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Crescemos quando abrimos horizontes

11
Jan 20

Ao longo do dia, muito se tem dito sobre o avião ucraniano que foi abatido pelas Forças Armadas do Irão. Quero apenas acrescentar duas observações.

A primeira, para sublinhar que o erro cometido mostrou, novamente, que existe uma oposição interna muito corajosa. Esteve na rua hoje, para pedir a demissão do líder religioso do Irão, o Aiatolá Ali Khamenei, e de outros dirigentes. Tais manifestações, num regime totalitário como o que esse país sofre, exigem de quem nelas participa uma coragem à prova de bala.

A segunda nota é sobre a colheita de informações. O disparo contra o voo comercial foi captado em vídeo pelos serviços secretos dos Estados Unidos. Isto lembra-nos que Washington tem uma capacidade ímpar, quando se trata de espiar um outro país. Mesmo um país como o Irão, que investe de maneira excepcional na protecção das suas informações de segurança.

 

 

publicado por victorangelo às 20:13

07
Jan 20

Escrevo no blog irmão deste, no que é produzido em língua inglesa, sobre o que penso poder ser a resposta iraniana ao assassinato do General Qassem Soleimani. A minha leitura do que vou sabendo diz-me que a opção preferida pelos iranianos seria a antiga prática de um olho por um olho. Ou seja, uma acção, que seria levada a cabo por um grupo exterior ao Irão, mas afiliado à máquina externa iraniana, e que visaria uma alta personalidade americana.

Claro que essa decisão seria um erro muito sério. Levaria, de imediato, a uma retaliação massiva e convencional, por parte dos americanos. Os Estados Unidos estão preparados para esse tipo de represália. Abriria, assim, as portas a uma crise de grandes proporções.

Tem que se evitar uma situação deste género. No blog, sugiro que a liderança europeia se engaje sem demoras num processo de aproximação entre as duas partes. Charles Michel poderia tentar fazê-lo, Ou Angela Merkel.

Esse processo faria, de imediato, baixar a tensão que tem estado a aumentar. E teria hipóteses, desde que permitisse a ambos os lados uma saída sem humilhação. Deve ser tentado sem mais demoras.

publicado por victorangelo às 22:40

05
Jan 20

Na sequência dos recentes acontecimentos, chegamos ao fim do dia de hoje, domingo, vendo o Iraque ainda mais fracturado, entre Xiitas, Sunitas e Curdos, em crise profunda, política, securitária e económica. Isto, só por si, não augura nada de bom. E se for visto no contexto regional, é ainda muito pior.

publicado por victorangelo às 20:21

04
Jan 20

O meu amigo A. é visceralmente anti-americano. Todas as suas análises dos factos correntes assentam nesse sentimento, desde que hajam americanos metidos ao barulho. E as suas entranhas ainda ficam mais vulcânicas se a notícia tiver que ver com o Presidente Donald Trump.

Assim, os seus comentários sobre o assassinato do general iraniano Qassem Soleimani – um assunto sobre o qual escrevi longamente – eram previsíveis. Demoliam, forte e feio, o Presidente dos Estados Unidos. E davam os líderes iranianos como os bons da fita. Ou, menos menos, não havia uma sombra de uma crítica sobre eles.

Eu também não estou de acordo com a decisão tomada por Donald Trump. O meu texto de ontem menciona as principais razões, que são de ordem política e moral. E chamo a atenção para os riscos de agravamento dos conflitos numa região do globo que já está em crise profunda, com várias populações a sofrerem as maiores tragédias há anos. Toda e qualquer acção que leve a uma escalada da miséria e dos confrontos existentes só pode ser condenada. Sem equívocos.

Mas também é de condenar o regime que o Gen. Soleimani defendia. O Irão é um inferno político gerido em nome de Deus. É uma ditadura de religiosos com ideias dos tempos das ténebras, sem qualquer tipo de espaço para a liberdade e para os direitos humanos. É uma aberração histórica, vizinho de outros desvarios semelhantes e de inspiração semelhante, como por exemplo, a Arábia Saudita. O meu amigo A. não conseguiria respirar qualquer pontinha de democracia no Irão. Nem seria aceite, por ser visto ou como cristão ou como ateu, duas condições inaceitáveis nas terras dos religiosos do fanatismo.

Perante isto, que fazer, que papel poderemos desempenhar, enquanto europeus?

Modestamente, aqui ficam duas ideias.

Por um lado, procurar atenuar o confronto entre os Estados Unidos e o Irão, bem com os conflitos entre este último e os seus vizinhos sunitas. A mediação é a via. É isso que a França, em ligação com o Japão, têm tentado fazer, de modo confidencial, nos últimos meses. Não se fala no assunto, os contactos têm sido altamente secretos, mas existe uma tentativa de mediação. É evidente que esse processo ficou seriamente afectado com a decisão de matar, tomada pelo Presidente americano. Também é verdade que Donald Trump não acredita nas possibilidades de êxito dessa iniciativa. Na sua maneira de ver, a força é quem mais ordena. Mas as mediações são assim, têm primeiro que ganhar a confiança das partes. Mediar exige que se tenha a paciência de caminhar num labirinto.

Por outro lado, cabe-nos continuar a falar de democracia, do direito das populações em decidir que regime e dirigentes políticos querem, insistir na liberdade e na tolerância religiosas, enfim, nos valores que definem o mundo deste tempo que é o nosso. Temos, porém, que o fazer com coerência, evitando a duplicidade que tantas vezes nos caracteriza.

 

 

publicado por victorangelo às 14:28

03
Jan 20

A decisão de autorizar o ataque mortífero contra o General Qassem Soleimani levanta muitas questões e abre a porta a um bom número de incertezas. Na minha opinião, foi tomada no seguimento de dois acontecimentos que a Administração americana considerou como especialmente marcantes.

Um, foi o ataque, por manifestantes próximos das milícias que o Irão apoia no Iraque, contra a embaixada dos Estados Unidos em Bagdade. Nos círculos dirigentes, em Washington, esse incidente é visto como muito sério, para além de lembrar o que aconteceu em Teerão há quarenta anos. Para a liderança americana, a investida contra a embaixada é algo que não pode ficar sem resposta.

O outro acontecimento foi o exercício militar naval que o Irão levou a cabo, há uma semana, em conjunto com a China e a Rússia. A actual Administração americana não queria que qualquer desses três países pensasse que essas manobras marítimas teriam qualquer possibilidade de a intimidar ou diminuir o seu espírito de resolução. E essa determinação e firmeza tinham que ser demonstradas sem margem para equívocos.

Ao decidir, o Presidente Trump também deve ter pensado no impacto que essa acção de força teria no seu eleitorado. Estamos num ano político decisivo para ele. Precisa de mostrar que não hesita, nem tem estados de alma, quando se trata daqueles que são apresentados como os inimigos dos Estados Unidos.

Mas temos aqui vários problemas.

Um deles, é que actuar para mostrar força, na base do princípio do olho por olho, dente por dente, é inaceitável. Abre as portas à violência e deita para o lixo certas normas básicas das relações entre os Estados. É um retrocesso histórico. Não se pode construir a paz com base na retaliação. A comunidade internacional tem outros mecanismos para tratar dos conflitos e para fazer reflectir os governos que não obedecem às regras estabelecidas.

Outro, é que este tipo de decisões não pode ser tomado sem se medirem todas as consequências que poderão ocorrer em seguida. A análise que faço das declarações de Mike Pompeo é que essas consequências não foram tidas em conta. O Secretário de Estado (Ministro) fala agora de baixar a tensão na região, após um acto que leva inevitavelmente a uma escalada. Parece aquele vizinho que passa a noite com a música aos berros e na manhã seguinte me diz nas escadas que estamos todos a precisar de repouso e tranquilidade.  

Um terceiro aspecto, tem que ver com a legalidade e a moralidade deste tipo de acções. Este é um assunto que não pode ser ignorado. A própria guerra tem as suas regras. Vários académicos se têm debruçado sobre a questão. E a opinião maioritária vai no sentido contrário ao que agora aconteceu.

Como também não se pode ignorar a discussão sobre a doutrina militar que está por detrás da chamada “decapitação” dos movimentos hostis. Não me vou alongar sobre esse tema, mas a verdade é que a validade da teoria que advoga a eliminação dos líderes como maneira de solucionar um conflito tem muito que se lhe diga. Muitas vezes, o líder morto é substituído ou por outro ainda mais radical ou então pela fragmentação do movimento e um novo nível de perigosidade, amorfa e mais difícil de combater.

Ao fim e ao cabo, tudo isto é bem mais complexo do que muitos nos querem fazer crer. E essa complexidade aumenta exponencialmente quando um personagem como Qassem Soleimani é assassinado por um grande Estado ocidental.

 

 

publicado por victorangelo às 19:25

24
Nov 19

Com a cimeira de Londres à porta, a 3 e 4 de dezembro, tem-se escrito e falado um pouco mais sobre a NATO. Pena é que o debate, entre nós, tenha muita parra e pouca uva. Enchem-se colunas a repetir factos conhecidos, mas há uma carência evidente, quando se trata de questionar as nossas mentes sobre as dimensões estratégicas e os cenários prováveis, neste início da terceira década do Século XXI, em matéria de defesa do nosso espaço geopolítico. Sobretudo, quando se pensa na Europa Ocidental, um espaço que abarca, no essencial, as questões de defesa mútua dos países da UE.

A indefinição começa com a nossa incapacidade para chegar a um acordo sobre quais são as ameaças vitais que devem merecer uma atenção prioritária. A Aliança só faz sentido se houver um entendimento sobre o grau de perigo e de probabilidade dessas ameaças, bem como sobre a maneira de se precaver ou de lhes responder. Mais ainda, é necessário voltar ao conceito de respostas integradas, uma maneira multifacetada de responder a ameaças que há muito que deixaram de ser apenas convencionais. Pensar apenas em termos militares quando os ataques podem ser multidimensionais, e resultar de uma combinação de instrumentos de poder, é um erro. Procurou-se corrigir esse erro no início desta década. Estive ligado a esse processo durante vários anos. Vi, com o tempo, que os promotores de uma visão integrada da defesa foram cedendo terreno. Hoje, posso dizer que perderam essa batalha. Ganharam, de novo, os generais da velha escola, sobretudo os que tinham ligações mais íntimas com a velha tradição prussiana de ver a resolução dos conflitos. E tudo isto à margem da intervenção dos políticos, que, em matéria de defesa comum, só sabem cantar as velhas canções de um coro de outrora.

Aliás, um dos problemas mais sérios é o da falta de direcção política. É por aí que o Presidente Macron, Annegret Kramp-Karrenbauer e outros deveriam iniciar a reforma que tanta falta faz. Também é por aí que se deve entrar no debate que queremos fazer.

 

publicado por victorangelo às 19:54

31
Out 19

O grupo terrorista Estado Islâmico anunciou hoje o nome do seu novo “Califa”, bem como do novo porta-voz. Não sabemos ainda quem se esconde por detrás dos nomes anunciados, quem são de facto essas pessoas. O tempo dirá.

Mas haverá duas verdades que convirá ter em conta.

Por um lado, nos últimos meses, muitos dos seus principais líderes foram eliminados. Chama-se a isso “decapitar” a organização, destruir o seu núcleo dirigente. O impacto dessas acções de decapitação é difícil de medir. Existem várias dissertações sobre o assunto, com conclusões divergentes. Apesar disso, deve reconhecer-se que a morte desses dirigentes deve ter abalado profundamente a organização, sobretudo nesta fase de acumulação de derrotas. Creio poder dizer, sem grandes hesitações, que a estrutura existente na Síria e na fronteira com o Iraque está bastante esfarrapada.

A outra dimensão tem que ver como as ameaças futuras. Seria um erro pensar que, depois de todos estes assassinatos, a organização deixou de ter capacidade para planear e levar a cabo atentados terroristas. O perigo continua a existir, na Síria, à volta da Síria e para além da região. Existem células clandestinas e existe um meio social e político propício a este tipo de radicalismo extremamente violento, vingativo e fanático. Por isso, a luta contra o Estado Islâmico não pode, de modo algum, ser dada como ganha.

E aqui convém lembrar que os aliados mais efectivos na prossecução desse combate são os combatentes curdos na Síria. A Europa, e não só, tem que mostrar que é fiel à aliança que precisa de manter com essas milícias curdas.

 

publicado por victorangelo às 20:12

25
Set 19

O Irão: que estratégia?

Victor Ângelo

 

 

Os ataques recentes, com drones e mísseis, contra as instalações petrolíferas sauditas continuam a ser uma das grandes preocupações internacionais. Sobretudo agora, quando os líderes da maioria dos países membros da ONU convergem para Nova Iorque, para participar na abertura da Assembleia Geral deste ano. A gravidade do que aconteceu e o impacto que esses actos de guerra possam ter, no despoletar das tensões à volta do Irão e da região, não podem ser ignorados.

Para além de muitas outras, nomeadamente sobre a eficácia dos sistemas de defesa da Arábia Saudita – um país que, em 2018, gastou 70 mil milhões de dólares americanos na compra de novos armamentos – há uma grande questão, que tem ocupado os mais diversos analistas. Trata-se de tentar perceber o que está por detrás desses actos, ou seja, qual é a jogada estratégica que o Irão está a seguir. Esta pergunta assenta no pressuposto, como é óbvio, que os dirigentes iranianos estarão na origem do que aconteceu. É uma hipótese plausível, se se tiver em conta o nível de complexidade técnica que os ataques exigiram e se se proceder a uma reflexão sobre os países e actores político-militares que, na região, podem dispor desse tipo de sofisticação.

A verdade é que o Irão e os rebeldes Houthis, no Iémen, estão em sintonia e coordenam as suas intervenções, incluindo as iniciativas diplomáticas. Por isso, de imediato, após os ataques, o porta-voz dos Houthis veio à praça pública para os reivindicar. A pressa poderá ter várias justificações, mas uma delas será certamente a de introduzir confusão no debate sobre a autoria do que acabara de acontecer. Essa é uma velha receita, muito usada pelo Irão e por outros, no Médio Oriente.

Agora, neste início de semana, quer o Irão quer a liderança rebelde no Iémen falam da possibilidade de um arrefecimento das hostilidades com a Arábia Saudita e, mesmo, de propostas de alguma forma de conversações. Ao mesmo tempo, Teerão organiza paradas militares e demonstrações públicas de força armada, tudo acompanhado por uma retórica ultra-patrótica e guerreira. A mão direita oferece diplomacia e a esquerda cerra o punho.

Os dirigentes iranianos pensam que estão numa posição de força. Os ataques contra as instalações sauditas vieram reforçar essa convicção, ou seja, que o Irão pode danificar infra-estruturas vitais num país fortemente armado. Mais ainda, que consegue atacar um país que é um aliado íntimo e protegido pelos Estados Unidos. Os clérigos que mandam em Teerão querem assim mostrar uma capacidade militar de ponta. E que, por isso, é melhor negociar com eles do que pensar em retaliações militares, que levariam à guerra e provocariam caos e miséria em toda a região e teriam efeitos profundos sobre a estabilidade da economia internacional. É essa a mensagem que pensam ter enviado aos vizinhos e sobretudo a Washington.

Essa lógica tem um ponto fraco, que é o relativo isolamento do país na cena internacional. O Irão tem poucos amigos. Os Europeus, a começar pelo Presidente Emmanuel Macron, nada conseguem fazer. Estão reféns da política definida em Washington. Outros países, preferem manter-se afastados do conflito, pois não querem abrir novas frentes de desacordo com os Estados Unidos. De qualquer modo, se tivessem que escolher entre Riade e Teerão, apostariam de preferência no primeiro. E, para completar as dificuldades internacionais do Irão, existem agora as sanções americanas, que são extremamente restritivas, quer do ponto de vista comercial quer financeiro – o país está sem acesso ao sistema bancário internacional, não pode pagar nem receber. As sanções acabarão por arruinar a economia do Irão, criar imensas dificuldades ao quotidiano dos cidadãos e expandir o clima de oposição ao poder dos aiatolas.

Na minha opinião, a única escolha possível é a do diálogo construtivo. Há que fazer renascer a esperança que surgira durante a reunião do G7 em Biarritz. Ataques e demonstrações de força, venham donde vierem, são e continuarão a ser um erro que pode ter consequências catastróficas. Nessa linha, vejo o ataque contra as instalações sauditas como um erro de cálculo muito grave. Pode ser uma vitória táctica mas, em termos de estratégia, abre a porta ao desastre.

(Texto que publiquei no Diário de Notícias on line)

 

publicado por victorangelo às 21:51

16
Set 19

Este serão, como acontece de vez em quando, a Antena 1 pediu-me que comentasse as eleições de amanhã em Israel bem como os ataques contra as duas refinarias na Arábia Saudita. Respondi que os meus compromissos deste serão não me davam espaço para o fazer. Acrescentei, no entanto, off the record, que não sigo com atenção a política israelita pois não vejo solução para o que aí se passa. E que a questão das refinarias é muito grave. Merece que se volte a falar nela, com tempo. E com ponderação, que, nessa matéria, todo o cuidado é pouco.

 

publicado por victorangelo às 21:06

25
Ago 19

O Presidente da França, Emmanuel Macron, jogou hoje uma carta inesperada. Convidou Mohammad Javad Zarif, o ministro dos Negócios Estrangeiros do Irão, a deslocar-se a Biarritz, onde está a decorrer a cimeira do G7, para conversações com o seu homólogo francês. Ao jogar assim, apanhou os outros líderes de surpresa. Na minha opinião, cometeu um erro político que se poderá revelar como grave.

A questão do Irão – chamemos-lhe assim – estava em cima da mesa, mas ninguém esperava que Zarif aparecesse na cidade, nas proximidades de uma cimeira extremamente sensível. Ao convidá-lo para andar por ali, de surpresa, o Presidente francês mostrou uma grande falta de respeito pelos outros líderes. Ou seja, pode ter contribuído para agravar as tensões, quando as discussões já tinham muito por onde dividir os chefes de Estado e de governo participantes.

publicado por victorangelo às 19:09

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