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Vistas largas

Crescemos quando abrimos horizontes

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De Nice à Nazaré

Mais um atentado, mais um cenário de horror, mais uma vez a necessidade de repudiar este tipo de crimes, mais um lembrar que as palavras violentas acabam por se traduzir em acções violentas. Nice já tinha conhecido cenas de horror terrorista no passado recente, quando um camião foi utilizado, a 14 de Julho de 2016, para matar 86 pessoas inocentes e ferir mais de 400. Hoje, foi numa igreja, com uma faca, que é o instrumento mais em conta que um jovem terrorista pode obter.

Por outro lado, também hoje, a multidão que foi ver as ondas gigantes à Nazaré me lembrou que a estupidez humana pode tomar várias formas. O terrorismo é a forma extrema. Ir aos magotes e sem máscaras nem distanciamento à Nazaré deve ser visto como uma forma atenuada da cretinice de muitos. O problema é que essa imbecilidade propaga o vírus e o vírus mata.

O governo deveria ter emitido uma nota sobre esses amadores da nova onda.

Contra o radicalismo islâmico

Terror ou democracia

Victor Ângelo

Quase duzentos e cinquenta anos após a sua morte, Voltaire permanece como um dos pensadores mais influentes da história de França e da Europa. Escreveu abundantemente e foi conselheiro dos grandes de então. O seu pensamento político e filosófico abriu o caminho que levaria à Revolução Francesa e à divisa nacional, que ainda hoje se mantém: Liberdade, Igualdade, Fraternidade. Os seus escritos troçavam dos dogmas religiosos, numa altura em que era muito perigoso fazê-lo, batiam-se contra a intolerância, advogavam a liberdade de expressão e a separação da igreja do estado. Em 1736, escreveu uma peça de teatro contra a intransigência religiosa, que intitulou “O Fanatismo ou Maomé, o Profeta”. Nesta tragédia, Voltaire crítica diretamente e com todas as letras o fundador do Islão. Pessoalmente, leio a obra como sendo uma investida contra as religiões, num caso, de modo aberto, noutro, o do catolicismo, de maneira mais subtil, para não pôr em risco a sua pele.

Agora tornou-se impossível ensinar Voltaire nalgumas escolas de França, nomeadamente nos subúrbios de Paris. Certos alunos, vindos de famílias muçulmanas radicalizadas, impedem que tal aconteça. Para essas pessoas, Voltaire é o pior dos infiéis, aquele que se atreveu a conspurcar o nome do Profeta. No passado, a Santa Inquisição católica queimava os hereges em público. No presente dos maníacos islamistas, Voltaire seria degolado. Além de Voltaire, é um perigo falar do Holocausto ou condenar o antissemitismo, citar o escritor Gustave Flaubert e o seu romance Madame Bovary – uma mulher livre e apaixonada, um péssimo exemplo para um radical que considera que as mulheres devem ser submissas e andar tapadas da cabeça aos pés – ou procurar discutir Charlie Hebdo e as caricaturas de Maomé. Uma boa parte do sistema escolar público francês vive num clima de desassossego, em que a reação violenta de certos alunos substituiu o debate de ideias. E a intimidação começa cada vez mais cedo. Já se conhecem histórias de meninos que, nas escolas pré-primárias, recusam sentar-se ao lado das meninas.

Tudo isto nos leva à decapitação criminosa e absurda que ocorreu na semana passada. A vítima, o professor Samuel Paty, era um homem corajoso e consciente de que a missão das escolas também é a de formar os futuros cidadãos, livres, iguais em direitos, solidários, respeitadores e responsáveis. Mas, em França, a escola laica tem estado a ser ativamente minada pelos islamistas radicais desde 2005. Uma sondagem recente revelou que cerca de 40% dos professores de disciplinas literárias, cívicas e de humanidades se autocensuram e não mencionam, nas suas aulas, seja o que for que possa provocar a ira dos estudantes mais fanáticos. Por isso, a minha primeira reação à notícia do ato do tresloucado foi de admiração perante a coragem e o sentido de dever profissional de Samuel Paty. Lembrou-me ainda que a resposta à ameaça terrorista passa por um comportamento vertical, inequivocamente firme.

Mas a coragem e a firmeza não podem ser apenas questões individuais. O terrorismo não é o resultado, como alguns pretendem, das ações de “lobos solitários”. O velho visionário Friedrich Nietzsche dizia que “tudo o que é absoluto pertence à patologia”, mas no caso do terrorismo, é isso mais o contexto social. Estamos perante um fenómeno identitário extremo, um ecossistema social que faz viver num pântano ideológico salafista milhares de famílias. São uma franja minoritária dos cidadãos europeus de fé muçulmana, mas muito desestabilizadora.

Em situações como a francesa – e noutros países europeus, nomeadamente na Bélgica e nos Países Baixos, que vão no mesmo sentido do que se tem verificado em França – é fundamental acertar numa resposta política adequada. Numa outra ocasião, escreverei sobre o tratamento securitário da questão. Politicamente, convém começar por reconhecer que o fanatismo, ao colocar uma interpretação manipulada, primária e ignorante da religião acima dos valores da república, é uma ameaça para a democracia e para a paz social. Se os democratas não conseguissem tratar do radicalismo terrorista, a extrema-direita, chame-se ela Le Pen ou outra coisa, noutro país qualquer, utilizaria essa falência para conquistar o poder. E então esmagaria todos, não apenas os exaltados de faca em riste e as suas comunidades de apoio.

(Crónica que ontem publiquei no Diário de Notícias, edição semanal em papel)

 

 

 

Sobre o Mali

O meu texto desta semana no Diário de Notícias, publicado da edição em papel de hoje, aborda a situação no Mali. É verdade que não se pode falar do Mali, sem mencionar o resto da região em que se insere, ou seja, o Sahel. Por isso, faço igualmente uma referência ao Sahel, aos problemas do crescimento muito rápido da população, à falta de perspectivas para os jovens, como também à corrupção e à ausência da presença da administração do estado em largos segmentos das terras da região. Uma outra preocupação foi a de mostrar que estes países não devem ser tratados com os preconceitos que são comuns quando se fala de África. E há mais, no meu escrito. A minha preocupação é a de apresentar uma visão de águia, ampla contextual, de cada assunto que trato. Outros acrescentarão visões mais pormenorizadas e mais terra-a-terra. Assim se enriquece o debate.

Logo que o texto esteja disponível – agora é “premium”, só para assinantes – colocarei o link neste blog.

Confusão no Mali

No seguimento da rebelião militar que está a ocorrer no Mali, falei este serão com colegas que estão em Bamako e no norte do país. A situação continua confusa. O Presidente Ibrahim Boubacar Keita e o Primeiro-Ministro continuam detidos num importante campo militar a cerca de 15 quilómetros da capital. O mesmo acontece a outros ministros e algumas altas patentes das Forças Armadas. No centro de Bamako houve algumas pilhagens e distúrbios. O resto da capital e as províncias mantém-se calmas.

Esta insurreição acontece num país que beneficia de um forte apoio da França, da União Europeia e das Nações Unidas. Esses apoios têm fechado os olhos, para não ver que a política do governo do Presidente Keita não vai no sentido da paz, da inclusão étnica e do combate à corrupção. Tem havido, isso sim, um alinhamento com que está no poder. Essa opção dos parceiros externos não tem ajudado o país a sair da crise em que se encontra desde há uma dezena de anos. Ora, o país tem gente muito bem formada que com o apoio certo teriam podido endireitar a situação e combater a pobreza e todos os tipos de tráficos que entretanto se foram enraizando.

Para a ONU, a continuação da crise no Mali deveria levantar uma série de questões muito sérias. Agradar à França não é certamente a opção política mais acertada. A imparcialidade não pode ser uma palavra vazia de conteúdo.

Sobre a França de Emmanuel Macron

Neste dia nacional da França, queria partilhar duas reflexões sobre um país que nos é próximo, para além de ser muito central para o projecto europeu. Ao reflectir sobre um vizinho importante estou igualmente a pensar nos nossos problemas. Aprender, tendo em conta as dificuldades que existem perto da nossa porta, não é má ideia. E tem custos menores.

A primeira diz respeito ao exercício do poder por Emmanuel Macron. Passaram três anos e faltam ainda cerca de 600 dias para terminar o seu mandato. O Presidente é uma pessoa muita inteligente mas politicamente pouco arguta. Não percebeu que a sua eleição se baseou na novidade que ele representava e num voto fracturado e negativo contra Marine Le Pen. Deveria ter transformado a novidade num projecto reformador, que respondesse às preocupações dos mais frágeis e à ambição das classes médias. Não o conseguiu, porque as suas reformas foram vistas como liberalismo económico e favorecimento das elites urbanas mais qualificadas e em melhores condições de tirar proveito da globalização, uma área onde várias grandes empresas francesas jogam a ganhar. A inovação não pode ser associada à exclusão das populações suburbanas e dos residentes nas pequenas localidades de província.

Também não entendeu que fora eleito por uma França profundamente fraturada. As divisões sociais e políticas são numerosas. Dividem os franceses segundo a sua origem familiar e étnica, religiosa, local de habitação, tipo de formação académica, classes de rendimentos, etc. A tarefa principal, há três anos, deveria ter sido a de atenuar e responder a estas divisões sociais. Emmanuel Macron não lhe deu a devida atenção. Hoje, tem uma França mais dividida ainda. Nos quase dois anos que ainda tem pela frente, vai ser necessário tratar deste desafio. Creio, no entanto, que tenha perdido a credibilidade para o fazer.

A segunda reflexão é sobre as forças armadas francesas. O 14 de Julho continua a ser um dia especial, com um desfile militar que procura mostrar o papel central dos militares na afirmação da França no resto do mundo. Assim aconteceu esta manhã, embora com os constrangimentos que a pandemia impõe. A força militar francesa ainda pesa, no contexto europeu. E em certas partes de África, sobretudo no Sahel, onde movem uma guerra contra os fundamentalistas islâmicos desde 2013. Dois anos antes, haviam participado, a mando de Nicolas Sarkozy, na campanha contra Kadhafi, uma decisão altamente controversa, que levou a desestabilização da região e à destruição da Líbia como Estado unitário. Tudo isto para dizer que a política de defesa da França precisa de ser repensada. No que respeita à Europa, em termos de uma contribuição mais clara para o reforço da capacidade de defesa autónoma do espaço europeu. Macron falou da NATO, com palavras muito críticas, mas faltou-lhe a coragem para apresentar um projecto de reforma da Aliança Atlântica. Ora, ele sabe muito bem quais são os problemas que aí existem. Durante uma parte do seu mandato, procurou uma aproximação com o Presidente dos Estados Unidos, como se não entendesse que isso era tempo perdido. O futuro das forças armadas francesas é o de serem um pilar fundamental do projecto de defesa europeia. No que respeita a África, a França não pode continuar a apoiar regimes de legitimidade duvidosa. O seu papel é o de mediar, não o de tomar partido. O alinhamento com uma das partes tem provocado um desgaste enorme nas fileiras e levado a dispêndios insuportáveis. Esta política precisa de mudar de rumo.

Para rematar, diria que seria importante que Emmanuel Macron pudesse ter um fim de mandato com sucesso. É isso que lhe desejo neste dia da França.

 

 

Ainda sobre o terrorismo no Sri Lanka

Aconselho alguma prudência aos analistas habituais, quando chamados a pronunciar-se sobre os atentados de ontem no Sri Lanka. A situação política interna é muito complexa e o que aconteceu tem uma dimensão de política doméstica muito grande. Polícias especialistas em terrorismo, vindos da Europa e dos Estados Unidos, vão estar no país para acompanhar de perto as investigações que as autoridades nacionais já têm em curso.

Para já, o que é claro tem que ver com a dimensão, o comando e controlo desta operação terrorista – tudo feito de modo muito organizado, o que significa estarmos perante uma rede altamente preparada e não face a meros amadores suicidas. E também é claro que os autores procuraram obter um impacto com grande visibilidade internacional.

Serão estas as duas linhas de partida que irão guiar as investigações, para além duma averiguação extremamente detalhada dos círculos de pessoas e dos grupos ligados aos bombistas-suicidas. E de uma análise das falhas de coordenação entre os diferentes serviços nacionais de segurança, uns dependentes do Presidente e outros do Primeiro-Ministro.

Convém evitar a tentação de encontrar bodes-expiatórios fáceis,  ao alcance da mão. A gravidade do que aconteceu exige um inquérito a fundo. Haverá muito que aprender. Nomeadamente, em termos de prevenção, para evitar, na medida possível, que as tragédias de ontem não se repitam noutros pontos do globo.

Os temores e a normalidade

Bruxelas, uma cidade cosmopolita, que mistura nacionais com gentes das mais diversas origens e crenças, foi alvo de atentados terroristas a 22 de março. Desde então, os seus residentes têm assistido a toda uma série de operações de polícia, algumas bastantes espectaculares e susceptíveis de criar medo, de detenções e mesmo de falsos alertas, como aconteceu hoje na zona comercial mais importante do centro da cidade.

Perante tudo isto, perguntam-me frequentemente, quando me desloco ao estrangeiro, se os residentes de Bruxelas vivem na ansiedade de novos atentados. A minha resposta habitual é clara. Refiro que a vida voltou às rotinas habituais, que as pessoas não passam o tempo a olhar por cima dos ombros, numa atitude de desconfiança de tudo e de todos. Mais ainda. Quem costumava andar de lenço atado à volta da cabeça e com indumentária associada à religião que alguns praticam – são aliás muitos os que seguem essa prática, nesta terra tão diversa – continua a fazê-lo, sem hesitações e também sem sofrer qualquer tipo de intimidação ou de comentário mal-intencionado.

Hoje o diário La Libre, um dos grandes jornais de Bruxelas, inquiriu os seus leitores sobre se “as ameaças terroristas provocam angústias no nosso quotidiano”. Curiosamente, cerca de 1 em cada 4 respondeu que sim. Que se sente menos seguro, quando se encontra em lugares públicos.

Afinal, estas coisas deixam traumas e marcas na população. E será por isso que certos partidos e movimentos de opinião procuram aproveitar esses temores colectivos em benefício das suas causas. O medo tem um valor político. Tal como a normalidade. Mas são valores de tipo diferente.

 

 

Terror e normalidade

Tragicamente, os atentados terroristas continuam a encher os ecrãs da actualidade. Os objectivos dos seus perpetradores são os de instilar o temor no nosso quotidiano, de criar tensões incontroláveis entre nós e as minorias que connosco vivem, de desestabilizar o funcionamento das nossas instituições e economias. São igualmente o produto de uma mistura perigosa e primitiva de revanchismo e ódio contra a nossa maneira de viver.

Os desafios que as nossas sociedades democráticas, laicas e tolerantes têm que enfrentar são fundamentalmente de três tipos: reforçar a segurança dos cidadãos, mas sem cair na posição extrema do tudo securitário e do estado permanente de excepção; denunciar sem ambiguidades os países e as ideologias que sistematicamente promovem uma visão radicalizada, arcaica, brutal e totalitária da religião e da vida; e continuar a viver sem medos, com a normalidade e a naturalidade que fazem parte da nossa maneira moderna de encarar a vida, as diferenças, a diversidade e a liberdade de cada um.

 

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