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Vistas largas

Crescemos quando abrimos horizontes

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Crescemos quando abrimos horizontes

Uma questão social

Se o leitor tivesse que escolher um tema, entre os três que se seguem, qual seria a escolha? Qual é, neste momento, o mais actual e de maior urgência?

 

É verdade que os temas não têm muito que ver com a crise económica e financeira, que domina todas as atenções. Mas estão muito relacionadas com grandes problemáticas sociais, os direitos humanos, a justiça social, a aceitação do Outro, o respeito pela diferença, quer na Europa, quer nas relações entre o nosso espaço e o resto do mundo. São, além disso, muito prementes, em vários cantos da Terra.

 

Os temas são:

 

1. Liberdades, responsabilidades, direitos e ética.

 

2. Liberdade de expressão, de consciência e de religião.

 

3. O princípio da igualdade entre os homens e as mulheres.

 

 

Há dias piores

 

Ontem foi um dia agitado. Primeiro, foi a viagem para Abéché. O jacto é rápido, mas estreito e com sete passageiros fica muito cheio. 'A chegada, primeiro telefonema na linha de urgência: um dos nossos aviões sem piloto acabara de se estatelar em Goz Beida. Trata-se de um modelo militar, com cerca de um metro ou pouco mais de comprimento, umas câmaras. Mas a primeira notícia foi que "...um avião havia caído."

 

Felizmente que é bem mais pequeno e muito mais barato do que um 747...

 

Mesmo assim, custa caro e causou agitação, chamadas telefónicas da presidência da república, do governador, do chefe que é general, de jornalistas...Podia ter caído em cima de muita coisa. Pessoas, casas, vacas, cabras, mesmo ums meras galinhas. Tivémos sorte. Foi esmagar-se perto do quintal do governador local, mas sem outros estragos. Embora pequeno, faz mossa. Mas a maior mossa foi a perda deste aparelho que tanto jeito nos faz, quando se trata de tirar umas fotos dos rapazes maus...

 

Depois, um dos nossos veículos foi atacado à mão armada em Farchana, no mercado da localidade, nas barbas de toda a gente. Passavam cinco minutos das 11 horas. Como era um carro da equipa de desminagem, tinha explosivos e outras pequenas maravilhas a bordo. Dois homens de metralhadora em punho, bandidos das terras bravas, levaram-no para o Sudão. As autoridades fronteiriças sudanesas colaboraram connosco e o veículo foi recuperado, já do outro lado da raia. O Leonardo, um grande oficial da PSP que é o nosso chefe de segurança na região, organizou uma expedição. Para recuperar a máquina e os bens. Assim acontecerá, mas é preciso ter paciência.

 

Seguiu-se a reunião com as ONGs internacionais. Para falar do medo que começa a existir, face à possibilidade de raptos. Uma grande nacionalidade ocidental é particularmente visada. Corre o boato, aqui e no Darfur, que esse país paga resgates...Logo, é um bom negócio apanhar gente com esse passaporte...

 

Continuei o dia tendo um encontro com os guardas prisionais. Ou melhor, com os nossos conselheiros em matéria de prisões. As condições de detenção são abomináveis. Os presos passam o dia acorrentados, para que não se escapem. Mesmo assim, muitos acabam por fugir. Só não precisam de ser guardados os prisioneiros que sabem que se voltarem para a sociedade serão eliminados pelos familiares das suas vítimas. Prisioneiros assim sentem-se em segurança nas prisões desta terra.

 

Seguiram-se reuniões sobre os direitos humanos, a questão do recrutamento de mulheres para a polícia, os soldados nepaleses que chegaram com armas mas sem munições, os soldados que estão destinados a ser uma força de intervenção rápida e que vieram equipados como se fossem meros sentinelas, o planeamento da transferência de um campo de 28 000 refugiados da zona da fronteira para uma outra localização.

 

Finalmente, chegou a hora de voltar a N'Djaména. Mais 800 quilómetros de distância a percorrer. No que seria para muitos um fim de dia bem preenchido. Mas não. Na capital, havia outras matérias à espera. Falar com Nova Iorque, enviar o telegrama das actividades do dia, ver em que ponto está a investigação para apanhar uns tipos que gostam de dar uns tiros de metralhadora nos trabalhadores humanitários, falar para Bangui, ver se os embaixadores do Conselho de Segurança sempre podem visitar o Leste em Outubro, etc, etc.

 

Mais tarde, passar ainda, cinco minutos, por uma recepção, só para marcar presença. E provar o vinho branco.

 

Chegar finalmente a casa, responder a uns mails, telefonar para o estrangeiro, preparar o blog, ler os jornais do dia.

 

Há dias piores.

Morrer no deserto

 

Hoje perdi um tenente da Polícia chadiana. Tinha organizado uma perseguição nas terras desérticas do Nordeste, no seguimento do roubo de uma viatura 4X4, num campo de refugiados. O tenente e os seus homens foram no rasto dos bandidos. Nas pistas que levam à fronteira com o Sudão, no meio da areia e dos montes comidos por milhares de anos de vento do deserto. Os polícias das Nações Unidas seguiam na segunda viatura, em apoio ao tenente e à sua equipa.

 

Os bandidos, nestas terras, estão equipados de AK-47, metralhadoras ligeiras de grande eficácia. Prepararam uma emboscada, como resposta à perseguição. A viatura da frente foi varrida à bala. O tenente teve morte instantânea. Um outro polícia ficou ferido. O veículo dos Polícias das Nações Unidas guinou à direita, para fugir às balas e foi parar na duna mais próxima.

 

O Sol estava a pino. Era a hora do meio do dia.

 

O Tenente Abdallah Ismael foi enterrado em Iriba, no Nordeste do Chade, a 50 quilómetros do local do ataque, ao fim da tarde.

 

Como homenagem, convido o leitor a ir ao Google Earth e ver onde fica Iriba e o campo de refugiados de Am Nabak.

 

Um dia longo no mato da vida

 

É difícil ter um dia sereno.

 

Este Sábado começou com um ataque rebelde contra o campo militar das FACA (Forças Armadas da República Centro-Africana) na pequena cidade de Birao. Birao está situada no triângulo de todas as rebeliões, onde o Sudão, o Chade e a RCA partilham fronteiras comuns. É um triângulo com pouca lei e muito perigo.

 

Eram 05:37 quando os primeiros tiros foram disparados. Os últimos deixaram de se ouvir cerca das 08:00 horas. Os soldados das Nações Unidas, Togoleses, tiveram que intervir, para proteger as ONGs e as populações civis.

 

Neste momento, a situação está calma. Os capacetes azuis controlam a cidade e o aeroporto, cerca de dez quilómetros a Sul. Temos perto de trezentas pessoas acampadas junto ao nosso arame farpado, mais um certo número de trabalhadores humanitários no interior do quartel da ONU. Só o Comité Internacional da Cruz Vermelha, por razões de princípio, está fora da nossa protecção.

 

Entretanto despachei o General Comandante das nossas Forças de Abéché para Birao, bem como um avião cargueiro com rações, água e material de combate.

 

Tem sido, desde muito cedo, um tocar sem fim dos telefones, com Abéché, Birao, Bangui e N´Djaména do outro lado da linha.

 

Hoje à tarde estarei em Bangui. A escala já estava prevista. Faz parte da minha viagem para Entebbe. Verei o Ministro dos Negócios Estrangeiros. Quando chegar a Entebbe, esta noite, espero poder descansar um pouco, que bem preciso, nas margens do Lago Vitória. Uma zona bonita, com bom tempo e uma temperatura amena. A última vez que visitei foi em 1997. Vitória é um nome de guerreira, mas, esta noite, o que precisarei, será de paz.

 

 

 

 

 

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