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Vistas largas

Crescemos quando abrimos horizontes

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Sobre o Mali

O meu texto desta semana no Diário de Notícias, publicado da edição em papel de hoje, aborda a situação no Mali. É verdade que não se pode falar do Mali, sem mencionar o resto da região em que se insere, ou seja, o Sahel. Por isso, faço igualmente uma referência ao Sahel, aos problemas do crescimento muito rápido da população, à falta de perspectivas para os jovens, como também à corrupção e à ausência da presença da administração do estado em largos segmentos das terras da região. Uma outra preocupação foi a de mostrar que estes países não devem ser tratados com os preconceitos que são comuns quando se fala de África. E há mais, no meu escrito. A minha preocupação é a de apresentar uma visão de águia, ampla contextual, de cada assunto que trato. Outros acrescentarão visões mais pormenorizadas e mais terra-a-terra. Assim se enriquece o debate.

Logo que o texto esteja disponível – agora é “premium”, só para assinantes – colocarei o link neste blog.

Confusão no Mali

No seguimento da rebelião militar que está a ocorrer no Mali, falei este serão com colegas que estão em Bamako e no norte do país. A situação continua confusa. O Presidente Ibrahim Boubacar Keita e o Primeiro-Ministro continuam detidos num importante campo militar a cerca de 15 quilómetros da capital. O mesmo acontece a outros ministros e algumas altas patentes das Forças Armadas. No centro de Bamako houve algumas pilhagens e distúrbios. O resto da capital e as províncias mantém-se calmas.

Esta insurreição acontece num país que beneficia de um forte apoio da França, da União Europeia e das Nações Unidas. Esses apoios têm fechado os olhos, para não ver que a política do governo do Presidente Keita não vai no sentido da paz, da inclusão étnica e do combate à corrupção. Tem havido, isso sim, um alinhamento com que está no poder. Essa opção dos parceiros externos não tem ajudado o país a sair da crise em que se encontra desde há uma dezena de anos. Ora, o país tem gente muito bem formada que com o apoio certo teriam podido endireitar a situação e combater a pobreza e todos os tipos de tráficos que entretanto se foram enraizando.

Para a ONU, a continuação da crise no Mali deveria levantar uma série de questões muito sérias. Agradar à França não é certamente a opção política mais acertada. A imparcialidade não pode ser uma palavra vazia de conteúdo.

Sobre a França de Emmanuel Macron

Neste dia nacional da França, queria partilhar duas reflexões sobre um país que nos é próximo, para além de ser muito central para o projecto europeu. Ao reflectir sobre um vizinho importante estou igualmente a pensar nos nossos problemas. Aprender, tendo em conta as dificuldades que existem perto da nossa porta, não é má ideia. E tem custos menores.

A primeira diz respeito ao exercício do poder por Emmanuel Macron. Passaram três anos e faltam ainda cerca de 600 dias para terminar o seu mandato. O Presidente é uma pessoa muita inteligente mas politicamente pouco arguta. Não percebeu que a sua eleição se baseou na novidade que ele representava e num voto fracturado e negativo contra Marine Le Pen. Deveria ter transformado a novidade num projecto reformador, que respondesse às preocupações dos mais frágeis e à ambição das classes médias. Não o conseguiu, porque as suas reformas foram vistas como liberalismo económico e favorecimento das elites urbanas mais qualificadas e em melhores condições de tirar proveito da globalização, uma área onde várias grandes empresas francesas jogam a ganhar. A inovação não pode ser associada à exclusão das populações suburbanas e dos residentes nas pequenas localidades de província.

Também não entendeu que fora eleito por uma França profundamente fraturada. As divisões sociais e políticas são numerosas. Dividem os franceses segundo a sua origem familiar e étnica, religiosa, local de habitação, tipo de formação académica, classes de rendimentos, etc. A tarefa principal, há três anos, deveria ter sido a de atenuar e responder a estas divisões sociais. Emmanuel Macron não lhe deu a devida atenção. Hoje, tem uma França mais dividida ainda. Nos quase dois anos que ainda tem pela frente, vai ser necessário tratar deste desafio. Creio, no entanto, que tenha perdido a credibilidade para o fazer.

A segunda reflexão é sobre as forças armadas francesas. O 14 de Julho continua a ser um dia especial, com um desfile militar que procura mostrar o papel central dos militares na afirmação da França no resto do mundo. Assim aconteceu esta manhã, embora com os constrangimentos que a pandemia impõe. A força militar francesa ainda pesa, no contexto europeu. E em certas partes de África, sobretudo no Sahel, onde movem uma guerra contra os fundamentalistas islâmicos desde 2013. Dois anos antes, haviam participado, a mando de Nicolas Sarkozy, na campanha contra Kadhafi, uma decisão altamente controversa, que levou a desestabilização da região e à destruição da Líbia como Estado unitário. Tudo isto para dizer que a política de defesa da França precisa de ser repensada. No que respeita à Europa, em termos de uma contribuição mais clara para o reforço da capacidade de defesa autónoma do espaço europeu. Macron falou da NATO, com palavras muito críticas, mas faltou-lhe a coragem para apresentar um projecto de reforma da Aliança Atlântica. Ora, ele sabe muito bem quais são os problemas que aí existem. Durante uma parte do seu mandato, procurou uma aproximação com o Presidente dos Estados Unidos, como se não entendesse que isso era tempo perdido. O futuro das forças armadas francesas é o de serem um pilar fundamental do projecto de defesa europeia. No que respeita a África, a França não pode continuar a apoiar regimes de legitimidade duvidosa. O seu papel é o de mediar, não o de tomar partido. O alinhamento com uma das partes tem provocado um desgaste enorme nas fileiras e levado a dispêndios insuportáveis. Esta política precisa de mudar de rumo.

Para rematar, diria que seria importante que Emmanuel Macron pudesse ter um fim de mandato com sucesso. É isso que lhe desejo neste dia da França.

 

 

Ainda sobre o terrorismo no Sri Lanka

Aconselho alguma prudência aos analistas habituais, quando chamados a pronunciar-se sobre os atentados de ontem no Sri Lanka. A situação política interna é muito complexa e o que aconteceu tem uma dimensão de política doméstica muito grande. Polícias especialistas em terrorismo, vindos da Europa e dos Estados Unidos, vão estar no país para acompanhar de perto as investigações que as autoridades nacionais já têm em curso.

Para já, o que é claro tem que ver com a dimensão, o comando e controlo desta operação terrorista – tudo feito de modo muito organizado, o que significa estarmos perante uma rede altamente preparada e não face a meros amadores suicidas. E também é claro que os autores procuraram obter um impacto com grande visibilidade internacional.

Serão estas as duas linhas de partida que irão guiar as investigações, para além duma averiguação extremamente detalhada dos círculos de pessoas e dos grupos ligados aos bombistas-suicidas. E de uma análise das falhas de coordenação entre os diferentes serviços nacionais de segurança, uns dependentes do Presidente e outros do Primeiro-Ministro.

Convém evitar a tentação de encontrar bodes-expiatórios fáceis,  ao alcance da mão. A gravidade do que aconteceu exige um inquérito a fundo. Haverá muito que aprender. Nomeadamente, em termos de prevenção, para evitar, na medida possível, que as tragédias de ontem não se repitam noutros pontos do globo.

Os temores e a normalidade

Bruxelas, uma cidade cosmopolita, que mistura nacionais com gentes das mais diversas origens e crenças, foi alvo de atentados terroristas a 22 de março. Desde então, os seus residentes têm assistido a toda uma série de operações de polícia, algumas bastantes espectaculares e susceptíveis de criar medo, de detenções e mesmo de falsos alertas, como aconteceu hoje na zona comercial mais importante do centro da cidade.

Perante tudo isto, perguntam-me frequentemente, quando me desloco ao estrangeiro, se os residentes de Bruxelas vivem na ansiedade de novos atentados. A minha resposta habitual é clara. Refiro que a vida voltou às rotinas habituais, que as pessoas não passam o tempo a olhar por cima dos ombros, numa atitude de desconfiança de tudo e de todos. Mais ainda. Quem costumava andar de lenço atado à volta da cabeça e com indumentária associada à religião que alguns praticam – são aliás muitos os que seguem essa prática, nesta terra tão diversa – continua a fazê-lo, sem hesitações e também sem sofrer qualquer tipo de intimidação ou de comentário mal-intencionado.

Hoje o diário La Libre, um dos grandes jornais de Bruxelas, inquiriu os seus leitores sobre se “as ameaças terroristas provocam angústias no nosso quotidiano”. Curiosamente, cerca de 1 em cada 4 respondeu que sim. Que se sente menos seguro, quando se encontra em lugares públicos.

Afinal, estas coisas deixam traumas e marcas na população. E será por isso que certos partidos e movimentos de opinião procuram aproveitar esses temores colectivos em benefício das suas causas. O medo tem um valor político. Tal como a normalidade. Mas são valores de tipo diferente.

 

 

Terror e normalidade

Tragicamente, os atentados terroristas continuam a encher os ecrãs da actualidade. Os objectivos dos seus perpetradores são os de instilar o temor no nosso quotidiano, de criar tensões incontroláveis entre nós e as minorias que connosco vivem, de desestabilizar o funcionamento das nossas instituições e economias. São igualmente o produto de uma mistura perigosa e primitiva de revanchismo e ódio contra a nossa maneira de viver.

Os desafios que as nossas sociedades democráticas, laicas e tolerantes têm que enfrentar são fundamentalmente de três tipos: reforçar a segurança dos cidadãos, mas sem cair na posição extrema do tudo securitário e do estado permanente de excepção; denunciar sem ambiguidades os países e as ideologias que sistematicamente promovem uma visão radicalizada, arcaica, brutal e totalitária da religião e da vida; e continuar a viver sem medos, com a normalidade e a naturalidade que fazem parte da nossa maneira moderna de encarar a vida, as diferenças, a diversidade e a liberdade de cada um.

 

A radicalização de Marrocos

Na discussão de hoje, ficou bem claro que Marrocos está igualmente a viver um processo de radicalização religiosa. A política e a vida em sociedade estão cada vez mais influenciadas pelas ideias retrógradas de quem interpreta o islão de uma maneira fundamentalista e absurdamente redutora. Para complicar a coisa, o monarca fez recentemente um discurso antiocidental, durante uma visita aos países do Golfo. Para muitos, o discurso não constituiu uma surpresa. Deu seguimento a outras declarações feitas nos últimos tempos. O que surpreendeu foi a clareza do ataque. Mas mesmo isso deve ser visto como a confirmação da viragem em direção aos países mais ricos e mais conservadores do Médio Oriente.

Ir ao teatro em Bruxelas

Bruxelas continua a viver ao ralenti. O choque foi extremamente violento. Recuperar leva algum tempo. Mas os cidadãos têm sabido manter a serenidade.

Ontem, por exemplo, fui ao teatro, como estava previsto há bastante tempo. A sala estava quase cheia, poucos foram os que tiveram receio e preferiram ficar em casa.

Ora, o teatro, uma instituição muito conhecida, com três peças a correrem cada serão, está situado num bairro marcadamente “estrangeiro”, quase inteiramente muçulmano, Saint Josse, para quem conhece Bruxelas.

Uma boa parte dos espectadores são pessoas de “uma certa idade”, gente que já tem muita experiência da reforma, muitos anos de pensionista. Lá estavam, ontem, como das outras vezes. E os mais jovens também.

Eu olhava para aquela grande sala, e pensava na tragédia que seria se alguém resolvesse lançar alguma coisa no meio daquela gente. É difícil não pensar assim. Estamos todos obcecados pelas hipóteses de mais atentados.

Mas, no final, a vida continua e o espectáculo não pode parar.

Esta sim, esta é que é a normalidade. O terrorismo não é nem nunca será a normalidade, nem nova nem velha. É uma aberração de doentes e criminosos.

 

 

 

Bruxelas

De Bruxelas, preocupado mas com calma

Victor Ângelo

 

 

                Esta semana, o meu plano era escrever sobre as ameaças terroristas. Parecia-me lógico, no seguimento das operações policiais de há dias, aqui em Bruxelas, que levaram à detenção do homem mais procurado na Europa, Salah Abdeslam, o bombista de Paris que resolvera não fazer detonar a sua cintura de explosivos. E ainda ontem, no meu programa semanal sobre assuntos europeus, produzido para a Rádio TDM de Macau, tive a oportunidade de referir que seriam de prever novos atentados, nos próximos tempos. Não apenas por causa da captura de Salah, que parece disposto a abrir a boca e a contar umas coisas, que serão certamente de grande interesse para a polícia, mas também porque o famigerado Estado Islâmico está cada vez mais acossado. Quando isso acontece, a sua liderança gosta de lançar a confusão noutras terras, nomeadamente na Europa.

            Não imaginava eu que essa possibilidade de mais atos de terror iria materializar-se tão cedo, ou seja, hoje, ao começo do dia de trabalho nesta cidade que se tornou uma pequena loucura de movimento de gentes e de viaturas nas horas de ponta. O aeroporto nacional, por volta das oito da manhã, de semana, está sempre num rodopio, gente que chega e que sai, muitos em viagens curtas, com regresso ao fim do dia, para ir assistir a uma reunião aqui e acolá. Também o faço muitas vezes. Bruxelas está geograficamente, e não apenas politicamente, no centro da Europa, e o aeroporto é uma placa giratória importante, muita gente jovem e outros no auge da vida ativa a chegar e a partir ao começo do dia.

            Quem decidiu colocar as três bombas no aeroporto, a essa hora, sabia que essa ação teria um efeito máximo. Uma vez mais, o inimigo mostrou capacidade de planeamento e de escolha dos alvos de maior impacto político, mediático e, desta vez, económico.

            E mostrou mais. Ao decidir fazer explodir, uma hora e picos depois, uma outra bomba na estação do metropolitano de Maelbeek, em pleno coração do distrito europeu e numa altura de muita passagem de pessoas, fez-nos lembrar que a união dos europeus, o projeto comum, é um alvo. Enfraquecer a UE, pôr em causa a sua imagem e, acima de tudo, a sua capacidade de resposta em matéria de segurança, interessa a muita gente, e seguramente aos terroristas do Estado Islâmico.

            E alguns idiotas do Brexit também. É verdade e fiquei chocado. Houve logo quem aproveitasse, no Reino Unido, e tentasse tirar partido dos trágicos acontecimentos de Bruxelas para fazer uma vez mais campanha pelo Não, pela saída da UE, dizendo que Bruxelas e a Europa não são terras seguras.

            São, sim senhor. Foi aliás isso que disse a muitos dos meus amigos, espalhados por vários cantos do mundo, que me telefonaram para perguntar se eu estava são e salvo. Estou, sim. Abalado, preocupado, triste perante o sofrimento de tantos, mas determinado e confiante.

            E estaremos todos assim, apesar do terrorismo, se mantivermos um rumo firme na cooperação europeia em matéria de segurança e de política internacional. Há aqui um desafio de liderança, mas é uma batalha que com o tempo pode ser ganha. Nestas coisas, quem perde, mais tarde ou mais cedo, são os terroristas e todos os radicais extremistas e violentos. E seríamos nós, também, se entrássemos em pânico.

 

(Texto que acabo de publicar na Visão on line sobre os dramáticos acontecimentos de hoje em Bruxelas)

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