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Vistas largas

Crescemos quando abrimos horizontes

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Migrações e acordos mínimos

Cada semana, traduzo para inglês a crónica de opinião que publico no Diário de Notícias. A tradução é feita em segundos, por meio de Inteligência Artificial, com recurso à aplicação gratuita DeepL. Depois, é polida por mim e divulgada através de várias redes sociais. A verdade é que a tradução que a DeepL produz é de boa qualidade.

O texto de ontem trata da maneira como a União Europeia responde às migrações vindas de fora do espaço europeu. A versão inglesa foi rapidamente difundida por plataformas que se dedicam exclusivamente à questão das migrações internacionais. O assunto faz parte da ordem do dia. O esforço que a Comissão Europeia está a fazer tem mérito.

Poucos acreditam que se conseguirá chegar a uma posição partilhada por todos os Estados-membros. No entanto, esse é o desafio. Tem que haver acordo. Esta necessidade de um acordo levará muito provavelmente à adopção de uma política altamente restritiva, com o acento principal no controlo das fronteiras exteriores da União. No meu texto digo claramente que essa opção será muito difícil de implementar. Os muros, as barreiras, as polícias não serão suficientes para impedir os fluxos em grandes números. A pressão demográfica, os conflitos, as faltas de perspectivas económicas, as desigualdades de nível de vida entre a União Europeia e as regiões vizinhas, tornam os movimentos migratórios inevitáveis. E geram grandes questões, que a Comissão terá que colocar em cima da mesa. Para já, deve ficar a ideia que as políticas de desencorajamento e de obstrução dos fluxos migratórios não resolvem o problema.

 

Ignorar um problema essencial não é boa política

A Comissão Europeia, ao apresentar hoje uma proposta para uma nova política de imigração e asilo, veio lembrar-nos que este é um dos temas mais delicados para uma boa parte dos Estados-membros. Farei aqui uma análise das propostas, em tempo oportuno. Agora só queria referir que nenhum chefe de governo pode recusar um debate no seu parlamento nacional sobre esta questão, escondendo-se por detrás da desculpa que se trata de uma questão europeia e não meramente nacional. Este é um problema central, para cada um dos países. E é certamente um assunto que não pode ser ignorado em Portugal. Não se trata apenas da nova rota vinda de Marrocos para o Algarve. Há muito mais matéria em causa. Tem que haver uma política clara e uma implementação eficaz dessa política. Tenho a impressão que nada disso existe, que se continua a varrer para debaixo do tapete.

O semestre de Angela Merkel

A Alemanha de Angela Merkel vai estar à frente da União Europeia neste segundo semestre do ano, que hoje começa. Esta é certamente uma boa notícia para quem acredita no projecto comum e sabe quais são as grandes dificuldades que o mesmo enfrenta. A Europa está numa crise única, 75 anos após o fim da guerra, que fora, obviamente, um outro período de grande perturbação.

As crises dividem as pessoas, os países e as relações entre os Estados, mesmo entre os aliados. A Chanceler terá que encontrar meios para resolver as fracturas que existem no seio da União. Essa é uma das tarefas mais urgentes. É a sobrevivência do projecto comum que está em jogo. Juntam-se a ela a negociação com os britânicos, as tensões com os americanos, os conflitos com os russos e os turcos, a problemática do relacionamento com a China, e tudo o resto, que inclui a Síria, a Líbia, o Sahel, as migrações e o clima.

 Não faltam problemas para resolver. Têm faltado liderança e coragem política. É nesses domínios que espero ver algum movimento. Angela Merkel vai ter que marcar a agenda, exercer uma presidência activa. Creio que o fará, na medida em que esta presidência surge nas vésperas da sua saída da cena política – prevista para o próximo ano – e que uma das suas preocupações deverá ser a de deixar um legado europeu durável.

Vamos começar o semestre com alguma pitada de optimismo, coisa difícil de arranjar nestes tempos bem complicados.

O Apocalipse com limão

Foi mais um dia agitado, como têm sido os dias dos últimos dois meses. Passei o tempo a correr atrás dos “Cavaleiros do Apocalipse” dos tempos modernos, como repetia um dos intervenientes do debate que tive a responsabilidade de coordenar – uma discussão sobre o que aí vem, após a confusão em que vivemos – e a compra de sorvete de limão, que se tornara imperiosa, no fim de um almoço de magras costeletas de borrego.

O interveniente sobre os cavaleiros – que na tradição bíblica representam a peste, a guerra, a fome e, no final, seria de esperar, a morte,  – discorreu longamente sobre os quatro de agora. Ou seja, segundo ele, as desigualdades sociais ligadas às precariedades de todos os tipos; a catástrofe climática; o esboroamento das democracias, graças à maneira de fazer política de certos chefões democraticamente eleitos e que rapidamente se transformam em abusadores do poder; e o quarto cavaleiro, representando a imigração em massa de populações em fuga, por várias razões, e à procura de céus mais favoráveis.

Devo confessar que a referência ao tema bíblico e aos homens a cavalo me apanhou desprevenido. Há muito tempo que não ando por essas leituras. Mas a síntese dos temas a ter em conta, na Europa desenvolvida que a Bélgica representa, ficou a trotar na minha cabeça. Há muita gente a pensar no futuro, depois do choque pandémico. Cada vez aparecem mais obras e clubes de pensadores sobre as mudanças que deveriam ter lugar e o mundo que aí vem. Curiosamente, os intelectuais falam da necessidade de mudança e os políticos focalizam-se na reposição do que havia em janeiro ou fevereiro deste ano. Uma vez mais, a política e a intelectualidade andam a girar em rodas diferentes. Os cavaleiros e os fulanos dos BMWs da política movimentam-se em pradarias distintas.

Entretanto, chegou a hora do almoço. Que nos veio lembrar que estamos dependentes da globalização da produção alimentar e do resto. As costeletas, cortadas todas por igual, com o mesmo formato e peso, vinham da Nova Zelândia, que é um país que não fica aqui ao pé da porta.

Este é o mundo em que estamos, antes e, provavelmente, depois da crise. Como o meu pessoal é exigente, o que resta de uma dose de três costeletas de borrego, depois de retirada a parte da gordura e os ossos, que a casa não rói essas coisas, é pouco. E surgiu então um novo cavaleiro do infortúnio, um drama doméstico – não havia sorvete de limão no frigorífico, que era a sobremesa que os bichos exigiam, salvo seja. E lá fui eu a correr ao supermercado que se situa duas ou três ruas mais ao lado, e que é o único aqui na zona que tem sorvete artesanal italiano, para comprar o que o borrego pedia.

Pensei que assim andamos, sempre a passar do global e da produção de massa ao artesanato sofisticado e exclusivo. Na verdade, o cavaleiro da precariedade, de que o académico falava esta manhã, é mais e acima de tudo, um mensageiro das disparidades sociais e das incongruências que nos animam. E que o sorvete, ao preço que custa, nos ajuda a lembrar, para além de fazer desaparecer o gosto da globalização.

 

A teoria e a realidade

Um editorial do diário Le Monde apelava, no início da semana, para que a União Europeia se mostrasse “solidária, firme, realista e humanitária”. O tema do editorial tinha que ver com a situação que existe na fronteira terrestre entre a Grécia e a Turquia.

As palavras escritas soavam bem. Todavia, em termos reais, eram vagas e contraditórias. Como tantas vezes acontece, foram produzidas para esconder as imensas contradições que existem ao nível da realidade no terreno e, ao mesmo tempo, para dar a impressão que os valores da moral e do humanismo não estão postos de parte.

No fundo, é mera conversa de intelectuais, que nada acrescenta à solução do problema concreto. É frequente ver-se muita parra e pouca uva. Esse era apenas um exemplo mais.  

Entretanto, quem tem que tomar decisões e fazê-las aplicar decidiu mobilizar meios adicionais de polícia e de controlo fronteiriço para a zona em causa. A isso, juntar-se-á uma deslocação a Ancara do Presidente Macron e da Chanceler Merkel na próxima semana. Perante isso, fica a pergunta de essa iniciativa de ambos está ou não a ser coordenada com os dirigentes das instituições europeias.

 

A violência

As imagens que nos chegam, vindas da fronteira da Grécia com a Turquia, perturbam. Por muitas razões. São as pessoas e o seu desespero. A manipulação a que estão sujeitas, por causa do jogo político do Presidente Erdogan. As guerras e as violações dos direitos fundamentais, que estão na origem destes movimentos de massas. Os cidadãos gregos, que reagem abertamente contra as novas chegadas e que se sentem abandonados por Atenas e Bruxelas. A política europeia, que não quer novas ondas de imigração e que prefere pagar para que outros tomem conta dos deslocados e dos refugiados.

Numa palavra, a violência. Assim resumiria essas imagens. A violência com que a vida e certos políticos tratam as pessoas, os mais fracos e sem voz.

Quem pode telefonar a Erdogan?

A União Europeia deveria transmitir ao Presidente da Turquia uma mensagem clara. A situação actual, nas fronteiras da UE, justificaria uma conversa firme com Recep Tayyip Erdogan.

Não seria necessário perder muitas palavras numa discussão sobre a crise em Idlib. Essa matéria deve ser tratada entre Erdogan e Putin. Está previsto, aliás, que esses dois compadres se encontrem, lá mais para o fim da semana, para falar de Idlib. Mas os europeus têm que lembrar ao Presidente turco o acordo que existe entre as partes, no que respeita à imigração em massa e aos refugiados. E deverão acrescentar que as pessoas em situação de desespero não podem ser utilizadas como peões num tabuleiro de jogos políticos.

Infelizmente, não vejo quem possa pegar no telefone para ter essa conversa com Erdogan. Charles Michel, o Presidente do Conselho Europeu? O seu estatuto faria dele o interlocutor mais adequado. Mas parece andar desaparecido, a resguardar-se talvez, para não apanhar o vírus que por aí anda. Ursula von der Leyen? Não a vejo com a autoridade necessária para o fazer. E não se pode pedir a um Chefe de Estado que o faça, sem ferir protocolos, e sem esquecer que a Croácia é o Estado que teoricamente ocupa este semestre a presidência da União. O líder croata não seria atendido por Erdogan, creio.  

Entretanto o Alto Representante para a Política Externa, Josep Borrell, resolveu convocar uma reunião dos Ministros dos Negócios Estrangeiros da UE. Não é má ideia, mas não chega.

 

 

 

 

 

 

Na Alemanha, a prioridade é combater o extremismo ultranacionalista

Uma parte importante da população alemã ficou abalada pelo que aconteceu em Hanau, uma pequena e pacata cidade situada perto de Frankfurt. O extremista de direita que matou nove imigrantes vindos da Turquia mostrou a face mais violenta do racismo e do neonazismo, duas ideologias que têm estado a crescer na Alemanha. E fez pensar que incidentes deste tipo poderão voltar a acontecer.

Os neonazis e os seus compadres ultranacionalistas representam agora cerca de 15% dos eleitores. A linguagem que utilizam, as iniciativas que tomam – a mais recente foi a de publicar um livro para as crianças colorirem que é todo um apanhado de desenhos anti-turcos e anti-muçulmanos – , a inspiração identitária que os anima, a da superioridade da nação alemã, tudo isso causa arrepios aos moderados, a começar por Angela Merkel, e aumenta de modo significativo o medo que as comunidades estrangeiras sentem.   

A Alemanha é um país que funciona bem e com estilo. Mas o risco de desestabilização existe. Os líderes políticos democráticos têm aqui uma tarefa política prioritária.

 

 

Uma travessia que está por contar

Os oito imigrantes ilegais que desembarcaram no Algarve, vindos de Marrocos, segundo se diz, devem ser interrogados com muita atenção e perícia. O caso pode ter mais ramificações do que possa parecer. É, de qualquer modo, uma situação que não se pode explicar pela simples travessia do mar. Nas condições em que dizem tê-lo feito, a história não parece credível.

E, em princípio, devem ser deportados sem demoras, a não ser que existam razões legítimas, que justifiquem um outro tipo de tratamento.

Esta é uma frente de intervenção em matéria de segurança interna que exige cuidados especiais.

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