Portugal é grande quando abre horizontes

17
Mai 19

O meu post de ontem sobre a Europa da defesa foi lido como um ataque directo a alguns comentadores habituais da nossa praça. Não pode ser. Deveria ser visto, isso sim, como uma crítica sobre a maneira como a questão tem estado a ser analisada.

Ataques pessoais não fazem parte do meu estilo nem cabem nestas páginas.

E não diz respeito apenas ao que se escreve e diz em Portugal. Infelizmente, a questão da defesa europeia é muito mal tratada em vários jornais e televisões dos Estados membros. O tema dos 2% do PIB é, na maioria dos casos, o aspecto central por onde esses comentadores pegam no assunto. Ora, mesmo isso, tem muito que se lhe diga. Pode-se gastar 2% do PIB nacional em rubricas erradas ou secundárias para a defesa do país. Veja-se o que se passa na Grécia, onde uma boa parte do dinheiro gasto com as forças armadas se destina ao financiamento de pensões de reforma ou para comprar tanques que servirão para combater uma guerra do estilo do século XX.

publicado por victorangelo às 21:02

16
Mai 19

Continua a discorrer-se frequentemente sobre a Europa da defesa. Menciona-se a pressão vinda de Washington, a existência da NATO, as indústrias de defesa, as diversas iniciativas que entretanto alguns líderes da UE vão ensaiando, como PESCO, a relativa fraqueza das diferentes forças armadas europeias, com excepção das britânicas e francesas, e assim por diante.

Tudo isso é importante.

Mas a defesa é antes de tudo uma questão de opção política a curto e médio prazo e de visão estratégica, no que respeita ao futuro. O projecto comum europeu precisa de ter uma vertente de defesa que seja partilhada pelos Estados membros e que seja autónoma em relação aos interesses de parceiros exteriores à Europa. Temos que cuidar de nós. Temos que investir na nossa segurança colectiva, com base nos nossos interesses.

Há que definir quais são esses interesses. E ter bem presente que os aliados de ontem e de hoje podem ter interesses muito diferentes dos nossos, no futuro. É de prever que a evolução vá nesse sentido.

Também é necessário fazer uma avaliação a sério dos riscos externos que poderão ameaçar a Europa no futuro e, em seguida, determinar qual deverá ser o papel do sector da defesa na prevenção, dissuasão, contenção e na resposta a esses riscos.

Como é igualmente imprescindível ter uma posição clara sobre o papel que as forças armadas europeias poderão desempenhar na cooperação internacional para a paz e a segurança.

Por tudo isto, digo repetidamente que a questão europeia de defesa tem que estar mais no centro do debate. É um assunto estratégico. Não é um problema meramente técnico-militar, nem simplesmente orçamental. Acrescento que deve igualmente começar pela política e por uma visão a prazo. Estas matérias exigem tempo para poderem ser concretizadas. Deve aprovar-se agora aquilo que se quer ter operacional dentro de dez ou quinze anos.

Claro?

 

publicado por victorangelo às 16:50

07
Mai 19

O diário belga “La Libre” é um jornal moderado e respeitado. Organiza frequentemente inquéritos de opinião junto dos seus leitores. Os resultados desses inquéritos são vistos com atenção pela classe política e por quem se ocupa de seguir a opinião pública belga.

Levou agora a cabo um sobre a questão da criação de umas forças armadas europeias. A pergunta era muito clara : deve-se criar um corpo militar europeu comum em substituição das forças nacionais?

Responderam cerca de 8000 leitores. Destes, 49% disse que sim, sem mais, sem hesitação. Também disseram que sim, mas sem pôr termo ou acabar com as forças armadas nacionais, 35% dos inquiridos. Apenas 13,3% por cento se opôs, disse que não à ideia de um “exército europeu”.

Curiosamente, os sem-opinião foram apenas 3%.

Em simultâneo, noto que é no Partido Socialista, nos Ecologistas e em outros movimentos do centro-esquerda da Bélgica que encontro uma posição clara de apoio a um projecto comum de defesa.

Convém reflectir sobre estes números. E lembrar que a questão de defesa é antes de tudo uma questão de opinião pública, ou seja, um tema essencialmente político.

publicado por victorangelo às 16:34

11
Jul 17

Sou um telespectador acidental, no que respeita aos canais de televisão portugueses. Por várias razões, mas sobretudo pela má qualidade do que se mostra nos nossos ecrãs. Assim, mesmo quando me encontro em Portugal, passo ao lado.

Ontem, num momento de acaso, caí no debate que a RTP 1 chama “Prós e Contras”. Discutia-se Tancos, as Forças Armadas e os diferentes níveis de responsabilidade.

Dos presentes, apenas os dois generais sabiam da poda. O resto era conversa, académica, livresca ou simplesmente fora da substância. Confrangedor. Metiam-se os pés pelas mãos e confundiam-se conceitos básicos. Incluindo, como já vem sendo costume, defesa como se fosse segurança e vice-versa.

Para cúmulo, a moderadora mostrou uma vez mais o pouco jeito que tem para animar discussões que ultrapassem os temas de lana-caprina.

 

publicado por victorangelo às 22:10

01
Jul 17

As armas e as munições, em quantidades que mostram que a coisa foi organizada a sério, foram roubadas de um paiol do Exército. Inacreditável!

O tipo de armamento levado pelos ladrões permite praticar actos terroristas de grande impacto. Preocupante!

As autoridades do país onde isto aconteceu limitaram-se, até agora, três ou quatro dias depois do acontecimento, a exonerar uns coronéis. Patético!

Os principais responsáveis políticos, os do lado da governação, mantêm-se calados. Incompreensível!

Do outro lado, os da oposição, diz-se umas baboseiras inconsequentes e pela rama. Incompetência!

Parece que haverá uma audição parlamentar do ministro da pasta. A resposta habitual!

Como também será de prever, dentro do que é a nossa normalidade irresponsável, que da audição não resulte nada de estrutural, para além do ruído a que já estamos habituados. Portugal!

 

publicado por victorangelo às 22:22

20
Fev 17

Ando por aí a dizer que o debate sobre as despesas de defesa da Europa não se pode limitar a um indicador apenas.

É verdade que os estados-membros da NATO, a começar pelos europeus, se comprometeram na Cimeira de 2014 no País de Gales a aumentar os orçamentos públicos destinados à defesa, de modo a atingirem o montante de 2% do PIB nacional. Gradualmente, aliás, tendo como horizonte o ano 2024.

Atenção, porém!

Esta percentagem é um valor indicativo, uma ordem de grandeza que serve de referência política ao nível do secretariado da NATO. Neste momento, apenas os EUA, o Reino Unido, a Grécia, a Estónia e a Polónia atingem esse patamar. Mas a percentagem não chega. É preciso que a estrutura das despesas tenha em conta as necessidades actuais das forças armadas, tendo em conta os novos tipos de ameaças e a ênfase relativa que deve ser dada a cada dimensão da defesa. Gastar dinheiro com estruturas inadequadas, quadros conceptuais errados e meios obsoletos é mero desperdício. Uma parte importante do debate terá que passar por essa análise da estrutura das despesas.

 

publicado por victorangelo às 11:24

20
Abr 16

O Presidente da República disse hoje que a Marinha portuguesa não dispõe dos meios necessários para desempenhar as funções de soberania que lhe competem. Infelizmente, isso é bem verdade. E mais ainda, é incompreensível num país que diz que o mar é uma das suas prioridades e um dos seus grandes trunfos em termos de desenvolvimento. Ora, no mundo real, as prioridades e os trunfos são protegidos, com todos os meios e mais alguns. Não o fazer corresponde a falta de coerência política e põe em risco um recurso fundamental para o crescimento e a grandeza do país.

publicado por victorangelo às 21:27

20
Jan 16

Publico um texto sobre a reunião anual de Davos na Visão on line de hoje, com o título "Vamos a Davos".

O link é o seguinte:

http://visao.sapo.pt/opiniao/opiniao_victorangelo

publicado por victorangelo às 09:31

18
Nov 14

As forças armadas belgas ficaram agora a saber que os cortes orçamentais que irão sofrer em 2015 vão ser importantes. A tendência é para que as despesas de defesa não representem mais do 0,5% do PIB belga em 2019. O objectivo de 2% do PIB, que fora aprovado pelos aliados durante a cimeira de Setembro da NATO e que deveria ser atingido em 2024, parece cada vez mais impossível de atingir. Na Bélgica e em muitos outros estados europeus.

publicado por victorangelo às 20:47

26
Abr 14

Esta foi a entrevista que fiz ao general Loureiro dos Santos, as minhas perguntas e as suas respostas.

 

Foi publicado na edição especial de ontem do Diário de Notícias dedicada ao 25 de Abril.

 

 

 

1.A Europa e o mundo de hoje são radicalmente diferentes da realidade que o Senhor General e eu conhecemos em 1974. A própria noção de soberania nacional, razão de ser das Forças Armadas (FA), evoluiu de modo significativo. Como deverá ser entendida a soberania nacional nos próximos 40 anos, num país como o nosso, e em que medida esse entendimento requer uma maneira diferente de encarar o papel das FA?

 

R: Entendo soberania nacional como a liberdade de acção suficiente para podermos preservar os nossos interesses fundamentais. Agora e no futuro. De acordo com esta conceção, ela será garantida desde que os acordos de associação que forem sendo aconselháveis com outros Estados possam ser reversíveis quando considerarmos isso mais conveniente. Neste contexto, a existência de FA continuará a ser sempre um ativo essencial que não poderemos dispensar, tendo em atenção a nossa posição geoestratégica e a configuração e extensão (incluindo plataforma continental) do nosso território.

 

2 - Na mesma linha, quais serão potencialmente as principais ameaças em matéria de defesa, para as quais é preciso preparar as FA de Portugal? Mais ainda, como avalia os recursos existentes em termos da preparação operacional das FA para poderem responder a essas ameaças externas?

 

R: As ameaças que nos podem atingir relacionam-se com o controlo dos espaços (terrestre, marítimo e aéreo) que nos definem e a segurança dos portugueses. No limite, por causa da posição geoestratégica referida, uma potência ou bloco de potências pode querer ocupá-los, particularmente num ambiente conflitual que envolvam um poderoso ator marítimo e um poderoso ator terrestre. Outras ameaças de menor dimensão também exigem a nossa atenção, como o terrorismo internacional e a criminalidade transnacional organizada, além de se poderem concretizar riscos naturais como grandes catástrofes. Também se manterão no futuro inúmeros Estados falhados e não deixarão de abundar os conflitos regionais, criando ameaças que podem atingir os nossos interesses.

 

Os recursos existentes, se convenientemente mantidos e treinados, com material adequado e pessoal motivado, são suficientes para controlar os espaços nacionais e garantir a participação nacional em forças operacionais destacadas que, em colaboração com os nossos aliados, evitem a eclosão de certas ameaças que nos podem vir a atingir. Mas não são capazes de fazer face a ameaças de maior dimensão e de menor grau de probabilidade, para as quais teremos de estar preparados, caso se concretizem. Como aquelas que se avolumam a partir do Norte de África e do Médio Oriente, além da incerteza sobre o futuro da Europa, especialmente da natureza das tensões Este-oeste que parecem regressar. Estas forças de natureza complementar poderão estar desactivadas, mas devem existir mecanismos e meios para as convocar ou mobilizar nos prazos compatíveis para lhes responder.  

 

3 - Portugal continuará a ter compromissos externos, quer no quadro da OTAN quer da UE e da ONU. Na sua opinião, as FA terão as condições exigidas para poder cumprir esses compromissos? Ou, posto de outra maneira, estará Portugal em condições de assumir o papel de defesa que se espera de um país membro dessas organizações, em especial da OTAN?

 

R: Estará em condições apenas se estiverem concretizadas as medidas esboçadas na resposta anterior, o que neste momento ainda não acontece, uma vez que dispomos das forças permanentes, mas não das forças complementares devidamente constituídas e preparadas para convocação ou mobilização nos prazos convenientes. Ressalvo o facto de ser insuficiente a manutenção de algum do material e equipamento existente, de não existir muito do material necessário para forças complementares, assim como de terem sido reduzidos os níveis de treino das unidades, e haver indícios consistentes de forte insatisfação do pessoal, o que se pode vir a reflectir de forma negativa no seu moral.

 

4 - Militares na reserva e na reforma pesam bastante em termos de opinião e comentário político e de defesa na comunicação social portuguesa, bem como nos debates universitários. Esta é uma situação única nos países membros da OTAN, mesmo naqueles que estão em crise e que viram as suas FA sofrer cortes orçamentais profundos. Como explicar um tal grau de ativismo? Manter-se-á com as próximas gerações de militares?

 

R: Este activismo resulta da consciência que têm dos seus direitos e deveres no regime democrático que ajudaram a erigir e da vontade de deles não quererem abdicar. Espero que esta consciência e consequentes respostas se mantenham nas futuras gerações. Sem nunca ferir os deveres que a sua condição militar lhes impõe, assim como sem deixar de assumir a reivindicação dos direitos que ela também lhes concede.

 

5 - A maioria dos cidadãos parece não entender nem apreciar suficientemente o papel das FA no Portugal de hoje. A prazo, esta será mesmo uma batalha perdida ou não?

 

R: Não será, se forem aprofundadas medidas no sentido de difundir a sua necessidade e importância por toda a população, a começar pelos mais jovens particularmente nos ambientes educativos, algumas já em execução embora de modo claramente insuficiente. Um serviço cívico nacional para jovens, que incluísse uma passagem pelas FA durante algum tempo, seria a melhor solução.

 

6 - As posições públicas das associações de Oficiais e de Sargentos e as suas manifestações de rua contra as políticas do Governo têm gerado surpresa em muitos observadores externos – e o senhor General sabe que há gente, em Bruxelas, Washington, e noutros sítios, que segue sempre com atenção as questões de disciplina, de estado de espírito, cultura institucional e de ideologia, num sentido lato, no seio das FA. Em resumo, fica a impressão de insubordinação, de falta de controlo democrático por parte do poder civil, bem como a questão da confiança nas FA de Portugal. Como vê a continuação deste tipo de análises feitas no estrangeiro e que tipo de consequências poderão daí resultar a longo prazo para o setor da Defesa?

 

R: Essas análises ter-se-ão justificado mais, algum tempo atrás, quando as manifestações eram de molde a transmitir tal perceção. Penso que actualmente as coisas são bastante diferentes, a despeito de ainda, por vezes, se verificarem casos lamentáveis. Mas começa a notar-se um esforço para agir de modo distintivo, de acordo com os comportamentos próprios dos militares, nomeadamente o aprumo e a discrição que os caracterizam.

Devo registar contudo que as impressões menos favoráveis porventura transmitidas não correspondem de modo algum à realidade. A disciplina e a cultura institucional nunca estiveram nem estão em causa. Os militares portugueses continuam a ser destacados como exemplo por todos os comandos aliados com quem têm trabalhado ou sob cujas ordens têm servido, cumprindo as missões que lhes são atribuídas com rara dedicação e extrema competência. Por vezes aquilo que parece radicalismo em alguns militares deve-se a sentirem-se tratados pelos responsáveis políticos de modo que consideram pouco ajustado às características específicas da sua profissão, cujas exigências (deveres, disponibilidade para o sacrifício, e restrição de direitos) não são compatíveis com uma visão aparentemente simplista que não as contemple com a devida ponderação.      

 

7 - A organização das FA está em processo de aprovação. Olhando para o longo prazo, quais são os aspetos mais positivos e os mais negativos dessa proposta legislativa do Governo?

 

R: Não conheço ainda o Conceito Estratégico Militar nem as Missões e o Sistema de Forças que devem concluir o ciclo de programação estratégica iniciado há alguns meses. Sequer a legislação fundamental que, segundo parece, está em fase de conclusão, pelo que me não posso pronunciar. Tenho a expectativa de que será adequada à realidade nacional, o que acontecerá se forem tidas em devida consideração as propostas das Chefias Militares em funções.

publicado por victorangelo às 14:49

twitter
Junho 2019
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1

2
3
4
5
6
7
8

9
13

17
19
20
21
22

23
24
25
26
27
28
29

30


<meta name=
My title page contents
mais sobre mim
pesquisar
 
links
blogs SAPO