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Vistas largas

Crescemos quando abrimos horizontes

Vistas largas

Crescemos quando abrimos horizontes

As locuras a que nos vamos habituando

Não será por causa do frio que andamos um bocado loucos. Ao ouvir certos nomes serem propostos como possíveis candidatos às próximas presidenciais, penso que os nossos desvarios em matéria política não podem ser atribuídos ao estado do tempo. Há mesmo um problema estrutural de insanidade. Pelo menos, em certas cabeças conhecidas do público.

Quando disse isto, esta tarde, alguém me respondeu que se trataria de puro e simples oportunismo, de lançar nomes para agradar a certos círculos e dar azo a umas linhas nos jornais. Respondi que não será bem assim. Para mim, é um problema de insanidade individual e colectiva, muito para além da falta de bom senso e da procura de protagonismo.

É verdade que qualquer cidadão pode ser candidato, se cumprir os requisitos mínimos que a Constituição estabelece. Mas falar em certos nomes, que Deus me livre, diria o ateu.  

 

A minha normalidade e os outros

Hoje estava um dia feio, cinzento, um céu muito fechado e a ameaçar chuva. Fiz a minha caminhada no parque, como de costume e apercebi-me que era a única pessoa normal que por ali andava. Os outros, a começar pela minha mulher, estava todos com abafos e anoraques. Eu, com um pólo de manga curta e pouco mais. Roupa de fins de maio, que aí estamos. E senti-me bem, por ver que ainda havia uma pessoa com juízo nesta terra: este vosso amigo!

Política à moda da casa

Os nossos políticos são formidáveis. E muito criativos. Passam o tempo a discutir coisas de grande importância para a criação de riqueza nacional e de empregos. Agora, por exemplo, é a questão da eutanásia e das mudanças relativas à aquisição da nacionalidade. Como dizia o outro, deve ser aí que está o bife.

Atropelamentos com conversa tola

Hoje apareceram por aí uns dados da GNR sobre atropelamentos nas passadeiras e mais outras coisas.

Em matéria de trânsito e acidentes, os atropelamentos nas passadeiras são um verdadeiro problema nacional, tenho-o dito várias vezes. Infelizmente, os comentários de hoje sobre o assunto não ajudam. Disse-se e os jornais repetiram, com a preguiça intelectual do costume, que a maioria das vítimas estava vestida com roupas escuras. Isso explicaria a sua má sorte e acabaria por colocar as culpas nos atropelados.

É um erro. Mata-se e fere-se gente portuguesa nas passadeiras por excesso de velocidade, por falta de cuidado, cabeça e de civismo de quem anda ao volante, e também porque a justiça é lenta, ineficiente até dizer já chega e leve na punição dos criminosos.

Essas sim, essas são as razões.

O resto é conversa de tolos.

Digressões algarvias

Estou há cerca de uma semana no coração de Vilamoura. Sem sair muito da casa onde passo duas semanas de férias, fico com a impressão de estar num outro país. As ruas e as vivendas desta zona têm muito pouco que ver com o resto do Algarve. A própria marina de Vilamoura é um mundo à parte. Só lá fui uma vez, há uns dias, e ficou claro que por ali há dinheiro e gente de fora.

 

Felizmente que as poucas excursões que até agora fiz fora desta área me levaram, de cada vez, ao mercado da Quarteira. A Quarteira está pegada a Vilamoura, do mesmo modo que a noite se segue ao dia. O mercado é, no entanto, uma experiência agradável. Ir às compras é voltar a um Portugal descontraído e simples, ao peixe fresco, caro, e às hortaliças e frutas, em conta.

 

Esse Portugal é bem melhor do que o outro que permite a dois ex-administradores, que de um modo ou de outro, tiveram a responsabilidade de levar o BES à ruína, voltar agora a prestar serviços no Novo Banco. O banco pode ser novo, mas as manhas ou as incompetências desses senhores são velhas e conhecidas. A sua nomeação não deveria fazer parte do Portugal de hoje. Mas faz. O que não augura um futuro brilhante para a equipa de Vítor Bento.

São sinais destes que mostram qual poderá ser o futuro.

 

 

Somos o nosso pior inimigo

Equacionar a saída do Euro é como dizer aos potenciais investidores estrangeiros, de que o país tanto precisa, e aos emigrantes portugueses, que não é prudente investir dinheiro em Portugal, neste momento. Apresentá-la como uma inevitabilidade, equivale a um tiro no pé. Dizer que traria a independência económica é esquecer a miséria que havia quando estávamos orgulhosamente sós. 

Aqui há pardal!

Dizem-me que, num país em crise profunda, os deputados se entretiveram a votar uma recomendação sobre a grelha de programas da TV pública. Parece que aconselharam o governo a incluir no canal televisivo oficial uma série semanal sobre batatas e cebolas, couves-galegas e animais de capoeira, e por aí fora, tudo numa perspectiva indefinida e abstracta de uma TV Rural. 

 

A razão deve ser, imagina-se, porque muitos dos habitantes desse país distante estão a voltar a viver ao nível de uma economia de subsistência. Sem contar, claro, que este tipo de resoluções mantém os deputados entretidos, sem que ninguém se lembre de os mandar às favas. 

As fábricas de produzir vacuidade

No dia de uma nova manifestação de professores, lembrei-me que um lente da Universidade de Évora me disse, esta semana, que a maioria dos seus alunos escreve em português com erros atrás de erros e que, após ler umas linhas de um texto, é incapaz de explicar o que leu. Respondi que assim não se constrói futuro algum. O título universitário, uma vez obtido, corresponde a um diploma desvalorizado e incapaz de competir na praça global. 

 

A única vantagem de produzir diplomados assim é a de aumentar o número dos que se opõem à globalização...

De meter dó

Ontem fui jantar às docas de Alcântara. Os restaurantes estavam vazios. Todos. E não havia ninguém a passear no cais. Os arrumadores estavam desesperados. Só a noite estava amena. 

 

Antes, havia lido e seguido o congresso do PCP. Toda aquela conversa com chavões que nada significam, uma linguagem que não mobiliza ninguém para além dos convertidos, o discurso sobre um governo "alternativo" sem o PS e BE, um choramingar sobre a queda dos regimes da Europa do Leste, que eram contra a natureza humana, e que levaram um lindo enterro, e pensei, isto é gente boa mas fora do seu tempo, presa a um passado que já não existe, a sonhar com o fracasso do que já foi à falência, que pena.

 

Para um Primeiro de Dezembro, que é um dia dos saudosistas e dos absurdos de outrora, foi uma viagem ao mundo das ilusões, genuínas, mas sem sentido.

 

E disse, Viva o Futuro!

Nauru e a Ilha Terceira

Creio não errar se pensar que nenhum dos meus leitores habituais esteve alguma vez na vida em Nauru. Diria mesmo que muitos nem localizar esse país no mapa do mundo o conseguirão fazer.

 

Lembrei-me de Nauru depois de ler um artigo palerma num diário de referência de Lisboa. Na verdade, o Público de hoje insinuava que os Chineses talvez estejam interessados na base das Lajes, agora que os Americanos estão decididos a reduzir a sua presença militar na Ilha Terceira.  A peça é tão simplória que nem entende duas coisas portanto claras: primeiro, os Estados Unidos não vão largar as Lajes; vão reduzi-la à expressão mínima, mas guardando o controlo; é que estas coisas, uma vez obtidas, não se deitam fora; segundo, os nossos aliados americanos nunca permitirão que Portugal dê facilidades militares de envergadura à China; seria um absurdo, tendo em conta que os Chineses aparecem, na nova visão estratégica americana, como o adversário principal.

 

Agora que há Chineses por toda a parte, isso sim, é verdade. Não se ocuparão dos negócios que o Público sugere, mas andam a fazer pela vida.

 

Veja-se o caso de Nauru. Um país independente situado no Pacífico, a várias horas de voo de Brisbane, na Austrália. População, menos de 10 000 habitantes. Área, quatro vezes menos do que a do concelho de Cascais. Principal fonte de rendimentos, para além da ajuda australiana: a renda paga por Canberra para manter na ilha um centro de detenção de imigrantes ilegais, que foram apanhados a tentar entrar na Austrália, e que são, de seguida enviados para a prisão estabelecida em Nauru, para processamento pelas autoridades de imigração australianas. 400 prisioneiros, actualmente. Diz a Amnistia Internacional, que visitou o centro recentemente, que as condições do centro não respeitam as regras básicas de uma prisão nem os direitos humanos dos internados.

 

Uma amiga minha acaba de visitar Nauru, em missão oficial. Procurou, no primeiro dia, sítio onde pudesse comer uma refeição que não fosse “indígena”. E acabou por encontrar o único sítio de “fast food” do país, propriedade de um imigrante vindo da China há meia dúzia de anos. Surpresa, que surpresa. Admirada, perguntou-lhe como fora ali parar, a um sítio que não lembra a ninguém. Respondeu que, tendo a China 1,3 mil milhões de habitantes a competir entre si, uma das vias possíveis para quem quer sair da cepa torta é a emigração. E assim acabou por viajar para Nauru, ao acaso das rotas disponíveis...

 

Talvez dentro de algum tempo um jornal de referência de Portugal nos venha narrar que um imigrante chinês abriu um “fast food “ às portas da base das Lajes…Os poucos militares americanos que continuarem nos Açores serão clientes assíduos…Estou certo.

 

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