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Vistas largas

Crescemos quando abrimos horizontes

Vistas largas

Crescemos quando abrimos horizontes

Festejar em tempos de isolamento

O plano, formulado no início do ano, era estar hoje em Omã. Numa espécie de reunião de família, com as filhas e o resto do pessoal. Para marcar a data. Mas um plano é um plano e a covid é uma realidade. Com a pandemia é muito difícil fazer planos. Assim, o dia decorreu com um de cada lado, à distância. No nosso caso, a única diferença é que o almoço teve lugar na sala nobre da casa e não na varanda ou no canto específico da cozinha. Comer na sala foi uma espécie de manguito educado que fizemos à pandemia. Também aí houve uma alteração de planos. Inicialmente, a intenção era a de ir almoçar ao restaurante fino aqui do bairro, junto à água. Venceu a inércia que a pandemia nos traz. Ficámos em casa. Entretanto tinha comprado dois belos linguados para o almoço. O rapaz da peixaria garantiu-me que eram selvagens. Sim, disse selvagens. Pensei que, se assim era, seria uma boa maneira de ter um almoço mais perto da natureza, aquela que nos faz esquecer as pandemias. E linguado grelhado, empurrado pela goela abaixo graças ao champanhe produzido por um nosso conhecido, numa pequena quinta familiar no coração da região de Champagne, e mini pimentos no forno, foi a única companhia que tivemos para o almoço.

As ruas da Ajuda

O velho bairro da Ajuda, junto ao mercado do mesmo nome, nesta parte ocidental de Lisboa, é como uma aldeia dentro da cidade grande. Há de tudo, incluindo gente com poucos meios, a viver em alojamentos minúsculos e que tem a rua como sala de estar. Muitas destas pessoas têm já uma idade avançada, mas continuam a mexer-se, que a vida de quem é pobre não dá para grandes descansos. Existe toda uma série de comércios à antiga, desde o vendedor de passarinhos que cantam a alegria da vida, apesar das gaiolas em que vivem, ao comerciante de trapos e trapinhos. Também há a loja dos telemóveis, com um sikh indiano ao balcão, um estranho que se refugiou neste canto de transição para um futuro melhor.

Hoje visitei a senhora da ourivesaria, por causa de uma questão de relógios. Não sei que idade tem, mas dou-lhe, sem favor algum, que ela não precisa da minha bondade, mais de 85 anos. Disse-me que o artesão relojoeiro a quem ela dá as tarefas mais complicadas tem setenta e tal anos. E quando ele parar, para o negócio. Não há uma nova geração de artesãos a vir por aí acima. Ainda me disse que na Casa Pia há uma formação desse tipo, mas é só canudo. Quem de lá sai, nada tem como experiência do assunto e acaba fazendo outras coisas.

Para mim, isto foi apenas uma ilustração do que será o futuro próximo do bairro. Ofícios que desaparecem, com o andar dos tempos. Até a arte de vender frutas e legumes no mercado ao lado tem cada vez menos praticantes. Uma boa parte das bancadas estão abandonadas.

O que fecha, já não abre. O pouco que ainda vai abrindo são cabeleireiros de senhoras e uma ou outra loja chinesa ou de telemóveis. Compra-se hoje, barato, para deitar fora dentro de dias, quando deixar de funcionar. Mas anda-se com o cabelo arranjado, pois aqui a elegância consegue-se por um preço em conta.

 

Tempos de pânico

Hoje, a pandemia deixou-me novamente em pânico. Já havia acontecido o mesmo na semana passada. Estava numa das esplanadas do Centro Comercial dos Olivais, bem no coração do edifício mas ao ar livre, a tomar um café com um jornalista sénior de uma das rádios nacionais. Havia um vento forte. E quando me preparava para me ir embora, através dos corredores do Centro, descobri que a minha máscara tinha voado com o vento, para parte desconhecida. Fiquei fora de jogo, sem saber como sair dali. Senti-me completamente desestabilizado. Depois de muito reflectir, o jornalista amigo descobriu na sua mochila uma máscara nova. Eu sempre achei que as mochilas dos jornalistas são uma caixa de surpresas. Estava safo.

O pânico de hoje foi semelhante. Saí do carro, entreguei as chaves a quem entrava em casa e fui a pé ao supermercado do quarteirão. Comprei duas ou três urgências e dirigi-me para a fila da caixa. A fila estava demorada, a ficar cada vez mais longa, com gente à frente e atrás de mim. De repente, notei que não tinha trazido máscara. Que andara por ali, a descoberto. Entrei em parafuso, com a sensação de estar nu. A jovem da caixa iria reagir e chamar o segurança, o mesmo segurança que estava a brincar com o telefone quando eu entrei na loja. Só tinha uma solução. Deixar as compras no lugar e ir à procura da prateleira das máscaras. Descobri uma difícil de colocar, com uns atilhos complicados. Mas serviu. Lá fui para a caixa, com a máscara metade atada. Expliquei à empregada que era uma compra que tinha que ser incluída na conta. Ela olhou para mim, com um ar estranho e disse-me, tenha calma e acabe de colocar a máscara como deve ser.

Isto das máscaras dá-nos a volta à cabeça.

 

Com esperança no futuro

Ontem utilizei os serviços da Uber duas vezes, aqui em Lisboa. E de cada vez, tive a sorte de ser conduzido por um jovem que criara a sua própria empresa e encara o futuro com optimismo. Isto, apesar das dificuldades dos últimos meses, da falta de turistas nos dias que passam, da concorrência. Um deles havia trabalhado num grande McDonald’s na zona do Campo Grande. Saiu, há um ano e meio, por decisão própria, pediu um empréstimo e meteu-se no transporte de passageiros. Não está arrependido. O outro, já com três anos de experiência, faz o Verão no Algarve e o resto do ano em Lisboa. O que ganha durante o Verão é altamente compensatório. As deslocações no Algarve contam mais quilómetros e fazem entrar mais dinheiro. Este ano não haverá Algarve, segundo pensa. Mas ainda não decidiu. Como é o seu próprio patrão, a decisão pode ser tomada à última hora, com base no desenrolar da estação turística.

Gostei do que me contaram. As atitudes positivas enriquecem-nos a todos.

A fazer de político

Hoje senti-me como muitos políticos se sentem no seu dia a dia: com excesso de confiança. Por isso, andei perdido num parque de estacionamento durante quarenta minutos e com uma impressora nos braços, à procura do carro, que me havia sido emprestado e de que não conhecia a matrícula, com excepção das letras do meio. E também como é hábito entre os políticos, limitei as minhas voltas do desespero à zona da cor de laranja quando a coisa estava estacionada na azul.

A economia dos outros e do meu barbeiro

Hoje, neste país que é a Bélgica, as barbearias voltaram a abrir. E eu lá estive, que bem precisava. Vim quase rapado, que o barbeiro não tinha mãos a medir nem tempo para grandes fantasias. Foi um cortar a eito.

Esteve, como todos os outros, dois meses e meio fechado. Perguntei-lhe quanto recebera como subsídio, por parte do governo. Disse-me, com um tom resmungão, que uns dias depois de ter fechado o salão, lhe deram 1200 euros, com a promessa de que a 4 de maio receberia um complemento. E recebeu, nesse dia, sem mais, 4000 euros. Ou seja, a subvenção total, a fundo perdido, por oito ou nove semanas de inactividade, chegou aos 5200 euros, sujeitos a impostos e às contribuições para a segurança social e para o fundo de pensões. Nada mal, pensei eu, para um empresário a título individual. Mas não lhe disse o que pensava, pois percebi que achou que foi pouco. E também, para não prolongar a conversa, o que faria correr o risco de acabar com um corte à soldado raso. 

Tempo de mudança

Às oito da noite, o meu vizinho do lado direito sai à rua, com o seu acordeão e toca uma ou duas músicas para todos nós, os outros vizinhos. Saímos à rua, cada um no seu espaço, para aplaudir os profissionais de saúde em geral e a mulher do acordeonista, em especial, que é médica de cuidados de urgência. Como os dias têm estado bons, este é um momento de convívio, ao fim de um dia de isolamento, numa quarentena que já vai longa e que ainda vai continuar mais uns tempos. A rua é composta por vivendas, temos a impressão de estar na aldeia, sentimento que o acordeão ainda acentua mais. Na realidade, estamos numa zona central da cidade, a poucos minutos de carro das instituições europeias. Viver no campo, dentro da cidade, é um privilégio. Que para nós, acaba no final deste mês, depois de dezenas de anos de ligação à casa que agora irá ficar para trás. Mudanças, mudanças e andanças, diria o outro.

 

A receita do Presidente

Bebi uma parte do meu café do meio-dia como receitado pelo Dr. Trump. Estava completamente distraído e deixei correr o café para uma chávena que tinha um fundo, e não era pouco, de detergente de lavar a loiça. Bebi a primeira golada e achei estranho. Fiquei de tal modo surpreendido, que voltei a provar. Só então me apercebi da minha distracção. Lembrei-me, de seguida, da recente recomendação do Presidente norte-americano sobre o tratamento do vírus e senti-me protegido.

Já agora, queria aqui recordar um outro colega do Dr. Trump. Aqui vai uma imagem que tirei, para mostrar o seu consultório. Na Serra Leoa. 

2007 075.jpg

Copyright Victor Ângelo

 

 

 

Peixe fresco numa cidade parada

Hoje foi dia de comprar peixe. É uma tarefa que normalmente ocorre às quartas, pela manhã. É o momento da semana em que chega mais peixe fresco. O comerciante de peixe, a dez minutos a pé aqui de casa, é um grossista que fornece os restaurantes e os hotéis, mas que também aceita compradores avulso, como nós. É tudo pago em dinheiro vivo, que o homem não gosta de plástico e ainda menos, do pessoal das finanças. Para os particulares não há recibos, nem facturas. Em compensação, vende um peixe fresco e de excelente qualidade. Agora, com os restaurantes fechados, o negócio está fraco. Mas as portas mantém-se abertas e a oferta não mudou.

É tudo vendido em filetes, para pessoal como eu, sem espinhas nem pele. Comprei eglefim (hadoque, também conhecido como arinca), um peixe excelente, vindo dos mares frios do Atlântico Norte, ao preço de 15,00 euros o quilo do filete. Também fui ao lombo de atum, que custa 30.50 euros por quilo, tudo limpo e pronto a cozinhar. E  levei o inevitável lombo de bacalhau fresco, que vale 22.50 euros por cada quilo.

O hábito da casa é almoçar peixe dia sim, dia não. No dia não, come-se carne. E tal como a carne, a ração de peixe é sempre a mesma: mais ou menos 150 gramas por pessoa. O resto, são legumes, na frigideira, salteados num fundo de azeite. Nunca se come batata, e é raro fazer-se arroz. Não há sobras. Pão, só à noite, numa refeição ligeira, à hora do jantar, por volta das 19:00 horas.  Quando se come fora, é, por regra, ao almoço.

Estas são as rotinas que procuramos manter, como se tudo fosse normal, fora das paredes da casa. Mas é estranho ir buscar peixe e sentir que a cidade está parada. Não há ninguém nas ruas. Esperar que o sinal passe ao verde, para atravessar, é uma forma de fingir que está tudo como dantes. A verdade é que verde ou vermelho, não há trânsito.

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