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Vistas largas

Crescemos quando abrimos horizontes

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Crescemos quando abrimos horizontes

De Nice à Nazaré

Mais um atentado, mais um cenário de horror, mais uma vez a necessidade de repudiar este tipo de crimes, mais um lembrar que as palavras violentas acabam por se traduzir em acções violentas. Nice já tinha conhecido cenas de horror terrorista no passado recente, quando um camião foi utilizado, a 14 de Julho de 2016, para matar 86 pessoas inocentes e ferir mais de 400. Hoje, foi numa igreja, com uma faca, que é o instrumento mais em conta que um jovem terrorista pode obter.

Por outro lado, também hoje, a multidão que foi ver as ondas gigantes à Nazaré me lembrou que a estupidez humana pode tomar várias formas. O terrorismo é a forma extrema. Ir aos magotes e sem máscaras nem distanciamento à Nazaré deve ser visto como uma forma atenuada da cretinice de muitos. O problema é que essa imbecilidade propaga o vírus e o vírus mata.

O governo deveria ter emitido uma nota sobre esses amadores da nova onda.

A crise

Vi e ouvi o discurso que Emmanuel Macron pronunciou este serão, através das televisões nacionais, sobre o agravamento da pandemia da Covid-19. A mensagem foi clara: a ameaça é enorme e continua a crescer. Há, por isso, que encontrar maneira de proceder à sua desaceleração. Foi isso que o levou a tomar toda uma série de medidas, que estarão em vigor até 1 de dezembro. Os custos directos para o estado francês das medidas anunciadas serão de cerca de 20 mil milhões de euros, num mês. A isso haverá que acrescentar os custos que a economia privada irá sofrer. Estamos, assim, a falar de uma crise sanitária que tem um impacto gigantesco sobre a economia. Mas, não há outra solução.

 

Não podemos aceitar que se baixem os braços

O fatalismo não pode ser uma filosofia de governação. Um governo a sério não pode baixar os braços e dizer apenas que as coisas vão estar muito difíceis nos próximos dias e nas semanas que aí vêm. Tem que propor soluções, fazer recomendações, liderar. É verdade que estamos à beira de um agravamento da crise pandémica. Mas há sempre maneira de mitigar as crises, no curto prazo. São essas medidas de aconselhamento, de prevenção e de mitigação que devem constituir o cerne da comunicação governamental. Constatar apenas que os casos irão aumentar e reconhecer que haverá um maior número de óbitos não é resposta. Um governo não se pode dar por vencido.

 

Festejar em tempos de isolamento

O plano, formulado no início do ano, era estar hoje em Omã. Numa espécie de reunião de família, com as filhas e o resto do pessoal. Para marcar a data. Mas um plano é um plano e a covid é uma realidade. Com a pandemia é muito difícil fazer planos. Assim, o dia decorreu com um de cada lado, à distância. No nosso caso, a única diferença é que o almoço teve lugar na sala nobre da casa e não na varanda ou no canto específico da cozinha. Comer na sala foi uma espécie de manguito educado que fizemos à pandemia. Também aí houve uma alteração de planos. Inicialmente, a intenção era a de ir almoçar ao restaurante fino aqui do bairro, junto à água. Venceu a inércia que a pandemia nos traz. Ficámos em casa. Entretanto tinha comprado dois belos linguados para o almoço. O rapaz da peixaria garantiu-me que eram selvagens. Sim, disse selvagens. Pensei que, se assim era, seria uma boa maneira de ter um almoço mais perto da natureza, aquela que nos faz esquecer as pandemias. E linguado grelhado, empurrado pela goela abaixo graças ao champanhe produzido por um nosso conhecido, numa pequena quinta familiar no coração da região de Champagne, e mini pimentos no forno, foi a única companhia que tivemos para o almoço.

O momento e os dias que se seguem

A pandemia está, de novo, a paralisar a Europa. E estamos apenas no início do Outono. O que temos pela frente, nas próximas semanas e nos meses que se seguirão, é a continuação do abrandamento das actividades económicas, com vários sectores fechados ou a funcionar a lume muito ténue, com a saúde pública a ser incapaz de responder aos múltiplos desafios, bem como a um agravamento das crises psicológicas e mentais. Sem esquecer os riscos de crise política. A pandemia acabará por minar a credibilidade de muitos governos. Se eu estivesse no poder, daria uma atenção muito especial a esse risco. Numa situação de grande complexidade, é preciso manter uma liderança clara e saber falar aos cidadãos. Estamos num daqueles momentos em que a comunicação bem feita é essencial.

A tempestade

Dia de tempestade nos mercados financeiros.

Primeiro, por causa dos novos números da pandemia. O Outono ainda não chegou, mas os casos estão a crescer muito rapidamente. Os próximos seis meses vão ser muito problemáticos. O impacto sobre a saúde pública e sobre vários sectores económicos será enorme. O endividamento de muitas famílias e dos estados deverá atingir proporções inéditas e prolongadas. A experiência recente mostrou que os dirigentes políticos não têm uma linha de resposta coerente e coordenada. Assistir-se-á, de novo, a ziguezagues e a medidas que tratam a crise à maneira antiga, levantando as pontes levadiças e trancando as portas de cada nação ou de parte da nação.

Segundo, por causa das práticas de certos grandes bancos globais. Os casos já eram do conhecimento das autoridades financeiras há alguns anos. O consórcio de jornalistas de investigação conseguiu ter acesso aos registos das autoridades e divulgou todo um conjunto de acções ilegais de transferências de capitais de origem duvidosa – vindos da droga, da corrupção na Rússia, na Ucrânia e em vários países menos desenvolvidos. É verdade que essas práticas passaram a ser mais difíceis nos últimos três ou quatro anos. Há mais controlos, internos e externos. Mas aconteceram até então e foram levadas a cabo por instituições bancárias muito conhecidas e de grande peso nos mercados de capitais. Londres foi uma das praças que mais lavou.

O discurso europeu

O Estado da União Europeia, ou seja, o discurso que Ursula von der Leyen proferiu ontem no Parlamento Europeu é longo, mas vale a pena ler. A Presidente da Comissão Europeia fez uma análise positiva e progressista das várias questões que afectam a União Europeia e apresentou um programa de trabalho que deverá contribuir para o aprofundamento da agenda comum. As referências à economia digital e tecnológica, ao pacto verde, à soberania industrial da Europa, à cooperação em matéria de saúde pública, aos rendimentos mínimos, ao futuro dos Balcãs como parte do espaço europeu, à imigração, etc, bem como as observações sobre a Rússia, a China e os Estados Unidos são no essencial correctas. O problema estará na sua implementação. Primeiro, vários destes temas têm estado em cima da mesa há muito tempo, sem que haja acordo. Segundo, apesar da clara referência que faz aos valores europeus, a verdade é que estes valores não são entendidos da mesma maneira pelos diversos líderes europeus. Entre outros, Viktor Orbán poderá explicar-nos as razões de tais diferenças. Terceiro, ainda não saímos da crise provocada pela pandemia. O discurso deveria reconhecer esse facto e sugerir algumas medidas que tratassem da urgência que temos em frente de nós. Deveria, pelo menos, apelar a uma maior coordenação entre os Estados membros, para que se evitasse o que tem acontecido até agora, em que cada um decide à sua maneira, sem consultar o resto dos membros nem mesmo os vizinhos do lado. Quarto, Von der Leyen não menciona os perigos que existem no que respeita à continuação do projecto europeu. Ora, esses perigos são hoje mais reais do que nunca. Precisam que se fale deles com realismo. Creio que está aí o ponto mais fraco da sua intervenção. Não reconhecer que existem linhas de fractura muito fortes é um erro grave.

A responsabilidade cívica

As medidas de contingência anunciadas ontem pelo governo têm como fundamento uma previsão do agravamento do estado da pandemia. Creio que convém ser claro sobre essa tendência. Como também me parece importante que se continue a apelar para o sentido cívico dos cidadãos. Várias das medidas serão difíceis de executar se não houver boa vontade cidadã. Creio ser fundamental sublinhar essa dimensão, pedir que cada um de nós assuma um comportamento responsável. Essa deve ser, também, a mensagem que o governo precisa de manter actual.

O turista de cabelos brancos

Durante a caminhada desta manhã, que faz parte da minha rotina, vi pela primeira vez este verão dois ou três pequenos grupos de turistas do tipo “reformados”. Até agora, o pouco que se via era gente jovem ou relativamente nova. Os da chamada terceira idade não apareciam. Medo do vírus? Provavelmente. Mas hoje apareceram. Veremos se isso volta a acontecer nos próximos dias. Como me disse o meu amigo proprietário de um restaurante que se situa perto dos “pastéis”, essa categoria de turistas tem mais massa do que os jovens. Talvez. Mas a verdade é que as indicações que tenho, de outras partes da Europa, é que todos estão muito agarrados à carteira. O consumo não é o que era. E os mais velhos têm, muitas vezes, que ajudar financeiramente os mais novos. E vem aí o inverno, os invernos, diria, que as nuvens parecem ser muitas, grossas e de vários tipos.  

 

Tempos de pânico

Hoje, a pandemia deixou-me novamente em pânico. Já havia acontecido o mesmo na semana passada. Estava numa das esplanadas do Centro Comercial dos Olivais, bem no coração do edifício mas ao ar livre, a tomar um café com um jornalista sénior de uma das rádios nacionais. Havia um vento forte. E quando me preparava para me ir embora, através dos corredores do Centro, descobri que a minha máscara tinha voado com o vento, para parte desconhecida. Fiquei fora de jogo, sem saber como sair dali. Senti-me completamente desestabilizado. Depois de muito reflectir, o jornalista amigo descobriu na sua mochila uma máscara nova. Eu sempre achei que as mochilas dos jornalistas são uma caixa de surpresas. Estava safo.

O pânico de hoje foi semelhante. Saí do carro, entreguei as chaves a quem entrava em casa e fui a pé ao supermercado do quarteirão. Comprei duas ou três urgências e dirigi-me para a fila da caixa. A fila estava demorada, a ficar cada vez mais longa, com gente à frente e atrás de mim. De repente, notei que não tinha trazido máscara. Que andara por ali, a descoberto. Entrei em parafuso, com a sensação de estar nu. A jovem da caixa iria reagir e chamar o segurança, o mesmo segurança que estava a brincar com o telefone quando eu entrei na loja. Só tinha uma solução. Deixar as compras no lugar e ir à procura da prateleira das máscaras. Descobri uma difícil de colocar, com uns atilhos complicados. Mas serviu. Lá fui para a caixa, com a máscara metade atada. Expliquei à empregada que era uma compra que tinha que ser incluída na conta. Ela olhou para mim, com um ar estranho e disse-me, tenha calma e acabe de colocar a máscara como deve ser.

Isto das máscaras dá-nos a volta à cabeça.

 

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