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Vistas largas

Crescemos quando abrimos horizontes

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Crescemos quando abrimos horizontes

Quando se erra, deve-se corrigir o erro

https://www.dn.pt/opiniao/a-lituania-e-borrell-erraram-devem-emendar-a-mao-14962082.html

Este é o link para o meu texto de hoje no Diário de Notícias. Despertou muito interesse. 

Cito de seguida umas linhas desse texto.

"Para mais, tudo isto tem uma conotação política muito delicada. Abre-se, deste modo, uma nova frente de confrontação direta entre a UE e a Rússia. Particularmente perigosa e que nos distrai da preocupação fundamental, urgente e prioritária, que é a de concentrar todas as energias no apoio à Ucrânia e aos seus esforços de legítima defesa. É perigosa porque oferece à Rússia um pretexto fácil de explorar para uma investida muito forte contra a Lituânia, um país membro da NATO. Ora, a Lituânia, tal como os seus dois vizinhos mais a norte, a Letónia e a Estónia, é muito difícil de defender. Vários exercícios estratégicos, simulados ao mais alto nível de comando da NATO - tive a oportunidade de participar em alguns - mostraram repetidamente a fragilidade extrema de qualquer um desses três países, no caso de uma intervenção militar hostil vinda da vizinhança. São territórios pequenos, sem profundidade estratégica, fáceis de ocupar. Abrimos, assim, um conflito num ponto fraco do nosso espaço de defesa. Não é certamente uma decisão estratégica inteligente, menos ainda sensata. Mais, não havia necessidade."

Kaliningrado: um erro europeu

A interdição imposta pela Lituânia contra o trânsito através do seu território, por via-férrea, de certos bens pertencentes à Rússia e que estão na lista de sanções da UE, é muito grave. E é um erro que pode provocar uma confrontação entre a Rússia e um país membro da NATO.

Os bens estão a circular entre partes da Rússia – a passagem pela Lituânia faz-se por um corredor especial, estabelecido para o efeito – e não devem ser considerados como exportações ou importações do Oblast de Kaliningrado. São transferências domésticas.

Josep Borrell considera que a Lituânia tem razão. Eu considero que não. E mais. Isto deixa-me muito preocupado.

Isto das culpas

Isto de andar a pôr a culpa nos outros é uma velha artimanha política. Trata-se da táctica do bode expiatório. Também é uma solução de facilidade para o comum dos mortais, a condição a que pertencemos. Simplifica-nos a alma, é uma terapia barata.

Um dos exemplos actuais, aqui pelas nossas santas terrinhas, passa por culpar os alemães de tudo o que nos acontece de mal, de todas as nossas dificuldades. E pomos à cabeça a Chanceler. Logo a seguir o seu pouco diplomático Ministro das Finanças. A nossa economia não cresce, as culpas encontram-se nas políticas alemãs. Temos um Estado insuficiente e ineficaz, inutilmente burocrático e pesado nos seus custos, endividado por isso até ao tutano, incrimina-se os germânicos. As taxas de juro da dívida pública são as segundas mais elevadas da zona euro, e a falta é deles, dos do lado de lá.

E já agora também será por causa dessa mesma gente de fora que o PIB da Lituânia, um país minúsculo e recuado, está este ano a ultrapassar o de Portugal.

Por vezes tento convencer os meus amigos que é preciso olhar para a deficiente qualidade dos nossos dirigentes políticos, para a pequenez dos nossos empresários, para a mediocridade da nossa elite social que se habituou a viver de rendas e de cunhas. E para outras gentes que por aí andam, incluindo as redes secretas que dão o primado à confraria em vez do mérito.

Fico, então, com a impressão que estou a perder o meu latim…

Mesmo assim, vou insistindo de vez em quando, com cuidado, que isto é terreno fértil em mal-entendidos. Mas não irei falar com os alemães. Esta conversa é uma discussão que tem que ser, acima de tudo, nacional, entre nós.

A Grécia e os outros

Eis-me de volta, depois de uma longa viagem. E volto a tempo de escrever, como o fiz esta tarde, sobre a actualidade grega. Uma actualidade sem grandes esperanças para os gregos.

As coisas estão complicadas na Europa e esta não é certamente a altura ideal para pedir aos outros empréstimos sem contrapartidas muito sérias. Ainda hoje lembrava, no meu comentário semanal para a Rádio TDM de Macau, que uma mulher de limpeza na função pública grega ganha 600 euros mensais e um professor de universidade aufere, no serviço público da Lituânia, cerca de metade dessa verba. É verdade que a Lituânia só entrou para a zona euro este ano, mas se houver uma nova ajuda terá que contribuir para o programa grego. Compreender-se-á, então, que as autoridades de Vilnius queiram ver nesse programa medidas de recuperação económica bem concretas.

E a Lituânia é apenas um exemplo.  

Mais uma reflexão sobre a política de Putine

Transcrevo abaixo o texto que hoje publico na Visão impressa.

Boa leitura.

 

O póquer de Putine é uma distração perigosa

Victor Ângelo

 

 

Gostaria de resumir as semanas que acabo de passar em Riga com uma metáfora. Putine está a jogar póquer, forte e feio, e nós, no lado ocidental da Europa, achamos que se trata apenas de uma partida de bisca lambida. Neste jogo, cheio de incertezas, é preciso saber como lhe parar a mão. Foi essa a principal preocupação que encontrei nos países bálticos. Existe um novo receio em relação à Rússia, maior que no passado recente. A Estónia, a Letónia e a Lituânia sentem-se ameaçadas. Não apenas em virtude do que tem acontecido na Ucrânia. Os incidentes com a força aérea russa, nomeadamente as incursões no espaço báltico e os voos de caças com os sistemas de identificação desligados, têm sido frequentes este ano, como se Moscovo estivesse a testar a capacidade de reação do adversário. Para mais, sabe-se que Putine ordenou que fossem levados a cabo uma série de exercícios militares de envergadura e que multiplicou a capacidade combinada das suas forças, em regiões de fronteira com aquela nossa parte da Europa.

Ninguém tem uma bola de cristal que permita prever o futuro. À partida, nestas coisas, não se pode ser alarmista. Mas também não é bom andar a dormir na forma. Há que reconhecer que o paradigma das relações entre a UE e a Rússia precisa de ser revisto. A resposta à postura de Putine deve ser multidimensional. Tem que ser apropriada, clara e firme. Acima de tudo, prudente. A prudência passa por saber ver os riscos possíveis, preparar as medidas de contenção necessárias e não ter medo de agir.

Para começar, é importante recordar que a paz e a prosperidade de ambos os lados da Europa têm assentado e devem continuar alicerçadas no respeito pelas normas e os acordos internacionais e por relações económicas estáveis. A Rússia, que exporta anualmente mais de 100 mil milhões de euros de gás e petróleo para consumo na UE, está tão dependente de nós como nós estamos dela. Somos parceiros comerciais de monta. A interdependência económica deve ser acompanhada pela cooperação política. Há aqui um equilíbrio entre princípios e interesses que é mutuamente necessário e vantajoso.

Por outro lado, há que ter em conta que os países bálticos são membros da OTAN. Serão os estados mais expostos, pela sua proximidade geográfica, mas a sua defesa é fundamental, não só para os seus povos, como também para a credibilidade da Aliança Atlântica. Putine poderá pensar, como alguns dos seus conselheiros de geoestratégia imaginam, que em caso de intervenção russa numa área limitada dos bálticos, por um qualquer motivo, a OTAN ficaria paralisada por falta de consenso interno e acabaria por engolir uma situação do tipo da Crimeia. Poderia mesmo vir a desintegrar-se enquanto estrutura comum de defesa. Essa maneira de imaginar a resposta aliada parece-me irrealista. A recente visita de Obama a Tallinn serviu precisamente para mostrar que um passo agressivo, para além da linha de fronteira, provocaria, do lado da OTAN, uma resposta à medida.

Penso que ninguém de bom senso quer uma confrontação bélica no nordeste da Europa. Se isso viesse a acontecer, teria consequências imprevisíveis. Não há, nesta parte do mundo, possibilidade de circunscrever um conflito militar a uma pequena zona bem determinada. Qualquer choque armado levaria a uma catástrofe inimaginável.

Perante isto, o que se pede a todos os líderes, de Moscovo a Bruxelas, de um lado e do outro, passando por Washington, é que tenham juízo e coragem. Há outros desafios comuns bem mais importantes.

 

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