Ontem ao serão e hoje durante o dia, falei com antigos colegas e outros, espalhados por vários pontos do mundo. Esta é a vantagem da era digital e das aplicações de comunicação entre as pessoas. Fala-se para toda a parte, a custo zero, basta haver internet. Para mim é importante manter o contacto com gentes de outros horizontes, que fui conhecendo ao longo do meu percurso pelo mundo.
Das conversas, saíram três conclusões, partilhadas por todos.
Estamos mais pobres. Nalguns países, a pobreza atingiu níveis que nos fazem lembrar a miséria em que essas populações viviam há trinta e tal anos, na década de 80 do século passado. Noutros, são os esquemas de financiamento do desemprego e do subemprego que disfarçam a coisa. A França, por exemplo, adoptou hoje um sistema de financiamento do desemprego parcial que irá durar dois anos e custará vários milhares de milhões. Ou seja, um mecanismo que esconde a crise e que procura dar uma prancha de salvação às famílias que se encontram perdidas no alto mar de um profundo choque estrutural. Ao aprovar uma duração de dois anos, o governo francês mostrou que isto está para durar.
Estamos mais provincianos. Cada povo fecha-se dentro das suas fronteiras, reais ou imaginárias. Os outros representam uma ameaça de contágio. Não há ligações aéreas ou de outro tipo, só aparecem voos de emergência ou de repatriamento, como a Índia fez este fim de semana, ao fretar, uma vez mais, um avião entre Nairobi e o regresso à terra. Até as rotas de navegação comercial estão ameaçadas, porque as companhias de frete marítimo não conseguem fazer a substituição das tripulações e os navios vão ter que deixar de navegar, por razões de regras, de seguros, que não podem ser renovados se não houver uma tripulação fresca a bordo. Voltámos ao vício dos controlos alfandegários, por tudo e por nada. Os exportadores chineses, por exemplo, têm milhões de pacotes acumulados nas alfândegas nacionais do seu país à espera de ser inspeccionados, uma inspecção sanitária sem critérios definidos mas que justifica todo um novo corpo de inspectores do empata o jogo. Mais perto de nós, ali para os lados da nossa fronteira com a vizinha, temos gente nas aldeias que fica nervosa quando vê um carro espanhol passar.
Estamos a assistir ao estado de coma das instituições internacionais. As Nações Unidas e outros actores globais perderam a voz e a iniciativa. Não há nenhuma tentativa de governação internacional. A um problema que é de todos, global, responde-se com o silêncio das agências da globalidade. Aceita-se o princípio do salve-se quem puder. As missões de paz não recebem direcção política de Nova Iorque e as agências do desenvolvimento, nomeadamente o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), foram enfraquecidas por tudo, por todos e por reformas inspiradas por quem não conhecia o funcionamento do sistema. O Banco Mundial e o FMI também não aparecem na praça pública.
Não quero ver estas conclusões com pessimismo. Mas que são um grande desafio de liderança, isso são.
É fundamental que se saiba para onde se quer ir. Como também é muito importante ter sempre presente qual foi o ponto de partida.
Muitos de nós não temos uma ideia clara sobre o destino, nem mesmo um pouco de discernimento sobre o caminho que será mais apropriado escolher. Vamos andando, ao sabor dos ventos que sopram e das modas que outros inventam. Não temos agenda, temos apenas dias e um bom sopro de vida. Se nos perguntassem como justificamos o oxigénio que respiramos, a nossa pegada ambiental, ficaríamos incomodados com a questão mas incapazes de lhe dar uma resposta coerente.
Também nos esquecemos facilmente do ponto de partida. Ora, existem grandes diferenças entre nós. Há quem tenha nascido no andar de cima, com vista para a praça principal e para as avenidas largas, outros, na cave ou no telheiro. Gosto de perguntar a quem está no poder, seja que poder for, que faziam os seus pais e os seus avós. Uma grande parte dos que estão hoje em lugares cimeiros provêm de círculos sociais elevados. Nunca experimentaram uma situação de inferioridade social, não testemunharam o desespero de quem não se consegue fazer ouvir, não souberam o que é nascer e crescer na pobreza. Por isso, não entendem o que muitos lhes dizem, quando falam das dificuldades da vida.
Esse é um dos problemas do poder.
Por outro lado, convém lembrar que a liderança se aprende com o caminhar, sobretudo se o percurso vier de longe e tenha marcado pontos, deixado bandeiras que mostrem ao vento que passa que houve sucesso.
Ficará para a história que os governos dos países mais desenvolvidos foram apanhados de surpresa pelo novo coronavírus. Para além de outras falhas em equipamentos e materiais sanitários, não havia reservas estratégicas de máscaras, que pudessem ser distribuídas às populações, para evitar a propagação da epidemia. Ora, isso haveria feito toda a diferença. Uma reserva desse tipo teria custado alguns milhões de euros, poucos. Uma ninharia, quando comparada com os custos que agora estão em causa. Por outro lado, não existia capacidade para as produzir em quantidades maciças. Dizia-se que se estava em guerra, mas a economia não foi reorientada para combater essa guerra, ou seja, para produzir de imediato os meios de protecção necessários para evitar a expansão do “inimigo”. Guerras passadas, incluindo a Segunda Grande Guerra, haviam-nos ensinado a mobilizar todos os recursos para o esforço de combate. Esquecemo-nos, entretanto, dessa lição.
Recorreu-se, assim, à velha opção medieval, que era a da quarentena, do recolher obrigatório e do fecho de fronteiras. Exactamente como os nossos antepassados fizeram várias vezes, por não disporem de outros meios. E enquanto se procedia, com unhas e dentes e muitos polícias, a essa medida drástica, não se mexia na indústria, nem na produção das “armas” que este inimigo exigia. Vários países europeus vão sair do período de quarentena timidamente, por saberem que os meios de combate continuam a ser fracos. Prometem, entretanto, injectar na economia somas astronómicas, que ainda não existem e para as quais não se definiram as modalidades de desembolso. Nalguns casos, naqueles em que o dinheiro vai de facto circular, estar-se-á a tapar buracos, mas sem perspectivas de continuidade, sem que esses fundos representem um investimento produtivo.
Ainda não se pode prever qual será a situação dentro de algum tempo. Mas posso dizer que continuaremos com os mesmos políticos, bons palradores mas curtinhos de vistas, que se esqueceram da velha máxima que governar é prever e precaver. E acrescentarei que estaremos mais pobres, sobretudo os que vivem da economia privada, das pequenas empresas, das profissões liberais, dos empregos precários, bem como dos serviços de hotelaria, restauração e turismo, dos transportes e da aviação, da comunicação social e das pequenas lojas de comércio não-alimentar.
A pobreza é má conselheira. E a nova pobreza vai ser certamente aproveitada por todos os extremistas e populistas, para tentarem marcar pontos. Vão jogar com o medo e os traumas que se acrescentarão às dificuldades económicas. E acenar as bandeiras do nacionalismo.
Não se pode confundir realismo com pessimismo. Realismo significa que se compreende bem a situação e o impacto que ela tem nos diversos aspectos da vida. O pessimismo é um sentimento de impotência em relação ao futuro. Não se acredita que existe visão, determinação e genica suficiente para mudar o curso dos eventos. O pessimismo rima com determinismo, fatalismo. Sem uma visão clara, acabamos por ter uma perspectiva confusa das soluções possíveis, andamos à nora no que respeita às prioridades que devem ser atacadas antes de tudo, criamos uma imagem negativa de nós próprios. Perdemos, igualmente, o sentido de urgência. Deixa de haver confiança. Sem confiança, cai-se no pessimismo.
É esse pessimismo que é preciso evitar, neste momento de grande crise. A enormidade da crise pede respostas claras, rápidas e um diálogo permanente com os cidadãos. Não se sai de uma crise destas sem se ter conseguido mobilizar a grande maioria dos cidadãos. A compreensão e a adesão são essenciais. Só se conseguem com diálogo e argumentos convincentes, tendo como pano de fundo um calendário de etapas. Argumentos que demonstrem que há espaço para alterar o destino.
As plataformas sociais, em especial a Twitter, estão cheias de mensagens de ódio contra a Organização Mundial da Saúde (OMS) e também contra Bill Gates. Quem quiser ficar enojado pode fazer um pequeno percurso pela internet. Há lá de tudo sobre estes dois assuntos.
No que respeita à OMS, a “licença para matar” veio do Presidente norte-americano. Donald Trump viu nas hesitações da OMS uma oportunidade para atacar a China, que é um tema que dá dividendos em várias partes do mundo, sobretudo junto dos cidadãos americanos mal informados e ultranacionalistas. Atacar a ONU também possibilita angariar alguns votos, satisfazer as fobias de algumas secções da opinião pública, mas é sobretudo a China que é vista como a rival por excelência dos Estados Unidos. Por outro lado, apontar o dedo na direcção da OMS desvia as atenções, cria uma nuvem que esconde a incompetência e a confusão que têm marcado a maneira de agir de Donald Trump.
Bill Gates é um alvo habitual de críticas por duas razões principais: por ser um bilionário de grande porte e inteligente. A verdade é que se trata de uma pessoa com uma visão muito ampla e com uma faculdade fora de série de antecipação dos problemas futuros. Os curtinhos da cabeça têm dificuldades em aceitar pessoas assim. Através da sua fundação, Gates é hoje um dos principais financiadores filantrópicos na área da pesquisa médica. Está, neste momento, a contribuir financeiramente para que os melhores cérebros científicos possam avançar na investigação de uma vacina contra a covid-19. Fá-lo de modo global, não se limitando aos laboratórios americanos apenas. A sua atitude contrasta com a maneira de agir do Presidente. Está à vontade, fala com serenidade e profundidade, olha para cada questão sob vários ângulos. Tudo isso acaba por sublinhar e pôr em evidência a pequenez de Donald Trump.
O que eu peço aos meus amigos é que não caiam nas armadilhas que por ainda estão montadas, contra a OMS, contra a filantropia e os visionários.
Neste primeiro sábado de abril de um ano tão estranho, que relevância tem tudo o que não seja sobre o tema da pandemia? Quem consegue falar de algo mais? Mas é bom pôr os olhos noutros factos que entretanto vão acontecendo. Por exemplo, o Partido Trabalhista britânico elegeu hoje uma nova direcção. Menos radical que a precedente, mais pragmática e bem mais jovem. Keir Starmer, o novo líder, tem 57 anos. Vem da área da justiça, do lado da procuradoria, da acusação pública. Tem uma excelente presença, sai bem na fotografia. A vice-líder, Angela Rayner, tem apenas 40 anos. Não concluiu o ensino secundário mas teve um percurso sindical visível. Ambos foram eleitos por mérito próprio, em listas distintas. Vão ter que enfrentar Boris Johnson, o que não vai ser uma tarefa fácil, tendo em conta o apoio que o Primeiro Ministro tem no Parlamento. O trunfo mais importante que esta nova liderança tem é o de projectarem uma imagem de equilíbrio, de estabilidade, de gente que leva o seu papel político a sério.
O medo sempre foi mau conselheiro. Leva-nos a fazer disparates, a acreditar em burrices, e maluquices, e a entrar em pânico. O dirigente político que usa o medo como alavanca, das duas, uma: ou é curtinho da cabeça ou demagogo. Nalguns casos, será ambas as coisas.
Numa crise grave, o papel do líder passa por manter a calma e conseguir o empenho de todos, cada um à sua maneira e como pode, na resolução do problema. Liderar é saber unir os esforços e criar esperança.
Continuamos num período de grandes incertezas. Num tempo assim, é fundamental não sair do porto de abrigo, manter a calma e agir segundo as regras que tenham sido estabelecidas. A serenidade, a consideração pela comunidade a que pertencemos e o civismo são fundamentais. Isto, no que respeita a cada cidadão.
Aos políticos, cabe atenuar as incertezas. Intervir de modo profundo, saber explicar as razões dessas medidas e dar sentido ao caminho que está à frente dos cidadãos.
Todas as tempestades acabam por perder a força destruidora. O importante é conseguir, durante a passagem da espiral de crise, limitar os prejuízos. E, depois, pôr à disposição da economia os meios necessários para acelerar a recuperação.
Um partido – ou um dirigente político – precisa de ter um slogan curto, que lhe dê identidade, que mostre um objectivo central, que seja fácil de entender e de repetir. Assim se ganham eleições. Donald Trump, com o seu “Make America Great Again”, é um exemplo vivo do que pretendo dizer. Boris Johnson, com “Get Brexit Done”, três palavras apenas, é outro exemplo. Como o havia sido o Presidente Obama, com “Yes, We Can!”. Angela Merkel usou uma frase semelhante à de Obama: "Wir schaffen das", ou seja, “Podemos tratar disto”, quando se referia à crise migratória de 2015. Xi Jinping lançou e repete a frase sobre a Nova Rota da Seda: “One Belt, One Road”. Vladimir Putin quer que o identifiquem com o renascimento de uma Rússia forte e respeitada internacionalmente.
Estes são apenas uns exemplos. Mas que nos deveriam fazer pensar, incluindo na “loiça política” cá de casa. Qual é a frase que define o PS? Ou o PSD, que agora está em congresso? E mais…
A política é, antes de tudo, uma bandeira. Tem que estar bem definida. E deve ter um porta-estandarte credível. Essa é a combinação vencedora.
A radicalização de posições faz mal à política. Um país, Portugal, por exemplo, tem sempre um tecido social diverso, por muito forte que seja a identidade nacional. Aliás, o próprio conceito de identidade nacional, em vários dos Estados da Europa Ocidental, é cada vez mais difícil de definir. Voltarei a essa reflexão um destes dias. Agora, concentro-me na diversidade de interesses e de opiniões que existe em cada sociedade. E que deve ser respeitada.
O papel dos actores políticos só pode ser o de tentar encontrar áreas de entendimento entre os diferentes segmentos da sociedade. Nenhum país medra se passa o tempo em guerra civil consigo próprio. Apostar na divisão e no ataque sistemático contra os que pensam de outra maneira é má política, é coisa do passado. Liderar é saber construir consensos, erguer as bandeiras que contam para a maioria e ter a coragem de propor plataformas abrangentes. Liderar é unir e garantir o progresso colectivo.
Este blog não se cansará de repetir a mensagem da convergência. Como também não deixará de criticar os radicais que andam nas praças públicas e que se acham senhores da verdade. Infelizmente, temos uma boa colecção deles. E vemos, com preocupação, que fazem mais ruído e captam mais atenção do que lhes seria devido. Mas não há razões para hesitar nem para que nos deixemos atemorizar.
Um radical é um simples de espírito, uma pessoa de uma ideia só. Não creio que seja difícil demonstrar que essa simplificação do argumento não é resposta que se possa aceitar.