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Vistas largas

Crescemos quando abrimos horizontes

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Crescemos quando abrimos horizontes

Uma nova viagem

Estou a fechar um capítulo muito longo da minha vida de caminhante pelo mundo. Esta noite dormirei rodeado de mais ou menos 220 caixotes e cartões de papelão. É como se o passado estivesse preocupado com a pena do meu adeus e quisesse, assim, mostrar-me que 42 anos de andanças precisam de muita embalagem.

Na realidade, tem sido uma final cheia de imprevisíveis. Qualquer plano, no meio de uma pandemia, é um baralho de cartas que mistura tudo, complexidade, incertezas e ansiedades. Sempre lidei com confusão, indecisão e riscos. Mas nada se compara com o que muitos de nós têm experimentado ao longo destes últimos meses. Sobretudo os mais frágeis e pobres. Dizem que a morte é a grande niveladora. Mas o confinamento é o grande revelador das enormes disparidades sociais e da diferença que elas fazem. Esta verdade não necessita de uma caixa de cartão. Irá, no entanto, comigo, nesta nova viagem.

Perplexidades

Amigos meus, que vivem em países pobres, estão estupefactos, ao ver a fragilidade das sociedades mais avançadas. Nunca haviam imaginado que uma pandemia pudesse acontecer nas nações europeias ou nos Estados Unidos. E que pusesse de pantanas esses países, gerando uma enorme confusão e novas vagas de empobrecimento. Se há alguma coisa que mudou, foi a percepção que existia sobre a capacidade de resposta da Europa e da América do Norte perante uma calamidade sanitária. Ficou agora a ideia que os gigantes têm, afinal, pés de barro. E pouca capacidade para equacionar as respostas estratégicas, face a uma crise de grandes dimensões. Vistas de longe, o fecho das economias e o aferrolhar dos cidadãos nas suas casas, parecem medidas drásticas e precipitadas, um passar do oito para oitenta, uma corrida desorientada, sem que se contemplassem etapas intermédias e soluções menos dramáticas.

Mais do mesmo

Um fim-de-semana prolongado, no meio de um período de confinamento, é um aborrecimento. Sem que se possa sair de casa, excepto por motivos justificados, a pergunta que fica é que fazer com estes três dias de folga? Como os tornar diferentes dos outros dias de confinamento?

Entretanto, li o discurso da camarada que manda na CGTP. Aquilo que disse ontem, na Alameda, em Lisboa, por motivo do 1º de Maio. Fiquei com a impressão que a senhora ainda não foi informada do extremo impacto negativo que a Covid-19 tem na economia nacional e nas economias que estão intimamente ligadas à nossa. É verdade que fez umas referências, de raspão, à epidemia. Mas se eu tivesse arriscado a pele, como cerca de um milhar de pessoas o fez ontem, ao deslocarem-se à celebração da CGTP, teria querido, em compensação, ouvir mais do que os habituais lugares-comuns. De uma central que representa uma parte dos trabalhadores portugueses esperam-se ideias novas, neste mundo diferente em que estamos agora.

Acreditar é a melhor solução

Dizem-me que não se deve falar de austeridade, que não será com austeridade que a economia se irá levantar. Não sei como responder. Vejo a economia de rastos, com quase todos os sectores parados e a acumular dívidas, com excepção do que se relaciona com a comercialização de alimentos, vejo os governos a falar em milhares de milhões que não estão ainda disponíveis nem sei quando e em que condições o estarão, percebo que há um empobrecimento acentuado ao nível de muitas famílias, mas quero acreditar que tudo se recomporá. É um acto de fé, que é o que resta quando não se vê uma outra solução. Ou, então, fala-se de fé, para não se falar de coisas tristes ou que estão fora do alcance.

De qualquer modo, ganha-se mais sendo-se optimista. 

Não aceito o pessimismo

Não se pode confundir realismo com pessimismo. Realismo significa que se compreende bem a situação e o impacto que ela tem nos diversos aspectos da vida. O pessimismo é um sentimento de impotência em relação ao futuro. Não se acredita que existe visão, determinação e genica suficiente para mudar o curso dos eventos. O pessimismo rima com determinismo, fatalismo. Sem uma visão clara, acabamos por ter uma perspectiva confusa das soluções possíveis, andamos à nora no que respeita às prioridades que devem ser atacadas antes de tudo, criamos uma imagem negativa de nós próprios. Perdemos, igualmente, o sentido de urgência. Deixa de haver confiança. Sem confiança, cai-se no pessimismo.

É esse pessimismo que é preciso evitar, neste momento de grande crise. A enormidade da crise pede respostas claras, rápidas e um diálogo permanente com os cidadãos. Não se sai de uma crise destas sem se ter conseguido mobilizar a grande maioria dos cidadãos. A compreensão e a adesão são essenciais. Só se conseguem com diálogo e argumentos convincentes, tendo como pano de fundo um calendário de etapas. Argumentos que demonstrem que há espaço para alterar o destino.

 

Uma cimeira animadora

A cimeira da União Europeia correu bem. Foi bem preparada, a todos os níveis. E houve um entendimento claro da gravidade da situação, do enorme impacto, sobretudo nos países mais afectados pela pandemia. Dois ou três líderes tiveram uma influência decisiva no desfecho da reunião de hoje. Um foi certamente o Primeiro-Ministro de Espanha. Muito do que foi aprovado havia sido proposto pelo seu governo. Emmanuel Macron também manteve uma posição firme. A sua linha de argumentação foi clara: queremos uma Europa que é apenas um grande mercado, ou uma Europa política, estrategicamente forte perante outras potências rivais. É a escolha entre uma Europa dos sovinas e uma Europa que protege, um espaço político de valores e ideais.

Não ficou resolvida a questão da natureza das transferências e dos apoios. Serão subvenções ou empréstimos a título perpétuo? Ou uma mistura de ambos? A resposta virá em breve, com base no trabalho que a Comissão Europeia vai fazer. Mas, de qualquer modo, será um esforço comum e solidário.

A grande dúvida diz respeito ao calendário. A crise é enorme e tem um efeito de dominó implacável. Por isso, o fundo de recuperação deverá estar disponível no mais breve espaço de tempo. Dizer que há urgência não chega. Há mais do que isso. Aqui, como na área da covid-19, é preciso muito oxigénio tão rapidamente quanto possível. Ou seja, muitos euros, frescos e sonantes.

Uma parte importante dos cidadãos europeus já sente essa urgência. Estão desempregados, estão em situações precárias, têm os seus negócios parados, estão a acumular dívidas. Precisam de voltar à vida económica. Sem demoras.

O mundo aos dez anos

A minha neta nasceu há dez anos, feitos hoje. Em inícios do ano, quando pensava como me iria organizar para poder estar com ela, no seu dia de aniversário, disse a mim próprio que o mundo havia mudado imenso desde 2010. E mudou, de facto. Foi acima de tudo um período de revolução digital, de aceleramento da globalização e também de tomada de consciência do enorme impacto que temos na deterioração do meio ambiente.

Essas constatações tiveram lugar em Janeiro. Janeiro parece agora ter pertencido a um outro mundo, a um passado em que tudo era diferente. Os últimos dois ou três meses viraram tudo de pantanas. Estamos no meio de uma tormenta inacreditável e imprevisível. Muitos pensam que se trata de uma calamidade passageira, sem negar, no entanto, as suas dimensões plurais e gigantescas. Acreditam que em breve voltaremos à vida que vivíamos quando começou 2020. Outros, imaginam que o mundo depois desta pandemia não será certamente o mesmo. É difícil de saber quem tem razão. Mas é um facto que vamos sair desta calamidade mais pobres, mais fechados sobre nós mesmos e mais confusos sobre o que significa fazer parte da aldeia global. Também teremos perdido uma boa parte da arrogância que havíamos adquirido ao longo dos tempos recentes.

Não falei destas coisas com a minha neta, na celebração audiovisual que ocorreu esta tarde, com cada no seu canto e no ecrã dos outros. Mas apercebi-me que havia passado uma parte do dia com os seus amigos e amigas de escola, também de modo virtual. Organizaram jogos, falaram uns com os outros, mudando constantemente do francês para o inglês e vice versa. Estava um lindo dia de sol, que acrescentou alegria à vivacidade das crianças. Esta é geração dos dez anos em 2020, a crescer num círculo de raízes diversas, com pais vindos de várias partes da Europa e não só. Uma geração que irá certamente viver num mundo que nós, os bem mais velhos, não conseguimos imaginar. Mas, aos dez anos de vida, toda a esperança e optimismo são permitidos. E possíveis, claro. É tudo uma questão de tempo.

Essa foi a lição do dia.

Mudar de modelo, após a crise?

A preocupação dos políticos é a da reconstrução, sem demoras, logo que possível, do modelo económico que estava a funcionar. Restabelecer o emprego, os rendimentos das famílias, criar condições para que as empresas voltem à vida económica, essas parecem ser as linhas inspiradoras de quem tem o poder político. Não falam da mudança de paradigma económico, de um novo modelo social e produtivo. Mas esse debate irá estar em cima de muitas mesas. Arrisca-se, no entanto, a ser uma discussão académica, sem mais. 

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