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Vistas largas

Crescemos quando abrimos horizontes

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Crescemos quando abrimos horizontes

Joe Biden na ONU

Tive a oportunidade de ver o vídeo da intervenção do Presidente Joe Biden na Assembleia Geral das Nações Unidas. Foi um discurso forte, bem articulado e positivo. Agora a questão é traduzir as palavras em acções concretas e convincentes.

Saliento de seguida uma série de pontos extraídos da sua comunicação ou resumindo algumas das ideias principais.

Este é um momento de viragem na história. Estamos mais interconectados do que nunca. As novas tecnologias podem dar mais poder às pessoas ou serem utilizadas para as reprimir. Por toda a parte, pode ouvir-se um apelo ao respeito pela dignidade humana. Não queremos uma nova Guerra Fria. Os EUA estão prontos para aprofundar a ajuda ao desenvolvimento e humanitária. É preciso desenvolver as infraestruturas nos países em desenvolvimento. Apoio à acção contra o aquecimento global. Mais solidariedade americana no que respeita ao combate contra a Covid-19. A questão palestina passa pela criação de dois Estados na região. Os direitos das pessoas devem estar no centro dos sistemas políticos. As intervenções militares são um último recurso, as políticas devem ter a primazia.

Imagino que António Guterres gostou do que ouviu. Eu gostei. Mas sou um optimista moderado e desconfiado.

As Nações Unidas e o poder talibã

https://www.dn.pt/opiniao/as-nacoes-unidas-face-ao-desafio-taliba-14083549.html

Este é o link para o meu texto de hoje no Diário de Notícias. 

Cito um parágrafo:
"A agenda humanitária é uma boa porta de entrada para conversações mais amplas. É verdade que não se deve misturar o campo humanitário, que tem como objetivo único e primordial salvar vidas, com matérias políticas. A ajuda que atenua o sofrimento humano, impede o atrofiamento físico e mental das crianças e mantém vivas as pessoas é um dever da comunidade internacional, independentemente dos sistemas de governação e das escolhas ideológicas. Mas pode possibilitar a abertura de uma via de aproximação e de diálogo político."

Duas abstenções no Conselho de Segurança

A resolução sobre o Afeganistão, que foi tema do meu blog de ontem, foi aprovada por 13 dos 15 estados que compõem o Conselho de Segurança da ONU. A China e a Rússia abstiveram-se, apesar do texto ter sido trabalhado de modo a torná-lo menos imperativo e mais respeitador da nova autoridade que controla o Afeganistão.

No caso da China, ficou pouco claro qual foi a razão da abstenção. Quanto à Rússia, tratou-se, para já, de um favor feito à China, pois o representante russo disse que a abstenção se justificava por não haver no projecto de resolução uma qualquer referência ao Movimento Islâmico do Turquestão Oriental, um grupo moribundo que a China acusa de levar a cabo acções terroristas na província uigur de Xinjiang. A verdade é que esse grupo está inactivo há já algum tempo.

A Rússia precisa da China. E a China olha para o Afeganistão com grande interesse. Ambos querem estabelecer boas relações com o poder talibã. Nessa competição, ganhará a China.

 

Ashraf Ghani

Ashraf Ghani foi hoje forçado a abandonar a presidência do Afeganistão. A queda do seu regime tem um significado enorme, não apenas para a história do seu país como também para a maneira como as democracias ocidentais intervêm nos conflitos de outros povos, com outras culturas e em contextos geoestratégicos profundamente complexos. Vai ser preciso reflectir sobre tudo isso, nos próximos dias.

Entretanto, quero aqui lembrar que passei uns dias com Ashraf Ghani, em 2005, em Long Island, a uma hora de carro de Nova Iorque, num retiro organizado para altos quadros da ONU. Ghani havia deixado de ser ministro das finanças recentemente. Nessa qualidade, e por ser um antigo colega do Banco Mundial e das Nações Unidas, foi convidado a participar nas nossas discussões geopolíticas e a partilhar connosco a sua visão sobre o futuro do Afeganistão.

A imagem que me ficou na memória, ao longo de todos estes anos, lembra-me que se tratava de uma pessoa afável e, acima de tudo, de um sonhador que falava pelos cotovelos e com os pés pouco assentes na terra. Organizações como a ONU gostam de gente faladora, que atira ideias às rajadas, e nem sempre se apercebem que a conversa esconde uma grande ausência de realismo e de capacidade de ouvir os outros. Ghani era uma figura idolatrada, por tudo isso e porque o Afeganistão estava no topo da agenda.  

Não quero aqui fazer o balanço dos seus anos na presidência. Fica apenas o registo da sua saída em fuga.

E também uma palavra de precaução em relação aos políticos que falam sem parar e imaginam realidades que não são consistentes com o quotidiano das pessoas.

O vírus e a cooperação internacional

Um amigo próximo está positivo há dez dias. É um homem forte, com muitas décadas de mato africano coladas à pele, um combatente em todos os sentidos. Mas vive numa plantação, algures na África Austral, e a vacina ainda está a caminho da região. Lentamente. E o meu amigo dizia-me hoje que isto da Covid não é brincadeira nenhuma. Ele, que é um sobrevivente de muitas lutas, sabe do que fala.

A sua condição actual veio uma vez mais pôr em evidência a extrema desigualdade que existe no acesso às vacinas. Num país como o seu, e em todos os outros que têm o mesmo nível de desenvolvimento – um nível baixo – a percentagem de gente vacinada é ínfima. Não há vacinas, não existe infra-estrutura nem meios.

Sem um esforço internacional, esses países continuarão a manter o vírus vivo. Depois, mais tarde ou mais cedo, ele saltará daí para o resto do mundo. Os países que contam, em termos de recursos e de capacidade, precisam de agir e de cooperar. É urgente e no interesse de todos.

 

A confusão que se vive no Mali

Temos novamente uma situação política anómala no Mali, com a detenção pelos militares do Presidente e do Primeiro-Ministro. Ambos haviam decidido, durante o fim-de-semana, proceder a uma remodelação do governo que entrara em funções após o golpe de Estado de Agosto. Ambos os golpes, o de então e de agora, foram organizados pelo mesmo grupo de oficiais.

Esta situação acaba por ter um impacto sobre a presença de várias missões – ONU e UE – no país. Deixa várias questões no ar. Quem não consegue entender-se, ao nível da direcção política nacional, não está preparado para tirar proveito da ajuda internacional. E quem decide, em Bruxelas, Paris, Nova Iorque ou noutras capitais, tem que se interrogar se vale a pena ajudar quem anda perdido numa grande confusão política.

À volta de Taiwan

O primeiro-ministro japonês, Yoshihide Suga, teve a honra de ser o primeiro líder estrangeiro convidado a visitar o presidente Joe Biden, em Washington. Este gesto tem muito significado. Mostra claramente onde se situam as prioridades internacionais do novo presidente norte-americano. Uma possível invasão de Taiwan pela China foi o tema central das discussões. Em pano de fundo, convirá notar que, esta semana, a força aérea chinesa violou 25 vezes o espaço controlado por Taiwan. Nunca tal havia acontecido, tantas vezes em apenas alguns dias. A questão de Taiwan está a tornar-se no conflito mais perigoso, para a paz internacional. Infelizmente, a ONU nada pode dizer sobre o assunto. Se abrir a boca, vai-se a reeleição ao ar.

Um momento de grandes perigos

A hostilidade entre os Estados Unidos e a Rússia, bem como a tensão com a China, atingiram novos níveis de virulência, que se traduzem não apenas em palavras, mas também na adopção de medidas concretas, de sanções, de restrições comerciais, de emissão de visas, etc. Estamos a viver, ao nível internacional, uma escalada da rivalidade entre as grandes potências. Nenhuma quer dar parte de fraqueza. O diálogo que propõem, quando tal acontece, acaba por ser um diálogo de surdos. Não há comunicação. Cada lado procura apenas repetir a sua posição, de um modo intransigente. É um contexto internacional preocupante, numa altura em que o mundo está a enfrentar uma epidemia de enormes proporções.

Fazem falta vozes que falem de paz, de cooperação, de esforços conjuntos. Faltam personalidades com coragem e autoridade moral para apelar ao bom senso, ao sentido de responsabilidade, para sublinhar os perigos que temos pela frente se se continuar na trajectória actual.

Dez anos de guerra na Síria

A repressão armada, maciça e cruel do regime sírio de Bachar al-Assad contra a sua população começou há dez anos, dia por dia. Depois de tantos anos, o ditador continua no poder, graças à ajuda militar de Vladimir Putin e dos seus aliados iranianos e do Hezbollah libanês. Não houve uma solução política, mas sim uma realidade que se impôs pela força das armas. O país continua em crise profunda, milhões de sírios tiveram que procurar refúgio noutras terras, o sofrimento é imenso. E a comunidade internacional mostrou, uma vez mais, que não consegue resolver as grandes crises nacionais ou regionais, sobretudo se um dos grandes, daqueles que têm direito de veto no Conselho de Segurança, está directamente implicado no conflito.

Entretanto, a ONU já vai no seu quarto representante especial para a Síria, sem ter conseguido um mínimo de progresso na frente política. Na área humanitária tem desempenhado um papel fundamental. Mas, na resolução do conflito, a sua acção tem sido permanentemente impedida pelos membros do Conselho de Segurança com direito a veto e por forças da região. O papel político das Nações Unidas foi reduzido a nada, neste caso. Ou seja, o pilar central do sistema foi completamente marginalizado. As Nações Unidas não podem ficar reduzidas à ajuda humanitária – muitas ONGs fazem esse trabalho –, ao apoio a refugiados ou à ajuda alimentar. Tudo isso é importante, sem dúvida. Porém, o mais importante é a resolução dos conflitos que geram a miséria humanitária, a promoção de transições democráticas e a defesa dos direitos humanos. É nessas áreas que a ONU é insubstituível, se a deixarem trabalhar.

Escrevo sobre o Irão

"Israel nunca poderá admitir uma mínima ponta de responsabilidade por assassinatos deste género. Essa admissão abriria a porta a um processo de acusação no Tribunal Internacional de Justiça da Haia ou numa jurisdição de um país membro das Nações Unidas. A lei internacional é clara. Uma execução extraterritorial, sumária e arbitrária, promovida por um Estado fora de uma situação de conflito armado e à revelia de uma decisão tomada por um tribunal competente, é um crime que viola a lei internacional sobre os direitos humanos e as Convenções de Genebra de 1949 e os Protocolos Adicionais de 1977. Mais ainda, a Carta das Nações Unidas proíbe expressamente o uso extraterritorial da força em tempos de paz."

Extracto do meu texto de hoje no Diário de Notícias intitulado "Irão: o dia seguinte"

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