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Vistas largas

Crescemos quando abrimos horizontes

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Crescemos quando abrimos horizontes

Esta seria uma tarefa para o G20

https://www.dn.pt/opiniao/uma-vacina-contra-as-rivalidades-geopoliticas-13366109.html

O link acima abre o meu texto de hoje no Diário de Notícias. 

A mensagem fundamental é que o combate à pandemia deve ser global, incluir todos os que tenham meios para nele participar. Os países do G7, ao tentarem excluir a China e a Rússia de um processo coordenado de vacinação nos países mais pobres, estão a cometer um grande erro. Um erro que tem duas frentes: torna mais lenta e menos eficaz a imunização de todos; e não aproveita uma oportunidade de estabelecer uma plataforma de cooperação com essas duas potências. 

No final, perdem os povos que precisam e perderão os ocidentais,em termos de presença no mundo. A China, em particular, não vai esperar por nós. Irá fazer, sozinha, a sua diplomacia com base em campanhas de vacinação em África e noutras partes do globo. 

Voltar aos velhos equilíbrios

Deve ser do confinamento prolongado, mas noto que várias pessoas conhecidas estão a ficar mais intolerantes. Quando falam de política ou de personalidades públicas, nas áreas da política e da intervenção social, perdem facilmente o equilíbrio. Os comentários que emitem são mais radicais, mais definitivos, mais ofensivos também.

Creio que é altura de lembrar a todos que os passeios higiénicos não estão proibidos. É bom apanhar vento no rosto e refrescar os olhos e a cabeça.

Não podemos deixar que a pandemia nos torne mais extremistas. Um país de extremistas e de gentes de ideias feitas é um país que não está bem consigo próprio.

Eficiência, ética e equilíbrio

Sou dos que desejam que o governo seja eficiente, ético e equilibrado. Foi isso que respondi quando há pouco me perguntaram de que lado estou. Não aceito sectarismos partidários, mesmo reconhecendo que cada um se possa identificar com este ou aquele partido. Essa identificação não pode significar que se perde a objectividade. Sobretudo quando se teve a oportunidade de ver outros mundos, de estudar outras experiências, de adquirir um nível cultural acima da média.

O amigo a quem dizia isto não gostou da conversa. Compreendo a razão: fez uma brilhante carreira no seu ministério porque sempre se alinhou com um partido que esteve frequentemente no governo. É verdade que é uma pessoa com méritos próprios. Mas há muitos que, apesar do mérito que tinham e têm, não passaram da cepa torta. Estavam fora do jogo da política ou, então, identificados com o partido errado.

Não quis ouvir essa conversa e passou ao capítulo seguinte. Foi pena. Uma das características de quem tem mérito deve ser, no meu entender, a de reconhecer a realidade como ela é e não como nós gostaríamos de nos convencer e aos outros.

Sobre os medíocres

Como sabem, sou um estudioso do pensamento de Confúcio. Peço, por isso, licença para hoje parafrasear o grande mestre. A mensagem é que quando a boa governação prevalece, o sábio mantém-se direito, como uma flecha. Se for necessário intervir, será para apoiar.

Quando dominam os medíocres, a postura do sábio não se altera. Mantém a verticalidade. Mas retira-se e deixa de falar dos assuntos do Estado. Se falasse, os medíocres não entenderiam e ficariam profundamente ofendidos. Ora, um medíocre ressentido, mas com poder, é um perigo. Joga à marrada.

Os pensadores e os escrevinhadores

Questionar é o ponto de partida do acto de pensar. Só é possível se houver liberdade e se o pensador tiver a coragem e a imaginação suficientes para dar bom uso a essa liberdade. Muito do que aparece escrito e é dito é apenas uma repetição do que outros criaram, sem se acrescentar um qualquer laivo de interrogação ou de dúvida. Nesses casos, aquilo a que eles chamam pensamento mais não é do que um eco.

Infelizmente, há quem ache que repetir e mencionar autores ilustres, sem qualquer pensamento crítico, é uma prova de cultura, de formação académica e de inteligência. Eu não vejo isso assim. Considero essas manifestações mera vaidade, exibicionismo, oportunismo e pobreza de espírito.

O verdadeiro pensador procura reequacionar o que já foi dito e colocar a questão no contexto actual. Depois, tenta entender o que essa questão pode significar na definição dos tempos futuros.

Na realidade, duvidar é a essência do progresso.

 

Contra o radicalismo islâmico

Terror ou democracia

Victor Ângelo

Quase duzentos e cinquenta anos após a sua morte, Voltaire permanece como um dos pensadores mais influentes da história de França e da Europa. Escreveu abundantemente e foi conselheiro dos grandes de então. O seu pensamento político e filosófico abriu o caminho que levaria à Revolução Francesa e à divisa nacional, que ainda hoje se mantém: Liberdade, Igualdade, Fraternidade. Os seus escritos troçavam dos dogmas religiosos, numa altura em que era muito perigoso fazê-lo, batiam-se contra a intolerância, advogavam a liberdade de expressão e a separação da igreja do estado. Em 1736, escreveu uma peça de teatro contra a intransigência religiosa, que intitulou “O Fanatismo ou Maomé, o Profeta”. Nesta tragédia, Voltaire crítica diretamente e com todas as letras o fundador do Islão. Pessoalmente, leio a obra como sendo uma investida contra as religiões, num caso, de modo aberto, noutro, o do catolicismo, de maneira mais subtil, para não pôr em risco a sua pele.

Agora tornou-se impossível ensinar Voltaire nalgumas escolas de França, nomeadamente nos subúrbios de Paris. Certos alunos, vindos de famílias muçulmanas radicalizadas, impedem que tal aconteça. Para essas pessoas, Voltaire é o pior dos infiéis, aquele que se atreveu a conspurcar o nome do Profeta. No passado, a Santa Inquisição católica queimava os hereges em público. No presente dos maníacos islamistas, Voltaire seria degolado. Além de Voltaire, é um perigo falar do Holocausto ou condenar o antissemitismo, citar o escritor Gustave Flaubert e o seu romance Madame Bovary – uma mulher livre e apaixonada, um péssimo exemplo para um radical que considera que as mulheres devem ser submissas e andar tapadas da cabeça aos pés – ou procurar discutir Charlie Hebdo e as caricaturas de Maomé. Uma boa parte do sistema escolar público francês vive num clima de desassossego, em que a reação violenta de certos alunos substituiu o debate de ideias. E a intimidação começa cada vez mais cedo. Já se conhecem histórias de meninos que, nas escolas pré-primárias, recusam sentar-se ao lado das meninas.

Tudo isto nos leva à decapitação criminosa e absurda que ocorreu na semana passada. A vítima, o professor Samuel Paty, era um homem corajoso e consciente de que a missão das escolas também é a de formar os futuros cidadãos, livres, iguais em direitos, solidários, respeitadores e responsáveis. Mas, em França, a escola laica tem estado a ser ativamente minada pelos islamistas radicais desde 2005. Uma sondagem recente revelou que cerca de 40% dos professores de disciplinas literárias, cívicas e de humanidades se autocensuram e não mencionam, nas suas aulas, seja o que for que possa provocar a ira dos estudantes mais fanáticos. Por isso, a minha primeira reação à notícia do ato do tresloucado foi de admiração perante a coragem e o sentido de dever profissional de Samuel Paty. Lembrou-me ainda que a resposta à ameaça terrorista passa por um comportamento vertical, inequivocamente firme.

Mas a coragem e a firmeza não podem ser apenas questões individuais. O terrorismo não é o resultado, como alguns pretendem, das ações de “lobos solitários”. O velho visionário Friedrich Nietzsche dizia que “tudo o que é absoluto pertence à patologia”, mas no caso do terrorismo, é isso mais o contexto social. Estamos perante um fenómeno identitário extremo, um ecossistema social que faz viver num pântano ideológico salafista milhares de famílias. São uma franja minoritária dos cidadãos europeus de fé muçulmana, mas muito desestabilizadora.

Em situações como a francesa – e noutros países europeus, nomeadamente na Bélgica e nos Países Baixos, que vão no mesmo sentido do que se tem verificado em França – é fundamental acertar numa resposta política adequada. Numa outra ocasião, escreverei sobre o tratamento securitário da questão. Politicamente, convém começar por reconhecer que o fanatismo, ao colocar uma interpretação manipulada, primária e ignorante da religião acima dos valores da república, é uma ameaça para a democracia e para a paz social. Se os democratas não conseguissem tratar do radicalismo terrorista, a extrema-direita, chame-se ela Le Pen ou outra coisa, noutro país qualquer, utilizaria essa falência para conquistar o poder. E então esmagaria todos, não apenas os exaltados de faca em riste e as suas comunidades de apoio.

(Crónica que ontem publiquei no Diário de Notícias, edição semanal em papel)

 

 

 

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