Portugal é grande quando abre horizontes

02
Set 19

Voltando à questão da análise política, o fulano que aparece na televisão aos domingos ao serão tem pouco de analista. E ainda menos, em termos de seriedade. É mais uma simbiose, um ser híbrido, que mistura maneiras de pregador com hábitos de vidente. Quando olha para o espelho, para decidir o que irá desbobinar na exibição da semana, vê-se com a missão de educar os políticos, uma missão a que os políticos visados não prestam qualquer atenção. Combina isso com a leitura da sua bola de cristal, que deve ter sido adquirida numa loja de fantasias. Felizmente para ele, existem por aí uns escribas com carteira de jornalista que lhe dão alguma atenção. Devem ser os únicos.

publicado por victorangelo às 23:35

01
Set 19

Que um cronista bem conhecido da nossa praça escreva, como o faz hoje na sua coluna diária no Público, que o Presidente americano é uma “besta”, não me surpreende. O ganha-pão desse cronista é dar opiniões pessoais sobre tudo e mais alguma coisa. E fica melhor, se for virulento naquilo que publica. Muitos leitores acham piada a esse estilo. O cronista é, assim, um autor com sucesso. Tem mercado, que no capitalismo em que vivemos acaba por ser a medida de muitas das coisas.

Onde me parece haver problema é quando escribas que querem ser vistos como “analistas” fazem afirmações desse tipo.

O analista deve ter um raciocínio mais frio e mais completo. Nomeadamente quando se trata de tentar compreender o que leva o Presidente dos Estados Unidos a fazer as afirmações que faz, tantas delas absurdas e injustificadas. Tomar o homem por parvo e ignorante não chega. Há que ver o que está por detrás das palavras que debita e tentar perceber o que isso significa em termos de consolidação do seu poder.

É que tudo tem que ver com jogos de poder.

Não foi por acaso que o dito senhor chegou a Presidente, num dos países onde a competição política é das mais furiosas e complexas.

Insultar faz parte da política, é verdade. Mas não é suficiente, se não se sabe ler a maneira de agir, táctica e estratégica, do adversário que se tem pela frente.

Amigos analistas, pensem bem nisto.

 

 

 

 

publicado por victorangelo às 21:58

18
Ago 19

Uma boa parte das colunas de opinião que aparecem nos nossos jornais são chatas como a ferrugem. A expressão é velha, mas traduz bem o que penso. Imagino que a maioria das pessoas – os poucos que ainda compram papel – não terá paciência para as ler. Na generalidade dos casos, nem valerá a pena. Os autores repetem-se uns aos outros, copiam de jornais estrangeiros, e têm, acima de tudo, uma posição ideológica pré-determinada, onde tudo o que escrevem deve caber. À esquerda ou à direita. São os articulistas quadrados da mente, que o divino tenha piedade deles. Nós, é que não temos tempo e pachorra para lhes dar.

Um dos meus amigos escreve sobre política internacional e europeia. Cada texto parece escrito à metralhadora, com rajadas em todos os sentidos, que só há burros à sua volta. E ataca sempre o que está na moda, depois de ter lido um ou dois sítios estrangeiros. É um guerrilheiro das questões internacionais. Outro, escreve sobre política nacional. É um ver se te avias, um activista mental contra o governo, os liberais – embora não entenda bem o que significa ser-se liberal na Europa macroniana de hoje – e os fantasmas da direita. Sim, porque à direita só já temos fantasmas e outros espíritos invisíveis. Esta quadra de greves e requisições civis deu-lhe muito pano para mangas.

E assim sucessivamente.

O que também me deixa boquiaberto é o espaço que a comunicação social dá a esses intelectuais da pena grande. Fico a perceber melhor quando sei que essa gente sai barata e enche páginas a custo zero ou quase inútil. Com os jornais em falência, este é um recurso de gestores pretensamente espertos. O problema é que tais cronistas e opinadores não atraem leitores nem vendem papel. E papel que não se vende significa que não há receitas publicitárias que prestem. E a pescadinha enfia o rabo na boca, volta a ter mais opinião barata e menos vendas. É o carrossel da miséria.

Nestas coisas, lá bem no fundo, o essencial é que haja o culto dos egos. E isso não parece faltar.

 

 

 

publicado por victorangelo às 20:06

08
Ago 19

Depois de ter lido uma coluna de opinião, em que o autor se assanhava, sem se perceber bem a razão, sobre uma possível ligação entre as greves cá do burgo e a agenda política da extrema-direita nacional – um conceito que ficou por definir, sem que o camarada nos dissesse quais são os partidos com assento parlamentar que têm essa bandeira extremista –, só me faltava pisar merda de cão. E quase que acontecia. A rua com mais movimento aqui na vilória do Baixo-Alentejo onde me encontro está cheia de dejectos desses queridos animais. Tem sido um ver se te avias, desde o início da semana. Os donos dos bichinhos, que até nem serão cá da terra mas que por aqui estarão a passar uns dias, ficam deliciados com o funcionamento regular dos intestinos dos ditos, e querem que partilhemos a alegria.

Um articulista assanhado diria que se trata de complô contra a maioria de esquerda que governa o município. Tratar-se-ia de desacreditar a autarquia, que isso de pisar cocó leva ao reforço da oposição extremista.

Eu teria uma outra perspectiva. Inspirado pelo cheiro que os passeios nos brindam, e agradecido pela gincana que é preciso fazer, para não pôr o pé na coisa, diria apenas que se trata de duas dimensões. De um poupar de água, na altura mais seca do ano. Lavar os passeios não seria ecológico, como também não é a favor da sustentabilidade do ambiente plantar oliveiras e vinha por toda a parte do Alentejo. E, segunda dimensão, de um certo gosto que temos de andar, aqui e acolá, a fazer merda.

publicado por victorangelo às 22:19

26
Jul 19

Recentemente, quando me preparava para discursar, numa reunião pública, o membro da mesa encarregado de fazer a minha apresentação teve a amabilidade de dizer umas coisas simpáticas sobre a minha pessoa. Ao fazê-lo, colocou uma parte do acento na minha condição de “estrangeirado”, de quem anda lá por fora, tem uma família híbrida, meio portuguesa meio outra coisa.

Foi um momento curioso, já que a audiência era muito patriótica. Depois percebi que se tratava de uma espécie de alerta, para que não houvesse surpresas face ao que eu iria dizer. Como quem avisa, ele tem umas ideias diferentes, mas terão que compreender, anda há décadas lá fora.

Que ando, ando. Que vejo certas coisas com outros olhos, os leitores habituais sabem que é assim. Que não percebo a política portuguesa, também é verdade e, por isso, pouco escrevo sobre ela. Não compreendo a falta de ambição de quem nos dirige, nem a incompetência que manifestam, como também não entendo que perante tal, não haja uma oposição bem mais forte.

Mas isso são outras histórias.

Penso, no entanto, que é importante dar uma visão diferente da corrente. As mentes brilhantes que por aqui andam, na nossa praça pública, saltitam pela rama das coisas, alimentam-se da zombaria, defendem capelinhas em vez de ideias, movimentam-se em círculos de compadres. Prevalece o habitat dos pensadores narcisos. Aí, quem está fora há muitos anos, não cabe nem se sente no seu ambiente, essa não é a sua selva de predilecção.

O grande problema é que o país é a capital, e pouco mais, e a capital é apenas uma aldeia grande, em termos de mercado e diversidade. Acaba, assim, por ser um terreno de caça guardada para poucos, atentamente protegida pelos druidas ao serviço dos nossos pequenos deuses.

Por isso, convém alertar quando os estrangeirados se aproximam da cerca.

O meu apresentador tinha razão.

 

publicado por victorangelo às 21:29

12
Jul 19

Ontem, alguém que gostou da minha apresentação sobre o papel da sociedade civil na resposta às questões da geopolítica, que era o cerne da palestra que fiz na Casa da Cidadania, perguntou-me por que razão não falo mais vezes em público em Portugal. Sabia que o faço frequentemente no estrangeiro e estava admirada por o mesmo não acontecer por aqui.

Respondi que não queria incomodar os fazedores de opinião que primam em Portugal. É que eu falo com base na experiência vivida ao longo de quatro décadas, em muitos teatros de crise e de decisão, e não com base na leitura de textos escritos por outros. Mais. Falo directo, quer seja politicamente correcto quer não.

Isso não passa bem. Em privado, contei a história de um ex-ministro que esteve, há uns anos, num painel em que participei e que se sentiu atacado pela minha franqueza. Ficou nervoso e incomodado. Depois da conferência, moveu portas e travessas, e todas as influências que tinha, para tentar atacar o meu bom nome. É verdade que o não conseguiu. Mas ensinou-me uma lição. Em Portugal, não se atiram pedras ao charco em que vivem os que têm influência política e espaço na comunicação social. É perigoso. Os nossos sapos opinativos são, na verdade, príncipes encantados. Temos que os respeitar, fazer vénia e beija-mão.

Assim, muito por opção, deixo-os andar e vou, de vez em quando, falando aos cidadãos do dia comum. Foi isso que aconteceu ontem e a sala apreciou.

publicado por victorangelo às 21:24

21
Jun 19

Perguntaram-me o que penso sobre um caso que tem estado muito em vista. Respondi que quem manda tem que assumir a responsabilidade. Em caso de negligência, de mau julgamento, de erro crasso, o chefe também deve pagar as favas. Não pode chutar para baixo e dizer que não esteve presente ou que a decisão não foi tomada ao seu nível. Terá, isso sim, que dar-se à cara. O que significa, muitas vezes, demitir-se. Reconhecer o erro e sair de cena.

Assim funcionam as sociedades avançadas. Assim responde quem é de facto um líder e não um mero oportunista ou um fantoche da política. Assim se mede o valor de quem manda.

 

publicado por victorangelo às 20:31

07
Mai 19

O diário belga “La Libre” é um jornal moderado e respeitado. Organiza frequentemente inquéritos de opinião junto dos seus leitores. Os resultados desses inquéritos são vistos com atenção pela classe política e por quem se ocupa de seguir a opinião pública belga.

Levou agora a cabo um sobre a questão da criação de umas forças armadas europeias. A pergunta era muito clara : deve-se criar um corpo militar europeu comum em substituição das forças nacionais?

Responderam cerca de 8000 leitores. Destes, 49% disse que sim, sem mais, sem hesitação. Também disseram que sim, mas sem pôr termo ou acabar com as forças armadas nacionais, 35% dos inquiridos. Apenas 13,3% por cento se opôs, disse que não à ideia de um “exército europeu”.

Curiosamente, os sem-opinião foram apenas 3%.

Em simultâneo, noto que é no Partido Socialista, nos Ecologistas e em outros movimentos do centro-esquerda da Bélgica que encontro uma posição clara de apoio a um projecto comum de defesa.

Convém reflectir sobre estes números. E lembrar que a questão de defesa é antes de tudo uma questão de opinião pública, ou seja, um tema essencialmente político.

publicado por victorangelo às 16:34

25
Abr 19

Depois de um dia a viajar, aqui deixo a minha saudação relativa ao 25 de Abril. 45 anos depois, ontem como hoje, o que conta é que cada um se sinta livre, sem medo. Que cada cidadão saiba que vale a pena emitir uma opinião, com bom senso, construtiva, no respeito por todos, sem medo de se ser apelidado disto ou daquilo.

E isto é válido para todos os quadrantes políticos, excepto, claro, para os extremistas racistas, violentos e intolerantes.

publicado por victorangelo às 20:46

24
Abr 19

É tudo a disparar primeiro e a reflectir, quando reflectem, depois. Ou seja, continuamos a discutir o percurso de vida e a personalidade do mensageiro, em vez de nos interrogarmos sobre a mensagem, o seu conteúdo, alcance e implicações.

publicado por victorangelo às 14:30

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