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Vistas largas

Crescemos quando abrimos horizontes

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Liderança política

Numa sociedade que vive à volta da televisão, quem aparece no ecrã personifica o partido. Para o bem e para o mal. Os cidadãos telespectadores julgam o partido a partir da imagem e da narrativa que é transmitida pelos programas televisivos. Não há que ter ilusões sobre isso. Daí que a responsabilidade do líder seja imensa.

Por outro lado, o líder tem um poder de decisão enorme dentro do seu partido. Por exemplo, a palavra final sobre as listas de candidatos cabe ao chefe máximo.

Por tudo isto, a sua responsabilidade, em caso de derrota, é enorme. Como também o é, em caso de vitória.

 

Demissão, o passo natural que quem perde deve dar

É prática habitual, nas democracias, que um líder partidário peça a demissão, após uma derrota pesada numa eleição. Uma derrota a sério descredibiliza politicamente quem esteve à frente da campanha. Tentar justificar o fracasso com a maneira como os adversários conduziram a sua estratégia é uma desculpa de mau pagador.

Trata-se de assumir a responsabilidade, que é isso que se espera de um dirigente democrático. Não é algo que deva ser pedido de fora, do exterior do partido. Mas também não deveria ser necessário chegar-se a uma situação em que a queda é imposta a partir de dentro. Deveria, isso sim, ser uma decisão imediata e livre do líder. Assim se percebe quem tem estofo de líder, quem compreende o que significa ser responsável e ter espírito democrático.

Véspera

O bom do dia anterior às eleições é não haver propaganda. É uma espécie de dia de repouso e ainda bem. De reflexão não será. Num acto eleitoral como o presente, poucos serão os eleitores que ainda precisam de reflectir. A decisão está tomada há bastante tempo. As campanhas pouca influência têm sobre essa decisão. A única decisão que resta, para alguns, é sobre a participação na votação ou a abstenção. À vista dos números das infecções, e dos confinamentos, é provável que a abstenção prejudique sobretudo os partidos moderados. Veremos.

Votar na mediocridade existente

A imagem que fica, depois de tantos dias de campanha, incluindo a pré-campanha, é de que os políticos que por aí aparecem não têm o nível necessário para dirigir um país como o nosso, que precisa de levar uma grande volta. É a campanha dos medíocres que irão fazer mais do mesmo. Votar torna-se, assim, um mero descargo de consciência e não um acto de escolha. Vota-se, qualquer seja a escolha, ao nível dos grandes, em mais do mesmo.

Combater a boçalidade na política partidária

A directora do Jornal de Notícias (JN) escreve hoje sobre “a boçalidade no espaço público”. Vale a pena ler esse texto. Deixo o link no final deste post.

Inês Cardoso baseia a sua escrita no que aconteceu em Beja com a líder do PAN, que foi insultada por um grupo de primários ligados à tauromaquia, bem como na expressão “nazizinho”. Esta última foi utilizada num pequeno encontro, aberto à comunicação social, de personalidades públicas com o líder do Partido Socialista, sem que este tivesse reagido, de imediato, para dizer que insultos desse tipo não são aceitáveis na luta política em Portugal, muito especialmente quando o visado é o dirigente do segundo maior partido.

Uma reacção clara e imediata de António Costa teria contribuído bastante para tornar a política portuguesa menos boçal. Serviria igualmente para enviar um recado a personalidades públicas que não vale tudo em política, nem mesmo durante as campanhas eleitorais. O combate à radicalização da palavra tem de começar pelos dirigentes políticos, sobretudo por aqueles que são mais ouvidos e mais representativos da sociedade portuguesa.

https://www.jn.pt/opiniao/ines-cardoso/a-bocalidade-no-espaco-publico-14518117.html

 

 

 

 

Os políticos que temos

Hoje voltei a sublinhar que um país como o nosso, relativamente pobre e ricamente burocrático, precisa de uma governação estável e suficientemente representativa da maioria dos portugueses.

A solução mais adequada para a reforma e a modernização que são precisas deveria passar por um entendimento político entre o PS e PSD. Juntos representam à volta de 70% do eleitorado. O problema é que não se vê como conseguir tal entendimento. Isso não significaria necessariamente que deveriam governar em coligação. Mas significaria que deveriam estar de acordo no que respeita às grandes questões respeitantes à reforma do Estado, ao funcionamento da justiça, à desburocratização, à repartição das competências entre o poder central e o local, à facilitação das actividades económicas, à fiscalidade, bem como nas áreas sociais determinantes para a saúde e o bem-estar dos cidadãos.

É verdade que a Constituição exige apenas uma maioria parlamentar, metade mais um. Mas isso não é suficiente, face às medidas estruturais que são necessárias e que o nosso subdesenvolvimento relativo exige.

O problema é simples: os líderes políticos não querem ouvir falar de um acordo de regime. Um acordo baseado em equilíbrios e em medidas concretas, um pouco como o que foi negociado recentemente na Alemanha. Ou nos Países-Baixos. Falta-nos quem tenha a coragem política que uma tal proposição exigiria. Também carecemos de pragmatismo. A ideologia, tantas vezes oca, prima, num país que precisa de medidas concretas para avançar. É mais fácil dizer-se que se é da esquerda ou da direita do que pôr em cima da mesa propostas concretas e procurar, em seguida, construir as plataformas de acção necessárias.

Temos, assim, acima de luta, um problema de liderança. Não há quem tenha a coragem de sair da armadilha ideológica. Os dirigentes dos partidos, nos debates, falam de esquerda e de direita como se essas caracterizações vagas fossem a solução para os nossos problemas. São, na realidade, meras bandeiras que, desfraldadas, escondem a pobreza intelectual dos políticos que temos.

 

Os encontros políticos

Os chamados debates políticos não debatem nada. Cada um faz a sua propaganda e procura lançar umas farpas à pessoa que está sentada à sua frente. Também há pouco esclarecimento. Na verdade, para a maioria dos intervenientes é um mau exercício de caça ao voto, feito sem estratégia nem respeito pela inteligência dos eleitores. Sem ter em conta os potenciais movimentos do eleitorado, as flutuações, que numa situação de crise como a actual, são de esperar. Falta a profundidade, a imagem de seriedade e a atitude de abertura em relação aos outros, que a política deve ser feita de alianças e de consensos alargados.

Eu li a opinião do Presidente

O Presidente da República escreveu hoje um texto de opinião a que chamou “um ano de transição”. 

Uma leitura atenta do texto deixa-nos a questão que o título levanta: estamos em transição para onde? Que quer dizer um ano de transição?  A resposta não é clara. 

Eu diria que foi sobretudo um ano de expectativas goradas. Em Portugal, na Europa e no mundo. 

Em Portugal, porque se esperava ser possível lançar o plano de resiliência e de recuperação, e isso não aconteceu. Também, porque se queria estabilidade política, num período de grandes desafios económicos e sociais, e isso não aconteceu. Antes pelo contrário. Foi um ano de instabilidade governativa, em virtude das tensões que surgiram entre o partido no governo e os partidos seus apoiantes na Assembleia da República. E de instabilidade no seio de certos partidos.

Na Europa, ficaram por resolver as questões do estado direito em alguns países membros, bem como os problemas da imigração e da insegurança energética. A Europa continua a falar de soberania, sem que se perceba bem o que significa soberania na época digital e num espaço geopolítico fragmentado entre 27 nações. 

 Ao nível internacional, as rivalidades entre as grandes potências entraram uma fase mais complexa de confrontação. E no que respeita à pandemia, a autoridade da OMS não saiu reforçada nem a questão da desigualdade vacinal foi resolvida. Não houve transição. Houve, isso sim, egoísmo nacional a mais. 

Na realidade, o texto presidencial é apenas uma fotografia vaga, um exercício de palavras que não ousa aprofundar as questões que levanta. 

O único ponto que considero particularmente relevante diz respeito à transição para a pobreza durante o ano de 2021 de várias secções da nossa população. O presidente fala dos mais vulneráveis, mas não inclui na lista as famílias mono-parentais nem os jovens diplomados pelas universidades e que não conseguem sair de casa dos pais porque o seu diploma de mestrado é remunerado ao nível do salário mínimo. Ou seja, temos toda uma geração de jovens universitários, qualificados, mas incapazes de ganhar a independência económica que a vida adulta requer.

Finalmente, acho importante que o presidente faça uma referência especial à questão da saúde mental. Essa é certamente uma área que não tem recebido atenção e os recursos financeiros que seriam necessários. Mas também é preciso falar do Serviço Nacional de Saúde, das imensas dificuldades que enfrenta, do negócio que é a saúde privada, e que não deveria ser, e do esforço extraordinário que muitos profissionais de saúde, a laborar no SNS, têm demonstrado ao longo deste e do ano passado.

A caminho das eleições

Ainda é cedo para comentar a actuação dos dirigentes partidários no seu caminhar para 30 de Janeiro. Neste momento, estamos na fase do fecho das listas de candidatos. Cada dirigente gere a coisa como muito bem entende. É tudo uma questão de equilíbrios internos, em cada partido. Tem muito pouco a ver com a visibilidade ou a qualidade dos candidatos, embora em vários casos as listas estejam cheias de gente que tem algum peso local ou nas autarquias.

A verdade é que as campanhas são feitas pelos chefes e poucos outros. Será o que esses vierem a dizer que contará e trará votos.

Estas eleições são importantes. Todas as eleições são importantes, na realidade. Mas estas acontecem num período que se segue à grande crise pandémica. Vão ter os dinheiros europeus – muitos milhares de milhões – para gastar. Por isso, são particularmente importantes.

Deveriam ser uma oportunidade para mostrar que se pode modernizar o país, desburocratizar a administração pública e tornar a vida dos cidadãos mais segura e mais fácil. Esses são os grandes desafios. As intervenções políticas deveriam concentrar-se nessas coisas.

 

A democracia pede mais substância

A Cimeira da Democracia, convocada pelo Presidente Joe Biden, teve hoje o seu primeiro dia. É cedo para tirar conclusões. Mas vendo o exemplo português – uma intervenção gravada, por isso sem corresponder a qualquer debate – posso desde já concluir que muitas das participações não serão mais do que meras declarações genéricas, a conversa do costume sobre as vantagens da democracia. Ainda no caso português, não há uma análise séria sobre o que poderá significar reforçar a democracia, sobre a crise da representatividade que mina a credibilidade dos partidos, nem sobre o que se deve entender por “reforma da democracia”. A comunicação é um mero exercício formal, desempenhado pelo Presidente da República. Vindo donde vinha, poderia ter tido mais substância.

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