Gare du Nord foi a de Bruxelas. Fui comprar a minha passagem para o aeroporto Charles de Gaulle. Volto no Domingo a África.

 

Há muito que não entrava nesta Gare. Foi uma surpresa. Numa das alas laterais, dei com um dormitório de gente sem abrigo. Contei 19 "camas", alinhadas lado a lado, bem encostadas à parede exterior da estação, numa área que embora esteja ao ar livre, está protegida por um tecto de cimento. Algumas, de gente certamente mais abastada, tinham um colchão. A maior parte, eram de cartão e trapos, que a vida de um sem-abrigo não dá para grandes luxos.

 

Vi todas as idades. Jovens e velhos, lado a lado. Alguns estrangeiros, de aspecto, pelo menos. Ao fim do dia, por volta das seis e pico da tarde, os moradores, ou já estão na cama, ou andam por ali perto, no espaço público da estação, a casa de todos. O tempo estava ameno, o que convidava um ou dois grupos a uma conversa mais desprendida, antes da hora do deitar. De que falam pessoas nestas condições?

 

Como se trata de um acesso lateral, penso que as autoridades fingem que não vêem. Os utentes habituais sabem, por sua vez, que é uma zona que é preciso evitar. A miséria, mesmo quando nos entra pelos olhos, com a habituação, torna-se invisível. Mas, sempre convém passar ao largo.

 

Comprei uma sandes. Enquanto a mordia, surgiu, de repente, do meu lado esquerdo, um jovem de pouco mais de vinte anos de idade. Delicadamente, pediu-me que lhe desse um pedaço. Olhei-o de frente e vi a fome com rosto de pessoa. Insistiu. Fiquei engasgado. Perdi o Norte. Afastei-me, ao acaso.

 

 

publicado por victorangelo às 21:16

08
Dez 09

 

Tive hoje oportunidade de constatar que as terras do Sahel estão demasiado secas, numa estação em que ainda deveriam existir pastagens e tons verdes. Foi um mau ano agrícola, o que terminou há dois ou três meses. As chuvas foram poucas e mal repartidas.

 

Vai ser necessário providenciar ajuda alimentar. Muito em breve e por cerca de sete meses.

 

Mais um problema, a juntar ao da insegurança. Na verdade, passara uma parte da manhã a estudar os casos mais recentes de raptos e outros casos de criminalidade grave. Casos que têm um impacto enorme sobre o trabalho das agências humanitárias. Que afastam os trabalhadores das ONGs. Que avolumam os receios.

 

Agora, será fome e violência, seguidos de mais violência e mais fome.

 

publicado por victorangelo às 21:28

16
Nov 09

 

A cimeira sobre a segurança alimentar, que hoje começou em Roma, por iniciativa da FAO, é a terceira, esta década, sobre os problemas da fome no mundo. Mas a verdade é que continuamos a ser cegos, não notamos, nem queremos ver, que este é um problema que poderia ser resolvido. Existem conhecimentos suficientes e técnicas adequadas para garantir um mínimo para todos. Faltam, apenas, os líderes à altura. A coragem das decisões, uma outra visão da vida.

 

Ainda na semana passada, a equipa militar de hidrologistas noruegueses, que está agora em missão no Chade, descobriu um lençol de águas subterrâneas às portas da cidade de Iriba, no deserto. Iriba vive na miséria, com falta de água, sem conseguir dar de beber aos seus habitantes, que nem vale a pena pensar nos animais e nas plantas. É uma terra de areias e de securas. Sem agricultura, com os camelos perdidos nas pedras que cercam a pobreza das pessoas.

 

E a água existe. Trata-se, simplesmente, de ter os meios que nós temos, para a encontrar. O resto é uma questão de furos, tubos e decisões políticas equilibradas. Que o acesso à água é uma das fontes de desigualdades sociais.

 

É, um pouco por toda a parte, a mesma situação. Onde hoje se morre de fome e sede, com juízo e meios técnicos, é possível, amanhã, produzir as culturas que fazem viver. 

 

Mas também há que evitar um consumo excessivo, uma demografia sem controlo e uma pecuária sem limites.

publicado por victorangelo às 23:24

18
Out 09

 

A minha escrita diária tem sido prejudicada pelas muitas viagens em que ando metido.

 

Acabo de passar uns dias ao Sol, nas terras quentes da fronteira com o Sudão. Levei comigo um pequeno grupo de embaixadores. Pessoas importantes, representando os grandes da cena internacional. Gostaram da volta. Estiveram em campos de refugiados e em áreas ocupadas por deslocados internos, viram as ONG em acção, as Nações Unidas e os nossos soldados e polícias. Aperceberam-se de que o ano agrícola foi mau. A maior parte das espigas ficaram secas, a meio caminho da germinação. Nem vale a pena proceder à sua colheita. Vamos ter um período de fome, dentro de pouco tempo. Uma crise humanitária que se irá juntar à de segurança.

 

Viram muita miséria. O embaixador chinês, que acaba de chegar a África, nem queria acreditar.

 

Os problemas, aqui por estas terras, nunca faltam.

 

 

publicado por victorangelo às 23:08

04
Jul 09

 

Agora que os chifres já entraram para a história do parlamento português, queria contar-vos uma estória de chavelhos. Dos verdadeiros. Aqui não se desce ao nível do figurado.

 

Em Janeiro um bovino vivo, de carne e osso, valia, no mercado de N' Djaména, quase 200 Euros. Havia erva, a estação das chuvas tinha terminado três ou quatro meses antes. Os animais apresentavam um ar farto e saudável.

 

Hoje, com o início das chuvas muito atrasado, os animais não têm que comer. Estão esqueléticos e sem forças. A minha base é no caminho para o matadouro, na entrada Norte da cidade. É frequente ver os animais a comer lixo, papel e plástico. As estrumeiras são agora as terras de pasto. Muitos dos animais não tem a energia suficiente para chegar à zona do abate. Morrem pelo caminho. Quem quiser pagar 15 Euros, compra uma vaca. De pele e ossos.

 

É um tempo de fome e de miséria para os animais e para os donos. São populações nómadas, tão magras como as suas vacas. E tão pobres que nem se atrevem a abrir a boca, para contar as suas mágoas. Morre-se em silêncio, que assim é a vida de quem anda nas terras das areias sem fim.

 

 

publicado por victorangelo às 21:30

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