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Vistas largas

Crescemos quando abrimos horizontes

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O aniversário do Dia D

Comemora-se hoje o 77º aniversário do Dia D, o dia dos desembarques na Normandia. Foi uma operação militar que demorou quase dois anos a ser planeada e constituiu, na história moderna das guerras, um exemplo de estratégia do qual foi possível retirar muitas lições. Mas a principal lembrança que nos resta, actualmente, é a dos milhares de combatentes que perderam a vida nessa operação. As guerras têm um custo humano elevadíssimo. Depois de décadas de paz na Europa, há uma certa tendência para esquecer essa realidade. E para ver as guerras dos outros, na Síria, na Líbia, na Ucrânia, no Mali ou na República Centro-Africana, com indiferença. Uma atitude dessas é eticamente repreensível e inaceitável.

A confusão que se vive no Mali

Temos novamente uma situação política anómala no Mali, com a detenção pelos militares do Presidente e do Primeiro-Ministro. Ambos haviam decidido, durante o fim-de-semana, proceder a uma remodelação do governo que entrara em funções após o golpe de Estado de Agosto. Ambos os golpes, o de então e de agora, foram organizados pelo mesmo grupo de oficiais.

Esta situação acaba por ter um impacto sobre a presença de várias missões – ONU e UE – no país. Deixa várias questões no ar. Quem não consegue entender-se, ao nível da direcção política nacional, não está preparado para tirar proveito da ajuda internacional. E quem decide, em Bruxelas, Paris, Nova Iorque ou noutras capitais, tem que se interrogar se vale a pena ajudar quem anda perdido numa grande confusão política.

Uma cimeira para fingir que sim

O Primeiro-Ministro fez hoje uma intervenção, por videoconferência, na cimeira dos cinco países do Sahel que procuram, juntos, responder aos problemas do terrorismo e da violência na região. Falou porque Portugal ocupa a presidência rotativa da União Europeia. Foi uma comunicação breve, de pouco mais de sete minutos, diplomaticamente acertada. Foi uma oportunidade de pôr em evidência o interesse que Portugal tem pela região.

O problema é que estas cimeiras públicas não vão direitas aos problemas. Mesmo quando se faz referência às questões de contexto, que estão na base destas crises, a referência é feita de passagem, sem as interrogações que deveriam provocar um debate a sério. Cada discurso é apenas isso, um discurso, e depois cada um vai à sua vida e tudo continua na mesma. Ou seja, no caso do Sahel, muito mal, quer para os que sofrem os ataques quer ainda para os seis milhões de pessoas que foram empurradas para a pobreza e os dois milhões de deslocados, tudo por causa da insegurança, da falta de respeito pelos direitos humanos e pela indiferença que os líderes manifestam em relação aos cidadãos mais fracos.

Sobre o Sahel e a Europa

https://www.dn.pt/edicao-do-dia/26-dez-2020/opi-victor-angelo-que-tal-um-almoco-no-sahel--13169848.html?target=conteudo_fechado

Este é o link para o meu texto desta semana no Diário de Notícias, publicado na edição de hoje. 

A presença europeia no Sahel, que tem custos muito elevados, precisa de ser avaliada, revista e reorientada. 

Sobre o Mali

O meu texto desta semana no Diário de Notícias, publicado da edição em papel de hoje, aborda a situação no Mali. É verdade que não se pode falar do Mali, sem mencionar o resto da região em que se insere, ou seja, o Sahel. Por isso, faço igualmente uma referência ao Sahel, aos problemas do crescimento muito rápido da população, à falta de perspectivas para os jovens, como também à corrupção e à ausência da presença da administração do estado em largos segmentos das terras da região. Uma outra preocupação foi a de mostrar que estes países não devem ser tratados com os preconceitos que são comuns quando se fala de África. E há mais, no meu escrito. A minha preocupação é a de apresentar uma visão de águia, ampla contextual, de cada assunto que trato. Outros acrescentarão visões mais pormenorizadas e mais terra-a-terra. Assim se enriquece o debate.

Logo que o texto esteja disponível – agora é “premium”, só para assinantes – colocarei o link neste blog.

Confusão no Mali

No seguimento da rebelião militar que está a ocorrer no Mali, falei este serão com colegas que estão em Bamako e no norte do país. A situação continua confusa. O Presidente Ibrahim Boubacar Keita e o Primeiro-Ministro continuam detidos num importante campo militar a cerca de 15 quilómetros da capital. O mesmo acontece a outros ministros e algumas altas patentes das Forças Armadas. No centro de Bamako houve algumas pilhagens e distúrbios. O resto da capital e as províncias mantém-se calmas.

Esta insurreição acontece num país que beneficia de um forte apoio da França, da União Europeia e das Nações Unidas. Esses apoios têm fechado os olhos, para não ver que a política do governo do Presidente Keita não vai no sentido da paz, da inclusão étnica e do combate à corrupção. Tem havido, isso sim, um alinhamento com que está no poder. Essa opção dos parceiros externos não tem ajudado o país a sair da crise em que se encontra desde há uma dezena de anos. Ora, o país tem gente muito bem formada que com o apoio certo teriam podido endireitar a situação e combater a pobreza e todos os tipos de tráficos que entretanto se foram enraizando.

Para a ONU, a continuação da crise no Mali deveria levantar uma série de questões muito sérias. Agradar à França não é certamente a opção política mais acertada. A imparcialidade não pode ser uma palavra vazia de conteúdo.

Pagar aos contrabandistas

Um especialista em matéria de segurança, antigo colega meu das Nações Unidas, dizia-me há dias que o Sahel é terra de contrabandistas armados. Como qualquer bom velho contrabandista, os que percorrem o Sahel fazem “negócio” com tudo o que lhes passa à mão de semear: armas, drogas, candidatos à emigração ilegal, raptos, tráfico de gado, tabaco, combustíveis e bens alimentares. Um grupo ou outro mistura uns pós de fanatismo religioso ao ”negócio”, como maneira de lhe dar uma “justificação moral”.

 

Os montantes em jogo são elevados. No caso recente da libertação de quatro franceses que estavam sequestrados no Níger há cerca de três anos, fala-se num resgate na ordem dos 20 milhões de euros. É um montante impressionante, que mostra bem o que está em jogo.

 

Mas a verdadeira ironia da situação reside no facto de uma parte desse dinheiro se destinar à compra de armas e veículos que irão permitir aos bandidos raptar mais franceses e atacar as tropas francesas e internacionais que se encontram em missão no Mali.

 

 

 

 

A "inteligência" e as missões de paz

Kidal, uma aglomeração que é uma das capitais regionais do norte do Mali, não muito longe da fronteira com a Argélia, é uma terra do fim do mundo. Situada no meio de centenas e centenas de quilómetros de deserto – o Saara em todo o seu esplendor e com toda a sua força – a localidade é uma praça-forte da rebelião Tuaregue. Os guerrilheiros do movimento independentista – Movimento Nacional para a Libertação de Azawad – têm uma base militar na cidade, onde aguardam que o processo de paz decida que destino lhes será dado. A umas centenas de metros dessa base temos o aquartelamento das tropas especiais francesas, que fazem parte da operação Serval. E mais à frente, o campo militar das Nações Unidas. As tropas regulares do Mali também deambulam pela cidade.

 

É um sítio perigoso. Sempre o foi. Hoje, apesar dos diferentes contingentes, foi palco de mais um acto terrorista gratuito. Dois jornalistas franceses, um homem e uma mulher, foram raptados à porta de um notável local e friamente assassinados uns quilómetros mais à frente. A mensagem dos assassinos é simples: não pensem que estamos vencidos!

 

Mas acabarão por o ser. Para isso, é fundamental que a dimensão “inteligência” da missão de paz funcione adequadamente. Que existam especialistas, militares e policiais, que cooperem e que saibam recolher e tratar as informações. É para este tipo de situações que o trabalho de “inteligência” deve estar virado. Não para espiar os cidadãos e os líderes de países amigos.

 

 

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